O cartógrafo, poema de José Paulo Moreira da Fonseca

26 06 2012

Mapa antigo, Janssonius, América do Sul.

O cartógrafo

José Paulo Moreira da Fonseca

No azul desse mar distante

Porei uma nau feito as que de lá me trouxeram novas

De serpentes entre as algas

Que à sombra dos mastros igualmente vou desenhando

E ainda uma diurna costa com verdes palmas,

Flores rubras, pássaros e lagartos

Que sejam ornamento e nos fale da estranheza.

E porei, além, uma póvoa de aborígenes

E mais além, porque tudo ignoramos,

Cumpre-me deixar a carta em branco,

Sem palavras nem contornos,

Tão-só indagação, casta e silenciosa,

Como a do papel em que escrevo.

Em: Antologia Poética, José Paulo M. F., Rio de Janeiro, Leitura: 1968





Oscar Pereira da Silva um homem de seu tempo

22 06 2012

Capa da Revista LIFE, de setembro de 1928, por Russell Patterson (EUA, 1893-1977)

Zeitgeist  é uma palavra alemã largamente adotada, assim mesmo, em alemão, nas cadeiras humanísticas para expressar o espírito de uma época, representado pelo clima cultural, intelectual, espiritual, ético e político de um grupo de pessoas, de nações.   [A pronúncia é: ”zaitgaist”]. Para quem lida com a história da arte, da arquitetura, das manifestações artísticas e culturais em geral, essa palavrinha é um sinal taquigráfico indicando uma semelhança de pensamentos, comportamentos, de estética.  Já usamos essa expressão muitas vezes aqui no blog, mas como faz parte de um jargão profissional é interessante lembrá-lo principalmente quando nos deparamos com uma semelhança de imagens.

O conceito de zeitgeist é importante para o estudo da história da arte porque auxilia na determinação das fontes inspiradoras dos artistas.  Desde que o mundo é mundo, desde a  Grécia, de Roma, da Idade Média, Renascença, e aí por diante que pintores, escultores, artistas gráficos, se inspiram na obra de seus antecessores.  Às vezes as inspirações são óbvias, às vezes precisa-se de muito tempo e pesquisa para provarmos que este pintor ou aquele escultor estava familiarizado com o trabalho de um determinado antecessor.  Muitos e muitos estudiosos passam um bocado de tempo tentando re-organizar o passado para melhor compreender como se manisfesta ou como se perpetua uma determinada tendência nas artes.  E é sobre essa divulgação de formas e conceitos que hoje examino um trabalho de Oscar Pereira da Silva, um dos nossos grandes pintores do século XX.

Recentemente estive, por razões diversas, verificando as imagens gráficas das capas de partituras de músicas populares, para piano e canto do início do século XX.  Passei horas e horas em grande deleite, observando o trabalho de muitos artistas gráficos anônimos e alguns bastante conhecidos.  Até que me deparei com a capa para a música Dear Heart, de 1919.  Não sei se foi um grande sucesso na época, mas achei referências a ela na web.  Com música de W. C. Polla and Willard Goldsmith, e letra de Jean Lefarve, a partitura foi publicada em 1919 pela C. C. Church and Co. de Hartford, Connecticut.  Se você quiser ouvir a música, clique aqui.

Dear Heart, 1919. de Jean Lefarve e W. C. Polla and Willard Goldsmith, ilustração de Rolf Armstrong.

A ilustração da partitura acima é de Rolf Armstrong.  Foi usada na capa da revista americana Metropolitan de 1919.  Nela vejo uma bela melindrosa que olha diretamente para mim, o leitor, enfentiçando-me com seus grandes e amendoados olhos azuis.  O turbante cor de laranja esconde os cabelos negros, cortados à la garçonne típicos da época, deixando entrever mechas, coquetemente enroscadas no que se denominava “pega rapaz“, que é aquela mecha de cabelos em forma de vírgula.  A rosa vermelha próxima ao nó do turbante compensa a longa linha do pescoço e reflete o carmim da boca entreaberta, convidativa, que parece dizer que essa melindrosa está pronta para se divertir, para sair dançando o charleston. Ela é misteriosa e sedutora.

