Ouro sagrado, uma exposição de artefatos pré-columbianos

7 06 2011

O Museu de Belas Artes de Bilbao, na Espanha, abriu esta semana uma exposição muito interessante.  Se você estiver com intenção de viajar pela Espanha até o dia 2 de setembro de 2011, não deve perder a oportunidade de visitar esta mostra.  Sob o título Ouro sagrado, arte pré-histórica da Colômbia, o museu mostra 253 peças – a maior parte delas de ouro –  mas há também peças de cerâmica e arte cedidas para este evento pelo Museu do Ouro do Banco da República, de Bogotá, cobrindo 2.000 anos de culturas pré-hispânicas.

O ouro, que sempre esteve associado ao sol, era simbólico de poder nessas culturas que o exploraram antes da chegada dos espanhóis.  De fato, nas Américas, a metalurgia nasceu no Peru há 3.500, e sua exploração, artesania e simbologia já estavam desenvolvidas na Colômbia desde 4 séculos antes de Cristo.  Através dos séculos até a chegada dos espanhóis, diferentes estilos e técnicas de artesania do ouro se desenvolveram entre os povos que ocupavam o território que hoje compreende a Colômbia.

Os conquistadores,  que desceram nas Américas em busca de ouro e glória,  mataram ou converteram  as populações indígenas.  Tomaram as peças de ouro dos habitantes locais.  Poucas peças se salvaram coma chegada dos espanhóis que prontamente derreteram o ouro e a prata encontrados para levar de volta à Espanha.  O  Museu de Ouro do Banco da República de Bogotá tem o maior acervo das peças de ouro de origem indígena do mundo e abrange aproximadamente 2.500 anos.  Para a exposição de Bilbao foram selecionadas pulseiras, colares, coroas e couraças, máscaras, figuras votivas, além de esculturas antropomórficas.

Fontes:  Museu de Bilbao, Arqueologia





Relógios, poeminha de Sílvio Ribeiro de Castro

6 06 2011

O Relojoeiro, de Norman Rockwell, capa da revista The Saturday Evening Post, 3/11/1945.

Relógios

Sílvio Ribeiro de Castro

amor vem e não se espera

saudade não manda aviso

a morte não marca encontro

de relógios não preciso

Em: Branco silêncio, solidão azul, na coletânea: Poesia Simplesmente, Rio de Janeiro, 1999.

Sílvio Ribeiro de Castro ( RJ, século XX) Advogado e poeta.  Integra o grupo Poesia Simplesmente.

Obras:

Memórias, confissões e outras mentiras, 2002

Quando o amor acaba, 2005

50 poemas escolhidos pelo autor, 2010






História Pátria, poema de Oswald de Andrade

2 06 2011

Marinha, 1986

José Paulo Moreira da Fonseca (Brasil, 1922-2004)

óleo sobre tela, 20 x 60 cm

História Pátria

………..Oswald de Andrade

Lá vai uma barquinha carregada de

……………………………………Aventureiros

Lá vai uma barquinha carregada de

……………………………………Bacharéis

Lá vai uma barquinha carregada de

……………………………………Cruzes de Cristo

Lá vai uma barquinha carregada de

……………………………………Donatários

Lá vai uma barquinha carregada de

…………………………………….Espanhóis

…………………………………….Paga prenda

…………………………………….Prenda os espanhóis.

Lá vai uma barquinha carregada de

…………………………………….Flibusteiros

Lá vai uma barquinha carregada de

……………………………………Governadores

Lá vai uma barquinha carregada de

……………………………………Holandeses

Lá vai uma barquinha cheinha de índios

Outra de degredados

Outra de pau de tinta

……….Até que o mar inteiro

……….Se coalhou de transatlânticos

……….E as barquinhas ficaram

……….Jogando prenda com raça misturada

……….No litoral azul do meu Brasil.

Retrato de Oswald de Andrade, 1922

Tarsila do Amaral ( Brasil 1886-1973)

óleo sobre tela

 

 

José Oswald de Sousa de Andrade Nogueira (São Paulo,1890 — São Paulo, 1954) foi um escritor, ensaísta e dramaturgo brasileiro.  Foi um dos promotores da Semana de Arte Moderna de 1922 em São Paulo, tornando-se um dos grandes nomes do modernismo literário brasileiro.

