Imagem de leitura — Emmanuel Garant

11 12 2018

 

 

Emmanuel Garant (Canada 1953) Souvenirchampetre_huile24x36, 2004Lembranças de um dia no campo, 2004

Emmanuel Garant (Canadá, 1953)

óleo sobre madeira,  24 x 36 cm





Os grupos de leitura selecionam os melhores do ano!

10 12 2018

 

 

birdbook camille engelPenas e ficção

Camille Engel (EUA, contemporânea)

óleo sobre madeira,  50 x 40 cm

 

 

Dois grupos de leitura votaram nos livros lidos durante o ano.

 

Ao Pé da Letra

(grupo formado por 10 pessoas, leu 14 livros este ano):

 

1–- A terra inteira e o céu infinito, Ruth Ozeki

2 — Bartleby, o escrivão, Herman Melville

3 — A moça com brinco de pérola, Tracy Chevalier

4 — O caminho de casa, Yaa Gyasi

5 — As brasas, Sándor Márai

6 — Be Rio, Marco Machado

7 — O homem sem doença, Arnon Grunberg

8 — Um cavalheiro em Moscou, Amor Towles

9 — Pequenos incêndios por toda parte, Celeste Ng

10 — Nosso homem em Havana, Graham Greene

11 — O sol nasce para todos, Harper Lee

12 — A verdade sobre o caso de Harry Quebert, Joël Dicker

13 — Toda luz que não podemos ver, Anthony Doerr

14 — O leitor do trem das 6h27, Jean-Paul Didierlaurent

 

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Melhor livro do ano

 

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1º lugar — Um cavalheiro em Moscou

Amor Towles

Editora Intrínseca, 2018, 464 páginas

SINOPSE: Nobre acusado de escrever uma poesia contra os ideais da Revolução Russa, Aleksandr Ilitch Rostov, “O Conde”, é condenado à prisão domiciliar no sótão do hotel Metropol, lugar associado ao luxo e sofisticação da antiga aristocracia de Moscou. Mesmo após as transformações políticas que alteraram para sempre a Rússia no início do século XX, o hotel conseguiu se manter como o destino predileto de estrelas de cinema, aristocratas, militares, diplomatas, bons-vivants e jornalistas, além de ser um importante palco de disputas que marcariam a história mundial. Mudanças, contudo, não paravam de entrar pelo saguão do hotel, criando um desequilíbrio cada vez maior entre os velhos costumes e o mundo exterior. Graças à personalidade cativante e otimista do Conde, aliada à gentileza típica de suas origens, ele soube lidar com a sua nova condição. Diante do risco crescente de se tornar um monumento ao passado até ser definitivamente esquecido, o Conde passa a integrar a equipe do hotel e a aprofundar laços com aqueles que vivem ao seu redor. Com sua perspectiva única de prisioneiro de duas realidades distintas, o Conde apresenta ao leitor sua sabedoria e sensibilidade ao abandonar certos hábitos e se abrir para as incertezas de novos tempos que, mesmo com a capacidade de transformar a vida como a conhecemos, nunca conseguirão acabar com a nobreza de um verdadeiro cavalheiro.

 

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2º lugar — O leitor do trem das 6h27

Jean-Paul Didierlaurent

Editora Intrínseca, 2015, 176 páginas

SINOPSE: Um romance sensível sobre o poder dos livros e da literatura.  Operário discreto de uma usina que destrói encalhe de livros, Guylain Vignolles é um solteiro na casa dos trinta anos que leva uma vida monótona e solitária. Todos os dias, esse amante das palavras salva algumas páginas dos dentes de metal da ameaçadora máquina que opera.
A cada trajeto até o trabalho, ele lê no trem das 6h27 os trechos que escaparam do triturador na véspera. Um dia, Guylain encontra textos de um misterioso desconhecido que vão fazê-lo buscar cores diferentes para seu mundo e escrever uma nova história para sua vida.
Com delicadeza e comicidade, Didierlaurent revela um universo singular, pleno de amor e poesia, em que os personagens mais banais são seres extraordinários e a literatura remedia a monotonia cotidiana.

