Quem foi Benta Pereira?

19 06 2008

Benta Pereira

Qualquer visitante à cidade Campos de Goytacazes, no norte fluminense descobre ruas, escolas e demais logradouros públicos freqüentemente batizados com um nome de mulher: Benta Pereira. Perguntando aos campistas, cidadãos comuns, que poderiam ser nossos vizinhos, profissionais liberais, comerciantes em diversos ramos, gente que lê jornal e tenta votar conscientemente, fiquei pasma ao descobrir que ninguém tinha uma boa noção sobre esta mulher, cujo nome aparece com suficiente regularidade para que se indague se não haveria alguma importância local, ao invés simplesmente da “ deve ter sido mãe ou mulher de político antes do meu tempo.”

Infelizmente muitos de nós brasileiros às vezes até nos gabamos da nossa ignorância, como se todo o passado fosse de pouquíssima importância, porque afinal “veja no que deu… olhe à sua volta…” Mas é justamente o conhecimento destes pequenos heróis locais, destas pessoas que se destacaram na defesa de seus direitos, que em outros países leva a população à conscientização da cidadania; ao orgulho local, bairrista é verdade, mas necessário na educação de cidadãos. Por quê? Porque este orgulho pela terra natal, pela história dos heróis da terra, cujos descendentes talvez ainda conheçamos, pode servir não só de exemplo mas de inspiração na defesa do meio ambiente, do ar, dos rios às florestas nativas; na defesa do monumento histórico e dos direitos do cidadão.

Mas como? Na defesa dos direitos do cidadão? Claro. Vejamos o caso de Benta Pereira. Nome completo: Benta Pereira de Souza. Heroína local. Uma senhora que viveu no início do século XVIII. Nasceu por volta de 1670-1675  [ a data de nascença é incerta] e morreu aos 75 anos, em 10 de dezembro de 1760. Filha do Padre Domingos Pereira Cerveira com Isabel de Souza. Casou-se com Pedro Manhães e com ele teve seis filhos que criou sozinha depois de enviuvar. Era uma mulher de muitos bens e sozinha não só gerenciou a fortuna deixada pelo marido e como educou os filhos.

Aos 72 anos de idade, Benta Pereira montou num cavalo e armada liderou uma revolta contra o 3º Visconde de Asseca, Diogo Corrêa de Sá, donatário da capitania da Paraíba do Sul. Ela lutava não só pela liberdade de suas terras, cujas delimitações haviam sido infringidas pelos viscondes, como contra os pesados impostos requeridos pelo donatário. Criadora de gado bovino numa terra que se transformava em um grande canavial com a exploração do açúcar, Benta Pereira, ladeada por sua filha Mariana de Souza Barreto, lutou sem descanso até conseguir a expulsão dos Assecas da capitania. Lutou pelas terras que havia herdado de seus antepassados que por sua vez as receberam em 1627 das mãoo do governador Martim Correa de Sá em reconhecimento pelo corajoso desempenho destes homens nas lutas contra os guerreiros Goitacás.

Quase cem anos foi o período de lutas violentas entre os Asseca, cujo título havia sido criado pelo rei de Portugal para apaziguar lutas familiares na casa de Bragança e os herdeiros dos Sete Capitães (Miguel Aires Maldonado, Miguel da Silva Riscado, Antonio Pinto Pereira, João de Castilhos, Gonçalo Correa de Sá, Manuel Correa e Duarte Correa). As terras em questão, que estavam próximas da Lagoa Feia até a Ponta de São Tomé e que pertenceram originalmente a Pero de Góis da Silveira que acompanhara Martim Afonso de Souza em 1530, haviam sido dedicadas à criação de gado desde 1633 quando currais foram levantados.

É verdade que mais tarde os Viscondes de Asseca ainda conseguiram retomar as terras, sob ordem do então governador do Rio de Janeiro. Mas a festa durou pouco. Os colonos, herdeiros de terras e pessoas comuns já haviam sentido o gosto revolucionário, o gosto de uma independência ainda que tardia, sob o comando de Benta Pereira. E os Viscondes de Asseca, enfraquecidos, logo, logo perderam suas terras. Em 1752 a capitania da Paraíba do Sul foi incorporada à coroa portuguesa.