Obras:

Os Condenados (trilogia), romance, 1922-1934

Memórias Sentimentais de João Miramar, romance, 1924

Pau-Brasil, poesia, 1925

Primeiro Caderno do Aluno de Poesia Oswald de Andrade,poesia, 1927

Serafim Ponte Grande, romance, 1933

O Homem e o Cavalo, teatro, 1934

A Morta, teatro, 1937

Rei da Vela, teatro, 1937

 Marco Zero à Revolução Melancólica, romance, 1943

 Cântico dos Cânticos para Flauta e Violão, poesia, 1945

 O Escaravelho de Ouro, poesia, 1945

 O Cavalo Azul, poesia,1947

Manhã, poesia, 1947





Imagem de leitura — Zélio Andrezzo

30 05 2011

Leitura Matinal, s/d

Zélio Andrezzo ( Brasil, 1948)

óleo sobre tela,  80 x 60 cm

Zélio Andrezzo nasceu em Florianópolis em 1948.  Mudou-se para São Paulo em 1964.   Pintor e desenhista, estudou na Associação Paulista de Belas Artes.   Andrezzo dedicou-se inicialmente à retratação e figuração humana, tendo frequentado diversos cursos com pintores italianos.  Retratista, pintor figurativo que também se dedicado à pintura de gênero.





Rafael Falco, pintor brasileiro. Alguém tem mais informações?

30 05 2011

A morte de Fernão Dias Paes Leme, década de 40

Rafael Falco (Oran, 1885- São Paulo 1967)

Óleo sobre tela

Salão Nobre do Café Seleto, São Paulo *

* — Tudo indica que o Café Seleto foi vendido no final da década de 1970 à companhia de alimentos Sarah Lee.  Resta saber se a pintura continua lá.

Finalmente, depois de quase 3 anos de blog, tenho a oportunidade de ver que um pouquinho da minha garimpagem sobre arte brasileira pode chegar a dar frutos interessantes.  No dia 8 de março de 2009, coloquei uma tela de Rafael Falco, A morte de Fernão Dias Paes Leme, ilustrando o poema de  Afonso Louzada, Fernão Dias Paes Leme.  Como sempre tento ilustrar textos brasileiros com imagens de quadros brasileiros, que se adéquem.  Minha teoria é que se temos diversas informações sobre um momento, um evento ou uma figura histórica, como um bandeirante neste caso, se torna mais fácil para qualquer um de nós memorizar o que  lemos.  Um poema ou um quadro sobre um assunto semelhante pode fazer uma conexão na nossa memória que nos ajudará a lembrar da ocasião ou das informações.  Isso funciona porque alguns de nós têm facilidade para a memória visual, enquanto outros conseguem se lembrar de rimas ou de textos.  Tenho a impressão de que estou certa a este respeito ou as minhas postagens não estariam sendo conectadas a variados blogs e portais de auxílio ao vestibulando.  Isso me dá dupla responsabilidade.

Mas, recentemente fui contatada por familiares – 3ª e 4ª gerações de Rafael Falco  – interessados em informações sobre esse antepassado.  Isso me deu imenso – deixe-me reiterar – IMENSO prazer.  Porque se há coisa de que precisamos no nosso país é de pessoas interessadas, que se proponham a resgatar a história de um artista, de um poeta, às vezes esquecido pelas políticas e preconceitos de época, por ciúmes e inveja de seus contemporâneos, pelo descaso de intelectuais e também pela grande dificuldade de se fazer qualquer pesquisa no Brasil.  Isso faz com que informações sejam descartadas ou nunca usadas.   Como expliquei para esses leitores, eu mesma tenho na família um primo, que é neto de um conhecido escultor brasileiro.  Um escultor figurativo, realista.  Suas obras encontram-se nos parques públicos no Rio de Janeiro, em cidades vizinhas e até mesmo em parques no exterior.  No entanto, pouco se sabe a respeito do escultor e hoje a família, simplesmente para ter uma idéia de quem era esse antepassado, vira e mexe faz um passeio com a intenção de fotografar, colher dados e arrematar informações antes que elas se percam de vez.  E, agora, com a facilidade de se postar um apanhado de informações na internet, fica mais fácil pensar em distribuição de informações.  É importante ir despejando o que se sabe, porque não sabemos que o que às vezes corriqueiro para nós pode ser de maior valia para o nosso vizinho.