 

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3º lugar — A terra inteira e o céu infinito

Ruth Ozeki

Editora Casa da Palavra, 2014, 462 páginas

SINOPSE: O que acontece quando um diário perdida encontra o leitor certo? Numa remota ilha do Canadá, a escritora Ruth cata mariscos com o marido na praia quando se depara com um saco plástico coberto de cracas que envolve uma lancheira da Hello Kitty. Dentro, encontra um livro de Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido, e se surpreende ao descobrir que o miolo, na verdade, é o diário de uma menina japonesa, Nao. A sacola misteriosa, segundo os rumores dos habitantes, é mais um dos destroços do último tsunami que devastou o Japão e foi levado pelas correntezas até a ilha.

Desde então, Ruth é tragada pela história do diário de Nao, uma menina que, para escapar de uma realidade de sofrimento – de bullying dos colegas e de um pai desempregado e suicida –, resolve passar seus últimos dias lendo as cartas do bisavô, um falecido piloto camicase da Segunda Guerra Mundial, e contando sobre a vida da avó, uma monja budista de 104 anos.

O que Ruth não esperava era que o diário iria levá-la a uma viagem onde ela e Nao podem finalmente se encontrar fora do tempo e do espaço.

 

Papalivros

(grupo formado por 22 pessoas, leu 12 livros este ano):

 

1 – Entre cabras e ovelhas, de Joanna Cannon

2 – Amantes modernos, de Emma Straub

3 – Mulheres sem nome, de Martha Hall Kelly

4 – Mona Lisa: a mulher por trás do quadro, Dianne Hales

5 – Um cavalheiro em Moscou, Amor Towles

6 – A casa do califa: um ano em Casablanca, Tahir Shah

7 – O pecado de Porto Negro, Norberto Morais

8 – Pequenos incêndios por toda parte, Celeste Ng

9 – A mulher na janela, A. J. Finn

10 – A menina na montanha, Tara Westover

11 – As filhas do capitão, Maria Dueñas

12 – O leitor do trem das 6h27, Jean-Paul Didierlaurent

 

 

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Melhor livro do ano

 

UM_CAVALHEIRO_EM_MOSCOU_1515720646746406SK1515720646B

1º lugar — Um cavalheiro em Moscou

Amor Towles

Editora Intrínseca, 2018, 464 páginas

SINOPSE: Nobre acusado de escrever uma poesia contra os ideais da Revolução Russa, Aleksandr Ilitch Rostov, “O Conde”, é condenado à prisão domiciliar no sótão do hotel Metropol, lugar associado ao luxo e sofisticação da antiga aristocracia de Moscou. Mesmo após as transformações políticas que alteraram para sempre a Rússia no início do século XX, o hotel conseguiu se manter como o destino predileto de estrelas de cinema, aristocratas, militares, diplomatas, bons-vivants e jornalistas, além de ser um importante palco de disputas que marcariam a história mundial. Mudanças, contudo, não paravam de entrar pelo saguão do hotel, criando um desequilíbrio cada vez maior entre os velhos costumes e o mundo exterior. Graças à personalidade cativante e otimista do Conde, aliada à gentileza típica de suas origens, ele soube lidar com a sua nova condição. Diante do risco crescente de se tornar um monumento ao passado até ser definitivamente esquecido, o Conde passa a integrar a equipe do hotel e a aprofundar laços com aqueles que vivem ao seu redor. Com sua perspectiva única de prisioneiro de duas realidades distintas, o Conde apresenta ao leitor sua sabedoria e sensibilidade ao abandonar certos hábitos e se abrir para as incertezas de novos tempos que, mesmo com a capacidade de transformar a vida como a conhecemos, nunca conseguirão acabar com a nobreza de um verdadeiro cavalheiro.

 

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2º lugar — A casa do califa: um ano em Casablanca  [houve empate nesta colocação]

Tahir Sha

Editora Roça Nova, 2008, 351 páginas

SINOPSE: O livro descreve, com o mais refinado humor, o ano em que a família do autor se dedica a restaurar a Casa do Califa, uma mansão em ruínas em frente ao mar de Casablanca. Mergulham então nos costumes locais, enfrentando todo o tipo de situação.

 

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2º lugar — Pequenos incêndios por toda parte [houve empate nesta colocação]

Celeste Ng

Editora Intrínseca, 2018, 416 páginas

SINOPSE: Um encontro entre duas famílias completamente diferentes vai afetar a vida de todos. Em Shaker Heights tudo é planejado: da localização das escolas à cor usada na pintura das casas. E ninguém se identifica mais com esse espírito organizado do que Elena Richardson.

