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Leitora de horóscopo
Dimitris Voyiazoglou (Grécia/Holanda, contemporâneo)
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“Ler é uma conversa. Todos os livros falam. Mas um bom livro também escuta”.
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Mark Haddon
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Leitora de horóscopo
Dimitris Voyiazoglou (Grécia/Holanda, contemporâneo)
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Mark Haddon
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Edwaert Collier (Holanda, 1642-1710)
óleo sobre madeira, 32 x 27 cm
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Aurélio Pinheiro
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O Dr. Elesbão recebeu-nos com um sorriso sereno, em sua fecunda biblioteca, de altas, solenes estantes de mogno. Era uma grande sala, branca, de espiritualizante claridade, com as janelas abertas para o nascente. Sobre a larga mesa de estudos havia livros esparsos, papéis, vários objetos e um tinteiro de prata com uma águia de asas distendidas na ânsia de um vôo fremente. Junto à mesa, num dunquerque de ébano, pousava uma caveira sobre um suporte niquelado. Pelos cantos, colunas de mármopore ostentavam estatuetas e jarrões, e atrás da cadeira do Mestre surgia o busto de Hipócrates, saliente e austero como o de um deus pensativo. Entre duas estantes um pêndulo alto e negro marcava as horas, antecedendo-as de um minuete do tempo do Rei-Sol. Nas paredes dois quadros a óleo: — uma cabeça de velha a sorrir com brandura e uma álacre marinha… Um sofá de molas envolvido em capa de linho branco e algumas cadeiras de jacarandá com espaldares em alto relevo, completavam o severo mobiliário.
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Em: Flor do Lácio,[antologia] Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário), página 23.
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Aurélio Waldomiro Pinheiro (RN 1882 – RJ 1938) médico, jornalista, poeta, escritor.Formado em medicina , pela Faculdade de Medicina da Bahia, graduando-se em 1907. Retorna ao Rio Grande do Norte (Macau), onde além de clinicar colabora com o jornal O Mossoroense. Em 1910 muda-se para Parintins no Amazonas. Faleceu em Niterói, no Rio de Janeiro em 1932)
Obras:
Gleba tumultuária, prosa, 1927
O desterro de Umberto Saraiva, romance, 1928
Macau, romance, 1932-34
À margem do Amazonas, prosa, 1937
Em busca do ouro, prosa, 1938
Dicionário de sinônimos da língua nacional, s/d
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O vento, com seus gemidos,
que só a dor sabe tê-los,
gelado como a saudade,
vem me beijar os cabelos.
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(Manuel Lins Caldas) [pseud. Daslak]
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Mãe e filho
Adam Buck ( Irlanda, 1759-1833)
gravura
Victoria & Albert Museum, Londres
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Adam Buck nasceu em Cork, na Irlanda, em 1759. Foi um pintor miniaturista trabalhando entre 1780 e 1790, enquanto ainda morava na Irlanda. Mudou-se para Londres em 1795. Exerceu grande influência na cultura da época da Regência fazendo gravuras de trajes contemporâneos, bem como retratos de famílias, no gênero de cenas clássicas e ilustrações para Laurence Sterne ‘s Sentimental Journey. Foi professor de pintura, e fez inúmeras exposições de miniaturas e pequenos retratos de corpo inteiro na Academia Real entre 1795 e 1833. Morreu em Londres em 1833.
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Primeira flor do jardim, ilustração de A. E. Marty.–
Do berço à tumba há um caminho,
que todos têm de transpor:
de passo a passo – um espinho,
de légua em légua – uma flor.
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(Belmiro Braga )
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Deve ter sido o medo da perseguição católica que levou o dono de um pequeno tesouro em moedas de prata a enterrá-las dentro de um sapato, na época da Revolta Holandesa, ou como alguns chamam, na época da Guerra dos Oitenta Anos. Entre 1568 e 1648 o território que é hoje ocupado pela Holanda e parte da Bélgica e que pertencia à Espanha, lutou por sua independência. Os calvinistas que habitavam em grande número o território dos Países Baixos queriam poder manter sua independência religiosa, garantida até então, e temiam que os reis de Espanha viessem a exigir afiliação total ao catolicismo. Esse espírito de revolta foi muito ajudado pelos altos impostos e desemprego generalizado que maltratavam a população. Foram oitenta anos de batalhas e lutas que acabaram com a assinatura do Tratado de Westfália em 1648 e com a unificação e independência da Holanda.
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Foto agência EFE.–
Isso justificaria a causa de se esconder uma coleção – uma pequena fortuna – de 477 moedas dentro de um sapato enterrado no solo. Pouco se sabe sobre essas moedas ou sobre seu dono. Sabe-se, no entanto que essas economias, foram enterradas depois de 1592, porque essa é a data da mais recente moeda no grupo. O tesouro conta com grande variedade de moedas de prata: a mais antiga é de 1472 enquanto qu e a mais recente foi cunhada em 1592.
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Foto agência EFE–
Os arqueólogos holandeses encontraram as 477 moedas de prata enterradas na prefeitura de Roterdã, segunda maior cidade do país. Perguntado sobre o achado, o prefeito da cidade, Ahmed Aboutaleb, se mostrou surpreso com a descoberta e disse que “nunca antes um grupo de arqueólogos tinha descoberto um sapato recheado de dinheiro“. Ainda não foi divulgado o valor atual das moedas encontradas, estima-se em alguns milhares de Euros.