Tiradentes ante o carrasco, 1941

Rafael Falco (Oran, 1885- São Paulo 1967)

óleo sobre tela,  70 x 55 cm

Museu da Câmara dos Deputados, Brasília

Assim sendo, volto as minhas atenções ao pintor Rafael Falco.  Eu ia dar essas informações às suas netas, bisnetas e tataranetas respondendo aos comentários delas, mas resolvi fazer a postagem.  E ir mostrando a quem quer que seja como ir aprofundando as pesquisas.

Comecemos com suas datas.  As informações que tenho, são de Júlio Louzada, — um grande colhedor de informações sobre arte brasileira.  Sim, tudo indica que Rafael Falco nasceu em Oran, na Argélia, em 1885.

1)      Nessa época a Argélia era um estado da França. E Oran era uma cidade extremamente cosmopolita com europeus de quase todas as nações vivendo lá, era uma grande resort também.  Então, Rafael Falco, nascido em Oran, era originalmente cidadão francês.  Mas as leis de direito de cidadania são diferentes em cada país, vale a pena verificar se ele era francês mesmo ou se só nasceu em Oran,  filho de estrangeiros., nem sempre o direito à cidadania se aplica nesses casos.   Pelo nome seus pais poderiam ser espanhóis ou italianos.  Nessa época, final do século XIX, Oran era a capital do estado de Oran.  Era um departement – estado — francês e por isso mesmo é possível que haja documentação na França.  Lembrem-se de que a Argélia não era uma colônia francesa, muito pelo contrário, era considerada território francês, dividida em 3 estados todos considerados parte da França.  E só ficou independente na guerra da independência — chamada pelos franceses de guerra civil, já que era uma parte da França se separando da outra.  Essa guerra  levou muitos anos, desde meados da década de 1950 à década de 1960.  Essas informações do final do século XIX devem existir na França.  Uma excelente desculpa para os familiares irem à França ou até aprenderem francês.

2)      Como Rafael Falco já se encontrava ensinando desenho no Brasil, nas primeiras décadas do século XX, é provável que tenha chegado ao Brasil ainda criança, adolescente talvez, mas menor de idade.

3)      Dados dos serviços de imigração devem poder precisar a data de chegada de Rafael Falco ao Brasil.  Deve ter chegado com seus pais.  E como toda sua vida parece ter sido levada na região do ABC paulista, é provável que seus pais tenham entrado no Brasil pelo porto de Santos.  Há listagem dos navios chegados ao Brasil.  Há também muitos portais que ajudam a dar início a essa pesquisa, Genweb-genealogia brasileira é um de muitos.  Depois da internet, a pesquisa precisa ser feita em pessoa.  Mas vale a pena começar pela internet. A busca deve ser feita entre 1885-1900.  Lembrem-se de checar todas as possíveis formas de se escrever os nomes dos pesquisados.

Cédula de CR$ 5.000 cruzeiros-novos  cujo verso exibe gravura baseada no quadro de Rafael Falco, Tiradentes ante seu carrasco, que entrou em circulação em 1974.

O próximo dado certo que temos é que ele viveu por muitos anos, talvez a vida toda em São Carlos, no estado de São Paulo.  Sabemos também que ele ensinou desenho e caligrafia na Escola Normal de São Carlos, onde chegou a publicar um artigo na revista Excelsior: O desenho nas classes primárias. A revista Excelsior era uma publicação da Escola Normal de São Carlos que tratava de manter a memória da escola.  Não tenho certeza,  mas parece que ele foi professor nessa escola desde meados da década de 1910.  Há também a fotografia de uma ilustração dele na revista Excelsior que pode ser checada no link abaixo da dissertação A configuração do habitus professoral para o aluno-mestre: A Escola Normal de São Carlos (1911-1923) de Emerson Correia da Silva  — vá para a página 69.

Gravura feita por Rafael Falco ilustrando um poema de Longfellow.

Lá também Rafael Falco era membro do Centro Espírita de São Carlos e foi nessa cidade que ele ensinou pintura, entre 1918-1923, ao artista plástico Francisco Cimino, na Escola Normal de São Carlos. [Itaú Cultural]

Quanto à sua vida como pintor, coloco aqui o verbete encontrado no Dicionário de Artes Plásticas no Brasil, de Roberto Pontual [Civilização Brasileira:1969]

