Imagem de leitura — Esaú Andrade

6 02 2013

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Moça com livro, s/d

Esaú Andrade (México, contemporâneo)

Esau Valencia Andrade nasceu em Tepic Nayarit no México numa família de artistas folclóricos. Estudou pintura na Escola de Belas Artes da Universidade de Guadalajara. Já participou de inúmeras exposições tanto solo como coletivas.  Hoje divide seu tempo entre o México e os Estados Unidos.





Qual é o valor da leitura literária?

6 02 2013

Christophe Vacher ( França) Estudo noturnoEstudo noturno, s/d

Christophe Vacher (França, 1966)

aquarela sobre papel, 23 x 34 cm

www.vacher.com

Uma questão antiga: qual é o valor da literatura para quem a lê?  O que ela faz?  Por que motivo devemos ler romances?  Essas perguntas voltam a ser debatidas no livro How Literature Saved My Life [Como a literatura salvou a minha vida] de David Shields, recentemente resenhado por André Alexis para o The Globe & Mail.  A pergunta central do livro de Davis Shields parece ser: o que acontece conosco quando lemos?  E a tentativa de responder a essa pergunta  uma, duas ou múltiplas vezes, produz a coletânea de pequenos ensaios esmiuçando o papel da literatura na vida do leitor.

André Alexis nota que o livro de Shields  começa com a frase: “Toda crítica é uma forma de autobiografia”, [“All criticism is a form of autobiography.”]. Concordo.  E isso me levou não só a ler o resto da resenha, como a colocar o livro de David Shields na minha lista de desejados.

Mas achei também interessante outras afirmações que aparecem no livro:

A literatura nos permite adquirir uma perspectiva sobre aspectos daquilo que é mais assustador no ser humano.

● A literatura mantem tudo — o que pensamos, queremos, sonhamos, tudo o que amedronta — no ar, em equilíbrio.

Essas questões me levaram a procurar entre minhas anotações, afirmações que ajudam a definir o papel que a literatura tem para o leitor.

Acho bastante pertinente e contemporânea a visão do professor de literatura Santi Tafarella, que no blog Prometheus Unbound, afirma que o que a literatura nos traz de importante:

● Des-familiarização e a linguagem carregada são duas das coisas que encontramos na literatura. [Defamiliarization and charged language: these are two of the things we go to literature for]. Desfamiliarização é a procura e o achado daquilo que não nos é conhecido.  Ou seja, travamos um diálogo com um mundo desconhecido. E linguagem carregada, é aquela em que cada palavra pode ter além dos valores tradicionais e convencionais, aqueles emotivos em que o contexto e as variações trazem nuances ao entendimento que nos enriquecem.

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Sem título

Marina V. Chulovich (Rússia, 1956)

óleo sobre tela

Por outro lado a crença de que a literatura preserva os ideais do ser humano tais como amor, fé, liberdade parece ser generalizado e um conceito que alguns imaginam voltar até o período grego.

O autor inglês C. S. Lewis, é citado como tendo dito que,

● A literatura soma à realidade, não a descreve simplesmente.  Ela enriquece a vida cotidiana e a alimenta; e sobre esse aspecto, ela irriga os desertos em que nossas vidas se transformaram.

E se não me engano Horácio na Arte Poética, diz que:

a literatura une o útil ao agradável: deleita e instrui ao mesmo tempo.

Há muitas maneiras de se ver como e porque devemos dedicar nosso tempo à literatura. Cada um tem uma opinião, cada época vê o papel da literatura na vida do homem de uma maneira diferente.

Você tem uma opinião?  Gostaria de dizer por que a literatura é importante para você?  Que papel ela tem na sua vida?  E que papel ela tem na vida de todos?





Palavras para lembrar — Thomas Carlyle

6 02 2013

Claude Buck (EUA,1890-1974)

Jovem leitora,c. 1932

Claude Buck (EUA, 1890-1974)

óleo sobre madeira,  78 x 106 cm

Museu de Arte da Universidade Brigham Young, Utah

“Tudo o que a humanidade fez, pensou ou foi: é encontrado como se preservado por mágica nas páginas dos livros”.

