Boas maneiras XIV

4 06 2009

bolaPor causa de uma bola,

Olha a briga que rola!





5 livros do romantismo III: Inocência

3 06 2009

joana liberal cunha, josé ferraz de almeida jr, 1892, ost pinacoteca est sp

D. Joana Liberal Cunha, 1892

José Ferraz de Almeida Júnior ( Brasil 1850-1899)

óleo sobre tela

Pinacoteca do Estado de São Paulo

Como postei no dia 3 de maio estou elaborando sobre as excelentes informações do ProfessoVanderlei Vicente  sobre os 5 livros do romantismo necessários para o vestibular, publicado no Portal Terra.  Meu objetivo é ajudar aqueles que precisam destas leituras não só a entenderem  um pouquinho mais do romantismo no Brasil, mas conseguirem se lembrar de alguns detalhes das obras mencionadas. e leitura essencial para quem está para fazer o vestibular.  O artigo original estará sempre em itálico azul.

Inocência (1872), de Visconde de Taunay – “Uma das mais exploradas temáticas do Romantismo é a do amor proibido. Essa é a tônica do romance Inocência, que explora a paixão entre os personagens Cirino, um falso médico que atendia no interior do Brasil; e Inocência, jovem prometida por seu pai a um morador da região, Manecão Doca. Num desfecho trágico, a morte de Cirino impede a consagração do amor e, provavelmente, serve como motivador para a morte da melancólica Inocência”.

Inocencia Capa_Original_de_Taunay

Inocência foi o segundo  romance publicado por Alfredo d’Escragnolle Taunay em 1872 e o terceiro livro.  Antes, ele havia publicado em francês, La Retraite de Lagune, em 1871, que foi mais tarde traduzido para o português por Salvador Mendonça em 1874.  A Retirada da Laguna: ocorrida entre 08 de Maio e 11 de Junho de 1867, durante a Guerra do Paraguai, teve início na fazenda Laguna, no Paraguai, e percorreu uma vasta área compreendida pelos actuais municípios de Bela Vista, Antônio João, Guia Lopes e Nioaque, no território do atual Estado do Mato Grosso do Sul.   Esta “reportagem” histórica por si só já teria garantido um lugar nas história das letras brasileiras ao futuro Visconde de Taunay, não tivesse ele outros e muitos atributos com os quais enriqueceu o panorama intelectual do Brasil.    O romance A Mocidade de Trajano, havia sido publicado em 1871, sob o pseudônimo Sílvio Dinarte, um de muitos pseudônimos que usou durante sua carreira literária.

O romance Inocência é justamente localizado no interior do Brasil, em região conhecida por Taunay nas suas  perambulações como engenheiro militar e oficial do exército na Campanha do Paraguai.  É uma história que se desentola na confluência dos Estados de Mato Grosso, Minas Gerais, Goiás e São Paulo.

MatoGrossodoSul_Municip_Inocencia_svg

Mapa do Estado do Mato Grosso do Sul.  Em vermelho a localização do atual munícipio de Inocência, que se diz localizado exatamente onde o romance do Visconde de Taunay se desenrola.

Abre-se com esse romance a literatura regionalista, também explorada por outros autores românticos, mas nunca com a riqueza e o detalhe lingüístico encontrados aqui.

A fascinação lingüística que permeou a vida intelectual de Taunay demonstra não só grande cultura literária mas principalmente sua grande contribuição às nossas letras, focando no tipo do sertanejo, com seus costumes, suas crendices, cultura, desconfiança e seu linguajar.    Foi de grande valia a atenção que Taunay deu a diferentes expressões regionais, ao linguajar do povo e até mesmo à invenção de novos termos, um pouco mais timidamente do que Guimarães Rosa, mas igualmente criterioso quanto ao “descobrir” de um novo  vocábulo com um significado bem específico.

tropeiros sertanejo a cavaloIlustração: Guilherme Valpeteris.

