Trova do perfume

27 04 2021
Monica se perfuma.  Ilustração Maurício de Sousa.

Que me traias, tu me negas,

mas, traindo-me, te trais:

– O perfume com que chegas,

nunca é o mesmo com que sais…

 

(Cesídio Ambrogi)





Trova do espelho

21 04 2021
Ilustração de Edmund Franklin Ward (EUA, 1892-1990)

 

 

A saudade é simplesmente

Um claro espelho encantado;

mira-se nele o presente      

e ele reflete o passado.

(Geralda Armond)





Saudade, poesia de Da Costa e Silva

1 03 2021

Reflexão, 1970

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925 – 2019)

óleo sobre tela, 46 x 38 cm

Saudade

 

Da Costa e Silva

 

Saudade! Olhar de minha mãe rezando,

E o pranto lento deslizando em fio…

Saudade! Amor de minha terra… O rio

Cantigas de águas claras soluçando.

 

Noites de junho… O caburé com frio,

Ao luar, sobre o arvoredo,piando, piando…

E, ao vento, folhas lívidas cantando

A saudade imortal de um sol de estio.

 

Saudade! Asa de dor do Pensamento!

Gemidos vãos de canaviais ao vento…

As mortalhas de névoa sobre a serra…

 

Saudade! O Parnaíba − velho monge

As barbas brancas alongando… E, ao longe,

O mugido dos bois da minha terra…

 

Em: Da Costa e Silva, Poesias Completas, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985 [edição do centenário] p.69

 

 





Agradecimentos

23 01 2021

Este livro está à venda nos seguinte locais:

Amazon do Brasil

Livraria da Travessa no Rio de Janeiro

e direto na própria editora no seguinte link:

https://www.autografia.com.br/produto/a-meia-voz-2/

Haverá edição em e-book em breve. Agradeço todos os contatos.

Livro lançado durante a pandemia do CORONA VIRUS no Rio de Janeiro. Não há como ter um volume autografado no momento. Não houve noite de autógrafos por causa das circunstâncias de saúde da cidade.

Caso precisem me contatar: ladyce@terra.com.br

GRATA!





Trova do ciúmes

14 01 2021

Morena de olhos castanhos,

teu encanto é a minha pena;

quem dera que olhos estranhos

te achassem feia, morena!     

 

(Bastos Tigre)





Despedida, poesia de Maria Braga Horta

11 01 2021

À luz de lampião, 1890

Harriet Backler (Noruega 1845-1932)

óleo sobre tela, 55 x 66 cm

 

Despedida

 

Maria Braga Horta

 

Não levarei comigo nada meu

nem de ninguém.

Devolvo a todos o quinhão da vida

que viveram comigo e por mim

e os liberto

do ritual das flores no jazigo

que nada mais (depois) contém

que os vestígios de um corpo

que em verdade jamais me pertenceu.

 

 

Simples sombra (invisível) chegarei

diante do espelho

em que foi o meu tempo refletido

e inserido em gradações de forma e cores.

 

 

Do que era teu em mim –

separados os lados –

sepultarás o morto.

 

 

O vivo ficará perdido

nos teus olhos

procurando o infinito.

 

Em: Caminho de Estrelas, Maria Braga Horta, São Paulo,  Massao Ohno Editor: 1996, p. 122





Trova das árvores

29 12 2020

Paisagem

Edgar Walter (Brasil, 1917- 1994)

óleo sobre tela, 65 x 82 cm

 

 

O arvoredo se arrepia,
amante dos mais sensíveis,
quando a brisa o acaricia
com seus dedos invisíveis.

(Soares da Cunha)

 

 





Mãe, poema de Stella Leonardos

22 12 2020

Maternidade

Aurélio d’Alincourt (Brasil, 1919 – 1990)

óleo sobre placa, 41x 33 cm

 

Mãe

 

Stella Leonardos

 

Tudo que há na fonte pura

Vem da mina de onde brota

E do fundo da espessura

Nasce a sombra de uma grota.

Todo verdor de uma planta

Deve à terra seu verdor.

Todo pássaro que canta

Herdou raça de cantor.

Qualquer gesto bom que eu tenha,

Toda vez que eu ficar triste,

Todo sonho que me venha,

Tudo que em mim houve e existe

Será teu, Mãe. Porque és água,

Pedra e chão, rama e raiz

De meu mundo: quer na mágoa

Quer no momento feliz.

 

Em: Pedra no Lago, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José:1956, p. 45

 





Trova de Natal

9 12 2020
Ilustração de B. Midderigh Bokhorst

 

 

Que saudades dos folguedos

dos meus Natais mais risonhos…

em que singelos brinquedos

amanheciam meus sonhos!

 

João Freire Filho





A lebre e a tartaruga — La Fontaine, trad. Curvo Semedo

3 12 2020
Ilustração, desconheço a autoria.

A lebre e a tartaruga

“Apostemos, disse à lebre

A tartaruga matreira,

Que eu chego primeiro ao alvo

Do que tu, que és tão ligeira!”

Dado o sinal da partida,

Estando as duas a par,

A tartaruga começa

Lentamente a caminhar.

A lebre, tendo vergonha

De correr diante dela,

Tratando uma tal vitória

De peta ou bagatela,

Deita-se e dorme o seu pouco;

Ergue-se e põe-se a observar

De que parte sopra o vento,

E depois entra a pastar;

Eis deita uma vista d’olhos

Sobre a caminhante sorna,

Inda a vê longe da meta,

E a pastar de novo torna.

Olha; e depois a vê perto,

Começa a sua carreira;

Mas então apressa os passos

A tartaruga matreira.

À meta chega primeiro

Apanha o prêmio apressada,

Pregando a lebre vencida

Uma grande surriada.

Não basta só haver posses

Para obter o que intentamos;

É preciso por-lhe os meios,

Quando não atrás ficamos.

O contendor não desprezes

Por fraco, se te investir;

Porque um anão acordado

Mata um gigante a dormir.