Ilustração: Ziraldo
A Pátria, meus coleguinhas,
É o recanto onde nascemos;
É a família, o Lar, a Escola…
É a Terra onde vivemos!
(Walter Nieble de Freitas)
Ilustração: Ziraldo
A Pátria, meus coleguinhas,
É o recanto onde nascemos;
É a família, o Lar, a Escola…
É a Terra onde vivemos!
(Walter Nieble de Freitas)
Batalha de Pirajá, desenho de projeto para mural.
Carybé (Brasil, 1911-1997)
por Viriato Correia
Quando se proclamou a independência foi a Bahia que mais custou a sair do jugo de Portugal.
O general Madeira de Melo não quis obedecer ao governo brasileiro. Para ele o Brasil era uma propriedade dos portugueses e, portanto, aos portugueses devia continuar sujeito, sem nenhum direito de libertar-se.
E comandando grandes forças armadas, compostas de gente portuguesa, tomou conta da província e não consentiu que os baianos gozassem, como os outros brasileiros, da independência proclamada.
Aquilo feriu a fundo o coração dos patriotas da Bahia. Era pela força que Madeira queria impor o jugo de Portugal, só pela força a província proclamaria a sua liberdade.
E a Bahia inteira, a Bahia brasileira, pegou em armas para bater-se contra os inimigos da independência.
Foram penosos os primeiros encontros. Madeira é que tinha armas, munições, navios e dinheiro que lhe vinham constantemente de Portugal.
O governo brasileiro estava no momento cheio de dificuldades e quase não podia ajudar os patriotas baianos.
Os patriotas baianos, porém, defendiam-se e resistiam como leões.
A melhor maneira de vencer as forças de Madeira era encurralá-las de modo que não pudessem receber auxílios. Para isso os baianos formaram postos de ataque aqui, ali, além, por toda a região que na Bahia se conhece pelo nome de Recôncavo.
Um desses postos, justamente o mais forte deles, o mais destemido, aquele em que se reuniam os mais valentes defensores da terra baiana, era o de Pirajá.
Um dia, quando o general Madeira abriu os olhos, Pirajá estava embaraçando os passos do seu exército. O general não podia receber víveres e reforços: tinham-lhe sido tomados os caminhos de terra e mar.
Era necessário, portanto, destruir Pirajá o mais depressa possível.
******
E as forças portuguesas atiram-se contra o posto brasileiro.
É a 8 de novembro de 1822, antes de raiar a manhã.
Deve ser segura, infalível a vitória. As tropas de Madeira, além de bem armadas e mais numerosas, vão fazer o ataque de surpresa.
Está ainda escuro quando os batalhões inimigos desembarcam cautelosamente nas praias de Itacaranhas e Plataforma, ao mesmo tempo que, pelos outros lados, o grosso do exército avança rapidamente.
Quando as sentinelas baianas, colocadas em Coqueiro e Bate-Folha, percebem o avanço, não é mais possível fazer nada.
É ao clarear do dia que pipocam os primeiros tiros.
Pirajá inteiro ergue-se para a peleja.
Começa o combate. Madeira, em pessoa, dirige os seus corpos. O que ele pretende é investir por Itacaranhas para cortar a retaguarda dos brasileiros. Mas os nossos vão resistindo e resistindo heroicamente.
Uma hora inteira de fogo.
O general português, surpreendido com aquela resistência, ordena que novas centenas de soldados avancem. Mas os baianos não se deixam vencer.
Mais uma hora de fogo.
Os portugueses vão pouco a pouco conquistando o terreno.
Barros Falcão, que comanda os nossos, percebe claramente a vitória inevitável do inimigo. Mas é preciso lutar. E luta-se mais uma hora.
Madeira está inquieto com a resistência. Agora ordena a novos corpos que avancem em grandes massas. Mas o fogo das linhas brasileiras não cessa um instante.
Novos corpos investem contra os nossos. Outra hora de peleja e de fogo.
******
Havia cinco horas que aquilo durava. Os portugueses tinham ganho tanto terreno que, em poucos momentos, os brasileiros estariam num círculo de balas.