Assim que bati com os olhos na capa dessa partitura me lembrei do quadro na Pinacoteca do Estado de São Paulo, Mulher com turbante, de Oscar Pereira da Silva, com uma moça semelhante. Não me lembrava da data, mas eu sabia que Oscar Pereira da Silva já havia falecido por volta dos anos 40.  Há exatamente 11 anos entre a capa da revista Metropolitan, da partitura para Dear Heart e o quadro brasileiro.  Lá está o mesmo espírito, o retrato do mundo pre-Segunda Guerra Mundial.  Melindrosas eram o tema nas artes gráficas através desses anos todos,  como a capa da revista Life, desenhada por Russell Patterson e publicada em setembro de 1928, reproduzida acima, demonstra.

Mulher com turbante, 1930

Oscar Pereira da Silva (Brasil,1867-1939)

óleo sobre tela, 41 x 33 cm

PESP — Pinacoteca do Estado de São Paulo

Há semelhanças bastante perceptíveis.  Uma melindrosa, morena, com olhos azuis, rasgados e brilhantes de excitação olha diretamente para o observador.  Um turbante cor de laranja esconde seu cabelo escuro, cortado a la garçonne, com  sensuais mechas encaracoladas próximas às orelhas.  Na versão brasileira a melindrosa tem os lábios da cor do fundo do quadro, e um sorriso mais aberto, mais convidativo à diversão.  No lugar da rosa da capa acima, temos um ombro nu, sensual, que ajuda como a rosa anteriormente a compensar a longa linha de um pescoço colossal.  A versão tropical é muito mais exuberante, menos misteriosa mas tão sedutora quanto sua companheira americana.

Sabemos que no Rio de Janeiro do início do século XX o piano ainda era um instrumento encontrado na maioria das casas da classe média, com moçoilas casadouras.  Mesmo no início do século XX, muitas famílias ainda mantinham saraus e todas as moças da casa aprendiam a tocar piano. Muitas dessas partituras vinham do exterior.  Oscar Pereira da Silva conhecia bem esse hábito dos saraus.  Há um de seus quadros na Pinacoteca do Estado de São Paulo, A hora de música , reproduzido abaixo, que mostra exatamente esse uso do piano na família.

Hora de música, 1901

Oscar Pereira da Silva (Brasil,1867-1939)

óleo sobre tela

Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Oscar Pereira da Silva foi um pintor que pemaneceu dentro dos parâmetros da pintura histórica e realista, não abrindo espaço em sua produção para as “novidades” das técnicas mais modernas.  Foi um retratista, um pintor de cenas históricas e sempre teve uma boa e tradicional clientela que o manteve produzindo até o fim.  Suas pinturas de gênero tendem a ser bastante detalhistas e é realmente só na maturidade que vemos um trabalho como A mulher com turbante, que tem uma leveza de traço, uma rapidez de pincelada, que se deve muito mais aos moldes modernos de pintura do que ao realismo minucioso ao qual Oscar Pereira da Silva é sempre associado.

Agora, levando em consideração a popularidade de certas canções, e a familiaridade do pintor e de todos na época com partituras para piano, a pergunta a fazer é:

Oscar Pereira da Silva conhecia essa capa de música?  Ou é isso simplesmente Zeitgeist?

©Ladyce West,2012





Feira moderna de Caruaru, poema de Domingos Pellegrini, Jr.

21 06 2012

Cabras, arte africana, sem autoria.

Feira moderna de Caruaru

Domingos Pellegrini Jr.

1

A carne-de-sol na sombra

das barracas de alvaiade

Quarenta cachorros magros

Ninguém pode ter piedade

C’uma costela de vaca

a fome toca rabeca

no coração da cidade.

A feira dura três dias

não deixa sobra nenhuma

Cada velho cada menino

é doutor de economia.

Um cego vendendo um bode

garante que produz leite

coalhada até requeijão

— Mas, cego, como é que pode?

O cego apenas responde:

— Hoje quem faz propaganda

não aceita discussão.

2

Mas cadê aquela feira

que irmão abraçava irmão

Fateira entregava a concha

pra mexer no caldeirão

Feirante botava a fruta

na boca do cidadão

Se não gostou, não comprava

Se azedou, devolvia

Se não vendia, era dado

Freguês pagava outro dia

Morria, era perdoado

Hoje são outros 500

São outros tempos, meu mano

O cego vendeu o bode

— Vendi, e sem garantia

Tinha mais de 30 anos

não vive mais 30 dias

Negócio tipo moderno.

Hoje aqui ninguém mais fia.