Mia Warren, uma artista solteira e enigmática, chega nessa bolha idílica com a filha adolescente e aluga uma casa que pertence aos Richardson. Em pouco tempo, as duas se tornam mais do que meras inquilinas: todos os quatro filhos da família Richardson se encantam com as novas moradoras de Shaker. Porém, Mia carrega um passado misterioso e um desprezo pelo status quo que ameaça desestruturar uma comunidade tão cuidadosamente ordenada.

Eleito nos Estados Unidos um dos melhores livros de 2017 por veículos como Entertainment Weekly, The Guardian e The Washington Post, Pequenos Incêndios Por Toda Parte explora o peso dos segredos, a natureza da arte e o perigo de acreditar que simplesmente seguir as regras vai evitar todos os desastres.

 


A coincidência de ambos os grupos nomearem o mesmo livro como melhor do ano, não passou despercebida. É verdade que Um cavalheiro em Moscou é obra fascinante.  Tom, reconstrução histórica sem excessos, alusões literárias pertinentes e um quê de aventura ao final fizeram esta leitura inesquecível para todos os participantes.

 

 





Festa de Natal reúne dois grupos de leitura no Rio de Janeiro!

10 12 2018

 

 

IMG-20181209-WA0062Restaurante Peixe-vivo, Copacabana, Rio de Janeiro

 

Os grupos de leitura Papalivros e Ao Pé da Letra pela terceira vez se encontraram na Festa de Natal para o encerramento das atividades do ano.  Vinte-quatro dos trinta membros participaram da festa. No salão reservado do Restaurante Peixe-vivo em Copacabana, Rio de Janeiro.

Tivemos a chegada de netos para muitas de nós e três filhotes (um par de gêmeas) prometidos para o início de 2019.  Comemoramos filhos que passaram no ENEM.  Filhos que completaram bem o ano letivo.  Três de nós mudaram de endereço. Uma de nós se mudou para a Ucrânia, de onde é seu marido!  Uma perda para nós, um ganho para eles. Dois livros publicados por membros dos grupos e muitas viagens. O Oriente esteve em pauta da Índia à China e ao Japão.  Os países nórdicos também. Portugal e Espanha, sempre favoritos também se sobressaíram. E Chile.  Duas conseguiram novos e melhores empregos.  E com boa saúde fomos em frente.  Enfim um ano cheio de boas notícias que se encerra.  Ambos os grupos continuarão com suas atividades mensais.  Papa-livros lerá Kafka à beira-mar, de Haruki Murakami, em janeiro.  Ao pé da letra, aproveitando um período de sete semanas de descanso, se encontrará no final de janeiro tendo lido Ana Karenina de Leon Tolstoi. A  ambos os grupos, boa sorte e boas leituras.





Reflexões de viagem, texto de Bernhard Schlink

9 12 2018

 

 

Charles HoffbauerNova York, primeira metade do século XX

Charles Hoffbauer (EUA, 1875-1957)

óleo sobre madeira

 

 

“Sempre que estou em outro país me pergunto se seria mais feliz nele. Quando percorro as ruas e vejo numa esquina um grupo de pessoas conversando e rindo, penso que,  se eu vivesse ali, agora também estaria feliz num grupo em uma dessas esquinas. Quando passo por um café com mesas ao ar livre e um homem se aproxima de uma mesa onde há uma mulher sentada e os dois se cumprimentam alegremente, penso que ali eu também, um dia, encontraria uma mulher que se alegraria ao me ver, e que eu me alegraria em vê-la. E quando à noite se acendem as luzes nas janelas!  Cada janela promete ao mesmo tempo liberdade e aconchego, libertação da vida antiga e aconchego numa nova.”

 

 

Em: A mulher na escada, Bernhard Schlink, tradução de Lya Luft, Rio de Janeiro, Record: 2018, p. 65.





Flores para um sábado perfeito!

