Recordações do Theatro Lyrico, no Rio de Janeiro, texto de Ivna Thaumaturgo

19 01 2010

 Antigo Theatro Lyrico no Rio de Janeiro.

Feito no Império, o Theatro Lyrico tinha a graça e a beleza adequada à função.  Acústica perfeita, harmonia perfeita.  Nos intervalos das aulas eu ia explorar todos os seus recantos e o conheci do avesso, quando não tinha ninguém, e isso era fantástico.  Sabia como entrar no palco diretamente dos camarotes.  Conhecia todos os seus intricados caminhos.  Era um labirinto de madeira, uma jóia.  As cadeiras da platéia, estilo império, traziam a numeração em metal encravada numa placa de madrepérola e eram de jacarandá e palhinha.  Confortáveis e sóbrias, a princípio eram cadeiras cativas.  Gostava de ir ao palco depois de terminado o espetáculo.  Fiz isso muitas vezes quando os Cossacos do Don se apresentaram e porque eles tinham o magnetismo selvagem da alma russa, atraíam as mulheres que iam assediá-los – eu, entre elas, com uma diferença de idade que transformava qualquer aproximação em amizade carinhosa.  Conversava com eles por mímica e lhes pedia que me ensinassem passos da dança.  Levava-lhes minhas aquarelas nas quais eles apareciam fazendo malabarismos, passos de danças guerreiras, acrobacias que ficavam muito aquém das que faziam no palco.  Eram,  belos, leves, ligeiros, imponderáveis.  Eu havia lido Os cossacos de Tolstói  e eles eram o que Tolstói havia descrito: tinham a sensualidade à flor da pele – sofrimento e prazer viviam neles ancestralmente juntos, confundindo amor e ódio, êxtase e agonia.  Pedi a alguém que lhes perguntasse –  Como dançavam tão bem?  — Eles responderam:  — Dançamos com “raiva”.  Era uma raiva diferente, uma explosão de virilidade, garra, grito tribal, paroxismo do sexo.  Havia a “dança dos punhais”, em que ao som da música em coro iam lançando com a boca, uma a um, enormes punhais ou adagas que se fixavam no chão, em círculo, numa precisão assustadora. 

Cossacos do Don

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O entusiasmo das moças que freqüentavam as vesperais despertou uma reação histérica nas autoridades e, de repente, foi proibida a presença de mulheres no palco.  Ignorei essa ordem, talvez por me considerar de certa forma, “dona da casa”.  Continuei lá,  no meio deles, interessados a me ensinar a letra dos “Barqueiros do Volga”, canção admirável. 

“Ei uh… niem…

Ei uh…niem…

E…ste…raaazik

Eestedara…”

De repente vi, à minha frente, o professor Guanabarino e sua noiva, d. Lalita.  O mestre estava irado.  Passou-me um pito e exigiu que eu saísse de lá.  Fiquei indignada, revoltada, envergonhada, mas tive de obedecer.  Os russos, surpresos e constrangidos,  gritaram para mim:  Dasvidania!, que quer dizer Adeus.

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Arturo Toscanini

Seria admirável se alguém escrevesse a história do Theatro Lyrico, nomeando os grandes artistas que por lá passaram.  Companhias líricas, cantoras famosas, tenores, baixos, barítonos, pianistas, violinistas, grandes orquestras…  Toscanini virou maestro nesse teatro, quando os fados o obrigaram a substituir o maestro que adoeceu no dia da estréia de um espetáculo de gala.  Eleonora Duse, Sara Bernhardt, e sua célebre frase aos estudantes que a vaiaram: “ Vous m’avez jugé avant de m’avoir connue.”  [Vocês me julgaram antes de me conhecerem]  E o teatro veio abaixo com os aplausos dos que a vaiaram.  Mas, aos poucos, as grandes temporadas foram se deslocando para o Teatro Municipal.  O Lyrico, abandonado, passou a ser o lugar preferido para a exibição de diversos tipos de circos e imensas estruturas para trapezistas eram armadas sobre a platéia…  A desmoralização terminou com a demolição da “jóia de madeira” e o terreno vazio, sem o menor vestígio de gloriosas noites que se prolongavam até altas madrugadas, virou local de estacionamento de veículos.  Que país admirável!  O teatro estava “atravancando” um espaço incomensurável!

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Eleonora Duse

 

O interior do Theatro Lyrico, Rio de Janeiro.

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Em:  A família de guizos: história e memórias, de Ivna Thaumaturgo, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira: 1997; p.73-75.

