Montando uma livraria, texto de Penelope Fitzgerald

13 02 2013

BOOKS Got book worm by Camille Engel

Tem traças?

Camille Engel (EUA, contemporânea)

óleo sobre madeira,  30 x 30 cm

www.camille-engel.com

“Os livros novos vinham em séries de dezoito, embrulhados em fino papel marrom. Enquanto os separava , eles foram encaixando-se em sua própria hierarquia social. Os pesados e luxuosos livros  sobre casas de campo, os livros sobre as igrejas de Suffolk, as memórias de estadistas, em vários volumes, ocuparam o lugar que era seu por direito de nascimento na vitrine da frente. Outros indispensáveis, mas não aristocráticos, ocupariam as prateleiras do meio. Era o lugar para os Livros do Automóvel – do Austin ai Wolseley –, obras técnicas sobre polimento de seixos, mapas locais e guias.  Entre estes, as populares reminiscências da guerra, com sobrecapa em tons cáqui e vermelho-sangue, encaravam-se como rivais, com eriçada hostilidade. Lá atrás, nas sombras, estavam os Stickers, em grande parte de filosofia e poesia, que ela tinha pouca esperança de chegar a ver o último. Os Stayers – dicionários, livros de referência  etc. – iriam direto para a parte de trás, junto com as Bíblias,  e livros-prêmio que , segundo suas esperanças , a Sra Traill, do Primário, daria de presente aos alunos bem-sucedidos. Finalmente vinham os engradados dos sovados remanescentes da Müller. Uns poucos eram até de segunda mão. Embora ela fosse treinada para nunca olhar dentro dos livros enquanto estivesse trabalhando, abriu dois deles – velhas edições do Everyman, com uma desbotada carta verde-oliva, estampada a ouro. Havia a caprichada guarda, que examinara cheia de perplexidade quando era menina. Um bom livro é a preciosa força vital de um espírito superior, embalsamado e entesourado com o objetivo de uma vida após a vida. Depois de alguma hesitação, ela o colocou entre Religião e Medicina Doméstica.”

Em: A Livraria, Penelope Fitzgerald, Rio de Janeiro, Bertrand Books: 2000, p.44, tradução de Sonia Coutinho.

O texto escolhido para apreciação hoje vem com uma nota sobre traduções. Todos nós cometemos deslizes.  Mas há algumas omissões em se tratando de traduções que às vezes podem modificar ou tirar o charme de uma passagem.  Este é o caso da tradução do inglês para o português desse texto acima.

Aí,  as palavras Stickers e Stayers, usadas no original com letra maiúscula,  para dar idéia das categorias de livros na imaginação da dona da livraria, foram erroneamente mantidas no original em inglês, como se tratassem de nome próprios, de nomes de uma coleção de livros.  Esse é o caso só da palavra mais adiante no mesmo texto, Everyman.  Esta, Everyman, se refere a uma coleção de textos, cuja publicação começou em 1906 com o editor Joseph Malaby Dent e existe até hoje, atualmente publicada também nos Estados Unidos com o mesmo rótulo.  A coleção publicava literatura que poderia ser apreciada por Todos os homens – Everyman – ou melhor ainda que Todos os Homens  devessem ler ou conhecer, nada muito diferente das publicações que de vez em quando aparecem aqui no Brasil, em geral sob o auspício de diários, jornais de boa tiragem.  A Everyman´s Library – Biblioteca do Homem Comum — é e foi, uma instituição na Inglaterra. Seu equivalente nos Estados Unidos é a Harvard Classsics – os Clássicos de Harvard, iniciada em 1909. Os títulos de ambas as coleções, de um lado ou de outro do Atlântico, nunca se esgotam, são publicações que se renovam. A tradutora fez muito bem de deixar Everyman em inglês, por tratar-se de uma marca.