Quem pode, financia.

Quem não pode, vá pro inferno.

Em: Poesia viva 2: a diversidade de nosso tempo na visão de cada poeta, coord. e sel. Moacyr Félix, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira:1979





Quadrinha do meio ambiente

15 06 2012

Chico Bento prepara a terra para plantar, ilustração Maurício Sousa.

Que o mister da agricultura
não traga, em nenhum momento,
mesmo gerando fartura,
selvagem desmatamento!

(Wanda de Paula Mourthé)





As Casas Cubo de Roterdam

9 06 2012

Casas Cubo, Projeto do arquiteto Piet Blom (Holanda 1934-1999), desenhado em 1978, construção: 1984

Meu sobrinho foi no ano passado à Holanda representando sua escola e o Brasil numa competição escolar de ciências, mais precisamente de robótica.  Voltou encantado com muito do que viu, mas falou especificamente das Casas Cubo, em Roterdam.  Eu, nunca fui a Roterdam, mas já ouvi falar e muito do movimento Estruturalista na arquitetura que por sinal não é uma coisa nova.  As Casas Cubo são um dos muitos exemplos desse movimento na arquitetura e no urbanismo que surgiu  na década de 1960 como uma reação ao que se considerou projetos sem vida e impessoais nas tendências de pós-guerra [Segunda Guerra Mundial] dos que vieram a ser chamados de racionalistas formais: Mies van der Rohe, Groupios e Le Corbusier, os maiores expoentes desse movimento.

Projeto do arquiteto Piet Blom (Holanda, 1934-1999) as Casas Cubo são hoje um dos cartões postais de Rotterdam.  O projeto de 1978 só foi construído em 1984, como parte de um plano de renovação da cidade.

Piet Blom, Casbá, projeto de 1969.

As Casas Cubo parecem ser a evolução natural do trabalho de Piet Blom que já havia projetado em 1965 e construído em 1969, uma série de casas em palafitas, uma combinação de unidades de alojamento espaçosos com projetos variados de hotelaria, varejo e apartamentos estúdio; com pequenos estacionamentos, além de parques infantis a que deu o nome de Casbá,  lembrando o emaranhado de vielas em volta da praça da Medina dos centros das cidades de colonização árabe no norte da África que têm suas ruas principais cobertas. O Casbá tem um ambiente acolhedor, com cores quentes sobre os telhados e janelas. No meio do complexo há uma praça aberta, decorada como um lugar de encontro com bancos e árvores. Um dos objetivos de Piet Blom nesse projeto era justamente manter o movimento de pedestres ao nível do chão, livre com casas de diversas alturas de telhados sustentadas por palafitas, conceito reminiscente das pilastras usadas por Le Corbusier. O que ficou do projeto Casbá foram as habitações em pilastras que serão sua assinatura em dois de seus projetos, as dezoito casas em colunas em Helmond  e as Casas Cubo em Roterdam.

Piet Blom, casas cubo em Helmoond, primeiro projeto desse tipo.

O complexo habitacional de Helmond foi o primeiro das Casas Cubo a ser construído, tendo em seu centro, formado por quatro cubos, um teatro, Teatro Speelhuis, que seria o centro de atividades culturais do projeto, infelizmente destruído em um incêndio em 2011.  O conceito original dessas casas foi uma evolução da Casbá: viver sob um teto urbano, ou seja, a vida comunitária de desenrolando aos pés do nível habitacional. Pelo menos era isso que Piet Blom advogava.  Espaço comum urbano conseguido através de uma variante das casas em palafitas.  Ele usou uma coluna, para fazer o que chamou de “floresta urbana”: cada Casa Cubo seria a abstração de uma árvore com o tronco como coluna de suporte e a copa como espaço de habitação. Com a repetição desses modelos teríamos então uma floresta ou um bosque urbano onde a vida diária se passaria à sua sombra.   Para conseguir o efeito ‘copa” Piet Blom virou o cubo de habitação em 45 graus, e colocou uma coluna de sustentação hexagonal.  Dezoito Casas Cubo foram construídas em Helmond, em 1974 e 1977.