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A companhia de canto e dança Cossacos do Don, ainda se apresenta hoje em dia nos maiores palcos do mundo.  Coloco aqui abaixo um vídeo de Cossacos do Don que achei no YouTube. 

 







A importante contribuição da Biblioteca Nacional para o projeto: biblioteca mundial

23 04 2009

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Biblioteca Nacional, av. Rio Branco, Rio de Janeiro.

 

 

 

A Biblioteca Nacional do Brasil, tem um patrimônio superior a 9 milhões de publicações, e foi considerada pela UNESCO como a 8ª maior biblioteca do mundo. A BN também é a maior biblioteca da América Latina.

A Fundação Biblioteca Nacional (BN) é uma das mais antigas instituições públicas brasileiras. Foi instalada oficialmente no Rio de Janeiro em 1810.  O núcleo original de seu poderoso acervo é a antiga livraria de D. José organizada sob a inspiração de Diogo Barbosa Machado, Abade de Santo Adrião de Sever, para substituir a Livraria Real, cuja origem remontava às coleções de livros de D. João I e de seu filho D. Duarte, e que foi consumida pelo incêndio que se seguiu ao terremoto de Lisboa de 1º de novembro de 1755.  A BN é hoje a maior fonte de pesquisa em livros, jornais e periódicos do país e tem a função de ser a depositária da memória bibliográfica e documental do Brasil.

 

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Instalada em um imponente prédio estilo eclético (onde se misturam elementos neoclássicos), na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, abriga verdadeiras raridades da literatura. Obras impressas nos primórdios da invenção da imprensa, como a Bíblia Mongúncia (Bíblia Latina), publicada por Gutenberg e seus sócios, em 1462, é considerada pela chefe da Divisão de Obras Raras (Diora), a bibliotecária Ana Virginia Pinheiro, como uma das peças mais raras da divisão. Existem apenas outros 60 exemplares conhecidos desta bíblia em todo o mundo.

Há na Biblioteca Nacional obras ainda mais antigas, escritas a mão sobre pergaminho, como O Livro dos Evangelhos, do século XI, escrito em grego e considerado o livro mais antigo na América Latina. O conjunto de obras impressas mais antigas datam do século XV, são os ‘incunábulos’, livros publicados nos primeiros 50 anos da invenção da tipografia por Gutenberg, e publicados até o ano de 1500.

  

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A maior parte deles está depositada na Divisão de Obras Raras – Diora –, onde podem ser consultados por pesquisadores especializados. A Diora guarda livros publicados entre os séculos XV e XVII e tem a missão de salvaguardar o acervo precioso da Biblioteca Nacional. Calcula-se que existam hoje mais de 70 mil obras na seção, em dois quilômetros de prateleiras. Na apreciação do acervo realizada em 1946, foram identificados 18 mil volumes na Diora. Os livros, alguns em pergaminho, são escritos em grego, latim, árabe, hebraico e línguas arcaicas ou mortas.   

A Biblioteca não estimula visitas às coleções especiais (Obras Raras, Manuscritos, Cartografia, Iconografia e Música). Recebe o pesquisador que tem interesses de pesquisa bem definidos e que traga carta de apresentação assinada pela instituição onde desenvolve a pesquisa ou de próprio punho, a título de declaração de idoneidade para consulta a acervo tão precioso”, informou Ana Virgínia.  O acesso restrito ao acervo da Diora se explica pela necessidade de proteger e preservar documentos únicos, datados, alguns deles, antes mesmo do descobrimento do Brasil. Os estudos são feitos através de microfilmes e material digitalizado, na falta destes, a consulta é direto no original.

 

 

 

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O Depósito Legal é a principal fonte de captação de obras para a BN, mas as peças mais antigas e de grande valor histórico foram obtidas por meio de doações. A maior delas foi a coleção Dona Tereza Cristina Maria doada pelo imperador Dom Pedro II, quando estava no exílio em Portugal, em 1891. São mais de 48 mil peças, entre livros, manuscritos, partituras, gravuras, desenhos, fotografias e mapas. As coleções doadas à BN são privilegiados instrumentos de pesquisa sobre a história do Brasil.

Desejando consolidar a inserção da Fundação Biblioteca Nacional na sociedade da informação, foi lançado o Portal Institucional (www.bn.br), permitindo o acesso aos Catálogos on line . Em 2006 foi criada a Biblioteca Nacional Digital concebida de forma ampla como um ambiente onde estão integradas todas as coleções digitalizadas colocando a Fundação Biblioteca Nacional na vanguarda das bibliotecas da América Latina e igualando-a às maiores bibliotecas do mundo no processo de digitalização de acervos e acesso às obras e aos serviços, via Internet.