 Thomas Carlyle





História contada ou romance histórico? Café Amargo de José Carlos Tórtima

5 02 2013

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Sentados à mesa, s/d

Sílvia Reali Servadei (Brasil, 1949)

óleo sobre tela, 26 x 30 cm

Geralmente quando dou três estrelas a um romance, não escrevo uma resenha  sobre ele.  Três estrelas de cinco, significa médio: é o caso do meio cheio, meio vazio, ou seja,  vai depender do leitor.  Esta leitora pode não ter visto o que outros verão.  Em geral, eu me abstenho da resenha, por não querer melindrar e por achar que talvez a falta de empatia com o autor da narrativa seja só minha.

Mas o livro Café Amargo, de José Carlos Tórtima sugeriu tantas questões a respeito do que é um romance histórico, que gostaria de reabrir um debate iniciado há dois anos, no blog, sobre literatura que tem embutida um objetivo, uma mensagem de cunho político, religioso, ou outro, em oposição à que se apresenta sobretudo como uma boa história.  Poucos são os escritores que conseguem fazer com a primeira um bom produto.  A intenção da mensagem acaba comprometendo o resultado.  Isso me leva a considerar a diferença entre o contador de causos e o romancista. Há escritores como José Carlos Tórtima que são excelentes contadores de causos.  Eles têm a habilidade de fazer um apanhado das etapas relevantes de um acontecimento histórico ou anedótico e engatá-las numa corrente que nos mostra como uma época ou um evento se desenrolou.  É nessa categoria que vejo a maior parte dos escritores de romances históricos brasileiros.

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No caso específico de Café Amargo o romance pertence à primeira categoria, à narrativa de causos com um objetivo: mostrar como se vivia na época da ditadura de Getúlio Vargas; revelar, para quem ainda não conhecia, os meios de ação da polícia de Filinto Müller;  lembrar como a política era personalizada e trazer à baila a conhecida obsessão de Vargas pela vedete Virginia Lane [aqui dignamente escondida sob pseudônimo].  Ficam claras, ao longo da história, as conseqüências colhidas por aqueles que contrariavam os desejos do ditador.  É uma época riquíssima de mandos e desmandos, um período complexo da história brasileira, com muitos causos para serem contados e tecidos em romance.  Pouco explorada pelos escritores, talvez porque nem todos queiram relembrar ou trazer à tona os desmandos dessa ditadura este parece ser o momento perfeito para se  retirar os véus de um regime que é visto até hoje com dubiedade,  por se apresentar também como “protetor do trabalhador”.  Essa “boa-vontade” brasileira com o poder autoritário encontra abrigo no silêncio de escritores e intelectuais que frequentemente simpatizam com a militância de esquerda, que insiste em fechar os olhos aos desmandos da era Vargas.

Sou grande apreciadora de romances históricos, de época. São um meio maravilhoso de nos apossarmos da pesquisa dos outros, de absorvê-la e com ela colorir os nossos conhecimentos de história.  Vemos o passado pelos olhos do escritor que o estudou, que se dedicou a levantar dados. E nos enriquecemos.  O que vejo em Café Amargo e, deixe-me deixar claro em muitos romances históricos brasileiros, é uma maneira de ver os eventos e personagens da História como centro da narrativa.  Como se os eventos por si só bastassem, fossem de interesse. O resultado prejudica  o desenvolvimento de uma trama mais densa, de maior peso.  Essa atenção ao evento histórico simplifica  os personagens, tornando-os tão leves quanto papel. Mesmo nesse romance, onde abundam detalhes periféricos, detalhes precisos, endereços, números de linhas de transportes públicos,  esquinas do centro da cidade, até novelas de rádio mais populares, o ambiente criado não é suficiente para dar densidade, força ao romance.  Esses detalhes não criam um ambiente que os personagens habitem com credibilidade, que ajam com suas características únicas. Falta-lhes tridimensionalidade, emoções que nos seduzam.  A leitura é fria. Não me importei com o que iria acontecer, mas segui em frente, porque a prosa é boa, flui.  Mas não cativa.  Era como ouvir uma história num fim de tarde, o que aconteceu com meu amigo na rua, no ônibus.  O relato de um evento.  Faltaram tramas, subtramas, intrigas, emoções escondidas e outra desvendadas pelas ações dos personagens.  Faltou conspiração. Onde estão os personagens feitos de carne e osso, com defeitos e qualidades, com emoções e desconexões?  Faltou vida.