O projeto urbano em Helmond era para ter sido parte da reurbanização da antiga Rue de la Loi.  Mas a administração local considerou o projeto muito alternativo e que não se adequava às necessidades do centro de Helmond. Como prêmio de consolação pelo projeto Piet Blom foi convidado a localizar seu projeto no bairro Grande Driene, um bairro novo, nos arredores da cidade.  Piet Blom desenvolveu cinco diferentes tipos de habitação. A menor unidade de um único apartamento até uma unidade bem maior como um estúdio para mais de um artista. As unidades maiores têm um terraço espaçoso e dois a quatro quartos. A densidade habitacional alcançada no projeto com esta concepção de casas sobre colunas foi quatro vezes maior do que  a conseguida numa área residencial normal. Para um país como a Holanda, cortado por canais, onde a terra para construção tem um valor descomunal, essa economia de espaço é essencial.

Vista aérea das Casas Cubo em Roterdam.

A cidade de Roterdam pediu a Piet Blom o projeto de um complexo habitacional que pudesse ser construído acima de uma ponte para pedestres.  O resultado foi exatamente as Casas Cubo, cada qual representando uma árvore, resultando numa floresta urbana. As trinta e oito Casas Cubo de Roterdam estão localizadas na Rua Overblaak, ao lado da estação Blaak do metrô.  Elas continuam o mesmo conceito desenvolvido em Helmond, mas usam diferentes materiais de construção.

Casas Cubo de Roterdam, projeto de Piet Blom, vistas debaixo, do nivel praça comunitária.

As casas se “equilibram” num pedestal hexagonal.  Em algumas dessas casa a coluna hexagonal tem uma área para guardados e uma escada dando acesso à habitação propriamente dita, mas em outras, essas colunas têm pequenas lojas.  Cada Casa Cubo tem três andares: a entrada à rés do chão; o primeiro andar, que tem um a planta triangular, é onde se encontram a sala de estar e a cozinha – aberta, à americana como se diz no Brasil.  Nesse andar as janelas abrem para o andar de baixo, inclinadas para a área comum.  No segundo andar estão os dois quartos e um banheiro e o andar cima,que também tem um planta triangular, é usado como uma área extra, quarto de hóspedes, sala ou até como jardim.  É aí que essas habitações têm uma ótima vista com janelas na parte piramidal da construção. Todas as janelas e paredes foram construídas num ângulo de 54,7 graus.  Cada apartamento tem aproximadamente 100 m², mas só um quarto desse espaço – 25m² pode ser efetivamente usado por causa dos ângulos das paredes e dos tetos.

Vista de outro ângulo das Casas Cubo de Roterdam.

Em 2008 parte do complexo de Casas Cubo de Roterdam foi comprado, algumas paredes derrubadas e um hostel oferecendo 243 camas foi instalado no local.

Foto do interior da Casa Cubo de Roterdam.




4.000.000 de visitantes únicos a este blog!

8 06 2012

Visitas, ilustração de J. H. Wingfield.

Uma pausa para agradecer!

Hoje chegamos ao marco de 4.000.000 – quatro milhões de acessos únicos a este blog.

Não sei bem o que pensar ou dizer.

Você é responsável por essa contagem, que nos coloca entre um dos blogs no Brasil de maior visibilidade no campo da cultura.  A você que apoia, que prestigia, que divulga;  a você que é seguidor diário, aos leitores que me mandam ideias, que respondem, que comentam, que param por um minuto para pensar e me incentivam participando comigo nessa “loucura” coletiva de pensar a cultura brasileira, aqui fica o meu agradecimento.

ESTATÍSTICAS PARA QUEM QUER SABER O QUE SE PASSA POR TRÁS DAS TELAS:

São 4.000.000 de visitas em 4 anos, nosso  aniversário é no dia 16 deste mês.

Primeira postagem: 16/06/2008.

Para um total de 2.367 postagens.

Comentários aprovados: 3.934

Comentários rejeitados: 362

Comentários em SPAM: 7.643

Atual média de visitas diárias: 6.500

Dia com maior nº de visitas: 13 de março de 2012 = 10.412. (Desconheço o motivo)

Durante a semana o blog recebe entre 7.500 a 8.000 visitas de 2ª a 5ª.

As visitas caem consideravelmente de 6ª até domingo à noitinha, quando começam a subir assustadoramente, nas últimas horas do fim de semana.

Dezembro e janeiro são os meses com menor número de acessos.

A grande maioria dos meus visitantes acessa o blog dos seguintes estados: SP, RJ, RS, GO, MG.