 –

Rafael Falco  (? – São Paulo ?)  Pintor.  Participando desde os primeiros SPBA [Salão Paulista de Belas Artes], neles recebeu medalha de bronze (1939), pequena e grande medalha prata (1940, 1941) , e os prêmios Prefeitura de São Paulo (1951 e 1965) e Assembléia Legislativa (1960).  Entre seus trabalhos mais importantes está o quadro Tiradentes ante o carrasco, que se encontra no palácio do Congresso Nacional, em Brasília.  As notas de cinco cruzeiros novos trazem no reverso idêntico tema por ele pintado.   Teodoro Braga reuniu referências bibliográficas a seu respeito em Artistas Pintores no Brasil (1942), tendo a coleção de fascículos  Grandes Personagens da Nossa História ( de publicação iniciada em São Paulo, no ano de 1969) reproduzido trabalhos de sua autoria, inclusive o citado Tiradentes ante o carrasco e A morte de Fernão Dias

Os Pioneiros

Rafael Falco ( Oran, 1885- São Paulo 1967)

óleo

Coleção Dulce Moura de Albuquerque

No texto acima, Roberto Pontual afirma que Teodoro Braga, no livro Artistas Pintores no Brasil (1942) tem dados bibliográficos sobre o pintor.  Eu não tenho em mãos este volume, mas acredito que ele exista tanto na Biblioteca Nacional aqui no Rio de Janeiro como na Biblioteca Municipal de São Paulo.  É só uma questão de procurar.  Não está online.

Outros arquivos que devem conter informações sobre o pintor são os do Salão Paulista de Belas Artes [SPBA].  No ano passado, houve uma exposição em São Paulo,Um Percurso, Uma História – O Salão Paulista de Belas Artes, no Palácio dos Bandeirantes, que reuniu 66 obras de pintores que participaram desses salões, entre 1934 e 2003.  O SPBA já não existe mais.  Mas seus documentos devem ter achado abrigo no Arquivo Histórico de São Paulo.  A curadoria dessa exposição foi de  Ana Cristina Carvalho, do Acervo dos Palácios do Governo paulista.  É possível que ela possa dar maiores informações sobre a localização desses documentos.  Talvez seja bom lembrar que a maioria dos museus não mostra o seu acervo total para o público, francamente não há espaço.  Deste modo será interessante para os familiares, ou qualquer outra pessoa interessada em descobrir mais sobre o pintor, que obtenham — e demora muito tempo — informações sobre suas obras que possam estar nos armários dos porões de museus.

Outra possibilidade de informações está evidentemente relacionada não só ao quadro na Câmara dos Deputados em Brasília, mas também ao contrato para o uso da imagem de Tiradentes ante o carrasco pela Casa da Moeda do Brasil.   Cada um desses documentos certamente contribuirá para o enriquecimento do conhecimento do pintor.

Rafael Falco foi mais importante como pintor do que  a falta de informações sobre sua vida parece dizer.  Foi contemporâneo e colega de muitos dos grandes artistas plásticos do Brasil das primeiras décadas do século passado.  Há uma pequena passagem no livro de Rubem Santos Leão Aquino, Sociedade Brasileira: uma história através dos movimentos sociais: da crise do escravismo ao apogeu do neo-liberalismo, Editora Record: 2002, pág. 433 que cito abaixo que nos dá a idéia da variedade de conhecimentos que este pintor tinha:

“A pintura na década de 1930 consolidou tendências e concepções iniciadas com a Semana da Arte Moderna, de 1922.

Exposições salões e clubes reuniram artistas progressistas, muitas vezes expressando forte crítica social, com imagens de subúrbios e bairros operários, figuras de trabalhadores.

O paulista Cândido Torquato Portinari tornou-se conhecido por pinturas murais, de grandes proporções e executadas por encomendas governamentais.  Ganhou notoriedade desde 1935 quando sua tela Café foi premiada nos Estados Unidos.

Em 1936, o governo encomendou-lhe os murais do Monumento Rodoviário, na Estrada Rio-São Paulo, seguindo-se a portentosa decoração do prédio do Ministério da Educação – a chamada Evolução Econômica do Brasil.

. . . . . . . . . . . . . . . . .

Seguiram-se outras obras-primas, muitas vezes decorando e valorizando edifícios público se enriquecendo o patrimônio artístico nacional.