jose-carlos-tortimaJosé Carlos Tórtima

Não quero desencorajar o escritor.  Muito pelo contrário.  Gostaria de ver o romance histórico no Brasil mais comum e mais sofisticado.  A leitura de romances históricos de outras terras nos dá algumas dicas.  Criar um personagem menor que testemunhe os eventos é uma das soluções encontradas por Bernard Cornwell, por exemplo com Richard Sharp,soldado inglês  nas  guerras napoleônicas.  Philippa Gregory no livro  Earthly Joys * (não traduzido) concentra sua atenção num personagem histórico de menor importância, um jardineiro, John Tradescant,  viajante, um homem comum, com quem os leitores conseguem se identificar, que agindo dentro da sua limitada esfera de influência, nos oferece  uma rica visão da Inglaterra do século XVII.  Arnau Estanyol  também é um personagem fictício que nos ensina sobre a dura realidade da vida em Barcelona da Idade Média, na época da construção da Catedral do Mar. Ele foi criado por Ildefonso Falcones, que assim como José Carlos Tórtima deixou a vida de advogado para a de romancista.  Existem inúmeros exemplos de densidade de trama em romances históricos, onde personagens fictícios conseguem nos seduzir e nos fazer entender os porquês de certos acontecimentos.   Acredito que José Carlos Tórtima, com sua extensa experiência de advogado criminalista, esteja corretíssimo nos detalhes de tudo que relata no romance.  E isso já é mais do que meio caminho andado.   Agora, gostaria de vê-lo desenvolver o que aprendeu nas cortes brasileiras sobre as vicissitudes humanas e explorar essas emoções para nos presentear com um ou mais romances históricos do calibre que merecemos ter.

* Agradeço à leitora Tereza pela sugestão de que o título dessa publicação havia sido traduzido como Terra Virgem. Mas Terra Virgem é a tradução de Wide Acre, e não de Earthly Joys.




Imagem de leitura — Adrien de Boucherville

4 02 2013

Boucherville, Adrien De (ca 1845-1912) - Daydreaming, 1871

Sonhando acordada, 1871

Adrien de Boucherville (França, 1829-1912)

óleo sobre tela, 46 x 39 cm





Papagaio de papel, poesia infantil de Carlos Chiacchio

4 02 2013

David Ricci, Segurando Pipa esperando o vento, 2005, ost, 60x 40cm

Menino segurando pipa, 2005

David Ricci (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 60 x 40 cm

Papagaio de papel

Carlos Chiacchio

Certa vez, era noite de luar,

Havia vento

A valer.

Bom para empinar

Meu papagaio oblongo de espavento.

Se havia vento, que importava a noite.

Era só dependurar

Longo,a lanterna acesa a todo o açoite

Do vento, e soltar

Meu papagaio oblongo, num momento.

Dito e feito.

Mas, ao peso da lanterna, não subia

O invento,

Senão a curtos vôos, de jeito

Que toda gente via

Com certo espanto aquela luz ao vento:

“Vai destelhar as casa  com tamanho arrojo…

“Vai pegar fogo em tudo, e o sobressalto

“E o incêndio semear daquele bojo….”

Era, esse, o tom geral da gritaria.

Mas de repente,

Meu lindo papagaio

Brilha, de súbito, como um raio,

A bailar ziguezagueando pela altura,

Muito acima do clamor de toda a gente,

Meu alado sonho de papel luzente,

Alto, a voar, muito alto…

Até perder de rumo…

Até a chama apagar…

Até tornar-se em fumo…

Em: Encantos literários: antologia, Deomira Stefani, São Paulo, Ática:s/d

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Carlos Chiacchio ( Januária, MG 1884 – Salvador, BA, 1947)  jornalista, orador, poeta, cronista, crítico literário, membro do IGH-BA, Academia de Letras da Bahia, foi o chefe e animador do grupo modernista na Bahia, em 1928, em torno da revista Arco & Flecha (1928-1929).  Estudou no colégio Spencer em Salvador, cidade onde mais tarde também se formou em medicina.

Obras:

A Dor, 1910

A Margem de uma polêmica, 1914

Biocrítica, 1941

Canto de marcha, 1942

Cronologia de Rui, 1949

Euclides da Cunha, 1940

Infância, poesia, 1938

Modernistas e Ultramodernistas, 1951

Os grifos, 1923

Paginário de Roberto Correia, 1945

Presciliano Silva, 1927

Primavera, 1910, 1941





Palavras para lembrar — Christian Bobin

4 02 2013

Marek Langowiski

À luz de vela, 2005

Marek Langowiski (Polônia, contemporâneo)

óleo sobre tela

“Poucos livros mudaram minha vida.  Quando mudaram foi para sempre”.

