Ainda bem que só falamos o Português!

8 12 2011

Construção da Torre de Babel, 1260

Iluminura da Bíblia Morgan

[também conhecida como Bíblia Maciejowski]

Pierpoint Morgan Library, Nova York

Pouco damos valor a uma das coisas que mais nos distingue: somos um país de dimensões continentais, que fala uma única língua.  Só um outro país de dimensões continentais tem essa vantagem: os Estados Unidos.  Nem o Canadá, nem a Rússia, nem a China, nem a Índia…. Talvez essa tenha sido uma das melhores e maiores heranças que os portugueses nos deixaram.  Falamos a 6ª língua mais falada do mundo.  O português é uma língua romana, bem estruturada, complexa como todas as línguas romanas, uma língua falada em quatro cantos do mundo.  A vantagem que não percebemos no nosso dia a dia é que nos comunicamos de norte a sul,  sem qualquer problema, com variações regionais mínimas, e que essa herança cultural é uma das partes mais importantes que nos une.   As línguas formam a maneira como pensamos.  Elas refletem as nossas prioridades e os nossos valores.

Esse assunto me veio à mente, hoje, quando li sobre o desenlace da guerra das línguas, na Bélgica, que deixou aquele país por 535 dias (quase dois anos!) sem governo, para finalmente eleger um primeiro-ministro francófono [que fala francês], o primeiro líder francófono em 30 anos.

Aí é que começamos a pensar na nossa sorte, porque a Bélgica tem só 30.528 km2 quadrados e 3 línguas!  Imaginemos, uma área um pouco maior do que o estado de Alagoas, mas menor do que o estado do Espírito Santo, com uma população de 10.7 milhões de habitantes [menos gente que a cidade de São Paulo].  Todos têm a mesma nacionalidade, são obrigados a obedecer às mesmas leis, cantam o mesmo hino nacional, lutam nas guerras lado a lado, mas não se entendem,  não se unem, por causa da barreira linguística [economia, religião e geografia também entram na lista das barreiras].  Mas consideremos só as línguas, — que é a maneira como eles definem o problema — são três delas: francês, flamengo e alemão.  Para ilustrar as dificuldades dessa barreira, vamos usar o exemplo do primeiro-ministro eleito, empossado anteontem pelo rei da Bélgica, Alberto II.  Elio Di Rupo, cuja língua materna é o francês, fala fluentemente o italiano e o inglês, mas comete muitos erros — que ferem os ouvidos de seus outros conterrâneos  — quando se esforça para falar o flamengo.  Pelo menos os erros gramaticais dos nossos políticos não são um reflexo de divisões culturais no país.  Eles só refletem o que os políticos não andam fazendo pela educação.





Quadrinha do Papai Noel e a paz

6 12 2011

Papai Noel brasileiro, ilustração Luís Saguar, 2007.

Papai Noel vê se faz

do Natal, um baluarte:

— Erga a Bandeira da Paz,

Gravando AMOR, no Estandarte!

(Ivone Taglialegna Prado)





5 de dezembro, dia de Krampus. Quem é aquela figura estranha ao lado de Papai Noel?

5 12 2011

Krampus moderno, art digital.

Se você ainda não ouviu falar no Krampus, não se preocupe, poucas pessoas o conhecem.  Mas quem o conhece, não esquece.  O Krampus [grafia alemã] é um ser mítico, fantástico  — definitivamente um ser do Mal —  muito conhecido das populações das aldeias e  cidadezinhas dos Alpes.  Ele também habita a imaginação européia através do folclore na Áustria, Alemanha, Alsácia,  Suíça, Eslovênia, e demais áreas  das montanhas alpinas.  Faz parte da cultura local desde tempos imemoriais.  Apesar de muito antigo e limitado geograficamente aos Alpes, sua influência afeta alguns costumes natalinos de outras terras, até hoje.

De acordo com as lendas, Krampus começa as festividades do Natal na noite do dia 5 de dezembro.  Ele é um companheiro de São Nicolau, ou como dizemos por aqui, de Papai Noel.  Ele é o contraponto ao Papai Noel, e ao invés de dar presentes às criancinhas das aldeias, Krampus invade as casas das pessoas e retira delas as crianças que foram más, que mentiram, que fizeram pirraça…  E ele as leva.  Nada de presentes para crianças más…

Cartão de Natal com as representações de Krampus e São Nicolau, século XX, década de 20-30.

