Adolf Fényes –Pintor húngaro, Adolf Fényes (Hungria 1867 – 1945) estudou em Budapeste, Weimar e Paris, voltando a fixar residência em Weimar durante algum tempo. Finalmente, voltou a Budapeste. Sua primeira exposição foi em 1895.
Adolf Fényes –Pintor húngaro, Adolf Fényes (Hungria 1867 – 1945) estudou em Budapeste, Weimar e Paris, voltando a fixar residência em Weimar durante algum tempo. Finalmente, voltou a Budapeste. Sua primeira exposição foi em 1895.
Pé de vento…
Olegário Mariano
Ágil, violento,
De copa em copa,
Salta, galopa,
Relincha o vento.
Corcel alado,
Solta as crinas,
Desce às campinas
Desenfreado…
Transpõe barrancas,
Vales, penhascos,
Nas nuvens brancas
Imprime os cascos.
Da terra fura
Fundo as entranhas,
Na noite escura
Galga as montanhas,
Tolda os remansos,
Muda em cachoeiras
As cabeceiras
Dos rios mansos…
Arranca os galhos,
Pelos caminhos,
Deixa em frangalhos
Frondes e ninhos.
De salto em salto.
Revoluteia…
Lambe o planalto,
Dança na areia…
Na amaldiçoada
Força que o agita,
De cambulhada
Se precipita…
Pende o arvoredo
Num murmúrio:
“Meu Deus! Que medo!
Que horror! Que frio!”
Diz um arbusto:
“Por que me levas?
Tremo de susto
Dentro das trevas.”
Uma andorinha,
De asa quebrada:
“Morro sozinha,
Solta na estrada!”
Pobre tropeiro
Se desengana:
“Rolou do outeiro
Minha choupana!”
Vozes de magoas
Despedaçadas
Choram nas águas
E nas ramadas…
Uivam nas furnas
Feras aflitas,
Sob infinitas
Sombras noturnas…
E o vento nessa
Marcha selvagem,
Corta, atravessa,
Rasga a paisagem.
E segue o rumo
Do movimento,
Subindo a prumo
No firmamento,
Até que rola,
No último açoite,
Como uma bola
Dentro da noite…
Olegário Mariano Carneiro da Cunha, (PE1889 — RJ 1958). Poeta, político e diplomata brasileiro.
Obras:
Angelus (1911)
Sonetos (1921)
Evangelho da sombra e do silêncio (1913)
Água corrente, com uma carta prefácio de Olavo Bilac (1917)
Últimas cigarras (1920)
Castelos na areia (1922)
Cidade maravilhosa (1923)
Bataclan, crônicas em verso (1927)
Canto da minha terra (1931)
Destino (1931)
Poemas de amor e de saudade (1932)
Teatro (1932)
Antologia de tradutores (1932)
Poesias escolhidas (1932)
O amor na poesia brasileira (1933)
Vida Caixa de brinquedos, crônicas em verso (1933)
O enamorado da vida, com prefácio de Júlio Dantas (1937)
Abolição da escravatura e os homens do norte, conferência (1939)
Em louvor da língua portuguesa (1940)
A vida que já vivi, memórias (1945)
Quando vem baixando o crepúsculo (1945)
Cantigas de encurtar caminho (1949)
Tangará conta histórias, poesia infantil (1953)
Toda uma vida de poesia, 2 vols. (1957)
Aurélio D’Alincourt (Rio de Janeiro RJ 1919 – idem 1990). Pintor, desenhista, ilustrador e professor. Começa a pintar em 1942, sob a orientação de Oswaldo Teixeira e Carlos Chambelland. Em 1952, viaja para Paris, França, onde cursa a Académie de la Grande Chaumière. De volta ao Rio de Janeiro, atua como membro da Academia Brasileira de Belas Artes, em 1956 e faz ilustrações para a revista O Cruzeiro, entre 1957 e 1960. Além disso, passa a lecionar pintura no Instituto de Belas Artes.