Christian Bobin

 





O intocável, de John Banville: retrato do homem, do espião e de uma era.

3 02 2013

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O espião que sabia demais [Tinker Taylor Soldier Spy]

Nop Briex (Holanda, 1965)

óleo sobre tela

www.briex.eu

Há muito eu tinha curiosidade sobre o duplo espião britânico, Anthony Blunt.  Conheci-o como historiador da arte especializado na pintura européia do século XVIII; diretor de um dos mais sérios centros de pesquisa da arte, Courtauld Institute of Art.  Mas antes mesmo de eu me formar em história da arte, o escândalo no qual ele  foi figura central — agente duplo do serviço secreto britânico MI5  para a Inglaterra e agente para a União Soviética dos anos 30 ao início dos anos 50, membro do chamado  Cinco de Cambridge [Cambridge Five]  ainda era debatido e questionado.  Nada poderia ter surpreendido mais o mundo dos museus e da pesquisa acadêmica do que a descoberta de que o pacato mundo das bibliotecas e dos porões de museus poderiam ter servido de disfarce para tal profissão.  A partir de 1979 Anthony Blunt passou a ter uma nuvem de mistério a sua volta.  Como?  Porque?   Não que a vida particular de qualquer historiador de arte seja de interesse público mas espionagem era algo completamente fora da norma. E vez por outra, na atividade comum de perda de tempo à volta de uma mesa de bar, nós, estudantes de pós-graduação tentávamos  imaginar como uma pessoa de tamanho porte acadêmico,  tão chegada à Rainha da Inglaterra, poderia ter se imiscuído na espionagem e contra-espionagem?

John Banville responde a todas essas questões e a muitas outras nesse romance biográfico  baseado na vida de Anthony Blunt, retratado sob o pseudônimo de Victor Maskell.   Fazem parte do enredo também  Guy Burgess e Donald Maclean, (todos com pseudônimos) do grupo ‘Espiões de Cambridge’.   Banville preenche lacunas e satisfaz nossas dúvidas.  Este é o estudo profundo de uma personalidade.  Talvez um dos personagens mais tridimensionais  da literatura atual.  É  vívido. Parece real.  A história é sedutora  e Banville nunca deixa de entreter e acima de tudo de mostrar a pessoa complexa e coerente do homem e do espião,  dentro dos parâmetros sociais e de época.

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Mas, parafraseando Tom Jobim, “A Inglaterra não é para principiantes”.  Para uma compreensão mais apurada do texto,  um bom conhecimento das nuances da sociedade inglesa certamente ajudará na leitura; uma boa dose da história do enlace das classes altas inglesas com a política nazista, também.  Por fim, um conhecimento superficial, mas coerente do estoicismo e da posição ética de Sêneca podem ajudar a entender a percepção que Banville tem de Blunt.  Será interessante lembrar também os preconceitos da sociedade, numa época anterior à Segunda Guerra Mundial –  homossexualismo, conflito de classes, a questão irlandesa — tudo isso  adicionará uma pitada de interesse.   E o mundo da década de 30 estava enamorado do socialismo,  ato que justificou ditaduras de direita e de esquerda do período:  Itália (Mussolini), Espanha (Franco),Portugal ( Salazar),  Nicarágua (Somoza), Brasil (Vargas), Grécia (Metaxas), Cuba (Batista), Rússia (Stalin), sem mencionar a Alemanha de Hitler. Fica evidente através do texto que  Anthony Blunt não se sentia parte nem da sociedade inglesa, nem de nenhuma outra.  Era um verdadeiro estranho no ninho: irlandês, pobre mas com nome de família – primo distante da rainha — , homossexual, com acesso ilimitado à corte – não é de surpreender, portanto, seu solipsismo, sua visão única do mundo como uma projeção de suas próprias fantasias.  A tendência seria desgostar dessa personalidade dúbia, inconseqüente, com uma atitude tão blasé em  relação à vida, como Anthony Blunt é retratado.  Mas, pelo contrário, talvez porque a narrativa seja na primeira pessoa, talvez porque estamos rodeados dos detalhes que fazem o personagem crível,  ficamos com a justa dimensão de um homem de grande conhecimento. John Banville não o retrata menor do que era.