Retomo esta história aqui por acreditar que pessoas que se revoltaram contra os excessos da nobreza, contra o descaso da coroa portuguesa, a favor de um Brasil diferente, não colonizado, pagador de impostos mais justos, reconhecedor dos direitos judiciais, deveriam ter seus nomes amplamente reconhecidos, como verdadeiros heróis, personagens que lutaram para que nós, nossos avós e bisavós nascidos aqui ou imigrantes pudessem ter neste novo mundo, um ambiente muito mais justo do que aquele que deixaram para trás numa Europa ainda medieval na sua índole e de fato.

Recentemente peregrinando pelos sebos do Rio de janeiro tive o prazer de ver que nos antigos livros adotados pelas escolas estaduais nos anos 50 e 60, de Theobaldo Miranda Santos, Benta Pereira era homenageada como uma importante figura da história fluminense. O que aconteceu com este conhecimento? Por que, hoje, nem mesmo aqueles que residem em Campos dos Goytacazes estão cientes do valor desta senhora, heroína verdadeiramente brasileira? Mesmo que Ordem de Mérito Benta Pereira seja a mais alta condecoração da Câmara Municipal de Campos de Goytacazes o habitante de Campos não a conhece e muito menos os outros cidadãos fluminenses.

Resgatar esta e outras histórias é essencial. O nosso passado não começou em 1822. Há por trás desta data 300 anos em que brasileiros, pessoas nascidas aqui e com amor a esta terra, lutaram também para a melhoria e o beneficiamento do país.

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Para maiores informações sobre Benta Pereira e seus descendentes, o blog Historiar em 5 de maio de 2009 tem uma excelente entrada:

Historiar





Albinos, osgas no mundo encantado de Agualusa

19 06 2008

Hoje terminei de ler o delicioso livro Manual Prático de Levitação do escritor angolano José Eduardo Agualusa. Este é o segundo livro de sua autoria que leio. Fiquei muito satisfeita em perceber que todo o encanto de linguagem e de temática que haviam me conquistado da primeira vez nas páginas de O vendedor de passados, permaneceu, vingou e cresceu, para minha total gratificação. Gosto de sua prosa, de seu humor, de sua imaginação e da delicadeza com que consegue abordar temas especialmente difíceis entre eles a guerra e suas infinitas e variadas conseqüências.

Diferente do anterior, este é um livro de contos, alguns pequeninos, tamanho bolso, mas que dão conta do recado com grande encanto. Estes contos nos oferecem uma breve viagem por Angola, Brasil e Outros Lugares de Errância. Esta é uma edição para o Brasil, uma coletânea de contos outrora publicados em Portugal e Angola. A eles só foram adicionados três contos inéditos: Os cachorros, O ciclista e Manual Prático de Levitação que dá o nome ao livro. A capa nesta edição da editora Gryphus já é sedutora o suficiente para mim. Trata-se de uma livre adaptação de um quadro do pintor belga René Magritte, cujos trabalhos fizeram parte não só do meu mestrado como do meu curso de doutoramento em história da arte. Nesta criação de Tite Zobaran e Mariane Esberard sobre o quadro Le chef d’oeuvre , duas silhuetas do homem com o chapéu coco se desdobram como se olhassem cada qual para um continente, mas são tão etéreas quanto o céu azul, levemente nublado que as preenche. Os autores foram muito felizes neste arranjo porque não só traz à tona a dualidade dos contos através de Angola e do Brasil como também o espírito onírico de grande parte da prosa Agualusa.

Este é um livro leve, de contos, retratos falados, quase-crônicas que devem ser lidas e apreciadas por todo tipo de leitor. São meras 150 páginas de encantamento. Vale a leitura!

 





Na Inglaterra, livros favoritos dos adolescentes em 2 décadas

18 06 2008

 John Gannam,(EUA 1907-1965) -- aquarela e gouache, anúncio para lençóis.