Fonte: Itaú Cultural
Amigos
Martins d’Alvarez
“Se entre os amigos encontrei cachorros,
Entre os cachorros encontrei-te, amigo!”
Costumamos chamar o cão de amigo,
no sentido mais nobre da amizade.
Realmente, na bonança ou no perigo,
o cão é o nosso amigo de verdade.
Meu cão nunca falseia o que lhe digo
nem finge amor nem trai a honestidade
nem mesmo se revolta, se o castigo
nos momentos de estúpida crueldade.
Tenho pela amizade amor profundo!
Pelos amigos vivo, luto e morro…
Mas, tenho recebido, neste mundo,
de tanto amigo tanta ingratidão,
que chamar qualquer deles de cachorro,
seria ser injusto com meu cão!
José Martins D’Alvarez (CE 1904) Poeta, romancista, jornalista, diplomado em Farmacia e Odontologia, professor, membro da Academia Cearense de Letras.
Obras:
“Choro verde: a ronda das horas verdes”, 1930 (versos).
“Quarta-feira de cinzas”, 1932 (novela).
“Vitral”, 1934 (poemas).
“Morro do moinho” 1937 (romance)
“0 Norte Canta”, 1941 (poesia popular).
“No Mundo da Lua”, 1942 (poesia para crianças).
“Chama infinita, 1949 (poesias)
“O nordeste que o sul não conhece 1953 (ensaio)
“Ritmos e legendas” 1959 (poesias escolhidas)
“Roteiro sentimental: geopolítica do Brasil” 1967 (poesias escolhidas)
“Poesia do cotidiano”, 1977 (poesias)
Outros poemas de Mastins d’Alvarez neste blog:
Moça com livro, 1879
José Ferraz de Almeida Júnior ( Brasil, 1850-1899)
óleo sobre tela
Museu de Arte de São Paulo
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Coleciono imagens de pessoas lendo. A maioria foi feita por pintores europeus até o final do século XIX e depois deste período os artistas americanos passam à frente dos europeus na representação de homens, mulheres e crianças lendo. Acredito que isto se deva ao número muito maior de artistas americanos, i.e., a classe dos artistas plásticos nos EUA ocupa uma maior percentagem da população do que o grupo de europeus em relação à população européia. Provavelmente uma conseqüência na educação mais democrática, mais universal no país da América do Norte. Mas, este não é o assunto nesta postagem.
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Saudade, 1899, [Moça lendo carta]
José Ferraz de Almeida Jr ( Brasil 1850-1899)
óleo sobre tela, 197 x 101 cm
Pinacoteca do Estado de São Paulo [PESP]
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Meu tópico é questionar: por que um tema comum na Europa e nos países da América do Norte é praticamente inexistente nas artes plásticas brasileiras? Uma opinião sem qualquer estudo específico seria de que no Brasil as pessoas não leriam tanto. E também de que havia muito menos artistas em relação à população brasileira do que no resto do mundo. Ou seja a proporção não permitiria a abundância de imagens, a necessidade de variações de temas.
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O tópico da mulher lendo, esta eterna musa inspiradora dos europeus e americanos, então, ainda restringe mais a imaginária brasileira. No Brasil, a imagem da mulher leitora mal aparece na pintura do século XIX e aparece de maneira bem resumida durante o século XX. A fascinação dos artistas estrangeiros pela mulher lendo poderia ter sido causada por diversos motivos:
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Família reunida em casa do interior, s/d
José Ferraz de Almeida Júnior (Brasil 1850-1899)
óleo sobre tela
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1) A modelo, mesmo sofrendo de um preconceito comum — de que esta mulher teria uma posição social duvidosa — associada à uma mulher fácil, de princípios morais flexíveis — nos países mencionados anteriormente, mesmo sendo pobre esta mulher era alfabetizada o suficiente para poder posar convincentemente como leitora.