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No entanto, há sempre, e aí está parte do charme deste romance de suspense, a dúvida: será que Victor Maskell está nos dizendo tudo o que sabe?  Há algum motivo para acreditarmos na realidade que ele nos descreve?  Espião, agente duplamente inconfiável, Victor Maskell [será que o nome vem de Mask, máscara?] é o anti-herói por excelência, figura trágica, cuja vida é passada em pequenos compartimentos e se equilibra, desde os primeiros dias da juventude entre mostrar e viver o que não é: da vida de espionagem à vida sexual.

Como um mestre John Banville também brinca com o leitor ao desenvolver como tema o amor que Maskell tem por um quadro de Poussin:  A Morte de Sêneca [fictício]. E dúvidas quanto  à  sua autenticação só intensificam o eco das perguntas que fazemos sobre a narrativa, é verdadeira ou falsa?  O pintor francês do século XVII Nicolas Poussin foi de fato objeto de estudo de Anthony Blunt como historiador da arte. Mas, a presença de um quadro inexistente, cuja autenticação depende de Maskell é um paralelo magistral ao jogo de espelhos que a vida do espião reflete. Victor Maskell assim como Anthony Blunt, têm o fim que merecem: são traídos.  Um pouco de justiça poética arrematando uma vida de fantasias.





Juntos,depois do divórcio e da morte que os separaram: os retratos de Henrique VIII e Catarina de Aragão

2 02 2013

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Retrato de Catarina de Aragão, primeira esposa de Henrique VIII, óleo sobre madeira, artista desconhecido Lambeth Castle.

A tradição dizia que o retrato a óleo [acima] em uma das salas particulares do Palácio de Lambeth mostrava a sexta esposa de Henrique VIII, Catarina Parr (1512-1548).  Mas especialistas da National Portrait Gallery  de Londres, que foram ao palácio, residência oficial do Bispo de Canterbury, com a intenção de estudar o retrato de William Warham (1450-1532), arcebispo de Canterbury no século XVI, parte de um projeto titulado: Fazendo Arte na Inglaterra Tudor, ficaram interessados no retrato da dama, parte da decoração da sala íntima da residência, desde o século XIX.  Examinaram o Retrato de Catherine Parr  e notaram algumas discrepâncias, colocando em dúvida a atribuição.  Alguns detalhes não se encaixavam:  a moldura do quadro era obviamente de data anterior ao casamento de Catarina Parr.  As roupas da rainha consorte também pareciam ser antiquadas, para o período supostamente retratado e por fim, a pessoa retratada tinha uma semelhança enorme com a primeira esposa de Henrique VIII, Catarina de Aragão (1485-1536).  Os especialistas pediram, então,  ao  atual arcebispo de Canterbury e aos Comissários da Igreja, o empréstimo do quadro para  submetê-lo a uma análise técnica mais aprofundada. O bispo permitiu, começando assim o projeto da nova atribuição de um antigo quadro.

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Retrato de Henrique VIII, óleo sobre madeira, c. 1520, artista desconhecido, National Portrait Gallery, Londres.

Os testes logo mostraram que os especialistas tinham razão em querer examinar o quadro com cuidado. Submetido a raios-X e luz infra-vermelha o painel – é um óleo sobre painel de madeira – mostrou surpresas.  A equipe descobriu que, se removida, a pintura de fundo mostraria o fundo original, uma pintura de um painel [um pano de fundo] de seda adamascada verde, semelhante ao de um retrato de Henrique VIII, pintado em 1520, e parte da coleção da National Portrait Gallery em Londres.   O exame de raio-X do adorno de cabeça de Catarina Parr  mostrou que ele fora alterado, que originalmente havia um véu, ítem semelhante aos usados na época de Catarina de Aragão.  Além disso suas feições haviam sido modificadas.  As evidências ajudaram à conclusão de que era de fato um retrato de Catarina de Aragão, que se tornou a primeira esposa de Henrique VIII, depois que seu irmão mais velho Artur, que ela havia esposado em 1501, morreu.

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Catarina de Aragão em outro retrato na National Portrait Gallery em Londres.