Um minuto mais vai dar-se a ruína completa dos baianos. Não há mais resistência possível. Continuar a luta é sacrificar inutilmente centenas de vidas.
Barros Falcão, de um galope, percebe que chegou o momento de retirar-se. A dois passos está Luís Lopes, o cometa, que ele conservou sempre ao seu lado, esperando aquele instante desesperador.
— Toque retirada! ordena.
O cometa não se move.
— Toque retirada, já lhe disse! grita o comandante pela segunda vez.
O cometa vira-lhe as costas.
Barros Falcão avança de espada em punho para obrigar o insubordinado a cumprir as suas ordens, mas, nesse momento, Luís Lopes cola a cometa à boca e claros sons metálicos retinem nos ares.
O comandante agita-se, surpreendido. — Que é isso? que é isso?
Não é o sinal de retirada que está ouvindo. É que a corneta está soprando loucamente no espaço é o sinal de “avançar cavalaria e degolar”.
Pararam todos, alarmados: o comandante, os oficiais, os soldados. Que cavalaria é aquela que aquele doido está mandando avançar?
******
No exército português é brutal a surpresa. É a confusão. E o pavor.
É a debandada louca.
Fogem todos alucinadamente daquela cavalaria que não existe.
Fogem todos, todos feridos por aquele toque de corneta que vale mais do que cinco horas de tiroteio, mais do que a própria voz dos canhões.
Em: Meu Torrão : contos da história pátria, Viriato Correa, 1953, 4ª edição.
Manuel Viriato Correia Baima do Lago Filho (Pirapemas, MA 1884 — Rio de Janeiro, RJ 1967) – Pseudônimos: Viriato Correia, Pequeno Polegar, Tibúrcio da Anunciação. Diplomado em direito, jornalista, contista, romancista, teatrólogo, autor de literatura infantil e crônicas históricas, professor de teatro, membro da ABL e político brasileiro.
Obras:
Minaretes, contos, 1903
Era uma vez…, infanto-juvenil, 1908
Contos do sertão, contos, 1912
Sertaneja, teatro, 1915
Manjerona, teatro, 1916
Morena, teatro, 1917
Sol do sertão, teatro, 1918
Juriti, teatro, 1919
O Mistério, teatro, 1920
Sapequinha, teatro, 1920
Novelas doidas, contos, 1921
Contos da história do Brasil, infanto-juvenil, 1921
Terra de Santa Cruz, crônica histórica, 1921
Histórias da nossa história,crônica histórica, 1921
Nossa gente, teatro, 1924
Zuzú, teatro, 1924
Uma noite de baile, infanto-juvenil,1926
Balaiada, romance, 1927
Brasil dos meus avós, crônica histórica, 1927
Baú velho, crônica histórica, 1927
Pequetita, teatro, 1927
Histórias ásperas, contos, 1928
Varinha de condão, infanto-juvenil, 1928
A Arca de Noé, infanto-juvenil, 1930
A descoberta do Brasil, infanto-juvenil,1930
A macacada, infanto-juvenil, 1931
Bombonzinho, teatro, 1931
Os meus bichinhos, infanto-juvenil, 1931
No reino da bicharada, infanto-juvenil, 1931
Quando Jesus nasceu, infanto-juvenil, 1931
Gaveta de sapateiro, crônica histórica, 1932
Sansão, teatro, 1932
Maria, teatro, 1933
Alcovas da história, crônica histórica, 1934
História do Brasil para crianças, infanto-juvenil, 1934
Mata galego, crônica histórica, 1934
Meu torrão, infanto-juvenil,1935
Bicho papão, teatro, 1936
Casa de Belchior, crônica histórica, 1936
O homem da cabeça de ouro, teatro, 1936
Bichos e bichinhos, infanto-juvenil, 1938
Carneiro de batalhão, teatro, 1938
Cazuza, infanto-juvenil, 1938
A Marquesa de Santos, teatro, 1938
No país da bicharada, infanto-juvenil, 1938
História de Caramuru, infanto-juvenil, 1939
O país do pau de tinta, crônica histórica, 1939
O caçador de esmeraldas, teatro, 1940
Rei de papelão, teatro, 1941
Pobre diabo, teatro, 1942
O príncipe encantador, teatro, 1943
O gato comeu, teatro, 1943
À sombra dos laranjais, teatro, 1944
A bandeira das esmeraldas, infanto-juvenil, 1945
Estão cantando as cigarras, teatro, 1945
Venha a nós, teatro, 1946
As belas histórias da História do Brasil, infanto-juvenil, 1948
Dinheiro é dinheiro, teatro, 1949
Curiosidades da história do Brasil, crônica histórica, 1955
O grande amor de Gonçalves Dias, teatro, 1959.