 

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 Foto: Fátima Nascimento

 

 

O prédio atual da Fundação Biblioteca Nacional teve sua pedra fundamental lançada em 15 de agosto de 1905 e foi inaugurado cinco anos depois, em 29 de outubro de 1910. O prédio foi projetado pelo General Francisco Marcelino de Sousa Aguiar, e a construção foi dirigida pelos engenheiros Napoleão Muniz Freire e Alberto de Faria. Integrado à arquitetura da recém-aberta Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco, o prédio é de estilo eclético, em que se misturam elementos neoclássicos. As instalações do novo edifício correspondiam na época de sua inauguração a todas as exigências técnicas: pisos de vidro nos armazéns, armações e estantes de aço com capacidade para 400.000 volumes, amplos salões e tubos pneumáticos para transporte de livros dos armazéns para os salões de leitura.

Em meio à fachada principal, o edifício possui um pórtico com seis colunas coríntias, que sustentam o frontão ornamentado por um grupo em bronze, tendo ao centro a figura da República, ladeada por alegorias da Imprensa, Bibliografia, Paleografia, Cartografia, Iconografia e Numismática. O conjunto foi executado de acordo com maquete do artista nacional Modesto Brocos. Do lado direito da Portada, uma estátua de bronze, de Corrêa Lima, representa a Inteligência; uma outra, do lado esquerdo, da autoria de Rodolfo Bernardelli, representa o Estudo. Na parte superior da fachada, de cada lado do tímpano, vêem-se, em bronze, os anos da fundação da Biblioteca MDCCCX, e da inauguração do prédio, MCMX.

 

 

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No saguão há, à direita e à esquerda, dois painéis do pintor norte-americano George Bidddle e dois baixos-relevos em bronze de sua esposa, a escultora Helena Sardeau Biddle. Essas obras de arte constituem oferta do governo dos Estados Unidos da América ao Brasil e foram inauguradas no dia 8 de dezembro de 1942. As escadas internas são de mármore com gradil de proteção em bronze com tratamento de pátina preta e friso formando o corrimão em latão dourado polido. No patamar do lance de escada entre o segundo e o terceiro andar, localiza-se o busto em mármore de D. João VI, esculpido em Roma, em 1814, por Leão Biglioschi e que pertenceu à Real Biblioteca.

Sob a clarabóia em vitral colorido, do saguão, e como que a sustentando, vêem-se 12 cariátides em gesso.Todo o conjunto do edifício é encimado por quatro clarabóias com vitral colorido; uma no zimbório central sobre o saguão; uma sobre a ala lateral dos armazéns de livros (à esquerda); outra sobre a ala lateral dos armazéns de periódicos (à direita), a quarta localiza-se sobre o salão da Divisão de Obras Raras. São dignos de nota os painéis assinados por artistas de renome, que decoram o terceiro e o quarto pavimentos. No terceiro, na Divisão de Obras Raras, antigo salão geral de leitura, encontram-se painéis de Rodolfo Amoedo, A Memória e A Reflexão, e de Modesto Brocos, A Imaginação e A Observação. No quarto andar, onde se localiza o Gabinete da Presidência, encontram-se mais quatro painéis, dois de Henrique Bernardelli, O Domínio do Homem sobre as Forças da Natureza e A Luta pela Liberdade, e dois de Eliseu Visconti, O Progresso e A Solidariedade Humana. Em espaço do andar térreo (ou primeiro andar) com aceso pela Rua México foi inaugurado no ano de 2000 um moderno auditório que levou o nome de Machado de Assis e uma galeria para exposições com os requisitos ideais de luz e temperatura. Esse espaço foi inaugurado com a magnífica exposição “Brasil 500 anos na Biblioteca Nacional”.

 





Canto de Natal — poesia de Manuel Bandeira

18 12 2008

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Natividade, 1746, 1754

Painel de azulejos portugueses

Igreja Basílica do Senhor do Bonfim

São Salvador, Bahia.

 

 

Canto de Natal

 

                                                  Manuel Bandeira

 

 

O nosso menino

Nasceu em Belém.

Nasceu tão-somente

Para querer bem.

 

Nasceu sobre as palhas

O nosso menino.

Mas a mãe sabia

Que ele era divino.

 

Vem para sofrer

A morte na cruz,

O nosso menino.

Seu nome é Jesus.

 

Por nós ele aceita

O humano destino:

Louvemos a glória

De Jesus menino.