Krampus não é nada mais nada menos do que a inserção nas festividades natalinas de um demônio bastante conhecido nessas regiões e já temido por todos, que foi incorporado pelo cristianismo.  Ele aparece lado a lado com o mais bondoso dos santos, aquele que distribui presentes às crianças.  Assim, ajuda a equilibrar as forças do bem e do mal, servindo como um freio social, como um lembrete de que  as  crianças precisam ser boazinhas e comportadas para ganharem presentes de Natal: presentes não vêm automaticamente .  Foi uma maneira inteligente de manter em cheque as crenças pagãs que teimavam em ressucitar.   Já no século IV da nossa era, o Papa Gregório, havia aconselhado Santo Agostinho a permitir que esse personagem pagão fosse incorporado às festividades desde que fosse rebatizado.  Krampus é o novo nome dessa entidade: Percht ou Perchta.  Bartl,  Ruprecht, Knecht Ruprecht, são alguns dos muitos outros nomes de Krampus.

Krampus e São Nicolau.

Perchta era uma deusa pagã da região alpina, que aparece em duas formas: ou sedutora belíssima, branca como a neve, ou como um demônio em trapos.  A ela cabia a vigilância dos animais no início do inverno e a visita às casas para se certificar de que a fiação da lã estava sendo feita corretamente.  Seu dia festivo era o dia 6 de janeiro e sua festa foi incorporad às festas da Epifania no calendário cristão.

São Nicolau acompanhado por Krampus, cartão postal 1901.

Até hoje, tradicionalmente, jovens rapazes das regiões Alpinas se vestem como Krampus – principalmente na cidade que é centro de comércio na Bavária, chamada Berchtesgaden, e desfilam acompanhando São Nicolau, durante as primeiras duas semanas de dezembro.

Procissão de São Nicolau acompanhado de seus ajudantes Krampus.  Região alpina da Alemanha.

Até 1969, quando a Igreja Católica Apostólica Romana retirou do seu calendário oficial a Festa de São Nicolau, celebrada no dia 6 de dezembro, grande ênfase dessa procissão e das travessuras feitas pelos rapazes vestidos de Krampus, era dada à noite do dia 5 de dezembro, véspera do dia da festa em que trocava-se presentes na região.

São Nicolau chega à cidade acompanhado de Krampus, cartão de Natal da Bavária.

Os rapazes reproduziam o que todos sabiam que Krampus fazia:  andavam sem objetivo nas ruas, alarmando as crianças, colocando medo naquelas que haviam se comportado mal e arrastavam pesadas correntes de ferro aumentando a algazarra.  A imagem de Krampus é aquele ser com uma longa língua vermelha, coberto de pelos, carrega correntes e tem na mão um freixo de galhos de madeira com o qual ameaça as crianças que se comportam mal ou que não sabem suas lições.

Krampus levando as crianças embora.

Na Áustria, Krampus pode mais comumente  ter chifres e cascos de cabra no lugar dos pés.  Sua aparência é a de um diabo, como é representado mais comumente.   Foi só no final do século XIX, por volta de 1890 que sua imagem começou a aparecer nos cartões de Natal acompanhando São Nicolau.   Aparecia frequentemente com os dizeres “Gruss vom Krampus” [Saudações de Krampus] ou com a frase “Brav Sein!” [Comporte-se!].

Menino ameaçado por Krampus.

No final do século XIX a popularidade de Krampus era grande e passou a fazer suas aparições também ao norte da Alemanha.

Krampus com as crianças.

Krampus estava sempre pronto a punir as crianças que não se comportavam.  E evidentemente colocava-as em fila e as levava para algum lugar.  Ainda não consegui descobrir para onde iam.

Visitas: São Nicolau e Krampus.  As crianças parecem apavoradas!

Saudações de Nicolau!

Krampus, São Nicolau, crianças e gatinho.

As visitas que Krampus fazia às casas das pessoas para verificar quem era bom e quem não era, não só fizeram algum sucesso nas artes gráficas como também, devidamente digeridas, sanitarizadas e embelezadas vieram a fazer parte do panorama cultural dos Estados Unidos, terra que acolheu imigrantes de todo o mundo cada qual com suas tradições e hábitos culturais.  O resultado são referências a tradições de outros lugares do mundo, no dia a dia americano.  No caso da celebração do Natal há uma evidente correspondência entre outros aspectos ao da letra de uma das músicas mais conhecidas de Natal, nos EUA: Santa Claus is coming to town. [Papai Noel está chegando].  Vejamos se não é uma referência a dupla alpina que ocupa as nossas atenções hoje?