História da liberdade do Brasil, crônica histórica, 1962
Igreja de Santo Antônio da Barra, 1951
José Pancetti ( Brasil, 1902-1958)
Óleo sobre tela, 60 x 73 cm
Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro
O BRASIL
Renato Sêneca Fleury
Perguntei ao céu tão lindo,
— Por que é todo cor de anil?
Ele me disse, sorrindo:
— Eu sou o céu do Brasil!
Perguntei ao Sol, então,
A causa de tanta luz.
— Sou a glorificação
Da Terra de Santa Cruz!
Depois perguntei à Lua:
— Por que noites de luar?
— É para enfeitar a tua
Grande Pátria à beira-mar.
Perguntei às claras fontes:
— Por que correis sem cessar?
— Nós brotamos destes montes
Para a terra fecundar!
Então eu disse à floresta:
— És tão bela, verde inteira!
Ela respondeu em festa:
— Sou a mata brasileira!
Perguntei depois às aves:
— Por que estais a cantar?
— Cantamos canções suaves
Para tua Pátria saudar.
Céu e sol, luar e cantos,
Florestas e fontes mil
Enchem de eternos encantos
És minha Pátria, — o Brasil!
Renato Sêneca de Sá Fleury ( SP 1895- SP 1980) Pseudônimo: R. S. Fleury, ensaísta, pedagogo, escritor de Literatura Infantil, professor, professor catedrático de Pedagogia e Psicologia, jornalista, membro da Academia de Ciências e Letras de São Paulo, membro fundador do Centro Sorocabano de Letras.
Obras:
Anchieta
Ao Passo das Caravanas
Barão do Rio Branco, 1947
Contos e Lendas Orientais 1941
Francisco Adolfo de Varnhagen 1952
História do Pai João 1939
José Bonifácio
Osvaldo Cruz
Rui Barbosa
Almirante Tamandaré
Santos Dumont
A Vingança do João de Barro/ A Jóia Encantada/ Quem faz o Bem
Ao Passo das Caravanas
As Amoras de Ouro
Breves Histórias Orientais
Cálculo Escolar, 1945
Como é bom trabalhar!
Consultor Popular da Língua Portuguesa
Contos e lendas do deserto
Contos e lendas orientais
Correspondência para todos, 1944
D. Pedro II, 1967
Duque de Caxias,
Emendas à gramática
Gusmão, o padre voador, 1957
Heroínas e mártires brasileiras
História do Corcundinha
Histórias de Bichos, 1940
No reino dos bichos, 1940
O caminho de ouro, 1957
O esposo, a esposa, os filhos
O Padre Feijó
O Padre Gusmão
O Pássaro de ouro
O Pequeno polegar
Os vasos de ouro e as rosas do dragão
Proezas na roça
Prudente de Morais
Visconde de Mauá
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Giuseppe Gianinni Pancetti (Campinas SP 1902 – Rio de Janeiro RJ 1958). Pintor. Muda-se para a Itália em 1913. Em 1919, ingressa na Marinha Mercante italiana e viaja por três meses pelo Mediterrâneo. Em 1920, de volta para o Brasil, executa diversos ofícios; trabalhando em fábrica de tecidos, como ourives e garçom, entre outros. Conhece o pintor Adolfo Fonzari (1880-1959) e auxilia-o na pintura decorativa de uma residência. Em 1922, alista-se na Marinha de Guerra brasileira, onde trabalha por mais de vinte anos. Em 1933 ingressa no Núcleo Bernardelli e recebe orientação de Manoel Santiago (1897-1987), Edson Motta (1910-1981), Rescála (1910-1986) e principalmente do pintor polonês Bruno Lechowski (1887-1941). Participa das exposições do Salão Nacional de Belas Artes, sendo premiado em várias edições. É considerado um dos principais pintores de marinhas do país.
