Infinito, poesia de Renato Travassos

18 09 2014

 

Paisagem,Georgina Albuquerque - óleo sobre tela sem data, PESPPaisagem, s/d

Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885-1962)

óleo sobre tela

PESP –Pinacoteca do Estado de São Paulo, SP

 

 

Infinito

 

Renato Travassos

 

Um delicioso anseio me atordoa,

Netas lindas manhãs de primavera;

Em mim não me contenho, pois quisera

ter asas para voar sem rumo, à toa!

 

Os olhos pondo na azulada esfera,

Toda ave invejo que, liberta, voa:

Como seria, sendo livre, boa

A vida que me prende e desespera!

 

Nestas manhãs de luz maravilhosas

Em que sorrindo, desabrocham rosas,

Quem me dera dispor de duas asas, —

 

Para, contente, voar do vale à serra;

Para, louvando o que existir na terra,

A um tempo além pairar das coisas rasas!

 

 

Em: Oração ao Sol: obra completa, Renato Travassos, Rio de Janeiro, José Olympio: 1946, 3ª edição, p. 97.





O que se escuta numa velha caixa de música, poesia de Martins Fontes

15 09 2014

 

 

Carolus-Duran_-_Le_BaiserO beijo, 1868

Carolus Duran (França, 1837-1917)

óleo sobre tela

Museu de Belas Artes, Lille

 

 

O que se escuta numa velha caixa de música

 

Martins Fontes

 

Nunca roubei um beijo. O beijo dá-se,

ou permuta-se, mas naturalmente.

Em seu sabor seria diferente

se, em vez de ser trocado, se furtasse.

 

Todo beijo de amor, longo ou fugace,

deve ser um prazer que a ambos contente.

Quando, encantado, o coração consente,

beija-se a boca, não se beija a face.

 

Não toquemos na flor maravilhosa,

seja qual for a sedução do ensejo,

vendo-a ofertar-se, fácil e formosa.

 

Como os árabes, loucos de desejo,

amemos a roseira, olhando a rosa,

roubemos a mulher e não o beijo.

 

(A Flauta Encantada)

 

Em: Nossos Clássicos: Martins Fontes,poesia, Rio de Janeiro, Agir: 1959, p. 53





Generosidade, poesia de Cyra de Queiroz Barbosa

10 09 2014

 

 

gb_panneau aPanneau decorativo, 1921

Guttmann Bicho (Brasil, 1888-1955)

óleo sobre tela, 153 x 148 cm

MNBA — Museu Nacional de Belas Artes, RJ

 

 

Generosidade

 

Cyra de Queiroz Barbosa

 

à tia Nida

 

Os gatos da vizinhança

faminto, órfãos, pelados,

achavam pouso e aconchego

junto dela em nossa casa,

Mimoso, Dina, Miquito,

tantos outros — nem me lembro!

Ah! tinha a gata Pretinha

que lhe dava tão fecunda

cada vez ninhada inteira.

 

Era leite no pratinho

ou dado na mamadeira.

Enroscavam-se na colcha

de retalhos costurados,

cresciam e para ela

de miau! Miau! Miau!

serenata era cantada.

 

Não só de gatos gostava

a boa titia Nida.

Seus sobrinhos eram seus filhos

e mais outro de outro sangue

em amor reconheceu.

Por eles se abriu em risos

por eles muito sofreu.

Nada pedindo ou cobrando,

generosamente dando

a vida — tudo o que tinha —

para quem nem era seu.

 

 

Em: Moenda: painéis e poemas interiorizados, Cyra de Queiroz Barbosa, Rio de Janeiro, Rocco:1980, pp. 49-50





Mariposa fantasma, soneto de Maria Thereza de Andrade Silva

8 05 2014

 

 

frank xavier leyendeckerIlustração de Frank Xavier Leyendecker.

 

Mariposa Fantasma

 

Maria Thereza de Andrade Silva

 

Veio da noite, em voo palpitante,

Perder-se na quietude desta sala.