You better watch out                                                  
You better not cry   
Better not pout 
I’m telling you why
Santa Claus is coming to town 
He’s making a list 
And checking it twice;   
Gonna find out Who’s naughty and nice 
Santa Claus is coming to town     
He sees you when you’re sleeping  
He knows when you’re awake 
He knows if you’ve been bad or good  
So be good for goodness sake! 
O! You better watch out!
You better not cry
Better not pout   
I’m telling you why
Santa Claus is coming to town 
Santa Claus is coming to town
——

É melhor tomar cuidado
É melhor você não chorar
Melhor não emburrar
Estou dizendo porque
Papai Noel está vindo para cá
Ele está fazendo uma lista
E verificando-a duas vezes;
Vou descobrir quem é levado e quem não é
Papai Noel está vindo para a cidade
Ele vê quando você está dormindo
Ele sabe quando  está acordado
Ele sabe se você foi mau ou bom
Então, seja bom pelo amor de Deus!
O! É melhor tomar cuidado!
É melhor você não chorar
Melhor não emburrar
Estou dizendo porque
Papai Noel está vindo para a cidade
Papai Noel está vindo para a cidade .

Não tenho mais informações sobre Krampus além de saber que  depois de quase desaparecer, voltou a ser invocado e a fazer suas trapalhadas na mesma região em que nasceu.  Krampus é hoje em dia um dos personagens que gera festas, eventos, e todo tipo de manifestação cultural na Áustria, na Bavária, na região alpina.

A seguir outras imagens de Krampus encontradas em cartões ou em postais de Natal.

São Nicolau e Krampus.

Menina implorando a Krampus.

Krampus entra em casa um pouquinho à frente de São Nicola…

Menina com boneco de Krampus na mão.

Papai Noel com boneco Krampus nas mãos.

Obra digital século XXI, Krampus no jardim, São Nicolau na casa.




Olavo Bilac, Os Reis Magos, poesia

5 12 2011

A jornada dos Reis Magos,1886-1894.

James Joseph Jacques Tissot (França,1836-1902)

guache e lápis sobre papel, 20 x 29 cm

Museu do Brooklyn, Nova York

Os Reis Magos

Olavo Bilac

Diz a Sagrada Escritura
Que, quando Jesus nasceu,
No céu, fulgurante e pura,
Uma estrela apareceu.

Estrela nova … Brilhava
Mais do que as outras; porém
Caminhava, caminhava
Para os lados de Belém.

Avistando-a, os três Reis Magos
Disseram: “Nasceu Jesus!”
Olharam-na com afagos,
Seguiram a sua luz.

E foram andando, andando,
Dia e noite a caminhar;
Viam a estrela brilhando,
sempre o caminho a indicar.

Ora, dos três caminhantes,
Dois eram brancos: o sol
Não lhes tisnara os semblantes
Tão claros como o arrebol

Era o terceiro somente
Escuro de fazer dó …
Os outros iam na frente;
Ele ia afastado e só.

Nascera assim negro, e tinha
A cor da noite na tez :
Por isso tão triste vinha …
Era o mais feio dos três !

Andaram. E, um belo dia,
Da jornada o fim chegou;
E, sobre uma estrebaria,
A estrela errante parou.

E os Magos viram que, ao fundo
Do presépio, vendo-os vir,
O Salvador deste mundo
Estava, lindo, a sorrir

Ajoelharam-se, rezaram
Humildes, postos no chão;
E ao Deus-Menino beijaram
A alava e pequenina mão.

E Jesus os contemplava
A todos com o mesmo amor,
Porque, olhando-os, não olhava
A diferença da cor …

Em: Poesias infantis, Olavo Bilac, Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves: 1949, 17ª edição, pp. 26-28

Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (RJ 1865 — RJ 1918 ) Príncipe dos Poetas Brasileiros – Jornalista, cronista, poeta parnasiano, contista, conferencista, autor de livros didáticos.  Escreveu também tanto na época do império como nos primeiros anos da República, textos humorísticos, satíricos que em muito já representavam a visão irreverente, carioca, do mundo.  Sua colaboração foi assinada sob diversos pseudônimos, entre eles: Fantásio, Puck, Flamínio, Belial, Tartarin-Le Songeur, Otávio Vilar, etc., e muitas vezes sob seu próprio nome.  Membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Criou a cadeira 15, cujo patrono é Gonçalves Dias.  Sem sombra de duvidas, o maior poeta parnasiano brasileiro.