Fonte: Itaú Cultural
O Imperador D. Pedro I, 1826
Manuel de Araújo Porto-alegre (Brasil, 1806-1879)
Óleo sobre tela
Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro
—-
PROCLAMAÇÃO – DE 8 DE SETEMBRO DE 1822
Sobre a divisa do Brasil – Independência ou Morte.
HONRADOS PAULISTANOS
O amor que Eu consagro ao Brazil em geral, e à vossa Provincia em particular, por ser aquella, que perante Mim e o Mundo inteiro fez conhecer primeiro que todos o systema machiavelico, desorganisador e faccioso das Côrtes de Lisboa, Me obrigou a vir entre vós fazer consolidar a fraternal união e tranquilidade, que vacillava e era ameaçada por desorganizadores, que em breve conhecereis, fechada que seja a Devassa, a que Mandei proceder. Quando Eu mais que contente estava junto de vós, chegam noticias, que de Lisboa os traidores da Nação, os infames Deputados pretendem fazer atacar ao Brazil, e tirar-lhe do seu seio seu Defensor: Cumpre-Me como tal tomar todas as medidas, que Minha Imaginação Me suggerir; e para que estas sejam tomadas com aquella madureza, que em taes crises se requer, Sou obrigado para servir ao Meu Idolo, o Brazil, a separar-Me de vós (o que muito Sinto), indo para o Rio ouvir Meus Conselheiros, e Providenciar sobre negocios de tão alta monta. Eu vos Asseguro que cousa nenhuma Me poderia ser mais sensivel do que o golpe que Minha Alma soffre, separando-Me de Meus Amigos Paulistanos, a quem o Brazil e Eu Devemos os bens, que gozamos, e Esperamos gozar de uma Constituição liberal e judiciosa, Agora, paulistanos, só vos resta conservardes união entre vós, não só por ser esse o dever de todos os bons Brazileiros, mas tambem porque a Nossa Patria está ameaçada de soffrer uma guerra, que não só nos ha de ser feita pelas Tropas, que de Portugal forem mandadas, mas igualmente pelos seus servis partidistas, e vis emissarios, que entre Nós existem atraiçoando-Nos. Quando as Autoridades vos não administrarem aquella Justiça imparcial, que dellas deve ser inseparavel, representai-Me, que eu Providenciarei. A Divisa do Brazil deve ser – INDEPENDENCIA OU MORTE – Sabei que, quando Trato da Causa Publica, não tenho amigos, e validos em occasião alguma.
Existi tranquillos: acautelai-vos dos facciosos sectarios das Côrtes de Lisboa; e contai em toda a occasião com o vosso Defensor Perpetuo. – Paço, em 8 de Setembro de 1822.
PRINCIPE REGENTE´
——-
Manuel José de Araújo Porto-alegre, primeiro e único barão de Santo Ângelo (Rio Pardo, 2 de novembro de 1806 — Lisboa, 29 de dezembro de 1879), escritor, pintor, caricaturista, arquiteto, crítico e historiador de arte, professor e diplomata brasileiro.
O teu segredo famoso
eu bem o sei, direitinho…
chegou depressa, ditoso,
nas asas de um passarinho.
(Luiz Pereira de Faro)
Vênus do espelho, 1650 [Também conhecida como Vênus Rockeby]
Diego Velázquez (Espanha 1599-1660)
Óleo sobre tela, 122,5 x 177 cm
National Gallery, Londres.
Vênus ao espelho
[inspirado num quadro de Velazquez]
Raquel Naveira
Nua,
Reclinada sobre musgo de veludo,
Vênus mira-se ao espelho,
Quadro de cristal polido,
Seguro por Cupido.
Adorna os cabelos com violetas singelas,
Morde maçã
E canela,
Acaricia os seios
Que brilham como luas.