Também foi um grande observador da paisagem brasileira.  Provavelmente sua experiência artística — pois era um excelente pintor — muito lhe ajudou em transmitir, nas vívidas descrições das belezas locais, aquilo que via nas diversas regiões do país que visitou. Taunay escreveu sobre o que conhecera.  Aproveitou o interesse que tinha sobre a natureza para introduzir nesse romance a figura do cientista estrangeiro que vem ao Brasil à procura de fauna e flora exóticas.  O naturalista Meyer, alemão,  que serve de contraponto à cultura sertaneja de Pereira – pai de Inocência —  enquanto procura por borboletas exóticas ou desconhecidas dos livros de ciências europeus.  Sua presença no romance coloca em primeiro plano os opostos da vida rural e da vida urbana européia, sem nunca menosprezar os valores sertanejos.   Meyer acaba encontrando uma rara borboleta branca e a nomeia em homenagem a Inocência, jovem cuja beleza e pureza, o europeu aprecia.  Apesar de existirem algumas borboletas brancas na Mata Atlântica e outras nas densas  florestas brasileiras da região amazônica, a borboleta descrita e nomeada pelo naturalista alemão no romance Inocência é pura ficção.

Borboleta branca 2, caroline

Capítulo XXI

–  …………………

         Meyer, que estava sentado na soleira da porta com as compridas pernas encolhidas, ergueu-se precipitadamente  ao avistar Cirino e correu ao seu encontro.

        Trazia o coração no rosto, um coração cheio de alegria e triunfo.  

        — Oh! Sr. Doutor, exclamou todo risonho, venha ver uma preciosidade… uma descoberta… espécie nova… não há em parte alguma… Ouviu?  Coisa assim vale um tesouro… e fui eu que o descobri!… Nem sequer Juque me ajudou… pois estava deitado e dormindo… Não é verdade, Sr. Pereira?

        — Veja, murmurava o mineiro, que barulhada faz ele com o tal aniceto… Ao menos, se fosse um animal grande!

        — É uma espécie… nova… completamente nova!  Mas já tem nome… Batizei-a logo… Vou-lhe mostrar… Espere um instante…

        E entrando na sala, voltou sem demora com uma caixinha quadrada de folha-de-flandres, que trazia com toda reverência e cujo tampo abriu cuidadosamente.

        Da própria garganta saiu um grito de admiração, que Cirino acompanhou, embora com menos entusiasmo.

        Pregada em larga tábua de pita, via-se formosa e grande borboleta, com asas meio abertas, como que dispostas a tomar vôo.  

        Eram essas asas de maravilhoso colorido; as superiores do branco mais puro e  luzidio; as de baixo de um azul metálico de brilho vivíssimo.

        Dir-se-ia a combinação aprimorada dos dois mais belos lepidópteros das matas virgens do Rio de Janeiro, Laertes e Adônis, estes, azuis como cerúleo cantinho do céu, aqueles, alvinitentes como pétalas de magnólia recém-desabrochada.

        Era sem contestação lindíssimo espécime, verdadeiro capricho da esplêndida natureza daqueles paramos.  Também Meyer não tinha mão em si de contente.

        — Este inseto, prelecionou ele como se o ouvissem dois profissionais da matéria, pertence à falange das Helicônias.  Denominei-a logo, Papilo Innocentia, em honra à filha do Sr. Pereira, de quem tenho recebido tão bom tratamento.  Tributo todo o respeito ao grande sábio Linneu – e Meyer levou a mão ao chapéu – mas a sua classificação já está um pouco velha.  A classe é, pois, Diurna; a falange, Helicônia; o gênero, Papilio e a espécie, Innocentia, espécie minha e cuja glória ninguém mais me pode tirar…  Daqui vou hoje mesmo, oficiar ao secretário perpétuo da Sociedade Entomológica de Magdeburgo, participando-lhe fato tão importante para mim e para a sábia Germânia.

–  ………………

Inocência foi um romance que atingiu uma enorme popularidade.  Não só aqui, na sua terra natal.  Mas foi traduzidos para muitas línguas: francês, alemão, italiano, dinamarquês, sueco, polonês, espanhol e japonês.  Foi publicado na maioria dos países como folhetim , em leitura diária de jornais.  Taunay com esse romance atingiu um público universal que seguiu passo a passo a história de amor infeliz, a paisagem exótica, os costumes sertanejos.  Até os dias de hoje Inocência é considerado um dos mais belos romances brasileiros.