Obras:

Poesias (1888 )

Crônicas e novelas (1894)

Crítica e fantasia (1904)

Conferências literárias (1906)

Dicionário de rimas (1913)

Tratado de versificação (1910)

Ironia e piedade, crônicas (1916)

Tarde (1919); poesia, org. de Alceu Amoroso Lima (1957) e obras didáticas





Os cavalos Przewalski retornam à terra natal

4 12 2011

Cavalos Przewalski retornam à Mongólia.

Boas novas para os cavalos Przewalski dados como extintos desde 1969, quando o último desses equinos, naturais da Mongólia foi identificado.  Para a possibilidade de um final feliz dessa história muito se deve à iniciativa de zoológico de Praga na República Checa.  Ao todo há 1.800 cavalos Przewalski no mundo.  Dos quais 1600 estão em cativeiro.  Desses, aproximadamente 1/3 tem seus ancestrais ligados aos cavalos do zoológico de Praga.

Os cavalos Przewalski, foram descritos pela primeira vez em 1881 pelo zoólogo russo Poliakov, que os nomeou para homenagear o explorador e geógrafo russo Nikola Mikhalovitch Przewalski (1839-1888) que os havia descoberto nas montanhas, quando vinha através do deserto de Gobi em 1879.  Eles fazem parte da única espécie sobrevivente de cavalo selvagem.  Têm a silhueta atarracada, com aproximadamente 1,20 m de altura, peso variando entre 250 a 350 kg e a pelagem marrom.   São os parentes mais próximos dos cavalos pintados nas paredes das grutas do período pré-histórico e  já habitaram a vastas pradarias da Ásia Central.  No entanto, a partir do início de 1900, a pressão da caça, a concorrência por terras de pasto e água, e o cruzamento com pôneis Mongol contribuíram para a crescente escassez desses cavalos em seu estado natural.   A proteção legal que existe desde 1926 na Mongólia provou não ter qualquer efeito.  O cavalo Przewalski que retorna, hoje, às estepes mongólicas, sua terra de origem, foi salvo pelos esforços dos zoológicos.

O zoológico de Praga, encarregado da manutenção do livro genealógico mundial da espécie, desempenhou um papel de grande importância na proteção desse cavalo selvagem e sua reintrodução na Mongólia, principalmente porque todos os animais atuais descendem de um grupo de 12 reprodutores unicamente.  Assim, o cuidado com o cruzamento desses animais é de grande importância.

Com essa intenção a República Checa retornou quatro cavalos Przewalski à Mongólia.  São três fêmeas e um garanhão, todos criados em cativeiro, que começaram a viagem para Mongólia a partir Dolní Dobřejov.  Ao todos eles viajaram 17 horas, fazendo duas paradas para reabastecimento na Rússia.  Depois disso, as três éguas chamadas Kordula, Cassovia e Lima, e um garanhão chamado Matyááš,  enfrentaram uma viagem de 280 quilômetros de caminhão à reserva natural na Mongólia ocidental, onde passarão a fazer parte de um rebanho de mais de 20 outros cavalos já re-introduzidos por um grupo francês.  Os cavalos permanecerão na reserva Tal Khomiin, ocupando mais de 50.000 hectares.

A chegada de Praga, de quatro cavalos jovens e geneticamente diferentes é essencial para a continuação bem sucedida da população em Khomiin Tal, tanto do ponto de vista da quantidade e quanto da qualidade“, disse Byamba Munkhtuya o zoólogo encarregado, “cavalos completamente diferentes vão melhorar significativamente a variedade genética atual e contribuir para um aumento da taxa de natalidade. Esperamos que a chegada de nossos jovens animais dê um novo impulso à reprodução da manada de Khomiin Tal

A julgar pelas pinturas rupestres das grutas de Lascaux na França, esta espécie vivia na Europa há vinte milhões de anos, mas as mudanças climáticas levaram as manadas para a Ásia.  Esperemos agora que a reprodução da espécie possa se dar com maior regularidade, no seu habitat natural.

 –

Fontes:Horsetalk e Band





Quadrinha da paz no Natal

4 12 2011

Cartão de Natal da Polônia, década de 1960.

Que o bom menino Jesus

Em sua visita anual

Traga aos lares paz e luz

Pelo menos no Natal!