Toda ela é úmida:
Anêmona de primavera,
Espuma marinha,
Rosa encharcada;
A umidade é o princípio que gera
E fecunda
Criaturas nacaradas.
Momento de banho,
De repouso,
De idéia clara;
Contemplar-se
É seu gozo.
Tão atraente,
Tão fora de qualquer limite,
Como vencer essa força dissolvente?
Quem não seria seduzido por ela?
Quem quebraria esse espelho ardente?
Que mortal,
Que divindade defenderia a honra
E a arte?
—
Em: Stella Maia e outros poemas, Campo Grande, MS; Editora UCDB:2001
Raquel Naveira (Campo Grande, MS 1957) Poetisa, ensaísta, graduada em Letras e Direito, professora no Curso de Letras da Universidade Católica Dom Bosco de Campo Grande (MS), mestranda em Comunicação e Letras, na Universidade Presbiteriana Mackienzie (SP), e empresária de turismo (Pousada Dom Aquino, em Campo Grande – MS), Raquel Naveira destaca-se por seu talento e engajamento nas atividades culturais do centro-oeste brasileiro. A escritora tem recebido reconhecimento nacional através de inúmeras premiações e várias indicações para prêmios. Em sua obra, são constantes a religiosidade, o misticismo e os temas épicos.
Obra:
Via Sacra, poesia, 1989
Fonte luminosa, poesia, 1990
Nunca Te-vi, poesia, 1991
Fiandeira, ensaios, 1992
Guerra entre irmãos, poesia, 1993
Canção dos mistérios, poesia, 1994
Sob os cedros do Senhor, poesia, 1994
Abadia, poesia, 1995
Mulher Samaritana, 1996
Maria Madalena, prosa poética, 1996
Caraguatá, poesia, 1996
Pele de jambo, infanto-juvenil, 1996
O arado e a estrela, poesia, 1997
Intimidades transvistas, 1997
Rute e a sogra Noemi, prosa poética, 1998
A casa da Tecla, poesia, 1998
Senhora, poesia, 1999
Stella Maia e outros poemas, 2001
Casa e castelo, poesia, 2002
Maria Egipcíaca, poesia, 2002
Tecelã de tramas: ensaios sobre interdisciplinaridade, ensaios, 2004
Portão de ferro, poesia, 2006
Literatura e Drogas e outros ensaios, crítica literária, 2007
Não queria deixar de divulgar aqui a maravilhosa notícia da jovem brasileira, morando em São Gonçalo, RJ, que vai estudar em Harvard com bolsa de estudos total. Produto de escolas públicas, e filha de professores, ela com perseverança conseguiu atingir um objetivo desejado por muitos. Que sirva de exemplo para tantos outros alunos e professores de todo o território nacional.
——
Uma gonçalense de 18 anos é a única estudante brasileira aprovada para estudar na Universidade de Harvard, no EUA, este ano. E com bolsa integral. A façanha de Flávia Medina da Cunha é considerada tão especial que será tema de palestra de orientadores educacionais, nesta quarta-feira de manhã, no auditório do Colégio Militar do Rio de Janeiro, na Tijuca, onde ela cursou o Ensino Médio.
Na mesma época dos exigentes exames para Harvard, ela passou nos vestibulares da UFRJ, UFF e Uerj e na prova de admissão da Academia da Força Aérea (AFA). “Estudei tantas horas que perdi a conta de quantas”, confessa Flávia, que vai cursar Engenharia Química. Ela já havia começado o curso na UFRJ.
Flávia Medina da Cunha
Fã da obra de Machado de Assis, ela precisou se debruçadar sobre livros especializados na cultura norte-americana. Flávia obteve ainda 90% de bolsa na Universidade da Pensilvânia. “Fiquei na lista de espera da Yale University, Duke University, Rice University e Tufts”, enumerou Flávia, cujos dois irmãos estudam na Escola Naval. Os pais, que são professores, estão orgulhosos, mas não escondem a preocupação. “O coração está apertado, mas ela é perseverante e carismática”, conta a mãe, Gilza da Cunha, 57 anos.
