Dona Felicidade, poesia de Raul Braga

29 09 2020

 

 

Gildásio Jardim Barbosa- do vale do Jequitinhonha - MG. Trabalho de pintura sobre tecidos estampados em tela. Que faz fusão dos personagens com as estampas -2Moça lendo na rede

Gildásio Jardim Barbosa (Brasil, contemporâneo)

[Vale do Jequitinhonha – MG]

pintura sobre tecidos estampados em tela.

 

Dona Felicidade

 

Raul Braga

 

Quão inconstante és tu, felicidade,

Irrefletida em não poder mais ser

Que a gente fica em tal ansiedade,

Com medo de perder-te, ou de não ter.

 

E vai a vida, assim em desprezar,

Gastos nos dias bons da mocidade,

Sem que nos venha nesse amanhecer

Um vislumbre, sequer, de claridade.

 

Insensato sou eu, quanto insensato,

Em querer esboçar uma quimera

Quando bem fácil eu tenho o teu retrato

Felicidade, em tudo és bem mulher:

 

— Tu vens chegando, quando não se espera,

E vais embora, quando não se quer.

 

Em: A lira na minha terra: poetas antigos e contemporâneos no Pará, Clóvis Meira, Belém: 1993, p. 332-3





Natividade da Serra, poesia de Cesídio Ambrogi

31 08 2020

Casario

Francisco Céa (Brasil, 1908 – 1978 ?)

Natividade na Serra

 

Cesídio Ambrogi

 

Meu vilarejo – um cromo estilizado:

O Largo da Matriz. Uma palmeira.

A cadeia sem preso nem soldado.

Calma em tudo. Silêncio. Pasmaceira.

 

Andorinhas em bando, no ar lavado.

O rio. O campo além de uma porteira.

Um velho casarão acaçapado

— Nossa casa tranquila e hospitaleira.

 

O Cruzeiro lá em cima, em plena serra,

Braços abertos para minha terra…

E eu criança e feliz.  Que doce idade!

 

Hoje, porém, meu Deus, quanta emoção!

Do meu peito no triste mangueirão,

Cavo e soturno, o aboio da saudade…

 

Em: 232 Poetas Paulistas: antologia,  ed. e col. Pedro de Alcântara Worms, São Paulo, Conquista: 1968, p. 209.

 

Cesídio Ambrogi nasceu em Natividade da Serra, a 22 de maio de 1894. Faleceu em 27 de julho de 1974. Professor, escritor, jornalista, poeta eclético.  Fundador da “Sociedade Taubateana de Ensino” e considerado presidente perpétuo da União Brasileira de Trovadores (UBT-Taubaté).   Casou-se em 1920 com Petronilha Chiaradia, que faleceu em 1933. Tiveram dois filhos. Cinco anos depois, contraiu matrimônio com a advogada, professora e também trovadora Lígia Teresinha Fumagalli com quem teve mais cinco filhos.

Obras:

As moreninhas, 1923

 





Balaio, poema de Wilson W. Rodrigues

24 08 2020

Homem com cavalos

Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885 – 1962)

óleo sobre  tela, 32 x 40 cm

 

 
Balaio

 

Wilson W. Rodrigues

 

 

Deixa o meu balaio velho

que guardei como lembrança

do tempo em que no balaio

levava muita esperança…

 

Eu mesmo fiz o balaio,

entrancei-o em sua trança,

cantando as minhas cantigas

que aprendi quando criança.

 

Com o balaio nas costas,

tive tanta ilusão mansa,

pensei até que amaria

a filha do rei de França.

 

Com tanta coisa sonhei!

Tudo se foi sem tardança…

Só meu balaio ficou

com minha desesperança.

 

Em: Bahia Flor: poemas, Wilson W. Rodrigues, Rio de Janeiro, Editora Publicitan: 1949.p. 55.





Trova da virtude

20 08 2020

 

 

e não tenho um tostãoBolinha não tem um tostão.

 

 

Busca primeiro a virtude;

teu ouro, busca depois.

Quem não toma essa atitude

acaba perdendo os dois!

 

(Renata Paccola)





Analogia, poesia de Ferreira Leal

17 08 2020

Ilustração de Harrison Fisher (1875 – 1934)

Analogia

 

Ferreira Leal

 

 

Entre Elisa e a pimenta

Acho tanta semelhança,

Que quando a moça me tenta,

Vem-me a pimenta à lembrança.

 

Se a donzela se agonia,

Da fruta assume o rubor;

E p’ra mais analogia

Têm ambas o mesmo ardor.

 

Quer que uma e outra excite

O destino alterações

A pimenta – no apetite,

Elisa – nos corações.