——-

taunay_interna[1]

Alfredo Maria Adriano d’Escragnolle Taunay, Visconde com grandeza de Taunay, (Rio de Janeiro, 22 de fevereiro de 1843 — Rio de Janeiro, 25 de janeiro de 1899), nasceu em uma família aristocrática de origem francesa no Rio de Janeiro. Foi professor, engenheiro militar e político, historiador, pintor e romancista. Freqüentou o Colégio Pedro II onde se bacharelou em Letras, em 1858, aos 15 anos de idade.  Logo depois estudou Física e Matemática na Escola Militar, no Rio de Janeiro, tornando-se bacharel em Matemática e Ciências Naturais em 1863.   Em 1862, iniciou o curso de engenharia militar.   Combateu na Guerra do Paraguai como engenheiro militar, de 1864 a 1870. Após seu retorno ao Rio de Janeiro, lecionou no Colégio Militar e iniciou simultaneamente sua carreira como político do Segundo Império. Atingiu o posto de major em 1875. Foi eleito para a Câmara dos Deputados pela província de Goiás em 1872, cargo para o qual seria reeleito em 1875.   Foi presidente da província de Santa Catarina, nomeado em 26 de abril de 1876. Assumiu o cargo de 7 de junho de 1876 a 2 de janeiro de 1877, quando o passou ao vice-presidente Hermínio Francisco do Espírito Santo, que o concluiu em 3 de janeiro de 1877.  Retirou-se da vida política em 1878, inconformado com a queda do Partido Conservador, saindo do país para estudar na Europa, retornando em 1880. Em 1881 foi eleito deputado pelo estado de Santa Catarina, e em 1885 foi nomeado presidente da província do Paraná, exercendo o cargo de 29 de setembro de 1885 a 3 de maio de 1886. Em 1886 torna a ser deputado, novamente pela província de Santa Catarina. Foi feito Visconde de Taunay por D. Pedro II em 6 de setembro de 1889.

Concluiu o monumento aos heróis catarinenses da Guerra do Paraguai, que inaugurou em 1 de janeiro de 1877, no Largo do Palácio, atual Praça Quinze de Novembro.   Foi ainda Deputado Geral por Goiás, de 1876 a 1878, e também por Santa Catarina, de 1882 a 1884. Foi Senador por Santa Catarina, escolhido de uma lista tríplice pelo Imperador em 6 de setembro de 1886, sucedendo Jesuíno Lamego da Costa.

Taunay foi um autor prolífico, produzindo ficção, sociologia, música (compondo e tocando), história e outros assuntos mais. Na ficção é considerado pelos críticos o Inocência como seu melhor livro. Com a proclamação da república em 1889, Taunay deixou a política para sempre. Faleceu diabético no dia 25 de janeiro de 1899.

Obras:

A Campanha da Cordilheira, 1869

La Retraite de Laguna, 1871 (em francês, traduzido como “A retirada da Laguna”)

A Retirada da Laguna

Inocência, romance, 1872

Lágrimas do Coração: manuscrito de uma mulher, romance, 1873

Histórias brasileiras, 1874

Ouro sobre Azul, romance, 1875

Narrativas militares, 1878

Estudos críticos, 2 vols., 1881 e 1883

Céus e terras do Brasil, 1882

Amélia Smith, drama, 1886

No Declínio, romance, 1889

O Encilhamento, romance, 1894

Reminiscências, memórias, 1908 (póstumo)

O romance Inocência encontra-se em domínio público.  Para acessá-lo clique AQUI.





Quadrinha para crianças: aniversário, Pedro Bandeira

3 06 2009

aniversário 2

Magali no seu aniversário: ilustração de Maurício de Sousa

 

Meu Aniversário

Hoje é o meu aniversário,
é um dia sem igual!
Eu queria que hoje fosse
feriado nacional!