Num bailado letal e delirante,

Cresta na luz as asas cor de opala.

 

Voa; já nada enxerga o olhar faiscante.

Ama a luz, e essa luz há de queimá-la.

E, enquanto houver calor, estranha amante,

É cega e embriagada está… Deixá-la!…

 

Mas brandamente a luz se extingue, e morre…

— Que novo ardor as asas lhe percorre,

Para que dance ainda, alucinada!

 

Deixá-la. É cega! Que lhe importa a chama?

Inda sente o calor perdido, e ama,

E voa em torno à lâmpada apagada!

 

Em: É primavera … escuta. de Maria Thereza de Andrade Silva, Rio de Janeiro:1949, p. 93





Paulista eu sou há quatrocentos anos, soneto de Martins Fontes

25 01 2014

Agostinho Batista de Freitas (1927-1997)Vale do Anhangabaú,1980,ost, 50 x 70 cmVale do Anhangabaú, 1980

Agostinho Batista de Freitas (Brasil, 1927-1997)

óleo sobre tela, 50 x 70 cm

Paulista eu sou há quatrocentos anos

es

Martins Fontes

Paulista eu sou há quatrocentos anos:
Imortal, indomável, infinita,
Dos mortos de que venho, ressuscita
A alma dos Bandeirantes sobrehumanos.

Tenho o orgulho dos nossos altiplanos.
Tenho a paixão da gleba circunscrita.
Quero morrer, ouvindo a voz bendita
Dos pausados cantares paulistanos.

De minha terra, para minha terra,
Tenho vivido. Meu amor encerra
A adoração de tudo quanto é nosso.

Por ela, sonho num perpetuo enlevo.
E, incapaz de servi-la quanto devo,
Quero ao menos e amá-la quanto posso.

Em: 232 Poetas Paulistanos: antologia, Pedro de Alcântara Worms, Rio de Janeiro, Conquista:1968, p. 130

Homenagem ao aniversário da cidade de São Paulo!




O lago e a estrela, poesia de Luiz Guimarães

6 01 2014

ISABEL PONS (1912 - 2002 )Reflexo da lua, P.E. 35 x 22Reflexo da lua, s/d

Isabel Pons (Brasil, 1912-2002)

Gravura, 35 x 22cm

O lago e a estrela

Luiz Guimarães

Disse a vaidosa estrela quando viu

De um lago azul a débil transparência:

— Por que te deu a sábia providência

Um corpo tão monótono e sombrio?

Comigo teve Deus maior clemência

E do esplendor eterno me vestia!

Que vales, pois, ó lago humilde e frio,

Perto da minha deslumbrante essência?

Nos céus eu moro! O meu destino zomba

De ignota força que reparte as mágoas!

Tenho a ventura de desconhecê-la.

— Mas quando a noite vagarosa tomba

É no seio fiel das minhas águas

Que vens dormir, ó luminosa estrela!

Em: Poetas cariocas em quatrocentos anos, Frederico Trotta, Rio de Janeiro, Vecchi:1965, pp. 230-231.





Terras do Brasil, poesia de D. Pedro II, na Semana da Pátria

1 09 2013

Bandeira_do_Brasil_1-_By_Digerson_Araaujo__(1)Bandeira do Brasil, 2011

Digerson Araújo (Brasil, 1952)

60 x 40 cm

Digerson Araújo

Terras do Brasil

D. Pedro de Alcântara

Espavorida agita-se a criança,

De noturnos fantasmas com receio.

Mas se abrigo lhe dá materno seio,

Fecha os doridos olhos e descansa.

Perdida é para mim toda esperança

De volver ao Brasil; de lá me veio

Um pugilo de terra, e nesta, creio,

Brando será meu sono e sem tardança.

Qual o infante a dormir em peito amigo,

Tristes sombras varrendo da Memória,

Ó doce Pátria, sonharei contigo!