Recentemente uma amiga me passou uma lista dos livros mais vendidos na Inglaterra nos anos 70 e os mais vendidos — lá também — nos anos 90. Todos só para o público adolescente, ou seja aquele público entre os 12 e 15 anos. Falávamos de um assunto pelo qual batalhamos que é uma maior e melhor formação de leitores no Brasil. E conversávamos sobre as diferenças entre os adolescentes brasileiros e os de outros países.

A lista era a seguinte: [Os títulos estão em português quando houve tradução.]

10 livros mais lidos por leitores de 12 anos de idade em 1971.

Mulherezinhas de Louisa May Alcott
Beleza Negra: autobiografia de um cavalo de Anna Sewell
A ilha do tesouro de Robert Louis Stevenson
O leão, a feiticeira e oguarda-roupa, de CS Lewis ( 1° volume das Crônicas de Nárnia)
Jane Eyre de Charlotte Bronte
Heidi de Johanna Spyri
Oliver Twist de Charles Dickens
The Secret Seven de Ian Serraillier – não achamos a tradução para o português
Tom Sawyer de Mark Twain

10 livros mais lidos por meninas de 12 anos nos anos 90:

Point Horror coleção de vário autores — não achamos a tradução para o português
Sweet Valley de Francine Pascal (série) — não achamos a tradução para o português
Babysitters Club de Ann M Martin — não achamos a tradução para o português
Matilda de Roald Dahl
As bruxas de Roald Dahl
Os pestes de Roald Dahl
A fantástica fábrica de chocolates de Roald Dahl
Adrian Mole na crise da adolescência de Sue Townsend
What Katy Did series de Susan Coolidge — não achamos a tradução para o português

10 livros mais lidos por meninos de 12 anos nos anos 90:
O BFA de Roald Dahl
As bruxas de Roald Dahl
A fantástica fábrica de chocolates de Roald Dahl
Point Horror coleção de vário autores — não achamos a tradução para o português
Adrian Mole ( a série) de Sue Townsend
Astérix ( série) de Rene Goscinny
O parque dos dinossauros de Michael Crichton
Os pestes de Roald Dahl
O Hobbit de JRR Tolkien

Como vemos há pouca diferença entre meninos e meninas nos anos 90. Há uma ligeira prefência pelos livros de ficcção científica e quadrinhos pelos meninos, mas quase insignificante considerando-se que os primerios colocados em ambas as listas são praticamente os mesmos.

Recentemente recebi por email uma lista das séries de livros mais populares na Grã Bretanha no último 10 anos. Elas incluem:

JK Rowling – Harry Potter
Philip Pullman – His Dark Materials
Eoin Colfer – Artemis Fowl
Philip Ardagh – Awful End
JR Tolkein – Lord of the Rings series
Terry Pratchett – Discworld series, e outros
Jacqueline Wilson – Tracy Beaker
GP Taylor – Shadowmancer
Anthony Horrowitz – Alex Rider (não encontrei tradução para o português)
Lemony Snicket – A Series of Unfortunate Events

Fora a série de JK Rowling e seu Harry Potter os outros não me parecem tão populares no Brasil, apesar da maioria dos escritores terem pelo menos alguns de seus livros traduzidos no Brasil.

Uma breve pesquisa no portal da livraria virtual Submarino hoje inclui entre seus livros mais vendidos nesta faixa etária o seguintes títulos:

JK Rowling — Harry Potter e as relíquias da morte
JK Rowling — Harry Potter e o enigma do príncipe
A. Saint-Exupéry — O Pequeno Príncipe
Meg Cabot — Princesa Mia: o diário da princesa
Conn e Hal Iggulden — O livro perigoso para garotos
L. F. Veríssimo — Mais comédias para ler na escola
Malba Tahan — O homem que calculava
Bill Watterson — Calvin & Haroldo: e Foi Assim que Tudo Começou
C. von Ziegesar — Gossip Girl: você sabe que me ama (vol. 2)
C. von Ziegesar — Gossip Girl: Eu mereço (vol. 4)

Correndo o perigo de fazer conclusões com poucos dados, uma vista d’ollhos sobre a lista brasileira mostra uma leitura provavelmente feita por meninas [veja Meg Cabot e von Ziegesar] e bem leve.