Além das análises feitas na pintura em si, Charlotte Bolland, curadora da National Portrait Gallery de Londres, lembrou que  até mesmo a moldura do quadro ajudou a refazer a identificação da pessoa retratada.  “Ficou imediatamente aparente que se tratava de uma moldura bem mais antiga, produzida de uma maneira relativamente rara, típica do início do século XVI, um tipo de moldura que havia ficado fora de moda”.   Alguns detalhes do acabamento decorativo da moldura sobreviveram, entre a pintura posterior e a folha de ouro.  Isso foi de grande valia para a equipe de especialistas do museu porque molduras com acabamentos da época Tudor são extremamente raras.  A moldura combina detalhes pintados em ouro com faixas coloridas em azul e vermelho, que eram pintadas com pigmentos de azurite e vermillion.  Como uma grande parte do acabamento original foi recuperado, a equipe de reatauração da National Portrait Gallery conseguiu reconstruir as áreas perdidas ou prejudicadas.  A restauração do contraste de cores usados na moldura dessa obra ajuda na compreensão dos valores estéticos da época.  Outro aspecto considerado foi o vestuário: o que aparece,  já não era usado na época de Catarina Parr, que nasceu em 1512, três anos depois do casamento de Catarina de Aragão com Henrique VIII.  Além disso havia as características faciais em maior harmonia com Catarina de Aragão do que com Catarina Parr.

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Retrato de Catherine Parr, sexta esposa de Henrique VIII.

Numa ironia do destino, hoje os retratos de Henrique VIII e Catarina de Aragão estão expostos lado a lado na National Portrait Gallery em Londres.  Para quem se lembra, esse casamento acabou em divórcio,  servindo de marco para a separação da família real inglesa da igreja católica. “Henrique VIII e Catarina de Aragão foram casados por 24 anos e durante esse período seus retratos teriam sido mostrados em conjunto, como rei e rainha da Inglaterra”, observou Charlotte Boland.

A princesa espanhola Catarina de Aragão foi a primeira esposa de Henrique VIII.  Ela havia sido anteriormente casada, aos 15 anos de idade,  com Artur o irmão mais novo de Henrique VIII. Mas Artur morreu seis meses depois do casamento. Ela ficou viúva aos 16 anos.  Henrique VIII, então herdeiro do trono, casou-se com Catarina de Aragão, que foi coroada rainha da Inglaterra em uma cerimônia de coroação conjunta com seu marido.

Pouco depois de seu casamento Catarina ficou grávida, mas deu à luz uma filha natimorta em janeiro de 1510. A gravidez subseqüente resultou no nascimento do Infante D. Henrique em 1511 e houve grande festa, mas ele morreu  depois de 52 dias de nascimento. Catarina de Aragão depois teve um aborto espontâneo, seguido por um outro filho de vida curta,  mas em fevereiro de 1516, deu à luz uma filha saudável, Maria.  E a criança sobreviveu.

Henrique VIII ainda amava a sua esposa, mas ficou frustrado com a falta de um herdeiro masculino e tomou várias amantes, entre eles Maria Bolena, irmã de Ana Bolena.  Ana se recusou a se tornar amante de Henrique VIII, mas ele foi insistente e  ela sucumbiu. A preocupação de Henrique VIII com um filho só aumentou.

453px-Mary_I_by_Master_JohnMaria I de Inglaterra, por Mestre John, óleo sobre painel de carvalho, 1544, National Portrait Gallery, Londres.

Esta preocupação tornou-se ainda maior quando ele leu em Levítico que se um homem se casasse com a mulher de seu irmão, o casal permaneceria sem filhos. Apesar de ter uma filha, Henry ainda se sentia “sem filhos” por não ter um filho homem.  Henrique VIII então pediu ao papa para que anulasse seu casamento. Quando  Catarina – uma católica devota – soube disso, ela mesma também apelou para o Papa, defendendo sua posição, contra o divórcio. Ela argumentou que, como ela e Artur nunca haviam consumado o casamento, eles não eram marido e mulher de fato.

Essa briga continuou por seis anos e as coisas chegaram a um ponto em 1533, quando Ana Bolena engravidou e Henry decidiu que a única maneira de se casar com ela seria rejeitar o poder do Papa na Inglaterra. E conseguiu que Thomas Cranmer,  arcebispo de Canterbury, anulasse o casamento.

769px-Catherine_Aragon_Henri_VIII_by_Henry_Nelson_ONeilCatarina de Aragão implora a Henrique VIII contra o divórcio, s/d

[pintura do século XIX]

Henry Nelson O’Neil (Rússia, 1817- Inglaterra, 1880)

óleo sobre tela, 42 x 65 cm

Museu e Galeria de Arte de Birmingham, Inglaterra

Catarina teve que renunciar seu título de Rainha e ser conhecida como a Viúva Princesa de Gales, o que rejeitou para o resto de sua vida.

