Alexander Mark Rossi (GB, 1840-1916)
aquarela e guache sobre papel, 69 x 105 cm
Alexander Mark Rossi (GB, 1840-1916)
aquarela e guache sobre papel, 69 x 105 cm
Pato Donald sonha em como gastar o dinheiro da loteria, ilustração Walt Disney.
Mainie Jeller (Irlanda, 1897-1944)
óleo sobre tela
Museu Irlandês de Arte Moderna, Dublin
Quando criança levei anos para gostar de O Patinho Feio, porque não aceitava ver o pobrezinho repudiado pela família; chorei com as maldades da madrasta de João e Maria e com as desventuras relatadas pelo burrico da Condessa de Ségur. Hoje, ainda tenho aversão a maldades, a me familiarizar com os hábitos de monstros humanos. É difícil, então, ler uma obra de ficção em que há dois protagonistas: um assassino em série, tratado com quase benevolência e sua vítima, uma jovem de 17 anos, grávida, tratada com frieza. Nenhum dos dois consegue ter a minha simpatia. E é isso exatamente que Wiliam Trevor deseja, numa narrativa perturbadora. Ter lido A jornada de Felícia até o fim é surpreendente e um enorme elogio ao autor.
O suspense psicológico dessa história é controlado. Mas não deixa de ser uma narrativa desconcertante por levar o leitor a habitar a cabeça de Mr. Hilditch, próximo ao desvelo pelo assassino. Paralelamente, outra surpresa: mesmo depois de conhecer o passado de Felícia, sua inocência, sua inexperiência, o leitor se encontra, assim como o autor, pronto para rejeitá-la. Esse é o poder da narrativa de William Trevor, um mestre, sem dúvida alguma, na arte literária. A jornada de Felícia, no entanto, é um livro desagradável, incômodo que subverte os parâmetros emocionais do leitor.
William Trevor
Felícia e Mr. Hilditch são duas pessoas muito diversas que se encontram por um capricho do acaso. Ela grávida, seduzida por um rapaz de sua pequena cidade que nunca teve a intenção de levá-la a sério. Ele, Joseph Ambrose Hilditch, um homem gordo, com óculos de fundo de garrafa, com um bom temperamento, sólido trabalhador, em um serviço de catering. Os sentimentos mais recônditos de cada um deles aparecem para o leitor numa cadência determinada, sutil e enervante. William Trevor não deixa de mostrar também o lado mais cruel da vida dos que não têm dinheiro, casa ou comida. Com ele o leitor passeia pelo mundo desconhecido e sombrio da rua. À beira do abismo foi o meu sentimento através dessas páginas, 275 delas. Quando? O quê acontecerá? Haverá um golpe final? O desfecho, assim como a obra não tem uma solução clara. Há frustração. Há, como na vida, falta de solução. Não há fada madrinha, não há obra do acaso para redimir a vida desses personagens. Mas talvez, quem sabe, esse seja o único final possível.
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Uma narrativa sublime. Escrita com precisão cirúrgica. Difícil de recomendar. O risco é seu.
Beijo roubado, ilustração de Howard Chandler Christy, 1904.
Fico em teus braços… Depois,
rogo a Deus, mais uma vez,
que o segredo de nós dois
fique só entre nós três.
(Cezário Brandi Filho)
Meditação, Mme Monet no canapé, 1871
Claude Monet (França, 1840-1926)
óleo sobre tela, 42 x 74 cm
Musée d’Orsay, Paris
Ilustração de Ian Ward. www.ianward.co.uk
Hoje passei os olhos num artigo sobre cães literários. O artigo era americano. Citava o nome de alguns personagens cães que fazem parte da literatura americana. E que passaram a fazer parte da cultura americana em geral. É claro que disparei para o Google procurando lista semelhante no Brasil. Achei uma pequena e adicionei um ou outro nome de personagem literário canino, de que me lembrava.
Aqui vai:
Amigo Cachorro, Belmiro Braga
Baleia, Graciliano Ramos
Biruta, Lygia Fagundes Telles
Bruno Lichtenstein, de Rubem Braga
Firififi, Dalton Trevisan
Japir, José de Alencar
Madrugada, Orígenes Lessa
Mila, Carlos Heitor Cony
Perigo, de Domingos Pellegrini
Pingo-de-ouro, de Guimarães Rosa
Plutão, Olavo Bilac
Quincas Borba, Machado de Assis
Samba, Maria José Dupré
Tentação, de Clarice Lispector
Tusca, Marina Colasanti
Uno, Walcir Carrasco
Veludo, de Luiz Guimarães
Zig, Rubem Braga
Adicionando sugestões dos leitores:
Floquinho, Maurício de Sousa