Além de Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Alberto da Veiga Guignard, Antônio Parreiras e do judeu-russo Lasar Segall, que já pontificavam desde a década de 1920, juntaram-se Ismael Néry, Iberê Camargo, Cícero Dias, Regina Veiga, Rafael Falco, Alfredo Volpi, Lula Cardoso Ayres, Lucy Citti Ferreira, Djanira e José Pancetti, ex-marinheiro e famoso por suas marinhas. ”

Assim chego ao final dos meus conhecimentos.  Gostaria de receber da família qualquer outra informação que eu não tenha colocado aqui.  E certamente gostaria de ter uma foto do pintor.  Como ele morreu em 1967 deve haver alguma foto dele, já que a fotografia era comum a todos.  Agradeço aos descendentes de Rafael Falco a oportunidade que me deram de expandir o conhecimento sobre mais um pequeno aspecto da arte brasileira e faço votos — e por favor me mantenham informada — de que suas pesquisas tragam muitos frutos e boas surpresas.

——–

NOTA: O nome do pintor pode aparecer como Rafael Falco, Raphael Falco ou Raphael Gaspar Falco.  Para quem quiser aprofundar a pesquisa essas três variações precisam ser testadas.  Como todos os documentos de época também eram na sua maioria escritos à mão há que decifrá-los.  Também a possibilidade de erros na transcrição de um documento para outro pode gerar diferenças em como se escreve um nome ou sobrenome.





Biblioteca no metrô, um programa de sucesso

27 05 2011

Compatimento C, trem 293, 1938

Edward Hopper ( EUA,1882-1967)

óleo sobre tela,  50 x 45

IBM Corporation, Armonk, Nova York

Ler em público, no metrô, na sala de espera, na fila do banco ainda é um comportamento mais raro no Rio de Janeiro do que na maioria das cidades americanas, inglesas e de muitos países da Europa continental. É interessante notar, no entanto, que cada vez mais vemos pessoas lendo em lugares públicos, bem mais do que se via algum tempo atrás quando comecei uma brincadeira de fotografar pessoas lendo em público.  Quem está familiarizado com este blog sabe que no seu primeiro ano de existência – 2008 – ainda postei muitas fotos que eu mesma tirei de pessoas lendo em lugares públicos.  Acho que uma alavanca para essa leitura em lugar público deva-se em parte ao sucesso dos projetos de bibliotecas públicas localizadas nos metrôs das grandes cidades brasileiras.

No metrô do Rio de Janeiro a Biblioteca Livros & Trilhos já funciona há mais de 4 anos, e está localizada na estação do metrô da Central.  O projeto é fruto de uma parceria de três elementosMetrô Rio, Instituto Brasil Leitor e da iniciativa privada.  No final de 2010 esta biblioteca contava com 8.000 sócios e próximo de 80.000 empréstimos.

Aconchego, 1976

Beryl Cook ( Inglaterra, 1926 – 2008)

Óleo sobre madeira e colagem de jornal

www.berylcook.org

A Biblioteca Livros e Trilhos foi inspirada pelas Bibliotecas Embarque na Leitura do metrô paulista, que hoje conta com 5 bibliotecas nas estações Santa Cecília, Luz, Tatuapé, Paraíso e Brás (CPTM) que também são fruto do Instituto Brasil Leitor.

O sucesso dessas bibliotecas é muito claro quando se contabiliza o número de sócios e  o número de empréstimos, mas o exemplo mais concreto desse sucesso pode ser visto no menino Lucas Reis de Lima Silva, 9 anos, morador de Osasco, região metropolitana de São Paulo.   Esse menino, que adora nadar e fazer educação física durante as tardes, depois da escola, ganhou no mês passado, o título de campeão das Bibliotecas Embarque na Leitura, de São Paulo.  Entre o público de sua faixa etária, Lucas foi o que mais tomou livros emprestados: 190 livros em 2 anos.

Lucas pega livros emprestado na biblioteca do Metrô instalada na Estação Santa Cecília, Foto: Tiago Queiroz/AE

Lucas, que passa pela estação Santa Cecília todos os dias com a mãe, foi quem pediu  para que ambos se tornassem sócios da biblioteca.   D. Valéria, sua mãe, é uma grande incentivadora da leitura. Ambos logo se acostumaram a retirar livros na estação, mas quando se trata de volume de leitura, Lucas passa sua mãe, que em média tira 2 livros por mês para ler.  Ele mesmo admite que a leitura tem o ajudado bastante na escola.  “Quando tem ditado na escola, aparecem palavras que já li nos livros e acerto tudo.”