No entanto as palavras Stickers e Stayers, nada têm a ver com marcas, com nomes próprios.  Elas, sim, revelam a maneira de pensar da heroína de Penelope Fitzgerald enquanto decide como organizar a livraria que estava para abrir.  Stickers, do verbo “to stick”, ficar, grudar, ficar encalhado  – que neste contexto são os livros que ficam, ou seja, os  que são raramente vendidos, mas que toda livraria séria precisa ter; enquanto que os Stayers,  do verbo “to stay”, permanecer, são aqueles livros que são o sustentáculo de uma livraria, os dicionários, uma coisa que todas as livrarias precisam ter.

São decisões difíceis essas que tradutores fazem. Nenhuma tradução é perfeita. Cada uma é um novo livro que se assemelha ao original como irmãos univitelinos, que à primeira vista parecem exatamente iguais, mas que com um olhar mais atento mostram suas pequeníssimas diferenças.





Palavras para lembrar — Jean Cocteau

11 02 2013

Linda Apple

Esperando o ônibus, 2008

Linda Apple (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela, 15 x 15 cm

www.applearts.com

“Um belo livro é aquele que semeia em abundância os pontos de interrogação.”

Jean Cocteau





É Carnaval na arte brasileira

10 02 2013

Di Cavalcanti, CARNAVAL 54 x 73 cmóleo sobre tela1954

Carnaval, 1954

Di Cavalcanti (Brasil, 1897-1976 )

óleo sobre tela, 54 x 73 cm

À semelhança de anos anteriores voltamos a fazer uma pequena coletânea do Carnaval na ointura, este anos uma pequena seleção da festa vista pelos olhos de artistas brasileiros. Bom Carnaval a todos!

Cristiane Campos, MEU-FREVO, 2009, ast, 100x80cm

Meu frevo, 2009

Cristiane Campos (Brasil, 1961)

acrílica sobre tela, 100 x 80 cm

Cristiane Campos

Aécio, Carnaval de Olinda, ast, 30x40Carnaval de Olinda

Aécio de Andrade (Brasil, 1935)

acrílica sobre tela, 30 x 40 cm

Antonio Gomide,Carnaval, sd, aquarelapapel,17x12Carnaval, s/d

Antônio Gomide (Brasil, 1895-1965)

aquarela sobre papel,  17 x 12 cm

Bruno Lechowiski,Carnaval,ost, 57 x 46,5 cm

Carnaval, s/d

Bruno Lechowiski ( Polônia 1887-Brasil 1941)

óleo sobre tela, 57 x 46 cm

Gentil Correia, Carnaval, ost, 60 x 80 cm

Carnaval, s/d

Gentil Correa (Brasil, 1935)

óleo sobre tela, 60 x 80 cm

Glauco Rodrigues, CARNAVAL, Serigrafia, 40x60 cm.

Carnaval, s/d

Glauco Rodrigues (Brasil, 1929-2004)

Serigrafia, 40 x 60 cm

mario-gruber (1927-2011)-serigrafia-70 x 100, 2008

Sem título, 2008

Mário Gruber (Brasil 1927-2011)

Serigrafia, 70 x 100

Sérgio Telles,Carnaval – As bahianas,OSM, 20 x 25

Carnaval — as baianas, s/d

Sérgio Telles (Brasil, 1936)

óleo sobre madeira, 20 x 25 cm

Tobias Marcier (1948-1982) Os amigos foliões, ost, 36 x 28Os amigos foliões, s/d

Tobias Marcier (Brasil, 1942-1982)

Óleo sobre tela, 36 x 28 cm





Palavras para pensar — Christian Bobin

9 02 2013

jaskiewicz (Polonia) menina lendo

Menina lendo, 1998

Barbara Jaskiewicz-Socewicz  (Polônia, contemporânea)

Óleo sobre tela com espátula, 65 x 50 cm

www.barbarajaskiewicz.pl

“O que aprendemos com os livros, é a gramática do silêncio”.