8 12 2018

 

 

 

BRACHER, CARLOS (1940).Copos de leite e galinha de Barro.ost, 1979 95 x 65 cmCopos de leite e galinha de barro, 1979

Carlos Bracher (Brasil, 1940)

óleo sobre tela, 95 x 65 cm





Palavras para lembrar — Aluísio de Azevedo

6 12 2018

 

 

István Nagy (Hungria, 1873-1937), O leitorO leitor

István Nagy (Hungria, 1873 – 1937)

óleo sobre tela

 

“Tudo mais, que aprendemos de ouvido ou que aprendemos nos livros, se evapora com o tempo e desaparece; só essas lições, que nos entraram pelos olhos e nos espalharam n’alma as suas raízes, só essas conservaremos por toda a vida e levaremos conosco para a sepultura.”

 

Aluísio de Azevedo





Desejos, Mário Quintana

4 12 2018

 

 

astros, blanche wrightAstros, ilustração de Blanche Wright.

 

 

“Se as coisas são inatingíveis… ora!

Não é motivo para não querê-las…

Que tristes os caminhos, se não fora

A presença distante das estrelas!”

 

Mário Quintana.





Livros, melhor presente não há!

3 12 2018

 

 

 

0c170d0f4c9b442ce9d31876668f0f65Ilustração de Rebecca Campbell.

 

Duas das maiores livrarias do país perigam não sobreviver.  Tudo indica que não se adaptaram ao mundo moderno, além de sofrerem de má gestão.  A rede Saraiva era responsável por 30% das vendas de livros no país.  No ano passado o mercado de livros aumentou em 9,1%.  Como pode uma livraria que responde por quase um terço do mercado brasileiro estar à beira da falência?  Mesmo quando o mercado aumentou?  Má gestão resume-se a manter o negócio com hábitos antigos, sem supervisão e por não entender as mudanças no mercado.  Mas não é isso que me traz às reflexões desta postagem.  No final de novembro Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras, fez um apelo para que lembrássemos a nossos amigos, conhecidos, familiares da importância dos livros, de todos os livros para nossas vidas, e que presenteássemos com livros. “Cartas de amor aos livros”, Luiz Schwarcz.

 

0639182eda5cf2e23087dcba64091a6aTintin lê, Hervé.

 

Não me lembro de meus primeiros livros. Tenho certeza de que vieram ao meu encontro antes de eu completar 3 anos.  Há uma foto minha, sentada no degrau da porta de entrada da casa de minha avó, agarrada a um livro. Absorta.  Cabelos soltos não muito longos cobrindo o rosto, porque olhava atentamente para as páginas à minha frente, mãos segurando um livro aberto, no colo, vestidinho de domingo, sapato e meia. Eu tinha 3 anos pela data escrita por papai, no verso da foto. Filha de professores, passei a vida rodeada por livros de todos os assuntos.  Mãe professora de literatura/línguas, pai cientista professor de física e química, um avô, o único que conheci, advogado, professor e jornalista com coluna nos jornais do Rio de Janeiro e de Mato Grosso, onde nascera. Com uma biblioteca com todos os livros encapados, catalogados e protegidos por estantes com portas de vidro de correr onde se refugiava após o jantar, ele se presenteava com a cachimbada da noite. Irmãs de minha mãe, professoras.  Irmão de meu pai também.  Livros formaram a essência do conceito casa, lar, aconchego, segurança, família, conversa, relacionamentos, conhecimento, prazer, entretenimento, valores.  Não consigo dissociar livros de minha vida. Portanto, para mim, é difícil imaginar que tenhamos que falar sobre as benesses da leitura, sobre o quanto ela contribuiu para a formação de  caráter, para a formação de quem somos.  Não sei mais o que aprendi através dos livros. Foram tantos livros, tantos assuntos, tanta informação. Mas sei que aprendi muito mais do que se não os tivesse lido.  Porque eles, amigos de todas as horas, em todos os lugares, são uma janela para o mundo externo e uma porta para o auto conhecimento. Livros nos fazem grandes, maiores do que nossas alturas, mais fortes do que nossos músculos.  Eles nos expõem  a mundos que jamais visitaríamos ou visitaremos, e passamos a entender outras realidades, outros modos de pensar. Livros trazem conhecimento sobre o qual podemos criar, crescer e construir uma realidade melhor para a sociedade em que vivemos.

 

lendo lobãoLobão procura aprender sobre o sucesso de seu competidor urso. Ilust. Walt Disney.