(Maria Odete Souto Pereira)





Imagem de leitura — Victòria Tubau

3 12 2011

Homem lendo, s/d

Victòria Tubau ( Espanha, 1959)

óleo

www.victoriatubau.com

Vicòria Tubau nasceu na Catalunha na Espanha, em 1959.  É pintora, e também trabalha nas artes gráficas como ilustradora.  Para mais informações visite o seu portal.





Poema de Natal, Walmir Ayala

3 12 2011

Sagrada Família sob uma palmeira, 1508, tondo

Rafael Sanzio de Urbino, (Itália, 1483-1520)

tondo, óleo

The Edinburgh National Gallery, Escócia

[Nota: Tondo é uma palavra da Renascença Italiana, que quer dizer uma obra de arte em forma circular, quer seja uma pintura ou uma escultura.  Na história da arte manteve-se esse nome em quase todas as línguas com o mesmo significado: inglês, francês, alemão, etc.  No Brasil, no entanto, talvez por não termos muitas obras do período renascentista, a palavra tondo é raramente usada e uma obra de arte redonda, em geral posterior, é com frequência chamada de medalhão. ]

Poema de Natal  (1963)

Walmir Ayala

Se não nascesses

como cerraríamos tranquilamente os olhos

no lençol do tempo?

Se não nascesses

como entender a noite com seus fantasmas e seus doces

perfumes,

como entender a insônia?

Se não nascesses

como aceitar o aceno ardente dos mortos,

seus olhos de saudade em nossos olhos

de espanto?

Se não nascesses

onde encontrar ainda forças para o canto?

Novembro de  1963

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      





Pintarroxo, o pássaro do Cartão de Natal por excelência!

3 12 2011

Pintarroxo, década de 1990

O pintarroxo, pássaro comum na Europa, no norte da África e ao oeste da Ásia, talvez seja o pássaro com maior participação nas representações do espírito natalino, no hemisfério norte.  Seu equivalênte na América do Norte, o Robin Americano, marca presença até os dias de hoje.

Ora aparece em grupos, ora sozinho.  Quase sempre piando, cantando, feliz da vida, pousado num galho de azevinho coberto de neve.

Cartão postal de Natal de 1913, com pintarroxos na cerca nevada.

Sempre aparecem com o peito estufado deixando aparente a plumagem avermelhada característica da espécie.

É representado repolhudo, com a plumagem eriçada, como os pássaros fazem para se esquentar no frio.

Cartão de Natal, EUA.

Cartão postal de Natal, Inglaterra.

Cartão postal de Natal, EUA.

Cartão de Natal, década de 1970: pintarroxo na paisagem.

Cartão postal de Natal, décadas de 1920-30 , período Art Deco, EUA.

Pintarroxos do peito vermelho em vôo.  Cartão postal de Natal,  1930.

Cartão de Natal, final do século XX, EUA.

Cartão de Natal com pintarroxo num tronco, neve e azevinho, EUA.
Sete pintarroxos em galho coberto de neve, cartão de Natal, por A.F. Lydon.

Pintarroxos são também os pássaros que se apresentam, na época de Natal, personificados, ou seja, agindo de maneira como dos homens:  trazendo cartas como carteiro, segurando velas, passeando com carrinho de bebê, como mostram as fotos a seguir.

Vestidos de carteiros, eles vêm entregar à janela os desejos de um Feliz Natal.

Uma família de pintarroxos passeia, empurrando o carrinho com dois bebês pintarroxos, na neve, Inglaterra.
Que toda a alegria possa iluminar as horas do seu Natal!” [acredito que seja da Inglaterra]

O bom pintarroxo, cartão de Natal da época Vitoriana, com mendigos, Inglaterra.

Pintarroxos com roupinhas de humanos, se alimentando na neve.  França, década de 1970.




A árvore de Natal de Jean Lou, texto de Gregório José

2 12 2011

A árvore de Natal de Jean Lou:

um conto de Natal

Gregório José

 –

A história passa-se perto de uma aldeia de Vesges, numa casa isolada, próximo de uma floresta de pinheiros.

— Papá, perguntou Jean Lou, quando acordou – Quero uma árvore de Natal.  Os meus amigos da aldeia vão todos ter uma.

–Mas tu não tens necessidade de uma árvore de Natal, respondeu-lhe o pai.  – Há tantas em volta da casa.

— Não árvores de Natal, são pinheiros.

— É a mesma coisa.

Oh, não, não era a mesma coisa, pensou o filho.  Para um pinheiro se tornar uma árvore de Natal, é preciso que se ilumine, e que tenha prendas para os meninos!