Em Harvard, a estudante terá alojamento, refeição e receberá US$ 3 mil (R$ 5,3 mil) por mês, além da oportunidade de emprego no campus. Flávia embarca hoje à noite no voo 860 da United Airlines. Na bagagem, a bandeira do Brasil e a medalha de Santo Antônio. No coração, a saudade de casa. “Não vou chorar”, avisa Flávia.
Campus universitário de Harvard.
“Muita gente sonha em ir à Disney e realiza o sonho. Por que não sonhar em aprimorar os conhecimentos no exterior?”, lança o desafio o gerente de pesquisas do escritório da Harvard no Brasil, Tomás Amorim. Interessados em vaga na universidade em que estudou o presidente dos EUA Barack Obama devem acessar o endereços http://www.admissions.college.harvard.edu/apply/international/faq.html. É necessário fluência em inglês. Cursos como de Flávia custam R$ 92,5 mil por ano.
FONTE; JORNAL O DIA — dia 19 de agosto de 2009
“D. Pedro, como príncipe, recebia muito pouco dinheiro. A sua pensão era ridícula: um conto de réis! E não havia força de D. João sair daquilo. O rei era um sovina tremendo. D. Pedro, temperamento de irrefletido, inteiramente oposto ao do pai, gastava às mãos cheias, estouradamente, esbanjadamente. Por isso mesmo, enquanto príncipe, D. Pedro viveu em aperturas desesperadas. Mais duma vez, nos seus apuros, o herdeiro do trono recorreu a empréstimos envergonhantes. O Pilotinho, bodegueiro da Rua dos Borbonos, forneceu-lhe certa ocasição, doze contos de réis. Manuel José Sarmento, pessoa pacata, antigo oficial da secretaria, socorreu-o muitíssimas vezes com quantias fortes. Ora, diante da usura do pai, para sair daquela situação humilhante de empréstimos e mais empréstimos, o príncipe tomou uma resolução heróica: resolveu ganhar dinheiro! Resolveu ganhar dinheiro a todo o transe, de qualquer jeito, desse no que desse. E que é que engendrou aquela cabeça de vento? Apenas isto: fazer uma sociedade mercantil com o Plácido. [ Plácido Imaginar e executar foi um pronto. Apalavraram logo o contrato. E ambos, unindo os seus destinos, meteram-se a negociar. Um príncipe, o herdeiro do trono, a negociar de parceria com o seu barbeiro! Imaginai um pouco… E negociar em quê: Na única coisa de que D. Pedro realmente entendia: compra e venda de animais.,,
A sociedade principiou a funcionar sem demora. D. Pedro, em companhia do Plácido, ia quase toda manhã ver as tropas que chegavam. Escolhia, num relance, os animais mais belos. Um golpe de vista espantoso! Apartava-os, pagava-os, mandava-os para as cavalariças do Paço. Diziam os tropeiros que “o moço tinha faro: enxergava logo a flor da manada…”
Depois, na cidade, a engrenagem do negócio era das mais simples. Uns dias de trato, os animais engordavam, o pelo reluzia. O Plácido saía então em busca dos compradores. Uma facilidade. Bastava dizer a um daqueles fidalgotes endinheirados:
— O príncipe resolveu vender um belo animal. Belíssimo animal! É um dos mais soberbos das cavalariças do Paço. Por que Vossa Mercê não aproveita a ocasião?
O homem não titubeava. Corria ao Paço, via o cavalo, achava-o perfeito, comprava por qualquer preço. E saía honradíssimo, cheio de orgulho, a esparramar pela corte que adquirira um “cavalo das cavalarias reais…”
A sociedade, evidentemente, começou a prosperar. Os dois parceiros puseram-se a ganhar dinheiro à vontade. Dinheiro a rodo. D. Pedro andava contentíssimo! O negócio era dos melhores, dos mais certos.
— Um negocião da China, como dizia alvoroçadamente o príncipe ao barbeiro; um negociação da China! E dizer que até hoje ninguém ainda teve essa idéia!
Mas, um dia, por fatalidade, aquela história foi parar aos ouvidos do rei. D. João VI branqueou. Nunca, na sua vida, o pobre monarca enfureceu tanto! Aquela leviandade do príncipe revirou-lhe os nervos. Sacudiu-o. Mandou chamar imediatamente o filho.