90% das visitas diárias são do Brasil.  Seguidas por Portugal, em diversas centenas de visitas diárias; Estados Unidos e França, cada qual com quase uma centena de visitas diárias.  Outros países que nos acessam regularmente incluem: Alemanha, Argentina,  Espanha, Japão e Rússia, em ordem alfabética.

Minha intenção é a divulgação de aspectos da cultura brasileira, um trabalho voluntário. Mostrar a arte brasileira, os textos e poemas brasileiros para aqueles que ainda não tiveram acesso a esses meios de expressão.  Em geral algo que me caia nas mãos.  Gosto de incentivar  a leitura, porque valorizo a educação.  Mas, posto o que quero, quando quero. Apesar do sucesso esse é meu espaço.  Sou seletiva quanto aos comentários. Mão de ferro, mesmo!  Não permito que o blog sirva de plataforma para posicionamentos religiosos ou políticos.  Palavras de baixo calão, nem pensar!  Tampouco gosto de comentários que visam aumentar a visita a outros blogs. Não faço isso com o espaço de ninguém e não permito que queiram fazer com o meu.

Gostaria  agradecer aos professores que selecionaram algumas postagens desse blog para ilustrar suas aulas, sobretudo aqueles que usaram os textos sobre o símbolo das Olimpíadas, os textos sobre as obras de Vik Muniz, e o texto sobre indumentária como processo de individualização na Renascença, todos de minha autoria.

Às crianças: aqui vai um beijinho especial para elas que adoram dinossauros, platipus e poesias.  Gostam também dos Filhotes Fofos, postagens que foram feitas com elas em mente.  Há um grande carinho também associado às quadrinhas, que na sua maioria são trovas, de conhecidos trovadores brasileiros, mas que parecem mais accessíveis com o nome de quadrinhas.  Essa é uma manifestação poética muito nossa [ibérica] que precisa e deve ser incentivada.

Quero também mencionar algumas pessoas que através dos anos têm mostrado apoio a esta peregrina, com comentários, opiniões, acenos de amizade e muito mais ( só o fato de estarem presentes é fenomenal!) Em ordem alfabética, Alexandre Kovacs, Letícia Alves, Lígia Guedes, Luca Bastos, Maria de Fátima Moraes Rodrigues, Nanci Sampaio, Paulo Araújo de Almeida, Regina Porto Valença, Ricardo Antonio Alves, Vera Regina Bastos.  E todas as outras pessoas que passam por aqui, muitos dos meus amigos do Livro Errante.

Meu marido precisa de um agradecimento especial: procura erros, dita textos, ajuda muito.

A todos o meu sincero agradecimento.  Registro também a grande surpresa pelo sucesso dessa empreitada. Sinto que minha responsabilidade aumenta a cada postagem.

Sigamos em frente ao marco de 5.000.000!




Os três companheiros, conto folclórico brasileiro

8 06 2012

Três homens num bote, ilustração Paul Rainer.

Os três companheiros

Conto folclórico, texto de Luís da Câmara Cascudo

Um bombeiro, um soldador  e um ladrão eram muito amigos e resolveram viajar por esse mundo para melhorar a vida. Tinham eles um cavalo encantado que respondia todas as perguntas. Chegaram a um reinado onde toda gente estava triste porque a princesa fora furtada por uma serpente que morava no fundo do mar.  Os três companheiros acharam que podiam fazer essa façanha e consultaram o cavalo.  Este mandou o soldador fazer um bote de folhas de Flandres. Meteram-se nele e fizeram-se de vela.

Depois de muito navegar deram num ponto que era o palácio da serpente. Quem ia descer? O bombeiro não quis nem o soldador. O ladrão agarrou-se na corda que os outros seguravam e lá se foi para baixo. Pisando chão, viu um palácio enorme guardado por uma serpente que estava de boca aberta. O ladrão subiu depressa, morrendo de medo. Voltaram para casa e foram perguntar ao cavalo o que era possível fazer. O cavalo ensinou que a serpente dormia de boca aberta e quando estava acordada ficava com a boca fechada. Debaixo da cauda tinha a chave do palácio. Quem tirasse a chave, abrisse a porta, encontrava logo a princesa.  Os três amigos tomaram o bote de folha de Flandres e lá se foram para o mar.