Catarina e sua filha Mary foram separadas e ela foi forçada a deixar a corte real, vivendo em casas senhoriais úmidas e castelos com apenas uma meia dúzia de servos. Dizia-se que sofreu problemas de saúde por esse motivo, mas nunca se queixou, e passou grande parte de seu tempo rezando. A filha de Catarina e Henry tornou-se rainha Maria I de Inglaterra em 1553 e era conhecida por sua brutal perseguição aos protestantes – ganhando o apelido de “Bloody Mary” [Maria Sangrenta].

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Lembrando as esposas de Henrique VIII:

Catarina de Aragão (Espanha, 1485-1536)

Ana Bolena ( Inglaterra, 1501-1536)

Jane Seymour ( Inglaterra, 1508-1537)

Ana de Cleves ( Alemanha, 1515-1557)

Catarina Howard (Inglaterra, c. 1518–1524 –  1542)

Catarina Parr ( Inglaterra, 1512-1548)

Esta postagem é em comemoração à exposição dos quadros de Henrique VIII e Catarina de Aragão, juntos, a partir do dia 23 de janeiro de 2013, na National Portrait Gallery em Londres.

Fontes: National Portrait Gallery. The Daily Mail





Centros culturais, sua manutenção, responsabilidade e educação

31 01 2013

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Bastidores, 1951

João Fahrion (Brasil, 1898-1970)

óleo sobre tela, 130 x 130cm

Raramente abordo neste blog assuntos do cotidiano. Tenho tentado ser uma ilha de referências  culturais sem ligações à política ou ao dia a dia no país. Mas há ocasiões em que se faz necessário um posicionamento. Tendo a tragédia do incêndio na Boate Kiss, de Santa Maria, RS, como pano de fundo,  descobrimos ao ler o  jornal O Globo desta manhã, que a cidade do Rio de Janeiro tem 49 espaços culturais funcionando que não exibem alvará – ou seja permissão de funcionarem para aqueles fins.  Fiquei pasma.  Esses centros culturais incluem estabelecimentos municipais e estaduais.  Para surpresa de todos são lugares conhecidíssimos e freqüentados por milhares de cariocas e turistas: teatros municipais  [Carlos Gomes, Gonzaguinha, Café Pequeno, Sérgio Porto, Ziembinski, Maria Clara Machado,Teatro do Jockey, Sala Baden Powell, Teatro de Marionetes Carlos Werneck]; teatros estaduais [Artur Azevedo, Mario Lago, Glaucio Gill, Armando Gonzaga]; museus, centros de referência e centros culturais da prefeitura [Memorial Getúlio Vargas, Centro Coreográfico da Cidade do Rio de Janeiro, Hélio Oiticica, Laurinda Santos Lobo, Oduvaldo Vianna Filho (Castelinho do Flamengo), Parque das Ruínas, Prof. Dyla Sylvia de Sá, Centro Calouste Gulbenkian]; museus estaduais [Museu do Ingá, Casa de Oliveira Viana, Carmen Miranda, Museu dos Teatros, Casa de Euclides da Cunha, Museu da Imagem e do Som, Escola de Artes Visuais, Casa França-Brasil]; bibliotecas Populares da Prefeitura [Botafogo-Machado de Assis. Campo Grande-Manuel Ignácio da Silva Alvarenga, Ilha do Governador—Euclides da Cunha, Maré – Jorge Amado, Irajá—João do Rio, Jacarepaguá—Cecília Meireles, Santa Teresa – José de Alencar, Tijuca – M. Marques Belo]; bibliotecas estaduais [Niterói]; lonas culturais [Gilberto Gil, Elza Osborne, Sandra de Sá, Renato Russo, Terra, Jacob do Bandolim, Herbert Vianna, João Bosco, Hermeto Pascoal e Carlos Zéfiro]; locais em funcionamento, sem alvará, sem permissão do Corpo de Bombeiros.

Lembrei-me então de uma postagem antiga nesse blog que gerou controvérsia, leva o título Museus nos Estados Unidos Passam por Mudanças, lá defendo que temos centros culturais em demasia no Rio de Janeiro, que não podemos continuar usando a cultura como guarda-chuva de proteção a prédios antigos.  Muitas associações de bairro, com medo de que um construtor compre casa e terreno em área nobre,  e com isso aumente o número de pessoas em bairros selecionados, pedem que casas antigas, algumas delas com valor arquitetônico questionável, sejam transformadas em centro cultural.  É praticamente só nessa hora que nos lembramos da cultura.  Ela serve de mãe generosa, ama de leite, justificativa única, contra empreendimentos imobilários na cidade. Não estou com isso defendendo o crescimento sem controle da área urbana da cidade, mas este deverá ser restringido de outra maneira.