É maravilhoso ver que um jornal do porte do O Estado de São Paulo tenha dedicado seu espaço para a divulgação de tão boas novas, no mês passado.  Depois algumas semanas conturbadas com notícias sobre cartilhas escolares distribuídas pelo governo repletas de erros gramaticais; depois das reportagens na televisão sobre a precariedade de grande parte das escolas brasileiras, é bom voltarmos atrás só uns poucos dias, para nos lembrarmos que ainda há esperança…  de que ainda há crianças que lêem e pais que se preocupam com a educação de seus filhos… que nem tudo parece estar à beira do abismo.

FONTE; Estadão On Line





A omeleta, poesia infantil de Maria de Lourdes Figueiredo

26 05 2011

A omeleta

Maria de Lourdes Figueiredo

Vou fazer uma omeleta

pra botar dentro do pão,

e, para isto, é preciso

que eu preste toda atenção.

Primeiro bater os ovos;

depois, fritar no fogão.

Virá-la, então, com cuidado…

Escapuliu!  Foi ao chão!…

Em: O mundo das crianças: poemas e rimas, vol 1,  Rio de Janeiro, Delta: 1975, p. 110





Leitura infantil: Lenda da noite

25 05 2011

Noite, ilustração de Anton Pieck (Holanda, 1895-1987).

Lenda da noite

                                              Theobaldo Miranda Santos

A filha da Cobra Grande casou-se e disse ao marido:

— Meu esposo, tenho muita vontado de ver a noite.

Minha mulher, só existe o dia, respondeu-lhe o marido.

— A noite existe sim!  Meu pai guarda-a no fundo das águas.  Mande seus criados buscá-la, suplicou a moça.

Os criados partiram ligeiros em busca da noite.  E transmitiram ao pai o pedido da filha.  A Cobra Grande então entregou-lhe um coco de tucumã, avisando-os:

— Muito cuidado com este coco!  Se ele for aberto, tudo escurecerá e todas as coisas se perderão.

Durante a viagem, os criados ouviram, dentro do coco, um barulhinho assim: xê-xê-xê, tem-tem-tem…  Curiosos, os criados abriram o coco e tudo escureceu.

A moça disse então ao marido: — Meu esposo, os criados soltaram a noite.  Agora tudo ficará escuro e todas as coisas se perderão.

O marido, espantado, perguntou-lhe: Que faremos!  Precisamos salvar o dia!

A filha da Cobra Grande, então, arrancou um fio de seus cabelos e disse:  Com este fio, vou separar o dia da noite.  Feche os olhos, meu esposo…  Agora pode abri-los e reparar.  A madrugada já vem chegando.  os pássaros cantam anunciando o sol.

Mas quando os criados voltaram, a filha da Cobra Grande os transformou em macacos, por sua infidelidade.  Assim nasceu a noite.  Assim surgiram os macacos.

Em: Leitura infantis:  2º livro,  para as escolas primárias, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir: 1962





Gemedeira dos pássaros , poesia de Roberto Pontes

18 05 2011

Gemedeira dos pássaros

                                       Roberto Pontes

                                                     Para Gracia Levine

Onde é que ficaram as praças

E os meus doces passarinhos

Da infância inesquecida?

Na aragem dos caminhos?

— As flores murcharam cedo

E os passarinhos com medo

Ai! ai! uui! ui!

Foram viver sozinhos.

Deixaram algum recado

Nos canteiros ressequidos?

Na trança tenra dos ninhos

O trinar pros meus ouvidos?

— O tziu levou seus filhos

A murta fechou seus cílios

Ai! ai! ui! ui!

Tão breve adormecidos.

Meus canteiros carregados

Minhas jandaias de sonho

O passado onde eu regava

E ainda  hoje amanho.

Jardins como um vasto véu

E asas pardas pelo céu

Ai! ai! ui! ui!

Vocês me põem tristonho.

Em: Poesia simplesmente, coletânea de diversos poetas, Edição independente, 1999.

Francisco Roberto Silveira de Pontes Medeiros, nasceu em Fortaleza, Ceará (04/02/1944). Cursou Direito (1964) e mestrado em Literatura Brasileira (1991) na UFC. 

