Orgulho do trabalho bem feito: Pinturicchio

11 02 2016

 

1annuncAnunciação, 1501
Pinturicchio (Itália, 1454-1513)
Afresco
Collegiata di Santa Maria Maggiore, Spello

 

Hoje é fácil nos referirmos a uma tela ou a uma escultura pelo nome de seu autor. “Comprei um Picasso!”; “Um van Gogh vale uma fortuna!” — sabemos exatamente o significado dessas frases. Mas essas expressões só fazem sentido porque na Renascença, durante o século XV, artistas, pintores e escultores deixaram o anonimato das guildas para serem reconhecidos individualmente.

O processo levou tempo. Artistas eram considerados pessoas que trabalhavam com as mãos e precisavam passar por treino em guildas, anos e anos de aprendizagem, como faziam também pedreiros, tecelões, e outros artesãos. Nenhum deles era conhecido por seu nome. Parte da “revolução renascentista” foi o reconhecimento do artista por seu talento individual, hoje tomado como norma. Muitos artistas famosos ora assinavam seus trabalhos, ora não. E grande parte deles vivia sob auspícios de um grande senhor, como a família Médici em Florença. Nesses castelos, nessas residências eles tinham casa e comida e obrigações com a decoração das casas para grandes eventos, embelezar os jardins, pintar lonas, bandeiras para diversas ocasiões além de pintar retratos e cenas religiosas ou mitológicas. Frequentemente funcionavam como organizadores dos eventos que seus patrões queriam desenvolver.

O processo de reconhecimento do artista foi se desenvolvendo aos poucos no século XV. Teve um grande ímpeto quando, em meados do século XVI, Vasari publicou Vidas dos Artistas. A primeira tentativa de uma história da arte e da vida dos artistas famosos de seu tempo.

 

1annunc3[DETALHE]

 

O processo de tornar o pintor ou escultor um indivíduo singular, consequência natural do humanismo, levou os próprios artistas a se orgulharem de suas obras, a assiná-las com maior frequência. O orgulho de um trabalho bem feito, a procura por se eternizar pode ser vista nos primeiros autorretratos de artistas. Pinturicchio, um grande pintor renascentista, não conseguiu deixar de lado o orgulho pelo trabalho executado na Igreja de Santa Maria Maggiore, em Spello.

À direita da Anunciação de 1501, Pinturicchio colocou seu próprio retrato, como se ele mesmo fosse uma testemunha do evento religioso. Acima de seu retrato, vemos uma prateleira, com um tecido branco decorando a parede, abaixo da prateleira que mostra uma interessante ‘natureza morta’ com livros, vela e outros objetos. O nome do pintor aparece abaixo num rótulo elaborado.

Pinturicchio pode ter se inspirado por seu antigo professor, Perugino que ao pintar um afresco no Collegio del Cambio em Perugia, terminado um ano antes em 1500, incluiu seu autorretrato.

 

2famousHomens famosos da antiguidade, 1497-1500
Pietro Perugino (Itália, 1450-1523)
Afresco, 293 x 418 cm
Collegio del Cambio em Perugia

 

2selfpo1[DETALHE]





Stendhal visita o palácio Barberini em Roma, I

7 02 2016

 

 

FornarinaLa Fornarina, ou Retrato de uma jovem mulher, 1519

Rafael Sanzio (Itália, 1483-1520)

óleo sobre madeira, 85 x 60 cm

Galleria Nazionale d’Arte Antiga, Palazzo Barberini, Roma

 

 

“A galeria deste palácio está agora reduzida a sete ou oito quadros; mas quatro deles são obras-primas: de início o retrato da célebre Fornarina, amante de Rafael, de autoria do próprio Rafael. Esse retrato cuja autenticidade não pode ser posta em dúvida, pois existem cópias da mesma época, é totalmente diferente da figura que, na galeria de Florença, é dada como o retrato da amante de Rafael, e que foi gravado, com essa indicação, por Morghen. O retrato de Florença não é de Rafael. Em homenagem ao prestígio desse grande nome poderia o leitor perdoar essa pequena digressão?”

 

 

Em: Crônicas italianas, Stendhal, tradução de Sebastião Uchoa Leite, São Paulo, Editora Max Limonad: 1981, p. 101

————–

O retrato a que Stendhal se refere é o seguinte:

port_womLa Fornarina ou Retrato de uma jovem mulher, 1512

Sebastiano del Piombo (Itália, 1485-1547)

óleo sobre madeira, 68 x 55 cm

Galleria degli Uffizi, Florença

 





Eu, pintor: Mestre de Frankfurt

1 12 2015

Frankfurt_master-artist_and_wife

Auto-retrato com sua esposa, 1496

Mestre de Frankfurt (c. 1460 – c.1533)

óleo sobre madeira, 38 x 26 cm

Real Museu de Belas Artes da Antuérpia, Bélgica





Eu, pintor: Pieter Bruegel, o velho

4 08 2015

 

 

Pieter_Bruegel_the_Elder_-_The_Painter_and_the_Buyer,_1565_-_Google_Art_ProjectO pintor e o comprador, 1565

(assumido como auto-retrato)

Pieter Bruegel, o velho (Flandres, 1526-1530 (?) — 1569)

desenho a bico de pena, tinta sépia

Albertina, Viena





Florença em 1493, Crônica de Nuremberg

14 07 2015

 

 

Nuremberg_chronicles_-_FLORENCIAFlorença, 1493

Xilogravura,

Crônica de Nuremberg

 