NELITO CAVALCANTI( 1933 - 2008),MPB 538, ast,51 x 60cmMPB 538

Nelito  Cavalcanti (Brasil, 1933-2008)

acrílica sobre tela, 51 x 60 cm

Não se trata só de descaso da prefeitura.  Muita dessa responsabilidade, eu diria até mais da metade, é nossa.  Não só porque continuamos a eleger pessoas que estão mais interessadas em seu próprio benefício do que na sociedade.  Não é isso, unicamente.  É que fechamos os olhos: ” não vou me meter, pra quê?  Está bem assim..” é uma resposta natural, porque reclamar e fazer alguma coisa dá trabalho.  Até escrever este texto dá trabalho, não é copiado, tenho que pensar e sentar aqui e reclamar. Mas a mentalidade de “Para quê arranjar sarna para me coçar?” é generalizada.  E se você reclama muitas vezes é vista como uma pessoa cri-cri, que não tem mais o que fazer, que quer impedir uma excelente causa, que quer colocar freios na cultura, nas ideias dos outros.  Temos uma história imoral com a manutenção nessa cidade.  Manutenção de qualquer bem, público ou privado.   Deixamos que tudo aconteça. O problema é sempre dos outros, de preferência do governo. Se esse não fosse o caso, como então explicar marquises desabando de edifícios em ruas movimentadas, como  aconteceu há cinco anos na  Nossa Sra de Copacabana no Rio?  Janelas despencam de edifícios na cidade.  Sabemos que o desastre do Edifício Liberdade no centro do Rio de Janeiro, poderia ter sido evitado, caso o síndico tivesse feito seu papel. Fato é que fazemos vista grossa.  Todos nós. A sociedade carioca é responsável por esses crimes.  Porque temos que exigir dos nossos síndicos, temos que contribuir com as taxas extras para manter fachadas, manter calçadas, manter as saídas de incêndio abertas, manter os extintores de incêndio com manutenção em dia.  É nosso interesse, não podemos simplesmente dizer que os bombeiros não vieram aqui, portanto não vou fazer nada.  Agora, me digam como pode o Teatro Sérgio Porto, no Humaitá, funcionar sem autorização dos bombeiros há cinco anos?  Como pode o dono de uma boate — uma das casas mais populares de Botafogo,  —  dizer que não tem alvará porque é quase impossível conseguí-lo, quando sua competição tem? De acordo com a prefeitura são 374 boates, casas de shows e casas de festas com alvará de funcionamento ativo na cidade. Como que ele não consegue? Ninguém quer assumir responsabilidade.

VIDAL,Sérgio,Café carioca,2008,ast,120 x 80

Café Carioca, 2008

Sérgio Vidal (Brasil, 1945)

acrílica sobre tela, 120 x 80 cm

A decisão de voltar a discutir o assunto de casas de cultura foi também em solidariedade com os empresários da Lapa que temem uma caça às bruxas.  Acredito que assim como o Patrimônio Histórico pode proteger as fachadas de bairros como a Lapa, poderia também apresentar soluções de como fazer com que essas construções possam ser utizadas para os fins que seus donos desejam.  Não adianta só proibir.  Tem que mostrar como solucionar o problema, que é de todos nós, é a nossa herança cultural.  Não queremos que os edifícios da Lapa se deteriorem, queremos que sejam protegidos mas usáveis.  Quando passeei pela Espanha — e vou usar a Espanha como exemplo, porque fiquei muito impressionada com o trabalho de preservação arquitetônica lá —  vi diversas soluções que poderiam muito bem ser aplicadas a conjuntos arquitetônicos como os da Lapa.  Há de haver vontade de todas as partes envolvidas.  O empresário não é só um monstro, como tende-se a pensar por aqui.  Sem ele muito do que nós consideramos “alma carioca” não existiria.  Não há mal algum em se ganhar dinheiro, em explorar um filão cultural.  Temos sim que ter responsabilidade.  E essa tem que ser de todos nós.  A coisa mais irritante na nossa cidade é pensar que cultura só pode ser fomentada pelo governo, pelo dinheiro público.  Cultura pode e deve ser mantida pelo dinheiro particular.  O dinheiro público deve ser colocado na educação.  Com educação, temos pessoas que consomem e gastam com a cultura.  Sem ela, não temos nada.