 

 

Em: Antologia Poética, Manuel Bandeira, José Olympio: 1978, Rio de Janeiro.

 

Manuel Bandeira (Recife PE, 1884 – Rio de Janeiro RJ, 1968) foi poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro. Teve seu primeiro poema publicado aos 8 anos de idade, um soneto em alexandrinos, na primeira página do Correio da Manhã, em 1902, no Rio de Janeiro. Cursou Arquitetura, na Escola Politécnica, e Desenho de Ornato, no Liceu de Artes e Ofícios, entre 1903 e 1904; precisou abandonar os cursos, no entanto, devido à tuberculose. Nos anos seguintes, passou longos períodos em estações climáticas, no Brasil e na Europa.

 

Obras:

 

 

Poesia

 

 

A cinza das horas, 1917

Carnaval, 1919

O ritmo dissoluto, 1924

Libertinagem, 1930

Estrela da manhã, 1936

Lira dos cinquent’anos, 1940

Belo, belo, 1948

Mafuá do malungo, 1948

Opus 10, 1952

Estrela da tarde, 1960

Estrela da vida inteira, 1966

 

Prosa

 

 

Crônicas da Província do Brasil – Rio de Janeiro, 1936

Guia de Ouro Preto, Rio de Janeiro, 1938

Noções de História das Literaturas – Rio de Janeiro, 1940

Autoria das Cartas Chilenas – Rio de Janeiro, 1940

Apresentação da Poesia Brasileira – Rio de Janeiro, 1946

Literatura Hispano-Americana – Rio de Janeiro, 1949

Gonçalves Dias, Biografia – Rio de Janeiro, 1952

Itinerário de Pasárgada – Jornal de Letras, Rio de Janeiro, 1954

De Poetas e de Poesia – Rio de Janeiro, 1954

A Flauta de Papel – Rio de Janeiro, 1957

Itinerário de Pasárgada – Livraria São José – Rio de Janeiro, 1957

Andorinha, Andorinha – José Olympio – Rio de Janeiro, 1966

Itinerário de Pasárgada – Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1966

Colóquio Unilateralmente Sentimental – Editora Record – RJ, 1968

Seleta de Prosa – Nova Fronteira – RJ

Berimbau e Outros Poemas – Nova Fronteira – RJ

 

 

IGREJA DE NOSSO SENHOR DO BONFIM é um dos principais cartões-postais da cidade.  A Igreja Basílica do Senhor Bom Jesus do Bonfim, ou Igreja de Nosso Senhor do Bonfim é um símbolo da religiosidade baiana. Sua construção teve início em 1740 com a chegada na Bahia do Capitão de Mar e Guerra, Theodósio de Faria.  Devoto do Senhor do Bonfim, em Setubal, Portugal,  trouxe de Lisboa uma imagem semelhante aquela,  esculpida em pinho de riga, medindo 1,06m de altura.  Conta-se que o Capitão português trouxe a imagem como agradecimento por haver sobrevivido a uma tempestade em alto-mar, tendo prometido construir uma igreja no ponto mais alto que avistasse, de onde pudesse acompanhar a entrada da Baía de Todos os Santos.

 

Em 1745, a imagem foi guardada na Igreja da Penha de França de Itapagipe, onde permaneceu até a construção do templo de Nosso Senhor do Bonfim. Nesse mesmo ano, foi fundada uma irmandade de devotos leigos que foi denominada “Devoção do Senhor do Bonfim”.   A construção levou vinte-seis anos de 1746 a 1772.  A imagem do santo foi passada para a nova igreja, em 1754, em uma procissão que contou com a presença de grande parte da população da cidade e do então Governador da Bahia. A imagem de Nossa Senhora da Guia, também trazida de Portugal por Theodósio de Faria, foi também colocada na Igreja de Nosso Senhor do Bonfim e passou a ser venerada junto com o santo.

 

 

 

 

 

 

 





Estatística: um método razoável de associar valor às obras de arte?

18 11 2008

 

 

Em agosto deste ano, o jornal carioca O GLOBO, publicou na sua edição impressa, (5/8/2008) um artigo sobre o economista David Galenson demonstrando como este profissional americano criou uma maneira de qualificar as obras de arte do século XX para poder discernir as melhores do século.  

 

Seu método, muito simples, consistiu de avaliar 33 livros de história da arte, publicados entre 1990 e 2005.  Daí para frente fez uma análise quantitativa das imagens que mais apareciam nestes textos.  