Chegando no ponto os dois não queriam descer. O ladrão desceu e, como estava habituado, furtou a chave tão de mansinho que a serpente não acordou. Abriu a porta, entrou, foi ao salão, encontrou a princesa, disse que vinha buscá-la e saíram os dois até a corda. Agarraram-se e os dois puxaram para cima. Largaram vela e o bote navegou para terra.

Quando estavam no meio dos mares a serpente apareceu em cima d’água, que vinha feroz. Que se faz? Era a morte certa. – Deixa vir, disse o bombeiro. Quando a serpente chegou mais para perto, o bombeiro tirou uma bomba e jogou em cima da serpente. A bomba estourou e a serpente virou bagaço. Na luta, o bote fura-se e a água estava entrando de mais a mais, ameaçando ir tudo para o fundo do mar.

Que se faz? Morte certa! Deixe comigo – disse o soldador. Tirou seus ferros e soldou todos os buracos e o bote navegou a salvamento até a praia.

Chegaram no reinado recebidos com muitas festas pelo rei e pelo povo. O rei deu muito dinheiro aos três mas o ladrão, o bombeiro e o soldador queriam casar com a princesa.

— Se não fosse eu a princesa estava com a serpente! Dizia o ladrão.

— Se não fosse eu a serpente devorava todos, dizia o bombeiro.

— Se não fosse eu iam todos para o fundo do mar! Disse o soldador.

Discute, discute, briga e briga, finalmente a princesa escolheu o ladrão, que era seu salvador e este pagou muito dinheiro aos dois companheiros. O ladrão casou e mudou de vida e todos viveram satisfeitos.

Em: Contos Tradicionais do Brasil (folclore) de Luís da Câmara Cascudo, Rio de Janeiro, Ediouro:1967





Uma seleção: melhores frases de abertura de romance em língua portuguesa

6 06 2012

Habitante de Patópolis, lendo na biblioteca, ilustração Walt Disney.

No dia 29 de abril publiquei aqui uma listagem, por voto popular das melhores frases de abertura de romances em lingua inglesa, como saiu publicado no jornal The Guardian:

As melhores frases de abertura de romance em língua portuguesa? Dê o seu palpite!

Logo amigos e conhecidos do blog deram alguns palpites e hoje posto essa listagem.  Gostaria de ressaltar, no entanto, que os autores teriam que ser de língua portuguesa.  Alguns se lembraram de obras de Camus e de Flaubert.  Já mais alguém reclamou da lista original não incluir a frase de abertura de Moby Dick, de Herman Melville: “Chamai-me Ismael“.  Mas a brincadeira foi justamente para livros na nossa língua para que pensássemos naquilo que lemos de literatura em português.  A grande surpresa foi o número de autores não brasileiros listados e sobretudo a popularidade dos autores africanos na nossa pesquisa que não tem nada de científica.  Então sem mais delongas, aqui vão as sugestões, lembrando que estarei sempre à disposição de aumentar essa lista a qualquer momento.

Alice sugeriu:

As palavras, como os seres vivos, nascem de vocábulos anteriores, desenvolvem-se e fatalmente morrem.

Em: Milagrário Pessoal, de José Eduardo Agualusa.

A minha vida se resume a uma larga e sinuosa curva para o amor”.

Em O Planalto e a Estepe, de Pepetela

Elizete sugeriu:

‎”Quem és tu que danças descalço na noite escura?”

Em: Não Te Deixarei Morrer David Crockett, de Miguel Souza Tavares.

‎” Não basta morrer para conhecer o sorriso de Deus – mesmo que, como foi o meu caso, se tenha vivido abismada nele uma vida inteira.”

Em: Fazes-me Falta de Inês Pedrosa.

Hira sugeriu:

A morte é como o umbigo: o quanto nela existe é a sua cicatriz, a lembrança de uma anterior existência.

Em: Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, de Mia Couto

Ladyce sugeriu:

 “Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte”.

Em:  Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis.

“Embora os descaminhos futuros, Sandro Lanari nasceu pintor.”

Em: O pintor de retratos, Luiz Antonio de Assis Brasil

Luca sugeriu:

Tudo no mundo começou com um sim“.

Em: A hora da estrela, de Clarice Lispector

Marilda sugeriu:

“Era uma noite fria de lua cheia.”

Em: O Continente, de Érico Veríssimo.

Nonada”.

Em: Grande Sertão:Veredas, de Guimarães Rosa.