Pedro Bandeira





Cratera de 400 km na superfície de Tétis

3 06 2009

cratera 400 km

 

A Nasa, agência espacial americana, divulgou nesta quarta-feira uma imagem da cratera Odysseus na superfície do satélite Tétis – conhecido como uma das luas de Saturno. A cratera, no canto superior direito da imagem, tem cerca de 400 km de diâmetro. As informações são da agência AP.

A cratera Odysseus surgiu no início da história de Tétis quando ocorreu um impacto que formou uma enorme bacia provocando a deformação do satélite. A imagem foi obtida em luz visível com a sonda Cassini em 24 de abril de 2009. O satélite foi descoberto por Giovanni Cassini em 1684.

Fonte: Terra





As 10 expressões de busca mais perigosas para o seu computador

2 06 2009

perigo

Ilustração:  Maurício de Sousa

 

A rede americana ABC, de comunicações, publicou hoje o resultado de uma pesquisa feita pela companhia McFee de segurança na rede, chamado de “The hacking community is very smart — they can spot a trend as well as any trendspotter.” [A comunidade Hacker é muito esperta – eles podem perceber uma onda tão bem quanto qualquer olheiro de modismos].   O artigo é bem grande, mas coloco aqui simplesmente os resultados dos termos com os quais devemos exercer maior cuidado ao entrarmos nos portais Google, Yahoo, ou qualquer outro local de pesquisa.  Coloco também a lista primeiro em inglês e depois com as traduções explicativas,  pois muitos desses termos são usados em inglês propriamente, sem tradução, como é o caso de Free Ringones, Free Music, etc.

 

1. Word Unscrambler  (resoluções de anagramas)

 2. Lyrics (letras de músicas)

 3. MySpace

 4. Free Music Downloads  ( download de músicas gratuito)

 5. Phelps, Weber-Gale, Jones and Lezak Wins 4x 100m Relay  (corrida de revezamento)

 6. Free Music ( música gratuita)

 7. Game Cheats  (cola para resolução de jogos)

 8. Printable Fill in Puzzles  (quebra-cabeças para preenchimento, imprimíveis)

9. Free Ringtones  ( campainha musical para telefones gratuita)

10. Solitaire (jogo de paciência)

Fonte: ABC





Brasil que lê: fotografia tirada em lugar público

2 06 2009

lendo, ipanemaIpanema, Praça General Osório, sábado de manhã.





As mais antigas vasilhas de cerâmica encontradas na China

2 06 2009

china3

Cerâmica encontrada na Caverna de Yuchinyan datando de 17.500-18.300 anos atrás. 

 

Fragmentos de cerâmica encontrados numa caverna em Hunan, na China, revelam as mais antigas peças de cerâmica feitas pelo homem, datando de 17.500 a 18.300 anos passados.  Estes fragmentos foram encontrados na caverna Yuchinyan, a mesma caverna em que alguns anos atrás, em 2005, foram encontrados  os mais antigos grãos de arroz conhecidos pela ciência, o que  foi considerado um importante elo para a ligação da caverna-habitação de povos caçadores e coletores e os povos agricultores.

Antes destas descobertas, os exemplos de cerâmica mais antigos descobertos por arqueólogos datavam de 16.000 a 17.000 anos e foram encontrados no Japão.

china1

 

Fonte:  BBC





O Aleijadinho, artigo da Revista Kósmos de 1904

1 06 2009

Aleijadinho-Anjo do Getsêmani, Santuário do Bom Jesus de Matosinhos

Anjo do Getsêmani,

Antônio Francisco Lisboa, O Aleijadinho ( Brasil, 1730-1814)

Santuário do Bom Jesus de Matosinhos  — Congonhas do Campo, MG

 

Transcrição do artigo de Gustavo Penna, para a Revista Kósmos,  Agosto de 1904, número 8. 

 

NOTA:  O artigo original não contém nenhuma ilustração. 

 

 

O Aleijadinho

        Se neste país, donde o patriotismo parece desertar, se erguesse um dia o panthéon destinado, destinado a glorificar na morte aqueles que em vida enobreceram a nossa terra, o cenotáfio  de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, iria ocupar neste templo augusto, um lugar de honra, igual ao de Miguel Ângelo no Panthéon de Itália, em Florença.