2) É verdade que o tema permite também que pessoas que não são modelos profissionais, tais como irmãs, mães e esposas de pintores, pudessem facilmente se submeter a este papel de modelo, porque ler em geral é feito numa posição parada e confortável. Ou seja mulher não profissional pode posar lendo.
3) A fascinação quase erótica vista pelos artistas estrangeiros na pintura da mulher que se abandona ao ato privado da leitura parece ser mais provocativa lá fora do que no Brasil. A sensualidade da mulher-leitora passa desapercebida no Brasil. Talvez porque a maioria das mulheres brasileiras, mesmo das famílias mais abastadas, que se encontravam fora das grandes cidades, era analfabeta. E analfabeta permaneceu até muitos anos dentro do século XX.
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Moça lendo em Itu, sd
José Ferraz de Almeida Júnior ( Brasil 1850-1899)
óleo sobre tela
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No Brasil, a imagem da mulher leitora mal aparece na pintura do século XIX e aparece de maneira bem resumida durante o século XX. A maior exceção à regra é do pintor paulista José Ferraz de Almeida Júnior ( 1850-1859) de quem conheço pelo menos quatro pinturas a óleo com o tema.
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Recentemente tive a oportunidade de ler o livro: O Retrato do Rei de Ana Miranda e me senti emocionada o suficiente para copiar algumas passagens que reproduzo aqui, descrevendo o tipo de consideração dada a quem queria ler.
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Menina com livro, s/d
Bertha Worms ( Brasil 1868-1937)
desenho
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Esta passagem ilustra bem o nível retrógrado da sociedade portuguesa, que não condizia mesmo com o resto da Europa neste sentido, principalmente porque a Mariana do romance é de uma classe social que na Europa já estaria lendo pelo menos o seu missal. E explica a nossa herança cultural.
Ainda menina, Mariana recebera, uma noite, ordem de seu pai, dom Afonso, para que fosse à sala de livraria. Ela entrara, assustada. Sempre que o pai tinha uma repreensão ou castigo para as filhas chamava-as a tal lugar. O barão, em pé, diante da mesa, parecera-lhe um gigante. Batendo ritmadamente o chicote na mão, perguntara se ela estava pretendendo aprender a ler. Apontara com o chicote para um volume sobre a mesa, uma cartilha das primeiras letras. Mariana abaixara os olhos, sentindo o sangue tomar-lhe o rosto. Dom Afonso pegara o livro e aproximara-o da chama da vela. A cartilha demorou a pegar fogo e lentamente foi-se consumindo. “Cuida-te com os teus desejos”, o pai dissera. “Se eles te tomam, e não tu a eles, vais arder no fogo do inferno.” Em seu quarto a velha aia Sofia a esperava, com uma vara na mão. “Tira a roupa”, dissera a alemã. “Essas meninas da colônia são educadas como vacas. Que mal há em saber ler? As freiras não aprendem nos conventos? Na minha terra todas as mulheres sabem letras.” “Sabeis ler, dona Sofia?” “Cala-te, menina. Tira a roupa.” Mariana, nua, curvada sobre o baú, esperara.“ Trata de gritar bem alto para que teu pai ouça”, Sofia sussurrara. E aplicara, sem nenhuma força, vinte vergastadas nas costas de Mariana, para cumprir a ordem do pai.
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Beatriz lendo, 1965
Tarsila do Amaral ( Brasil, 1890-1973)
óleo sobre tela
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Na história Mariana é mal vista através do padre local, justamente por parecer saber ler. Ele suspeita que comunhão com o diabo por carregar um livro para a missa, todos os dias. A dupla ironia é que ela realmente não sabe ler, mas não admite esta fraqueza para ninguém e continua sua solitária missão de “leitora” através de sua vida. Aqui está uma passagem dos pensamentos de Frei Francisco no livro sobre a estranha dona Mariana. Estamos no Rio de Janeiro em 1707.