Nanci

A TUA CABEÇA RODOU na direcção do meu rosto, os teus olhos fecharam-se e a tua boca avançou para a minha, através de uma lenta rota de luz, risos e lágrimas”.  Em: Nas tuas mãos, de Inês Pedrosa

Ricardo, do blog O Último Abencerragem:

Arcóbriga e Meríbriga são cidades mortas desde que os habitantes foram obrigados a descer para o vale”.  Em: A Voz dos Deuses — Memórias de um Companheiro de Armas de Viriato, de João Aguiar.

“(Sei que andas por aí, oiço os teus passos em certas noites, quando me esqueço e fecho as portas começas a raspar devagarinho, às vezes rosnas, posso mesmo jurar que já te ouvi a uivar, cá em casa dizem que é o vento, eu sei que és tu, os cães também regressam, sei muito bem que andas por aí.)” Em: Cão como Nós, de Manuel Alegre.

Sempre que do portão se avizinhava mero turista ou descobridor de mistérios e o sino ficava longo tempo a retinir pela ribeira, ouviam-se pesados bate-lajedos de caseiro em movimento”. Em: A Torre de Barbela, Rubem A.

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NOTA:  As citações acredito que estejam todas corretas.  O que estava a meu alcance verifiquei, mas não tenho acesso a todos esses romances.





E lá vai Vênus, passando em frente ao sol…

5 06 2012

Nesta terça e na quarta poderá ser visto o raríssimo trânsito de Vênus:  o trânsito de Vênus ocorre quando o planeta passa em frente ao Sol. A próxima vez que ele ocorrer vai ser em 2117. O evento é um dos mais aguardados no calendário astronômico.No Brasil, apenas o extremo noroeste (Acre, Roraima e oeste da Amazônia) poderá ver, hoje ao por do sol.

Sobre essa ocasião, o astrônomo Gustavo Rojas, encarregado do observatório da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) disse:  “Ele tem uma frequência que é meio estranha. A última vez que aconteceu foi oito anos atrás, em 2004, e a próxima será em 2117. O ciclo todo demora 243 anos. Acontece uma vez, acontece oito anos depois, daí se passam 121 anos e meio, aí acontece mais dois com oito anos de diferença e depois mais uma pausa de 105 anos e meio; é um  fenômeno periódico, mas não de uma periodicidade do tipo a que estamos acostumados.”

Podemos ver apenas os trânsitos de Vênus e de Mercúrio. O motivo é muito simples: só vemos passar na frente do Sol corpos que estão entre nós e a nossa estrela. O trânsito do primeiro planeta do Sistema Solar é bem mais frequente, tivemos um em 2006 e depois teremos em 2016, 2019 e 2032, afirma Rojas.

O trânsito de Vênus já foi usado para medir a distância média da Terra ao Sol – a famosa unidade astronômica (UA), uma das unidades de distância usadas pelos cientistas. Além disso, o tamanho desse planeta já foi calculado com um desses eventos e até foi descoberto que ele tem atmosfera. Contudo, hoje temos métodos mais precisos para descobrir esses dados. “Não tem mais relevância científica (…) mas você continua investigando, porque, de repente, pode ocorrer um evento que você não está prevendo“, diz o pesquisador.

Contudo, os trânsitos de planetas fora do Sistema Solar hoje são utilizados exatamente para descobri-los. A passagem desses corpos em frente as suas estrelas causa mudanças no brilho, o que permite aos astrônomos registrá-los. A Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês) vai observar o evento de terça-feira para tentar melhorar ainda mais essa técnica.

Fonte: TERRA





Pequenos gestos, novos hábitos e um mundo melhor para todos!

5 06 2012

Vamos nos mobilizar, trocar os nossos próprios hábitos para dar exemplo a quem ainda não faz:

LIXO é para A LATA DE LIXO!

Lixo é:

Ponta de cigarro,  aquela parte do cigarro que ninguém fuma, filtro, bituca.

Embalagens de papel, plástico, metal ou vidro, canudinhos, tampinhas

Papelzinho de bala, long-neck, latinha de refrigerante, de cerveja.

Copos de água e garrafas de plástico de água, refrigerante, suco.

Chiclete, papelzinho dado na rua com telefone de cartomante, de  compra de joias, de ouro, etc.

Tudo isso aí acima pertence à lata de lixo.

Carregue esses itens até a lata de lixo mais próxima.