E entre visões de Paz, de Luz, de Glória,

Sereno aguardarei, no meu jazigo,

A Justiça de Deus na voz da História.

Em: Poetas Cariocas em 400 anos, seleção de Frederico Trotta, Rio de Janeiro, Editora Vecchi:1965, pp.149-150





Mãe — poema de Martins Fontes

9 05 2013

mãe e filha primaveraCartão postal início do século XX.

Mãe

Martins Fontes

Beijo-te a mão, que sobre mim se espalma

Para me abençoar e proteger.

Teu puro amor o coração me acalma;

Provo a doçura do teu bem querer.

Porque a mão te beijei, a minha palma

Olho, analiso linha a linha, a ver

Se em mim descubro um traço de tu’alma

Se existe em mim a graça do teu ser.

E o M, gravado sobre a mão aberta,

Pela tua clareza, me desperta

Um grato enlevo, que jamais senti:

Quer dizer — Mãe — este M tão  perfeito,

E com certeza, em minha mão foi feito

Para, quando eu for bom, pensar em ti.

Em: 232 Poetas Paulistas:antologia,  ed. e col. Pedro de Alcântara Worms, São Paulo, Conquista: 1968, p. 131.





Quermesse, poema de Mário Mauro Matoso

13 04 2013

Bonaventura Cariolato (Itália 1894-Brasil, 1989) -Festa na aldeia,aquarela ,1965,Bairro da Boa Vista em Franca, 33 x 40 cm.

Festa na aldeia, 1965

Bonaventura Cariolato (Itália/Brasil, 1894-1989)

[Bairro da Boa Vista, em Franca]

óleo sobre tela, 33 x 40 cm

Quermesse

Mário Mauro Matoso

Recordo uma quermesse em Santa Rita…

A praça principal, ornamentada,

A Banda no coreto, entusiasmada,

Executando a marcha favorita…

Defronte a uma barraca, a petizada

De olhos fitos na prenda mais bonita…

O Correio elegante… a senhorita

Que outrora fora minha namorada.

A barraca do Bar e do Café,

O bloco do catira, o bate-pé

Sobre um tablado, rústico e bisonho…

Assim é que relembro nossa terra,

A cidade feliz que se descerra

Na perpétua quermesse do meu sonho!

Em: 232 Poetas Paulistas:antologia,  ed. e col. Pedro de Alcântara Worms, São Paulo, Conquista: 1968, p. 473.

Mário Mauro Matoso [Mattoso] (SP, 1902- ?) . Poeta.

Obra:

Flâmulas e Flores, poesia, 1964





Manhãs, poesia de Irene de Sousa Pinto

5 04 2013

Ferenc Kiss, Fazenda Torrão de Oouro, 1990, osm, 24x33

Fazenda Torrão de Ouro, 1990

Ferenc Kiss  (Hungria/Brasil,  1944)

Óleo sobre madeira, 24 x 33 cm

Manhãs

Cedo, na roça, estática, à janela,

Gozo destas manhãs a graça imensa;

E o sol, que é generoso, entra por ela

A dar topázios, sem pedir licença.

A luz se expande e a vida se revela

No cafezal e na campina extensa;

Ouço mugirem bois junto à cancela

E o gorjeio das aves que se adensa.

No fio além do telefone, em linha

Como rosários, cantam andorinhas,

Saudando o sol na fímbria do levante.

 E pelo branco laranjal em flor

Semeia o vento o pólen fecundante

Sobre corolas sôfregas de amor…

Em: 232 Poetas Paulistas:antologia,  ed. e col. Pedro de Alcântara Worms, São Paulo, Conquista: 1968, p. 143

Irene Ferreira de Sousa Pinto (Brasil, SP, 1887- RJ, 1944) Nasceu em Amparo, no estado de São Paulo em 1887.  Poetisa e escritora.

Obras:

Primeiros vôos, 1917

Rosa-maria, 1920