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Fonte: Terra
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Urubu rei, s/d
Joacilei Gomes Cardoso (Brasil, 1960)
óleo sobre linho, 140 X 100 cm.
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Padre Nicolao Badariotti *
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Estava um dia um bando de urubus se banqueteando no nojento festim; de repente um deles dá um guincho rouco e todos se afastam e dispõem em círculo numa atitude de respeito. O ar vibra, silvando ao impulso de asas possantes, estremecem as folhas e um magnífico urubu-rei pousa majestosamente sobre um galho seco; dá um olhar imperioso sobre aquela turba vil e, lançando-se pesadamente ao chão, acode ao banquete, desdenhando todo aquele círculo de rivais invejosos e impotentes… Era um lindo animal, maior que um peru, escuro na parte superior do corpo e branco debaixo das asas e do peito. A cabeça coberta somente de uma penugem ostentava sete cores; o bico robusto, os olhos largos e expressivos sem a ferocidade de seus congêneres, o pescoço aveludado e adornado dum colar de alvas penas, fazem do urubu-rei um animal soberbo e de nenhum modo merecedor do nome vulgar tão humilhante para ele.
[Exemplo de descrição de animais]
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Em: Flor do Lácio,[antologia] Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário), página 93.
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*Padre Nicolao Badariotti foi um religioso italiano que descreveu viagem ao Mato Grosso em 1898, sua viagem foi publicada como Exploração no norte de Mato Grosso, região do Alto Paraguay e Planalto dos Parecis. São Paulo: Escola Typ. Salesiana, 1898.
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Ilustração de John Rae.–
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Bocage
——————-(tradução de La Fontaine)
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É fama que estava o corvo
Sobre uma árvore pousado
E que no sôfrego bico
Tinha um queijo atravessado.
Pelo faro, àquele sítio
Veio a raposa matreira,
A qual, pouco mais ou menos,
Lhe falou desta maneira:
– Bons dias, meu lindo corvo;
És glória desta espessura;
És outra fênix, se acaso
Tens a voz como a figura.
A tais palavras, o corvo,
Com louca, estranha afouteza,
Por mostrar que é bom solista
Abre o bico e solta a presa.
Lança-lhe a mestra o gadanho
E diz: – Meu amigo, aprende
Como vive o lisonjeiro
À custa de quem o atende.
Esta lição vale um queijo;
Tem destas para teu uso.
Rosna então consigo o corvo
Envergonhado e confuso:
– Velhaca, deixou-me em branco;
Fui tolo em fiar-me dela;
Mas este logro me livra
De cair noutra esparrela.
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Ao lado do mar de verão,1896
Philip Burne-Jones (Inglaterra, 1861-1926)
Aquarela sobre papel, 46 x 26 cm
Samuel and Mary R. Bancroft Memorial, 1935
Delaware Art Museum, Wilmington, DE
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Tahar Ben Jelloun
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O pássaro e a cobra, s/d
Katsushika Hokusai ( Japão, 1760-1849)
Pintura sobre papel, 25,6 х 36,3 cm
Coleção Particular
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Coelho Neto
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O tempo era de grande esterilidade e os animais andavam esfomeados. Uma cobra, que se arrastava, todo o dia, ao sol, pelo areal abrasado, à procura de alguma cousa com que atendesse à fome que lhe roía as entranhas, perdida toda esperança, enroscou-se em uma pedra e ali deixou-se ficar à espera da morte. Iam-se lhe fechando os olhos de fraqueza, quando um passarinho se pôs a cantar num ramo seco, lançando tão alegres vozes, que a cobra, que era matreira, logo percebeu que tinha de avir-se com um novato, porque passarinho velho não seria tão indiferente a rolar gorjeios em tempo tão infeliz. Assim, instruída pela experiência, imaginou uma traça astuta e, espichando o pescoço, pôs-se a gemer com altos guaiados: — “Ai! de mim, que vou morrer sem alguém que me valha. Ai! de mim…” – Ouviu-a o gaturamo e, porque era curioso, voou do galho ao chão. Pondo-se diante da cobra, interrogou-a. “Que tendes senhora cobra? Por que assim gemeis tão aflita?” – “Ai! de mim! Fui ali acima à fonte, achei água tão fresca e pus-me a beber tão sôfrega, que engoli um diamante do tamanho de uma noz. Tenho-o atravessado na garganta e morrerei se não encontrar pessoa de caridade que mo queira tirar. Vale um reino a pedra e eu a darei por prêmio a quem me fizer o benefício de arrancar-ma da goela, onde se encravou.” — Tufou-se em agrado pretensioso o enfatuado gaturamo e, pensando no tesouro que ali tinha ao alcance do bico, redargüiu à cobra: “Não é pelo que vale o diamante, mas pelo alto preço em que vos tenho, que me ofereço para aliviar-vos. Abri a boca!” – Não se fez a cobra rogar e, tanto que sentiu o passarinho, foi um trago. Então, saciada e rindo – como riem as cobras, — enrodilhou-se de novo e adormeceu, contente.