Dados biográficos: Antônio Miranda





Um tesouro, a biblioteca Valmadona, ainda errante e sem destino final

13 05 2011

Dois intelectuais judeus lendo as notícias, 1998

Maher Morcos (Egito, 1952)

Em dezembro de 2010 o patrimônio da Biblioteca Valmadona foi a leilão na Southeby´s de Nova York.  O arrematante, anônimo, pagou bem mais do que os USD $25.000.000,00 – vinte e cinco milhões de dólares de reserva — para adquirir uma das mais espetaculares bibliotecas judaicas.  Intelectuais do mundo inteiro e principalmente aqueles cujas especialidades requerem o conhecimento de textos judaicos incomuns sofreram até hoje por não saber onde foi parar essa coleção assombrosa que havia  tomado as estantes – montadas para este evento – nas paredes dos salões de 220m² da exposição pré-venda da casa de leilões.  Nessas estantes estavam alinhados aproximadamente 13.000 livros e manuscritos colecionados por um só homem: Jack V. Lunzer.  Nascido na Antuérpia em 1924, Lunzer, que hoje vive em Londres, enriqueceu no comércio dos diamantes industriais.  Mas ao longo dos anos foi também colecionando textos escritos e impressos em hebraico.

A coleção que leva o nome de Valmadona – em homenagem à cidade na Itália dos antepassados de Lunzer – é considerada uma mais completas coleções do mundo de textos em hebraico.  Dentre suas curiosidades estão uma Bíblia Hebraica, escrita à mão do ano de 1189 – o único texto inglês em hebraico de antes de 1290, quando o rei Eduardo I expulsou os judeus.  Cabe lembrar que em 1190 os judeus da cidade de York foram massacrados, e seus pertences – entre eles muitos livros, manuscritos – foram roubados e vendidos fora da Inglaterra, onde este texto foi encontrado pelo colecionador.

Exposição pré-venda da Biblioteca Valmadona, Foto: The New York Times.

Outra curiosidade não só pelo volume, mas também pela história de sua aquisição é  uma edição do Talmude da Babilônia, datando de 1519-1523, impresso em Veneza, pelo editor cristão Daniel Bomberg.   O primeiro contato de Lunzer com este volume, foi na Abadia de Westminster, em Londres, onde o achou cheio de poeira, de alguns séculos provavelmente.  Eventualmente veio a adquiri-lo por uma permuta com a abadia, oferecendo em troca uma velha cópia do Registro Original da abadia , um documento com mais de 900 anos de idade.

Surpresas parecem estar escondidas em muitos desses livros.  Quem poderia acreditar, por exemplo, que máximas tais como:  Faça dos seus livros seus companheiros, ou Deixe sua estante de livros ser o seu jardim, já eram conselhos pertinentes no século XII, como está gravado no manuscrito judeu-espanhol do estudioso Judah Ibn Tibbon, em um volume dessa coleção?

Para se ter noção de quão abrangente é a coleção da Biblioteca de Valmadona, talvez valha lembrar, que apesar de a prensa móvel ter sido inventada na Alemanha por Gutenberg, por volta de 1439, e de sua primeira publicação ter sido a Bíblia – hoje chamada a Bíblia de Gutenberg — , judeus  no século XV não podiam ser membros das guildas de imprensa, na Alemanha.  Por causa disso, os livros publicados em hebreu através da prensa móvel apareceram primeiro na Itália, a começar por Roma em 1470.  Depois disso, diversas outras cidades italianas deram licenças para a impressão de livros em hebreu.  Mas essas permissões eram dadas e retiradas com grande facilidade, ao bel-prazer dos dirigentes locais.  Um exemplo disso vem da cidade de Cremona, onde a permissão para a impressão de textos durou só 10 anos, de 1550 a 1560.  Pois cada um dos livros publicados nesse período em hebreu está presente na coleção arrebanhada por Lunzer.

Foto: The New York Times.

Quando se fala dessa coleção espetacular temos também que lembrar das vicissitudes que circundaram os textos hebraicos.  No artigo do The New York Times, A Lifetime’s Collection of Texts in Hebrew, at Sotheby’s Edward Rothstein, nota que só o Talmude, por exemplo, foi objeto de grandes perseguições; esses textos legais, foram confiscados em Paris em 1240, na Alemanha em 1509, e queimados por decreto papal na Itália em 1553.  Que ainda haja cópias intactas e que uma pertença a uma coleção de judaica é uma demonstração não só da persistência que Lunzer demonstrou ao coletar esses textos, mas também da raridade de alguns exemplares da produção intelectual de um povo.