 

Do tempo de criança, antes de me apegar à coleção de Monteiro Lobato, que li toda, inclusive a História do Mundo para Crianças, me lembro de muitos livros sem necessariamente me lembrar de seus títulos. Pena.  Mas me lembro que, antes de me entregar às obras de Lobato, ao ler Simbad, o marinheiro, que ganhei de aniversário, aos seis anos de idade, corri para mamãe e disse:  “Olha, estou vendo um filme dentro da minha cabeça enquanto leio!”  Foi, acredito, a primeira vez que descobri que ninguém precisava ler para mim para que eu pudesse imaginar as cenas.  Isso poderia acontecer quando eu mesma estivesse encarregada da leitura.  Ou seja, a leitura já estava automática o suficiente para que eu não sofresse com o ato de ler. Podia ler e imaginar com fluência. Tornara-me leitora plena.  Daí para frente preferi que ninguém lesse para mim, isso era coisa que eu queria fazer por mim mesma, dando ênfase ao que eu achava importante.  Neste ano, aos seis anos, meu primeiro ano de escola, nós nos mudamos, no meio do ano letivo.  E fiquei até março do ano seguinte em casa, a conselho das diretoras das escolas, porque já estava mais à frente do que o pessoal que havia entrado comigo. Passei de julho a março lendo.  Li de tudo.  E li uma história que até hoje me acompanha, de um menino chinês, que tinha uma longa trança.  E não sei porque, ele precisava estudar à noite, à luz de um lampião.  E para que não dormisse, amarrou a trança num prego na parede atrás de sua mesa de leitura.  Assim, toda vez que ele cochilava e sua cabeça pendia para frente, levava um puxão da trança, acordava e voltava a estudar. Por que ele se achava nessa circunstância, não sei.  Não me lembro do título, nem do autor da história.  Era ilustrada.  Desenhos em linha preta, como nanquim, aquarelados de verde, num estilo dos anos 60 do século passado.  Muitas vezes que precisei vencer o sono, lembrei-me da trança deste chinesinho amarrada ao prego na parede.  Senti-me reconfortada ao saber que outros, muitos outros já haviam passado por situação semelhante e que cabia a mim achar um prego para minha trança, uma solução para a minha noite em claro.

 

Magali lendo, Monica curiosaMagali lendo, Monica curiosa. Ilust.  Maurício de Sousa.

 

De meu pai, lembro-me principalmente carregando livros.  Eles também faziam parte de sua vida diária. Tínhamos o hábito de conversar à mesa, mesmo que a televisão estivesse ligada.  Conversar era uma coisa de família.  Falávamos de tudo. E papai era a “enciclopédia ambulante” para nós.  Não havia pergunta que ele não respondesse.  e se não soubesse, corria às estantes de seu cubículo (o antigo quarto da empregada) coberto de estantes de cima abaixo, com centenas e centenas de livros de todos os assuntos. Papai adorava aprender.  E passou essa curiosidade do aprendizado para seus três filhos.  Se perguntássemos alguma coisa, se ele precisasse dar uma explicação mais detalhada, ele saía por um momento da sala, para logo depois aparecer carregando dois, três volumes dos mais variados assuntos que pudessem ilustrar ou apontar para as respostas que procurávamos.  Sim, livros sempre foram parte do nosso dia a dia.  Não vamos romantizar esse hábito de papai.  Havia horas em que era muito chato.  Queríamos entender alguma coisa rapidamente, queríamos saber como responder às questões da escola e lá vinha ele prolongando as horas do dever de casa, dando informações muito além das que necessitávamos para a escola. Era um sofrimento, principalmente na adolescência, quando havia tantas outras opções para consumir nosso tempo, mesmo que elas fossem simplesmente divagar sobre as possibilidades.  Por vezes penso que papai teria adorado a Wikipedia.  Mas logo me lembro que não era fã de enciclopédias.  Não daquelas em diversos volumes.  Sempre dizia que o conhecimento da humanidade avançava em maior rapidez do que as edições das enciclopédias.  Papai gostava de livros, sobre um assunto, que se aprofundassem.  Todas as nossas enciclopédias eram em um único volume, lembro-me por exemplo de consultarmos sempre que podíamos a Larousse em um volume.  Era como um dicionário onde encontrávamos o mínimo necessário para depois irmos às bibliotecas procurar o que queríamos saber.

 

lendo, patinhas, noite, livros, mesa,Tio patinhas se diverte lendo, ilust. Walt Disney.

