A lua branca passava,
Pelo céu devagarinho
E no mar a onda olhava
A lua no seu caminho.
(Maria Dulce Prado Carvalho Rosas)
A lua branca passava,
Pelo céu devagarinho
E no mar a onda olhava
A lua no seu caminho.
(Maria Dulce Prado Carvalho Rosas)
Pantera cor-de-rosa. Ilustração Freleng e DePatiee.
O Menor Esforço
Guiuseppe Artidoro Ghiaroni
Ferreiro e filho de ferreiro,
um dia visitei meu vizinho carpinteiro.
E ao ver quanto a madeira era macia
em relação ao ferro que eu batia,
deixei de ser ferreiro.
Tornei-me carpinteiro e, vendo o oleiro
modelando o seu barro molemente,
cobicei seu oficio de indolente
e larguei meu formão de carpinteiro.
Mas fui depois a casa do barbeiro,
que alisava uns cabelos de menina.
E achando aquela profissão mais fina,
deixei de ser oleiro.
Um dia, em minha casa de barbeiro
entrou um poeta de cabelo ao vento.
E ao ver quanto era livre e sobranceiro,
troquei minha navalha e meu dinheiro
por sua profissão de encantamento…
Meu Deus! Por que deixei de ser ferreiro ?
—
Giuseppe Artidoro Ghiaroni — Nasceu em Paraíba Do Sul, (RJ), no dia 22 de fevereiro de 1919. Jornalista, poeta, redator e tradutor; Depois de ter sido ferreiro, “office-boy” e caixeiro, passou a redator do “Suplemento juvenil ” iniciando-se assim no jornalismo de onde passou para o Rádio distinguindo-se como cronista e novelista. Faleceu em 2008 aos 89 anos.
Obras:
O Dia da Existência, 1941
A Graça de Deus, 1945
Canção do Vagabundo, 1948
A Máquina de Escrever, 1997

Ilustração: Cartão postal [Alemanha], 1929.
Quem julga ser importante
nem sempre importância tem;
e além de deselegante,
é presunçoso também.
(Lucina Long)
Ilustração de Maurício de Sousa.
Cão
Alexandre O’Neill
Cão passageiro, cão estrito
Cão rasteiro cor de luva amarela,
Apara-lápis, fraldiqueiro,
Cão liquefeito, cão estafado
Cão de gravata pendente,
Cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
Cão ululante, cão coruscante,
Cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão ali, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal de poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção,
cão pré-fabricado,
cão espelho, cão cinzeiro, cão botija,
cão de olhos que afligem,
cão problema…
Sai depressa, ó cão, deste poema!
Em: Abandono Vigiado, Lisboa, Guimarães: 1960
—
Alexandre O’Neill – (Portugal 1924-1986) poeta português. Frequentou a Escola Náutica (Curso de Pilotagem), trabalhou na Previdência, no ramo dos seguros, nas bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian, e foi técnico de publicidade. Durante algum tempo, publicou uma crônica semanal no Diário de Lisboa.
Obras:
Tempo de Fantasmas, poesia, 1951
No Reino da Dinamarca, poesia, 1958
Abandono Vigiado, poesia, 1960
Poemas com Endereço, poesia, 1962
Feira Cabisbaixa, poesia, 1965
De Ombro na Ombreira, poesia, 1969
Entre a Cortina e a Vidraça, poesia, 1972
A Saca de Orelhas, poesia, 1979
As Horas Já de Números Vestidas, poeisa, 1981
Dezenove Poemas, poesia, 1983
O Princípio da Utopia, poesia, 1986
Poesias Completas, 1951-1983, 1984
As Andorinhas não têm restaurante, prosa, 1970
Uma Coisa em Forma de Assim, crônicas, 1980
Ilustração: Maurício de Sousa.
Na solidão da carteira
O aluno vadio cola
Pensando que a vida inteira
Viverá dessa “esmola”.
(J. Eloy Santos)
A rosa, meu bem, a rosa
É fonte de mil amores…
E o beija-flor todo prosa,
Beija a mais linda das flores.
(Frei Afonso Maria da Paixão)

Aquele que no fracasso
nos estende a sua mão
e não nos nega um abraço,
é mais que um amigo, é um irmão.
(José Augusto Fernandes)
Formiguinha, ilustração: MW Editora & ilustrações.
AS FORMIGAS
Olavo Bilac
Cautelosas e prudentes,
O caminho atravessando,
As formigas diligentes
Vão andando, vão andando…
Marcham em filas cerradas;
Não se separam; espiam
De um lado e de outro, assustadas,
E das pedras se desviam.
Entre os calhaus vão abrindo
Caminho estreito e seguro,
Aqui, ladeiras subindo,
Acolá, galgando um muro.
Esta carrega a migalha;
Outra, com passo discreto,
Leva um pedaço de palha;
Outra, uma pata de inseto.
Carrega cada formiga
Aquilo que achou na estrada;
E nenhuma se fatiga,
Nenhuma para cansada.
Vede! enquanto negligentes
Estão as cigarras cantando,
Vão as formigas prudentes
Trabalhando e armazenando.
Também quando chega o frio,
E todo o fruto consome,
A formiga, que no estio
Trabalha, não sofre fome…
Recordai-vos todo o dia
Das lições da Natureza:
O trabalho e a economia
São as bases da riqueza.
Em: Poesias Infantis, Olavo Bilac, Livraria Francisco Alves: 1949, Rio de Janeiro, pp. 41-3
—
Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (RJ 1865 — RJ 1918 ) Príncipe dos Poetas Brasileiros – Jornalista, cronista, poeta parnasiano, contista, conferencista, autor de livros didáticos. Escreveu também tanto na época do império como nos primeiros anos da República, textos humorísticos, satíricos que em muito já representavam a visão irreverente, carioca, do mundo. Sua colaboração foi assinada sob diversos pseudônimos, entre eles: Fantásio, Puck, Flamínio, Belial, Tartarin-Le Songeur, Otávio Vilar, etc., e muitas vezes sob seu próprio nome. Membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Criou a cadeira 15, cujo patrono é Gonçalves Dias. Sem sombra de duvidas, o maior poeta parnasiano brasileiro.
Obras:
Poesias (1888 )
Crônicas e novelas (1894)
Crítica e fantasia (1904)
Conferências literárias (1906)
Dicionário de rimas (1913)
Tratado de versificação (1910)
Ironia e piedade, crônicas (1916)
Tarde (1919); poesia, org. de Alceu Amoroso Lima (1957), e obras didáticas