Retrato de Gertrude Russell, 1915
Frank Weston Benson (EUA,1862-1951)
óleo sobre tela, 137 x 103 cm
“Deus é bom mas liga pouco a pormenores.”
Em: Debaixo de algum céu, Nuno Camarneiro, Rio de Janeiro, Leya: 2013, p.61
Retrato de Gertrude Russell, 1915
Frank Weston Benson (EUA,1862-1951)
óleo sobre tela, 137 x 103 cm
Em: Debaixo de algum céu, Nuno Camarneiro, Rio de Janeiro, Leya: 2013, p.61
Cartão de Natal, década de 1950.
Conceição era uma pobre mas interessante menina, cujos pais haviam morrido. Era tão pobre, que não tinha nem um quarto, nem cama para se deitar; não possuía senão os vestidos que tinha sobre o corpo e um pequeno pedaço de pão que uma alma caridosa lhe havia dado; era, porém, boa e piedosa.
Como se achava abandonada de todo o mundo, pôs-se em viagem, confiando-se à guarda do bom Deus.
No caminho encontrou um pobre homem, que lhe disse:
— Ai de mim! Tenho muita fome! Dai-me um pouco de comer.
A menina deu-lhe o pai, dizendo:
— Deus te auxilie. — e continuou a caminhar.
Depois encontrou um menino que chorava, dizendo:
— Tenho frio, dai-me alguma coisa para cobrir-me.
Ela tirou o gorro e deu-lho.
Mais tarde ainda viu outro que estava trânsido de frio por falta de uma camisola, e deu-lhe a sua. Finalmente, um último pediu-lhe a saia, que ela deu também.
Caindo a noite, chegou a um bosque pedindo-lhe a camisa outro menino. A piedosa menina pensou:
— É noite escura, ninguém me verá. Posso bem dar-lhe a minha camisa. E deu-lha.
Assim nada mais possuía no mundo. Mas no mesmo instante as estrelas do céu puseram-se a cair e no chão elas se transformaram em belas moedas reluzentes. E embora ela tivesse tirado a camisa, tinha uma completamente nova, do mais fino tecido. Ela apanhou o dinheiro e ficou rica para o resto de sua vida.
Em: Histórias do Arco da Velha — Livro para crianças, de Viriato Padilha, Rio de Janeiro, Quaresma: 1947,pp: 91-92.
Ilustração anônima.
Ferreira Gullar
Dizem que gato não pensa
mas é difícil de crer.
Já que ele também não fala
como é que se vai saber?
A verdade é que o Gatinho,
quando mija na almofada,
vai depressa se esconder:
sabe que fez coisa errada.
E se a comida está quente,
ele, antes de comer,
muito calculadamente,
toca com a pata pra ver.
Só quando a temperatura
da comida está normal,
vem ele e come afinal.
E você pode explicar
como é que ele sabia
que ela ia esfriar?
Rua do centro histórico de Salvador, BA, 1968
Carlos Bastos (Brasil, 1925-2004)
óleo sobre tela, 46 x 65 cm
Antônio Parreiras (Brasil, 1860-1937)
óleo sobre tela, 28 x 31 cm
Museu Antônio Parreiras, Niterói, RJ
Ana Mello
Emiliano Di Cavalcanti ( Brasil, 1897-1976)
óleo sobre tela, 35 x 28 cm
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Rosario Mangá.
Meu grupo de leituras da internet abriu uma discussão sobre a obra do autor Yasunari Kawabata, ganhador do Nobel em 1968. Neste grupo discutimos autores. Todas as obras. Cada um menciona aquela obra que conhece. E a conversa rola, através das semanas. Eu havia lido dois livros de Kawabata, Mil Tsurus, em 2009 e Kioto não me lembro quando. Havia gostado, mas não havia lido a obra que parece encantar a um número enorme de críticos: A Casa das Belas Adormecidas. Por isso mesmo pouco participei da discussão. Ainda mais, que descobri que as Belas Adormecidas haviam inspirado Gabriel Garcia Marquez ao escrever Memórias de Minhas Putas Tristes, outro livro que nunca li. Senti-me portanto mais ou menos na obrigação de considerar a leitura dessa obra de Kawabata.
Contrária à opinião da maioria dos leitores, não gostei de A Casa das Belas Adormecidas. De fato, cheguei a me forçar a ler essa até a última página, tal foi o meu repúdio ao romance — que nada mais é do que um conto! Concordo com muitos que a linguagem, mesmo em tradução, é sensível. Concordo também que o personagem principal, um senhor de 67 anos, que tem a oportunidade de divagar sobre a vida passada, relembra-a de maneira quase poética. Mas isso não foi suficiente para me agradar.
O problema com a obra: ter que aceitar a mulher tratada como coisa, em um nível de sofisticação muito além do imaginável. A mulher objeto ainda mais desumanamente abusada: jovens de carne e osso que têm o papel de bonecas de borracha, existindo unicamente para dar prazer a homens velhos, impotentes. O abuso – são drogadas a tal ponto que dormem pesadamente a noite toda e não sabem o que acontece com seus corpos drogados – é de um requinte malicioso que me impediu de julgar serenamente o texto. Talvez à época de sua publicação, 1961, esse aspecto da trama não fosse tão censurável quanto hoje. Mas hoje é impossível que esse, ou um ato semelhante, possa ser tratado de maneira tão banal, que seja aceito sem uma rigorosa e visceral rejeição. Como não há um personagem que se oponha a esse abuso, e como as meninas não sabem o que lhes acontece e portanto não podem fugir, nem reclamar, o leitor se vê psicologicamente alinhado ao homem que desfrutará desse abuso, o leitor se vê como cúmplice de uma ação que despreza.
Yasunari Kawabata
Reconheço que Yasunari Kawabata tinha em primeiro lugar a intenção de dissertar sobre masculinidade, sobre a impotência como consequência da velhice, sobre a frustração e a humilhação sofridas por aqueles que vivem muito além dos anos de fertilidade, dos anos de proezas sexuais. Mas hoje, esses assuntos provavelmente seriam abordados de maneira diferente. Não é uma questão de ser politicamente correto. É que a moral mudou nos últimos cinquenta anos. É isso.