Natal, poema de Heitor Moreira

19 12 2015

 

 

Tarsila do Amaral, 1940 - NatalNatal, 1940

Tarsila do Amaral (Brasil, 1886-1973)

 

 

Natal

 

Heitor Moreira

 

Era noite de gala. Nos silvedos
Rondavam pirilampos indiscretos.
E a luz desses notívagos insetos
Dançava iluminando os arvoredos.

 

Sonambulava a terra e os seus penedos,
Beijados por alíseos desinquietos,
Eram como castelos irriquietos
Pompeando a graça austera dos rochedos.

 

No estábulo da Fé, vagindo ao vento,
Nasce de ventre santo e imaculado
A afirmação cristã do pensamento…

 

E nascera Jesus, para as torturas
De sopesar, sustento desvairado,
As nossas irmanadas desventuras.

 

Em: Ritmos e Rimas, Heitor Moreira, Rio de Janeiro: 1950

 

Heitor Moreira

 

Obras:
Templos de Sonhos, poesia
Ritmos e Rimas, poesia, 1950





Trova dos meus ouvidos

10 12 2015

 

 

loving-birds-on-branch_23-2147503341

 

São meus ouvidos dois ninhos

onde guardo, ao meu sabor,

um bando de passarinhos!

– Tuas mentiras de amor.

 

(Lilinha Fernandes)





Poema de Natal, Carlos Pena Filho

8 12 2015

 

 

sinos vermelhos, 1934Sinos, 1934.

 

 

Poema de Natal

 

Carlos Pena Filho

 

 

— Sino, claro sino,

tocas para quem?

— Para o Deus menino

que de longe vem.

 

— Pois se o encontrares

traze-o ao meu amor.

— E que lhe ofereces

velho pecador?

 

— Minha fé cansada,

meu vinho, meu pão,

meu silêncio limpo,

minha solidão.

 

 

Em: Melhores poemas, Carlos Pena Filho, Sel. Edilberto Coutinho, Editora Global:2000, 4ª edição, p.36.

 





Trova do nosso destino

4 12 2015

 

estrada, Stevan DohanosEstrada, ilustração de Stevan Dohanos, 1956.

 

Destino é força que esmaga…
Credor austero, tremendo:
– Manda a conta e a gente paga,
sem saber que está devendo.

 

(Barreto Coutinho)





Música Brasileira, soneto de Olavo Bilac

1 12 2015

 

 

Candido Portinari,Samba,1956,ost,BancoCentraldoBrasil, BrasiliaSamba, 1956

Cândido Portinari (Brasil, 1903-1962)

óleo sobre tela

Pinacoteca do Banco Central do Brasil, Brasília

 

 

Música Brasileira

 

Olavo Bilac

 

Tens, às vezes, o fogo soberano

Do amor: encerras a cadência, acesa

Em requebros e encantos de impureza,

Todo o feitiço do pecado humano.

 

Mas, sobre essa volúpia, erra a tristeza

Dos desertos, das matas e  do oceano:

Bárbara poracé, banzo africano,

E soluços de trova portuguesa.

 

És samba e jongo, xiba e fado, cujos

Acordes são desejos e orfandades

De selvagens, cativos e marujos:

 

E em nostalgias e paixões consistes,

Lasciva dor, beijo de três saudades,

Flor amorosa de três raças tristes.

 

Originalmente publicado em Tarde, Livraria Francisco Alves, RJ, 1919, p.p. 16-17. Aqui em: Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana, ed. Manoel Bandeira, 3ª edição, Rio de Janeiro, Departamento da Imprensa Nacional:  1951. pp: 231.





Poetas na Arte, Os objetos, poesia de Odylo Costa Filho

25 11 2015

 

ray.jpg chardinNatureza morta com arraia, 1728

Jean-Baptiste-Siméon Chardin (França, 1699-1779)

óleo sobre tela, 114 x 146 cm

Museu do Louvre, Paris

 

 

Os objetos

 

Odylo Costa Filho

 

 

No fechado silêncio dos objetos

mais simples mora um toque de magia.

De um só tijolo nasce a casa: afetos,

barro, sol, água, mesa, moradia,

 

e a presença tenaz das mãos humanas

afeiçoando o mistério da existência

e dando às coisas mais cotidianas

senso de vida — e de sobrevivência.

 

Chardin, quando há dois séculos viveu,

uma arraia pintou, disforme, aberta

em sangue e dentes, agressiva e forte.

 

Veio o tempo e com ele emudeceu

muita moda que a glória julgou certa.

Aquela arraia sobrevive à morte.

 

 

Em: Boca da noite, Odylo Costa Filho, Rio de Janeiro, Salamandra: 1979, p. 47

 





Trova humorística do recruta

22 11 2015

 

soldado, 1926, ruth egerIlustração Ruth Eger, 1926.

 

 

Ao recruta João Leal

indaga o cirurgião:

– Onde é que te sentes mal?

Diz ele: – No batalhão!

 

(Severino Uchôa)





Trova das mentiras

19 11 2015

 

mulher de chapéuDesconheço a autoria da ilustração.

 

Do dia a dia na cena

a verdade não prefiras,

que a vida só vale a pena

por suas lindas mentiras.

 

 

(Gilka Machado)

 





Quadrinha da erosão

11 11 2015

 

 

fazenda, trabalho naIlustração anônima.

 

Sempre que as águas da chuva

Levam a terra do chão,

O solo sofre um desgaste

Que chamamos de erosão.

 

 

Em: 1001 Quadrinhas Escolares, Walter Nieble de Freitas, São Paulo, Difusora Cultural:1965





Trova do pescador

10 11 2015

 

 

pesca donaldPato Donald vai pescar, ilustração de Walt Disney.

 

Na pesca, era o Chico Armando

o maior…pescava aos feixes…

até que o pesquei…pescando

num Entreposto de Peixes…

 

(João Freire Filho)