PS: aliás eu me pergunto por quê? Por quê? A expressão Gossip Girl não foi traduzida? A mais óbvia tradução é: A fofoqueira, ou menina fofoqueira, Menina mexeriqueira, fuxiqueira, intrometida, alcoviteira, etc Tenho certeza de que se eu for ao dicionário ainda arranjo pelo menos mais dez sinônimos. Então por quê? Deixo aqui a dúvida, a pergunta as observações para quem queira ruminar.





Autran Dourado ganha o Prêmio Machado de Assis

17 06 2008

Monica lendo

 

O escritor mineiro, residente no Rio de Janeiro pelos últimos 40 anos, Autran Dourado foi honrado este ano com o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras.  Este é o prêmio de maior prestígio dado pela ABL.  Esta premiação começou em 1941 e é dada a um escritor pelo conjunto de sua obra.  Outros escritores já agraciados neste século com a pequena estatueta [ um busto de Machado de Assis do escultor Mário Agostinelli], além do prêmio em dinheiro, foram:  o pernambucano Roberto Cavalcanti de Albuquerque (2007), o cearense César Leal (2006), os piauienses Ferreira Gullar (2005), Francisco de Assis Brasil (2004) e Wilson Nunes Martins (2002) e os cariocas Antonio Carlos Villaça  (2003),  e Ana Maria Machado (2001).  A entrega do prêmio será feita no dia 17 de julho, durante as festividades dos 111 anos da ABL.

 

Waldomiro Freitas Autran Dourado é natural de Patos de Minas.  Aos trinta anos foi o jovem Secretário de imprensa do Presidente Juscelino Kunbitschek .  Sua obra é variada e dentre muitos de seus romances destacam-se Uma Vida em Segredo (1964) hoje leitura obrigatória para escolas de nivel médio,  a Ópera dos Mortos (1967),  O Risco do Bordado (1970), Os Sinos da Agonia (1974),  As Imaginações Pecaminosas (1981) pelo qual recebeu o Prêmio Goethe de Literatura, Opera dos Fantoches (1995) e  Confissões de Narciso (1997).   Recipiente de muitos outros prêmios Autran Dourado também já foi agraciado com o prêmio Jabuti em 1982 por contos e crônicas e o Prêmio Camões em 1988, por sua contribuição para ao patrimônio literário e cultural da língua portuguesa.

 

 

 

Ilustração: Maurício de Sousa





Difícil Escolha

16 06 2008

Recepção de inauguração    

 

Este não é o meu primeiro blog.  Considerando o pretendo fazer aqui foi difícil escolher o primeiro assunto.  Foi um obstáculo que eu mesma coloquei, numa fantasia de que deveria ser uma notícia importante.  Que arapuca!  Então começamos logo.

Inauguração da Galeria de Arte Fátima Mourão

Na quarta-feira passada o conhecido ateliê de artes plásticas Fátima Mourão, localizado na rua Saturnnino Brito, 67, no Jardim Botânico, mostrou a bela transformação por que passou a caminho de se transformar também numa galeria de arte.  Paredes chapiscadas em branco ou preto, acompanhadas de excelente iluminação, deram um novo visual ao que antes eram salas de trabalho de diversos artistas plásticos.

A exposição inaugural levou o nome de Obrigado D. João!  uma referência à comemoração dos  200 anos da chegada de D. João VI no Brasil.  Localizada próximo ao Jardim Botânico, uma das obras mais lembradas da herança legada pelo príncipe regente ao Brasil.  Vizinhos do jardim, os artistas deste ateliê fizeram uma bela homenagem ao legado do príncipe regente.  Dez artistas se reunem nesta coletiva:  Anna Luiza Trancoso, Aulio Sayão Romita, Carla Reis, Cláudio Roberto Castilho, Cristina Orensztajn, Fátima Mourão, Lia Belart, Lúcia Maria, Lucia de Lima e Marília Brandão.