 

Em primeiro lugar ficou a tela de Pablo Picasso, Les Demoiselles d’Avignon, com 28 reproduções.  Em segundo lugar, veio Monumento à Terceira Internacional do escultor russo Vladimir Tatlin, com 25 reproduções e em terceiro lugar ficou a obra do americano Robert Smithson, Spiral jetty, com 23 reproduções.  

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Les demoiselles d’Avignon, 1907

Pablo Picasso (Espanha 1881-1973)

Óleo sobre tela

Museu de Arte Moderna de Nova York

 

Não vou continuar com a relação inteira porque para qualquer pessoa que tenha tido a oportunidade de passar uma vista d’olhos na história da arte do século XX este grupo de três obras já demonstra a fraqueza do argumento do economista.  Das três obras mencionadas, só mesmo a de Pablo Picasso poderia ficar entre as mais importantes obras do século XX.

 

Mas esta pesquisa traz à tona um assunto de que nos meios da história da arte pouco se fala.  É o valor do reconhecimento visual: uma obra conhecida por fotos e vista em diversos livros e artigos de jornal, especializados ou não, por sua simples freqüência, pela adquirida cadeira cativa – digamos assim – na imaginação do público em geral adquire uma importância maior do que historiadores poderiam lhe dar.

 

Para o público em geral a mera impressão fotográfica da obra de arte num livro, separa e dá distinção a este trabalho.  Uma distinção que com freqüência, como vemos na lista do economista Galenson, não traz em si a importância verdadeira daquele trabalho.  Gostamos em geral daquilo que conhecemos.

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Modelo para a 3ª Torre Internacional, 1919-20

[nunca construída]

Vladimir Tatlin (Rússia 1885-1953)

Assim países que tem um bom grupo de editoras de arte, com um bom grupo de museus que reproduzem e vendem suas obras, do cartão postal à gravura glicée; que as vendem em todas as formas e de todos os preços, dos cartazes ao guardanapo de papel, do marcador de livro ao ímã de geladeira, tem sistematicamente sem acervo considerado pelo publico como de importância do que qualquer acervo que não esteja ao alcançar do público mesmo que em reproduções.

 

Quem não está familiarizado com publicações de arte pode não saber que com freqüência há obstáculos a serem encontrados para a reprodução de um trabalho de arte num livro.  Em geral, o primeiro obstáculo vem da permissão e o respectivo custo da fotografia.  Se pertence a um museu, ou se pertence a uma coleção particular, pode-se pagar à pessoa que tem posse deste trabalho de arte das meras centenas de dólares ao milhar.  A quantia dependerá também do tipo de publicação.  Se a publicação é para lucro, a quantia em geral é bem maior do que quando um estudioso pede a fotografia para ser publicada numa publicação profissional.  

 

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Spiral Jetty, 1970

Robert Smithson (EUA 1938-1973)

Pedras negras, cristais, terra e água vermelha

Great Salt Lake , Utah

Há também aqueles curiosos donos de coleções particulares que doam suas coleções, freqüentemente com muitas obras de valor, aos maiores museus, por exemplo, mas que impõem condições perpétuas sobre essas obras: entre elas a de que a reprodução fotográfica seja feita só um certo número de vezes por ano ou talvez nunca.  

 

Meu conselho, quando agi como consultora de arte nos EUA, era de que as empresas ou pessoas particulares que colecionavam arte deixassem seus quadros, suas esculturas, suas coleções serem fotografadas e reproduzidas sempre que pudessem e sempre especifiquei o valor do colecionador publicar um catálogo, fartamente ilustrado, com as obras que tivesse, justamente por saber que a familiarização do público em geral com uma imagem, com um trabalho de arte, aumenta significativamente seu valor no mercado se e quando aquele colecionador resolver vender algum item de sua coleção. 

 

Mas isto foi ante do período da internet.  Hoje acredito que temos que rever todas as nossas curiosamente antiquadas idéias de controle.  A propagação de idéias e de imagens não pode ser e não deve ser controlada.  A internet tem uma maravilhosa qualidade: é democrática quanto ao conhecimento, quanto a divulgação daquele conhecimento.  

 

Acredito que em mais uns três a cinco anos, se fôssemos usar os métodos escolhidos por David Galenson, mas aplicando-os à internet o resultado seria muito, mas muito diferente do que ele obteve.  No entanto, a seleção seria certamente tão esotérica quanto o que ele conseguiu nas fotos de livros de 1990 a 2005.  

 

Não acredito que análises quantitativas consigam atribuir valor de importância em obras de arte.  Mas elas justificam alguns preços atingidos no mercado de arte:  principalmente quando estas obras sistematicamente aparecem reproduzidas em livros.