A Crônica de Nuremberg é uma famosa publicação em latim, de autoria de Hartmann Schedel (1440-1514), que relata a história do mundo em sete capítulos. Foi publicada em 12 de junho de 1493, poucos anos depois da primeira impressão da Bíblia — conhecida como a Bíblia de Gutenberg —  através dos tipos móveis de Gutenberg, em 1450-55. A Crônica de Nuremberg atingiu logo grande sucesso e teve diversas edições traduzidas imediatamente. Em 23 de dezembro de 1493, seis meses depois de sua primeira edição, por exemplo, já saía publicada em alemão. É o maior livro ilustrado da época, com aproximadamente 1600 xilogravuras. Tornou- se o livro mais difundido dos anos finais do século XV à primeira metade do século XVI. Curiosamente, o grande pintor renascentista alemão Albrecht Dürer, que se tornou um dos maiores gravuristas do mundo, trabalhou como aprendiz nas xilogravuras para esse livro.





Codice Romanov: presente no seu dia a dia…

3 06 2015

 

 

café Joseph_C_LeyendeckerLanche, ilustração de Joseph Leyendecker.

 

“A origem do guardanapo é muito interessante. Antes dele cachorros e coelhos eram utilizados para limpar as mãos dos comensais, já que o padrão medieval era o de comer com as mãos. Apesar de não oficial, atribui-se a origem desse artefato a Leonardo Da Vinci (1452-1518), por meio de um livro chamado Codice Romanov, constituído de anotações culinárias atribuídas a Da Vinci. Antes da inclusão como item indispensável à mesa, as toalhas de mesa e, em seguida, as mangas dos trajes serviam para limpar os lábios.”

 

Em: Sempre, às vezes, nunca – etiqueta e comportamento, Fábio Arruda, São Paulo, Arx: 2003, 8ª edição, p: 96.





Camille Paglia e o ensino dos clássicos

3 04 2015

 

 

 

Raffaello,_concilio_degli_dei_02O conselho dos deuses, 1518

Rafael Sanzio (Urbino, 1483-1583)

Afresco

Villa Farnesina, Roma

 

 

 

Sean Salai, S. J. — Na sua opinião como classicista, o que os antigos gregos e romanos nos ensinam como seres humanos?

Camille Paglia — Sigo os passos de meu herói cultural, Oscar Wilde, não concordo com a implícita suposição moralista que a literatura ou a arte “ensinam” algo para nós. Elas simplesmente abrem a nossa visão para um mundo maior, ou nos permitem ver o mundo através de uma lente diferente. A cultura greco-romana que está se afastando rapidamente da educação universitária americana, é uma das duas tradições fundamentais da civilização ocidental; a outra é a judaico-cristã. Essas tradições se entrelaçaram e se influenciaram mutuamente ao longo dos séculos, produzindo uma complexidade titânica do ocidente, tanto para o bem quanto para o mal. Ignorar ou minimizar o passado greco-romano é colocar antolhos intelectuais, mas é isso que vem exatamente acontecendo à medida que as faculdades abandonam gradualmente, a grande, cronológica, visão panorâmica da antiguidade clássica, em cursos de dois semestres, que fora enfatizada no passado. A trajetória, agora, está no “presentismo”, uma concentração míope na sociedade desde a Renascença – por falar nisso, um termo humanístico nobre, que está sendo descartado implacavelmente e substituído pela amorfa entidade marxista, “Proto-Modernidade”.

 

 

Em: “The Catholic Pagan:10 questions for Camille Paglia“, America: the national catholic review, 25 de fevereiro de 2015.

[Tradução é minha]

LINK





Imagem de leitura — Hans Holbein, o jovem

1 12 2014

 

John_More,_son_of_Sir_Thomas_More,_by_Hans_Holbein_the_YoungerJohn More, filho de Thomas More, s/d

Hans Holbein o jovem (Alemanha, 1497 – Inglaterra, 1543)

desenho carvão e giz colorido sobre papel

Coleção da Coroa Britânica





Uma inovação de 500 anos, sem a qual não imaginamos viver!

8 11 2014

 

 

place-setting-art-blenda-tyvollPlace Setting Art by Blenda StudioIlustração: gravura da artista Blenda Tyvoll, “Mesa posta”.

 

“O uso de talheres começou a se difundir no século XVI, mas eram totalmente pessoais, em geral dobráveis para facilitar o transporte e evitar os envenenamentos.  Fornecê-los para convidados só a partir do século XVII, entre os aristocratas ocidentais e, no século XVIII entre os burgueses.  A idade dos acessórios é distinta. O mais antigo deles é a faca, que até o século XVI fazia as vezes de garfo, já que além de trinchar os alimentos, espetava e os levava à boca. A colher veio evoluindo desde os tempos mais antigos, mas sua forma atual data do século XV, quando seu cabo foi alongado, em parte devido às gravatas largas e bufantes e aos babados das mangas dos trajes da época. O garfo mais próximo do atual veio da Renascença italiana — mas com apenas três dentes — o quarto dente foi acrescentado pelo franceses no século XVI.”

 

Em: Sempre, às vezes, nunca – etiqueta e comportamento, Fábio Arruda, São Paulo, Arx: 2003, 8ª edição, p: 90.





Imagem de leitura — Quentin Massys

26 09 2014

 

 

manglassHomem com óculos, c. 1520

Quentin Massys (Bélgica, 1466-1530)

Óleo sobre madeira,  69 x 53 cm

Städelsches Kunstinstitut, Frankfurt