 

Afinal, se mais se atenta,

Tanto acordo se divisa,

Que, como Elisa é pimenta,

Também a pimenta é lisa.

 

 

Em: Mosaico, diversos autores, Rio de Janeiro, Biblioteca Brasileira: 1878, N

 º 2, agosto, página 37.





Minha prece, poesia de Naide Vasconcelos

10 08 2020

 

GUTTMAN BICHO, Galdino (1888 - 1955) Paisagem, o.s.t. - 60 x 74 Assinado cid.Paisagem

Galdino Guttman Bicho (Brasil, 1888 – 1955)

óleo sobre tela, 60 x 74 cm

 

Minha prece

 

Naide Vasconcelos

 

Senhor!

Tu que deste ao Brasil, prodigamente,

De par com toda sorte de belezas;

Que estonteiam os olhos e a mente,

As mais raras espécies de riquezas.

 

Tem-no sob Tua guarda! Pai clemente,

Não permita que as ríspidas torpezas

Dos flagelos maltratem-no… Consente

Que ele seja sem males nem cruzes.

 

Abençoa seus filhos. Extermina

O vício das suas almas, ilumina

Seus corações, e a todo o mal os cerra…

 

Assim, a minha Pátria idolatrada

Ficará, certamente, colocada

— Onde começa o céu e finda a terra.

 

Em: A lira na minha terra: poetas antigos e contemporâneos no Pará, Clóvis Meira, Belém: 1993, p. 298





Trova da renovação

5 08 2020

 

limpando a casa, silhueta

 

Pra tirar o pó do amor

saiba que o melhor caminho

sequer passa pela dor:

basta um sopro de carinho.

 

(Adilson Roberto Gonçalves)





Serenata, poesia de Elmano Queiroz

3 08 2020

 

 

Tony Lima (Brasil, 1964),Tocando Violão,80 x 60 cm – OST,Ass. CID e Dat. 2006Tocando Violão, 2006

Tony Lima (Brasil, 1964)

óleo sobre tela, 80 x 60 cm

 

Serenata

Elmano Queiroz

 

Não sei porque nas horas sossegadas,

Comove tanto a música das ruas.

 

Parece que, alta noite, essas baladas,

Relembra, coisas íntimas passadas

Em fases mais ditosas de outras luas.

 

Parece que o cantar do boêmio errante

Vai derramado pela noite fora,

Motivos simples de canções de outrora.

 

Reminiscências de lugar distante.

 

Uma capela rústica, pequena,

Ao pé do morro, entre árvores antigas…

Outras vozes simpáticas, amigas…

O luar na aldeia… as noites de novenas.

 

Os goivos das saudades que passaram

Ressuscitam, na alcova, a noite morta,

Quando esses boêmios passam pela porta,

Cantando essas canções, que outros cantaram.

 

Lembram noites da infância… A alma assustada…

Um tropel… um rumor… um bater d’asa…

 

As goteiras, chorando na calçada…

O caboré gemendo, atrás da casa…

 

Tudo desperta, no silêncio d’alma,

Quando passam cantando pela rua,

Na alcova, a insônia… lá por fora, a calma…

E na volúpia que da Lua transborda

A imagem da saudade branca e nua…

 

Depois, ao longe, um cão, que um ébrio acorda,

Fica na solidão ladrando à luz…

 

[1924]

 

Em: A lira na minha terra: poetas antigos e contemporâneos no Pará, Clóvis Meira, Belém: 1993, p.114-5

 





Trova do vencedor

28 07 2020

 

 

ganhou concursos,Ilustração Equipe Mauricio de Souza.

 

 

Ganha mais brilho a vitória

quando o nobre vencedor,

no pódio da sua glória,

não humilha o perdedor!

 

(Alba Helena Corrêa)





Visitantes da noite, soneto de José Otávio Gomes Venturelli

27 07 2020

 

 

From Unknown, 1940.Unknown Magazine, 1940.

 

Visitantes da noite

 

José Otávio Gomes Venturelli

 

Sonâmbula tristeza me rodeia,

Inebria-me  a prece dos crepúsculos,

Já não mais sinto a força que semeia

A resistência física dos músculos.

 

E o coração, minha esquecida aldeia,

Onde as casas são místicos corpúsculos,

Sente sua alma de saudades cheia,

E de prazeres parcos e minúsculos.

 

Os sonos se aproximam… Vêm vestidos

De horríveis pesadelos que me falam

De insônias infernais aos meus ouvidos.

 

Espíritos do mal, seres medonhos,

Eu não posso dormir se não se calam,

Porque querem roubar também meus sonhos!

 

 

Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Janeiro, Editora Vecchi: 1965, p.397