Christian Bobin





Ansiedade, texto de Katherine Pancol

9 02 2013

ernst29 O roubo da noiva, 1940

Max Ernst ( Alemanha 1891-1976)

óleo sobre tela, 130 x 96 cm

Peggy Guggenheim Collection, Veneza, Itália

“O mais duro era não se deixar levar pelo pânico. O pânico chegava sempre à noite. Podia ouvir o medo crescer dentro dela e não podia fugir. Virava e revirava no colchão sem conseguir dormir. Pagar as prestações do apartamento, as taxas do imóvel, os impostos, as lindas roupas de Hortense, a manutenção do carro, os seguros, as contas de telefone, a mensalidade da piscina, as férias, as entradas para o cinema, os sapatos, os aparelhos de dente… Enumerava as despesas e, com os olhos arregalados, aterrorizada, se enrolava nas cobertas para não pensar mais. Às vezes, acordava de vez, sentava na cama, fazia e refazia as contas em todos os sentidos para constatar que não, não ia conseguir, embora durante o dia os números tivessem dito sim! Acendia a luz, em pânico, e ia procurar o pedacinho de papel onde tinha rabiscado suas contas. Refazia tudo em todos os sentidos até reencontrar… seu bom-senso e apagar a luz, exausta.

Tinha medo das noites.”

Em: Os olhos amarelos dos crocodilos, Katherine Pancol, Rio de Janeiro, Suma das Letras:2012, p.82





Os caquis, poema de Sônia Carneiro Leão

9 02 2013

Jean Xanthakos, Caquis e uvas, osm, 9x12

Caquis e uvas, s/d

Jean Xanthakos (Brasil, 1936 (?))

óleo sobre madeira

Os caquis

Ah! Os caquis,

esses tomates inflados.

Os caquis,

esses pneus assanhados,

risonhos, safados,

que nos convidam a morder

sua carne aguada, açucarada.

Os caquis,

vítimas da nossa voracidade.

Os caquis,

que se abrem à primeira dentada,

docemente, docilmente,

feito fêmea dominada.

Ah! Os caquis já vão-se embora.

Despeço-me deles agora.

Mas não faz mal,

estou satisfeita,

esperando a próxima colheita.

Em: Respostas ao criador das frutas, Sônia Carneiro Leão, Recife, Editora da autora: 2010

Sônia Carneiro Leão nasceu no Rio de Janeiro, mas reside em Recife.  Psicanalista, escritora, poetisa, contista  e tradutora.





As Florestas texto de Afonso Celso

9 02 2013

ANDERSON CONDE - manhã com neblina,2008, ost, 60x80.andersoncondecombrManhã com neblina, 2008

Anderson Conde (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 60 x 80 cm

www.andersonconde.com.br

As Florestas

Afonso Celso

Não é monótona a selva brasileira. Cada árvore exibe fisionomia própria, extrema-se da vizinha; circunspectas ou graciosas, leves ou maciças, frágeis ou atléticas. Conforme reflexão de ilustre viajante, as matas brasileiras, tão compactas que se lhes poderia caminhar por cima, representam a democracia livre das plantas, democracia cuja existência consiste na luta incessante pela liberdade, pelo ar, pela luz. Preside a essa democracia perfeita igualdade. Não há família que monopolize uma zona com exclusão de outras famílias ou grupos. Espécies as mais diversas medram conjuntamente, fraternizam, enleiam-se. Daí a variedade na unidade, múltiplas e diversas manifestações do belo.

Notabiliza-se ainda a floresta brasileira pela ausência relativa de animais ferozes. É muito menos perigosa do que as da Índia. Habitam-na incalculáveis populações de mamíferos, abelhas, vagalumes, miríades de borboletas com asas de inefável colorido. Em lindas aves é a mais opulenta terra.

Garridos regatos deslizam por ela, derramando frescor. Cortam-na caudalosos rios, tão coalhados de plantas aquáticas que, apesar de profundos, não são navegáveis. O sol doura simplesmente o cimo das árvores. Não penetra através das grossas cortinas verdes senão de modo crepuscular, produzindo a grave penumbra das catedrais, ou  o lusco-fusco das grutas marinhas. Só em espaçadas clareiras, avistam-se nesgas de azul. Em geral, a luz soturna e misteriosa empresta às coisas feições sobrenaturais. O conjunto é sublime.