Nunca usava decotes como os das mulheres das Minas, vestia quase sempre saia e casaco pretos. Ás vezes aparecia com pintura e cabeleira, como os sodomas do palácio do governador. Costuma ser distraída e gostava de apreciar o horizonte. Falava com estranhos. Entrava nas igrejas, rezava ajoelhada. Andava com o nariz para o alto e olhava as pessoas nos olhos. Despertava vontade de fornicar, pois tinha carnes; mais dava medo. Às vezes a fidalga ficava olhando um livro de capa preta, que Lourenço não sabia dizer o que era, mas talvez fosse um missal.
Em: O retrato do rei, ANA MIRANDA, Cia das Letras:1991, São Paulo. páginas 87-88
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Mulher com livro, 1983
Adalberto Lutkemeyer ( Brasil, RS, contemporâneo)
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É claro, reconheço que estamos tratando de ficção. Mas Ana Miranda já provou que sua pesquisa histórica é exemplar.
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Duas ou três semanas depois de ler este livro, encontrei uma história semelhante no romance de Luiz Antonio de Assis Brasil, Manhã Transfigurada, em que o noivo de uma jovem no interior do Rio Grande do Sul, desconfia de sua “pureza” por sabê-la leitora de um livro de poemas…
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Seriam só estas as razões para tão poucas imagens de pessoas lendo na pintura brasileira?
A LUA FOI AO CINEMA
A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.
Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!
Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava para ela,
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.
A lua ficou tão triste
com aquela história de amor,
que até hoje a lua insiste:
– Amanheça, por favor!
Paulo Leminski Filho (PR 1944 — PR 1989) Escritor, poeta, tradutor e professor brasileiro. Era, também, faixa-preta de judô.
Obras:
Quarenta clics de Curitiba. Poesia, 1976. (2ª edição Secretaria de Estado Cultura, Curitiba, 1990.)
Polonaises. Curitiba, Ed. do Autor, 1980.
Não fosse isso e era menos/ não fosse tanto e era quase. Curitiba, Zap, 1980. Tripas. Curitiba, Ed. do Autor, 1980.
Caprichos e relaxos. São Paulo, Brasiliense, 1983.
Um milhão de coisas. São Paulo, Brasiliense, 1985. 6p.
Caprichos e relaxos. São Paulo, Círculo do Livro, 1987. 154p.
Distraídos venceremos. São Paulo, Brasiliense, 1987. 133p. (5ª edição 1995)
La vie en close. São Paulo, Brasiliense, 1991.
Winterverno Fundação Cultural de Curitiba, Curitiba, 1994. (2ª edição publicada pela Iluminuras, 2001.
Melhor Romance:
1 – O FILHO ETERNO
CRISTOVÃO TEZZA
2 – O SOL SE PÕE EM SÃO PAULO
3 – ANTONIO
BEATRIZ BRACHER
Melhor livro de contos e crônicas:
1 – HISTORIAS DO RIO NEGRO
VERA DO VALE
2 –A PRENDA DE SEU DAMASO E OUTROS CONTOS
JORGE EDUARDO PINTO
3 – FICHAS DE VITROLA
JAIME PRADO GOUVÊA
Melhor livro de poesia:
1 – O OUTRO LADO
IVAN JUNQUEIRA
2 – O XADREZ E AS PALAVRAS
MARCUS VINICIUS TEIXEIRA QUIROGA
3 – TARDE
PAULO FERNANDO HENRIQUES BRITTO
Melhor livro juvenil:
1 – O BARBEIRO E O JUDEU DA PRESTAÇÃO CONTRA O SARGENTO DA MOTOCICLETA
JOEL RUFINO DOS SANTOS
2 – TÃO LONGE…TÃO PERTO
SILVANA DE MENEZES
3 – MESTRES DA PAIXÃO: APRENDENDO COM QUEM AMA O QUE FAZ
DOMINGOS PELLEGRINI
Melhor livro infantil:
1 – SEI POR OUVIR DIZER
BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS
2 – O MENINO QUE VENDIA PALAVRAS
IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO
3 – ZUBAIR E OS LABIRINTOS
JOSÉ ROGER DE MELLO