D. Pedro, ao entrar, deparou com o pai de pé, revolucionado, o cenho torvamente cerrado. O rei tinha na mão sua grossa bengala de castão de ouro. E numa fúria, espumejando:
— Então seu grandíssimo canalha, vosmecê a negociar em animais? E a negociar em parceria com o Plácido, o barbeiro? Pois, vosmecê, o herdeiro do trono, não tem vergonha nessa cara? O que eu deveria fazer, seu cachorro, era quebrar-lhe a cara com essa bengala? Quebrar-lhe a cara, ouviu?
E erguia a bengala no ar, e bramia, e descompunha, e gaguejava de cólera. D. Pedro não negou. Confessou tudo com firmeza. D. João mandou buscar o Plácido. E ali mesmo:
— Você, de hoje em diante, está proibido de se meter em qualquer negócio com o príncipe. A sociedade está liquidada. Lucro, se houve, que fique com você. Não admito que meu filho toque num real dessa patifaria.
E desfez a sociedade.
Está claro que havia muitíssimo lucro no negócio. E o Plácido, o felizardo, ficou-se com aquele dinheirão todo. Principiou desde aí, com esse capital, a prosperar na vida. Ficou riquíssimo. Terminou numa das mais grandiosas fortunas do Primeiro Império.”
Em: As maluquices do imperador, Paulo Setúbal, São Paulo, 1947: Clube do livro., páginas 64-66.
NOTA DA PEREGRINA: O amigo de D. Pedro era Plácido Pereira de Abreu, que mais tarde se casou com a filha do Marquês de Inhambupe.
—-
Paulo Setúbal de Oliveira, ( Tatuí, SP 1893 — SP, SP, 1937) advogado, jornalista, ensaísta, poeta e romancista. Formou-se em Direito em 1914. Trabalhou como colaborador do jornal O Estado de São Paulo. Foi eleito deputado estadual (1928 / 1930), renunciou ao mandato por problemas de saúde. Em 06 de dezembro de 1934 foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras
Obras:
Alma cabocla, poesia (1920);
A marquesa de Santos, romance-histórico 1925
O príncipe de Nassau, romance histórico, 1926
Um sarau no pátio de São Cristóvão, teatro, 1926
As maluquices do Imperador, contos-históricos, 1927
A bandeira de Fernão Dias, contos-históricos, 1928
Nos bastidores da história, contos, 1928
O ouro de Cuiabá, história, 1933
Os irmãos Leme, romance, 1933
El-dorado, história, 1934
O romance da prata, história, 1935
O sonho das esmeraldas, romance, 1935
A fé na formação da nacionalidade, ensaio, 1936
Confíteor, memórias, 1937
Ensaios históricos (obra póstuma)
Foi o Príncipe D. Pedro
Altivo, forte e leal,
Quem tornou independente
A nossa Terra Natal!
(Walter Nieble de Freitas)
—
ENVELHECER
Wilson Frade
Embora todos os pretensos à velhice
se agarrem ao espírito,
o tédio chega e vai ficando.
As nossas mãos já não escrevem com o mesmo brilho
e já não enfrentamos a vida com o mesmo espanto no olhar.
O verde já não é tão verde
e não nos atiramos no mar com a mesma gulodice.
Amamos com maior cautela,
menos febrilmente, mas, bem mais ordenadamente.
Buscamos o sabor do beijo com a febre de que ele possa acabar,
mas sentimos um frio no corpo se pensamos que tudo isso
possa terminar.
Os fios de cabelos brancos já não nos castigam
porque descobrimos mais a lua e as estrelas,
e curtimos aquele chinelo velho
em extremo desuso.
Prestamos mais atenção aos passarinhos
e no riacho que corre,
e tornamo-nos mais íntimos da morte.
Fingimos que ela é nossa amante
para que não nos leve assim tão de repente.
e não nos tire os raros momentos em que nos tornamos jovens.
Em: Poemas de um livro só, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1991
Wilson Frade – (MG 1920-2000) jornalista, pintor, poeta, instrumentista e compositor mineiro.