Todos os sentidos aí ficam extasiados. Gozam todos os nossos sentidos artísticos. Com efeito, deparam-se-nos na floresta brasileira primores de arquitetura, de pintura e, sobretudo, de divina poesia.

Em: Criança brasileira: quinto livro de leitura, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir:1949.

AAA

Afonso Celso de Assis Figueiredo Júnior, titulado Conde de Afonso Celso pela Santa Sé, mais conhecido como Afonso Celso, (Brasil, MG, 1860 — RJ, 1938) professor, poeta, historiador e político brasileiro. É um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira 36.

Obras (lista parcial)

Prelúdios –  poesias, publicado aos quinze anos de idade (1876)

Devaneios (1877)

Telas sonantes (1879)

Um ponto de interrogação (1879)

Poenatos (1880)

Rimas de outrora (1891)

Vultos e fatos (1892)

O imperador no exílio (1893)

Minha filha (1893)

Lupe (1894)

Giovanina (1896)

Guerrilhas (1896)

Contraditas monárquicas (1896)

Poesias escolhidas (1898)

Oito anos de parlamento (1898)

Trovas de Espanha (1899)

Aventuras de Manuel João (1899)

Por que me ufano de meu país (1900)

Um invejado (1900)

Da imitação de Cristo (1903)

Biografia do Visconde de Ouro Preto (1905)

Lampejos Sacros (1915)

O assassinato do coronel Gentil de Castro (1928)

Segredo conjugal (1932)





Imagem de leitura — Tatyana Deriy

8 02 2013

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Silêncio, 2008

Tatyana Deriy (Rússia, 1973)

óleo sobre tela, 50 x 60 cm

Tatyana Deriy

Tatyana Deriy nasceu em Moscou em 1973 . Em 1993 graduou-se no Colégio da Academia de Arte de Moscou . Sempre demonstrou preferência pelo retrato.  Em 1999 no Instituto de Arte de Surykov . Prefere composições de interiores. Membro da Federação Internacional de Artistas e da União de Artistas de Moscou . Participou de várias exposições Na Rússia e na Alemanha.





Palavras para lembrar — Jean-Claude Germain

7 02 2013

dan GriggsUm momento de descanso

Dan Griggs (EUA, 1948)

óleo sobre tela

Dan Griggs

“Um livro é como uma garrafa no mar que chega a bom porto. Não sabemos quem a colocou na água. Não sabemos tampouco porque a encontramos e menos ainda como ela nos achou.”


Jean-Claude Germain





Nota do Carnaval de 1939 — texto de Marques Rebelo

7 02 2013

Aloysio Zaluar, O Clovis Vem Aí, 1977, OSM

O Clóvis vem aí, 1977

Aloysio Zaluar (Brasil, 1937)

óleo sobre madeira

21 de fevereiro [1939]

Hoje, terça-feira gorda, é o dia dos préstitos das grandes sociedades e, pelos anúncios de página inteira com evoés e versalhada, haverá muita alegoria estadonovista com subvencionados ouropeis, que os míopes poderão tomar como realidades estadonovistas.  Que saiam! A estas horas já devem estar na rua, enguiçando nas curvas mais fechadas, com suas fanfarras, com suas encarapitadas deidades seminuas, que Aldina tão doidamente invejava, com seus fogos-de-bengala deixando acessos de tosse na esteira. Aqui permanecerei distante de tanta beleza. Um toque de incubada melancolia acordou comigo, comigo esteve o dia inteiro como uma dormência – refuguei a leitura, refuguei o rádio, a vitrola, a conversa, a visita dos amigos, dormitei quanto pude, entreguei-me sem resistência ao devaneio, algo doce, algo de prisioneiro, pescador à beira do escuro mar com cantos de sereias.

Luísa não compreende a súbita névoa, que a convivência é caixa perene de surpresas:

— Que é que você tem, filhotinho?

— Também não sei, querida. Também não sei.

E certamente estaria falando a verdade. Há verdades que se falam.

Em: A Mudança, segundo tomo de O Espelho Partido, Marques Rebelo, São Paulo, Martins:1962.