Lunzer  não se interessou nunca pelas publicações em hebreu das Américas.  Sua atenção estava voltada para a documentação das várias comunidades judias no mundo, efêmeras, publicações de séculos passados, de comunidades que produziram textos em hebraico. Como ele mesmo lembra, no artigo mencionado acima, cada um desses volumes só foi impresso quando alguém deu  permissão para ser impresso.  “Cada um deles chora sua própria história.”  Mas hoje, aos 86 anos, Lunzer quer ter certeza de que sua busca, compra e a arrecadação desses textos, servirá para futuras gerações de estudiosos.  Esse será um de seus legados.

Foto: The New York Times.

Grande ansiedade tomou conta dos estudiosos  desde a conclusão do leilão da Biblioteca Valmadona, pela Southeby’s em dezembro de 2010.  O que todos se perguntavam até recentemente era: onde foram parar esses livros, esses documentos da nossa herança cultural?  O arrematante continuava anônimo e uma grande dúvida pairava no ar, até que neste início de maio, através de um artigo de Paul Berger, no The Jewish Daily Forward, Treasured Judaica Library, Feared Lost, Is Back On the Market, ficou-se sabendo que a compra não foi efetuada.  Na verdade, a coleção inteira, todos os seus 13.000 volumes, ainda estão na casa de leilões em Nova York.  Aparentemente o comprador não conseguiu provar para satisfação da Fundação da Biblioteca Valmadona, que as condições de compra iriam ser cumpridas.

E quais são essas condições?

A coleção precisa ser mantida junta, sem venda de qualquer texto, por mais insignificante que pudesse ser considerado.  Essas condições foram claramente enunciadas antes do leilão, e foi justamente para proteger esse patrimônio que a Fundação da Biblioteca Valmadona foi criada. No entanto, após o leilão, o comprador se viu forçado a retirar seu lance, uma vez que não pode demonstrar satisfatoriamente para os interessados que tinha interesse, poder e o compromisso de manter as condições estipuladas pré-venda.

Jack V. Lunzer, foto: The New York Times.

Todo mundo sabe que a coleção Valmadona oferece uma oportunidade sem igual de se adquirir uma das grandes bibliotecas judaicas privadas”, admite Sharon Lieberman Mintz, curadora de arte judaica da Biblioteca Teológica Judaica de Nova York e que também é consultora-sênior de arte judaica da Southeby’s.  A julgar pelo número de visitantes da exposição pré-venda, mais de 4.000 pessoas por dia, formando filas em volta do quarteirão, Sharon Lieberman Mintz  mostra que está certa, o grande público já se conscientizou do valor do trabalho de aquisição a que Lunzer se dedicou nos últimos 50 anos.  E não é por falta de interesse que bibliotecas do mundo inteiro continuam tentando levantar fundos para adquirir este tesouro.  A Biblioteca do Congresso nos Estados Unidos ofereceu, em 2002,  USD 20.000.000 – vinte milhões de dólares, para a biblioteca que estava avaliada na época em USD 30.000.000.  Apesar de negociações dos dois lados, o acordo de compra não foi validado.  Há ainda muitas outras instituições interessadas,. Entre elas conta-se  a Biblioteca Nacional de Israel, os departamentos de Estudos Judaicos tanto da Universidade de Columbia em Nova York assim como seus equivalentes da Universidade de Pensilvânia, Universidade de Nova York, entre outras.

O custo parece ser até agora o obstáculo mais mencionado. Talvez seja um símbolo dos interesses de nossa época, se levarmos em consideração que ontem, dia 12 de maio de 2011, um único quadro do artista Andy Wharol, LIZ NUMBER 5  [um retrato da artista Elizabeth Taylor] vendeu em leilão na Phillips de Nova York, por USD $ 27.000.000 – vinte e sete milhões de dólares.  É uma pena que uma coleção com 13.000 manuscritos históricos não consiga levantar o mínimo de USD$ 25.000.000 – vinte e cinco milhões de dólares necessários para sua aquisição.

Mas a esperança de que essa coleção ainda vá ser comprada por uma instituição pública não morreu. Desde que a notícia circulou pelos meios intelectuais sobre a venda frustrada, e sobre a volta ao mercado dessa coleção, o interesse na Biblioteca Valmadona parece ter re-acendido.  Seria uma grande aquisição para qualquer biblioteca do mundo, em qualquer lugar.  Porque a história dos judeus está tecida na história do mundo ocidental de maneira inescapável, e uma biblioteca como essa certamente tornará qualquer cidade, em que a coleção se estabeleça, num grande centro de pesquisa internacionalmente aclamado.