        O escultor mineiro, morto há noventa anos, tinha a misantropia ríspida de Beethoven, o temperamento assomado de Leonardo Da Vinci.  Poderia dizer-se que aquelas mãos deformadas e engrunhidas pela doença, tendo alguns dedos cortados  a golpes de formão em momento de desespero indômito, de dores crudelíssimas, haviam tomado aos poucos forma agressiva de garra de leão.

        “Era pardo escuro,”  relata Rodrigo Bretas,  no Correio Oficial de Minas, em 1858.  “Tinha a voz forte, a fala arrebatada, o gênio agastado; a estatura era baixa, o corpo cheio e mal configurado, o rosto e a cabeça redondos, e esta volumosa, o cabelo preto e anelado, o da barba cerrado e basto, a testa larga, o nariz regular, beiços grossos, orelhas grandes, o pescoço curto.

        Sabia ler e escrever e não consta que houvesse frequentado alguma outra aula  além da de primeiras letras, embora alguem julgue provavel que tenha frequentado a de latim.

        De 1777 começaram as moléstias a atacá-lo fortemente.  Pretendem uns que ele sofrera o mal epidêmico que, sob o nome de Zamparina, pouco antes havia grassado nessa província , e cujos resquícios, quando o doente não sucumbia, eram quase infalíveis deformidades e paralisias, que nele se havia complicado o humor gálico com o escorbútico.

        O certo é que Antônio Francisco perdeu todos os dedos dos pés, do que resultou não poder andar senão de joelhos; os das mãos atrofiaram-se e curvaram, e mesmo chegaram a cair, restando-lhe somente, e ainda quase sem movimento, os polegares e os índices. 

        As fortíssimas dores que de contínuo sofria nos dedos e a acrimônia de seu humor colérico o levaram por vezes ao excesso de cortá-los ele próprio, servindo-se do formão com que trabalhava!

        As pálpebras inflamaram-se e permanecendo neste estado, ofereciam à vista sua parte interior, perdeu quase todos os dentes, a boca entortou-se, como sucede frequentemente ao estuporado, o queixo e o lábio inferior abateram-se um pouco; assim o olhar do infeliz adquiriu uma expressão sinistra e de ferocidade, que chegava mesmo a assustar que, quer que o encarasse inopinadamente.

        Esta circunstância e a tortura da boca o tornavam de um aspecto asqueroso e medonho.

      

Aleijadinho, Profeta Oséias

Profeta Oséias

Antônio Francisco Lisboa, O Aleijadinho ( Brasil, 1730-1814)

Santuário do Bom Jesus de Matosinhos  — Congonhas do Campo, MG

 

        Para o Aleijadinho, o louvor era tomado como ironia ou escárneo.  A fito de esquivar-se à vista de todos, ia de madrugada para o serviço, a cavalo, trajando um amplo capote com que ocultava o semblante, e somente regressava à casa depois de noite fechada.

        Ainda mesmo quando trabalhava no interior das igrejas, costumava ocultar-se dentro de um toldo.  Se algum curioso, — fosse obscuro popular, ou um genreal como D. Bernardo de Lorena, muito alto e poderoso governador, — ia vê-lo trabalhar, acompanhando por uns instantes o esculpir de uma estátua, que emergia lentamente de um bloco de pedra, o escopro do Aleijadinho, fazia esfarinhar violentamente tamanha chuva de lascas, que o importuno não se demorava, saraivado por aquela chuva de pedriscos e de pó.

        E foi na solidão e no mesto silêncio das sacristias dos nossos templos, profusamente recamadas de ouro como as igrejas do oriente, naquela atmosfera impregnada de misticismo, que o escultor mineiro fazia surgirem da pedra bruta as notáveis concepções do seu gênio, ora a estátua que seria de outro mérito se fosse talhada no mármore de Carrara, ora esses lavores finos, as folhagens, os rendilhados e as laçarias que se podem chamar a ourivesaria de granito.