 

Lembro-me de livros serem um assunto entre os familiares, irmãos e cunhados de meus pais.  Era tão comum conversar sobre o que se lia, quanto falar sobre filmes vistos no cinema ou na televisão. Meus tios e meus pais passavam livros que liam por entre o resto da família. Eram livros de ficção que todos da família liam.  Autores brasileiros tinham preferência, mas lembro-me de livros de todo gênero Fernando Sabino,  Érico Veríssimo, Morris West, Françoise Sagan, Jorge Amado, Mário Palmério, Pearl S. Buck, Antônio Callado, Nabokov entre outros, passados de meus tios a meus pais e vice-versa e que só bem mais tarde viemos a ler. Havia também alguns livros que traziam muita conversa nos encontros familiares, nos aniversários Eram os deuses astronautas? de Erich von Däniken, O macaco nu de Desmond Morris, e Os dragões do Éden, de Carl Sagan, estes livros iam e vinham a berlinda nas conversas em família, ano após ano.  A ficção de suspense foi uma descoberta tardia de meus pais e tios (com exceção de Agatha Christie, que me lembro bem de terem lido) mas um gênero mais relacionado à política mundial da guerra fria, O dossiê de Odessa e os livros de John Le Carré,  fazem parte de um gosto tardio, mas a essa altura eu já não morava com eles.

Não era porque gostávamos de ler, que deixamos de ter nossas brincadeiras, nossas horas de criança.  Meus irmãos jogaram futebol, fizeram karatê, nós todos nadávamos, íamos à praia (morávamos próximo).  E continuamos leitores, como adultos.  Mas cada qual com suas preferências.  Marcus gostava de ler sobre ciências, música, e tinha gosto por alguns escritores de ficção, Camus entre eles.  Meu irmão Ricardo também gosta de ler e se dedica com prazer principalmente a biografias. Ambos se formaram em  engenharia.  Talvez por ter tido tanto contato com livros inicialmente pensei em fazer letras.  Mas depois a história da arte me levou por outros caminhos.  No entanto, a leitura sempre fez parte do meu dia a dia.

 

lendo, histórias, contando histórias, contos de fadas, dormir,Ilustração de Maurício de Sousa.

 

Dizem que o mundo digital está acabando com o livro como nós conhecemos, em papel.  Impresso.  Acredito que ambos irão viver lado a lado.  Leio tanto livros digitais quanto livros de papel.  E muitas vezes, mas muitas vezes mesmo, depois de ler a versão digital, compro o livro para poder ter comigo, emprestar, rever sua capa, seu dorso, sua maneira de ser.  O livro digital tem uma vantagem sobre o livro físico:  posso levar muitos livros para um fim de semana fora, sem que me pese um grama mais.  Mas o livro físico tem um encanto próprio e acredito que acabo usando as versões digitais como uma peneira para saber exatamente que livro gostaria de ter me acompanhando na vida.  Acredito que a leitura seja essencial para o crescimento emocional sadio de uma criança, de um adolescente e de um adulto.  A leitura nos dá companheiros de dramas familiares e muitas vezes ela nos dá respostas sem que saibamos onde aprendemos.  A leitura expande a mente e nos torna mais flexíveis e mais generosos com os outros que diferem de nós.

Sempre dou livros de presente.  Passo muito tempo imaginando que livro dar para quem.  E espero que tenham, na sua maioria, sido bons presentes.  Dar um livro bem escolhido mostra que pensamos nessa pessoa. E ao mesmo tempo, por nossas escolhas, nos mostramos também a ela.  É um ato de dar e de dar-se.  É um modo de aproximação, de carinho. É um gesto que diz: isso é uma das maneiras que penso em você.  Dar livros é libertar a imaginação do outro e respeitá-la ao mesmo tempo. Não pense duas vezes, dê um livro de presente aos seus amigos, parentes, filhos e netos.  Dar um livro é dar o mundo. Dar um livro é um gesto de amor.

 

© Ladyce West, Rio de Janeiro, 2018





Domingo, um passeio no campo!

2 12 2018

 

 

GASTÃO FORMENTI -vista do rio, óleo sobre duratex, 16X22cm. Assinado Rio 1972.Vista do rio, 1972

Gastão Formenti (Brasil, 1894 -1974)

óleo sobre duratex, 16 X 22 cm