Jean Lou sentiu o coração encher-se de desgosto.  A mamã tinha morrido na Primavera, e op ai, sozinho com dois filhos, não substituía a sua ternura.  Mas Jean não perdera de todo a esperança e perguntou ao irmão mais velho, Lucien, — O que é preciso para ter uma árvore de Natal.

Ora os pintarroxos, essas avezinhas simpáticas de babete vermelho, vão próximo das casas, não têm medo das pessoas, mas vivem sempre isoladas.  Jean Lou entrou em casa,  colou o rosto  contra o vidro da janela e observou atentamente a estrada.  Era o entardecer.  Um pintarroxo pousou nela, de seguida um outro sobre um arbusto. O coração do menino saltou acelerado, enquanto via um terceiro pousar sobre um tufo de ervas.

— Um, dois, três… contou o rapazinho.

— Vejo-os, vejo os três pintarroxos, vou ter a minha árvore de Natal!

Precipitou-se de encontro a Lucien, que regressava do campo: — Vou ter minha árvore de Natal!

— Mas que se passa?  Admirou-se Lucien, que tinha esquecido a brincadeira.

— Vi três  pintarroxos juntos!

—  Juntos?  Uns ao lado dos outros?

— Não. Um na estrada, outro num arbusto e outro sobre a relva.  Mas vi-os ao mesmo tempo.  Vou ter a minha árvore de Natal?

— Sem dúvida, prometeu o irmão, perante tanta alegria.  Mas como?

Lucien bem gostaria de dar essa alegria ao seu irmãozinho, mas como encontrar uma verdadeira árvore de Natal?

Após o jantar, Lucien foi dar um passeio, procurando uma idéia. Pinheiros não faltavam.. e quando acariciava um dos mais bonitos, a percebeu-se de um suave murmúrio: “eu farei uma bonita árvore de Natal, se tu quiseres…”

— Não posso levar-te para casa.

— Trarás o teu irmão junto de mim.

— Mas… falta-te tudo, para seres uma árvore de Natal.

— Podemos encontrar tudo aqui.  Tenho amigos, a neve, a geada, as corujas, os silvados, a lua, o céu e até mesmo as aranhas, que estão escondidas no celeiro.  Os meus amigos poderão ajudar-te, não queres?

Então a neve disse:  “Tornarei branco o pinheiro, como se fosse de arminho”; a geada pronunciou: “Fá-lo-ei brilhar como se estivesse salpicado de diamantes”; os silvados: “Nós temos bonitas bagas vermelhas”;  as corujas prometeram dissimularem-se nas ramagens e abrindo e fechando os olhos brilhantes, substituírem as lâmpadas elétricas.

O céu oferecia as estrelas, para enfeitar as pontas dos ramos, e a Lua estenderia os seus raios brilhantes, para colorir as pinhas e os brinquedos de madeira que Jean teria.

Lucien regressou a casa, contentíssimo.  Mas de repente, pensou que se tinha esquecido das aranhas.  Que poderiam elas oferecer?  Foi ao celeiro.

— Fizeste bem em vir, disseram elas, poderemos tornar a árvore verdadeiramente bela.  Lançaremos fios de alto a baixo, e a envolveremos numa rede de renda.

— Mas os vossos fios são escuros e tristes?!?!

— Não.  A geada prateará os nossos fios, verás.

A noite de Natal chegou.

O pai tinha comprado um lindo bolo.  Jantaram e deitaram-se.  Assim que pressentiram que o pai dormia, Lucien agasalhou muito bem o irmão e saíram silenciosamente.

Ao  dobrar a esquina da estrada, Jean parou fascinado.  A Árvore de Natal estava ali, grande e tão bem enfeitada que nada poderia haver de mais belo.

Os ramos cintilavam.  Longos fios prateados envolviam-na e as corujas  escondidas abriam e fechavam os olhos alternadamente.

Jean nem se preocupava com os brinquedos, pendurados pelo irmão:  um pífaro feito de um junco, animais feitos à faca, um cachimbo e misteriosos saquinhos com berlindes, bonbons e outras coisas.

A Lua dava um tom dourado a tudo.  As estrelas cintilavam docemente nas extremidades dos ramos, enquanto ao longe, o som mavioso dos sinos subia e chegava até eles.

Foi assim que Jean, o menino órfão de mãe, pode ter, para ele só nessa noite, a mais linda árvore de Natal.

Tradução do livro Les Contes de Perrette

Em:  Comércio do Seixal e Sesimbra, Semanário,  17 de dezembro de 2010, Ano IV, nº 129