        O Aleijadinho viveu numa época e num meio inteiramente hostil à arte, quando o governo português havia proibido o uso do cinzel, “para se não dilapidarem os quintos de Sua Majestade.”  Nenhum dos elementos de educãção artística, de desenvolvimento do gosto, de ilustração, vulgarizados depois pela imprensa, pela fotografia, pela gravura e pela modelagem existia.  Apenas algumas estampas de detestável impressão e de risível ingenuidade, intercaladas nos alfarrábios contando a vida e os milagres do santo.

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Aleijadinho no Museu do Forte de Copacabana

1 06 2009

aleijadinho banner

 

       Felizmente consegui um tempinho para dar uma passada pela exposição de trabalhos de Aleijadinho no Museu do Forte de Copacabana: uma exposição muito melhor do que eu esperava, e por isso corro a sugerir a quem possa ir, que o faça.   A exposição inclui diversas obras pequenas de Antônio Francisco Lisboa,  mas verdadeiras obras-primas.  Um exemplo entre muitos é a imagem de São Francisco de Gusmão, que reproduzo abaixo.

 

domingos

Foto do catálogo da exposição: São Domingos de Gusmão.

 

São Domingos de Gusmão, 1781-1790

Antônio Francisco Lisboa (Brasil, 1730-1814)

Madeira policromada, 17 cm de altura

 

Talvez porque algumas das peças estejam em condições de inusitada conservação, como a peça acima, guardando ainda toda a beleza da pintura e da ornamentação a ouro,  esta exposição  brinca com a nossa imaginação e prima por trazer mais do que as obras do nosso grande escultor, mas a sensação de uma época inteira, mostrando a importância da religiosidade no Brasil setecentista. 

Ao som de música religiosa numa tonalidade bastante atraente ( alta o suficiente para ser apreciada, baixa o suficiente para não atrapalhar), a exposição começa numa sala do primeiro andar com diversas pinturas de mestres do Barroco brasileiro assim como santos, um antar, bancos de capela, e mais…

dom 3

 Aspecto da sala no primeiro andar, antes da exposição propriamente dita.

Depois de uma pequena caminhada, onde podemos apreciar a beleza do cenário carioca, olhando-se do Forte para a praia de Copacabana, chegamos ao segundo andar.  Aí sim, a totalidade da força do trabalho de Antônio Francisco Lisboa, nos invade.   Cada peça extremamente bem iluminada e ao alcance de até mesmo dos mais míopes olhos, tem seu lugar de destaque.  A grande maioria é de pequenos santos, pertencendo a altares particulares,  onde o drapeado dos mantos, o encaracolado dos cabelos, a posição dos pés pode ser facilmente apreciada.  Não são obras monumentais, assim podemos estabelecer um relacionamento íntimo com cada qual.    

 

Dom1

Santa Bárbara, 1791-1812

Antônio Francisco Lisboa (Brasil,  1730-1814)

Cedro, sem policromia, 68 cm de altura.

 

A exposição é completada por reproduções de documentos do Arquivo Público Mineiro, onde podemos ver a assinatura do mestre escultor;  com anedotas da vida diária e algumas interessantes comparações entre ele e Michelangelo; documentos, um belíssimo catálogo com um preço mais do que amigo. 

Em suma, perderá um boa oportunidade para se enriquecer, quem por qualquer motivo faltar à esta exposição.  Vá!  Não perca!

Serviço:

Museu Histórico do Exército e Forte de Copacabana 

 Av Atlântica,  Posto 6,

 Copacabana Rio de Janeiro-RJ Brasil CEP 22070-020

Tel: +55 21 2521-1032

Exposição: “O Aleijadinho e a Religiosidade Brasileira” — até 14 de junho de 2009.

Curador: José Marcelo Galvão de Souza Lima

Quando: 15/05 a 14/06/09 (terça a domingo)

Horário: 10 às 20h

Entrada

Ingressos: R$ 10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia)

– Meia entrada: estudantes com carteira e maiores de 60 anos;

– Isentos: maiores de 65 anos, crianças até 10 anos, portadores de necessidades especiais e grupos escolares agendados.