Trova de Natal

9 12 2020
Ilustração de B. Midderigh Bokhorst

 

 

Que saudades dos folguedos

dos meus Natais mais risonhos…

em que singelos brinquedos

amanheciam meus sonhos!

 

João Freire Filho





A lebre e a tartaruga — La Fontaine, trad. Curvo Semedo

3 12 2020
Ilustração, desconheço a autoria.

A lebre e a tartaruga

“Apostemos, disse à lebre

A tartaruga matreira,

Que eu chego primeiro ao alvo

Do que tu, que és tão ligeira!”

Dado o sinal da partida,

Estando as duas a par,

A tartaruga começa

Lentamente a caminhar.

A lebre, tendo vergonha

De correr diante dela,

Tratando uma tal vitória

De peta ou bagatela,

Deita-se e dorme o seu pouco;

Ergue-se e põe-se a observar

De que parte sopra o vento,

E depois entra a pastar;

Eis deita uma vista d’olhos

Sobre a caminhante sorna,

Inda a vê longe da meta,

E a pastar de novo torna.

Olha; e depois a vê perto,

Começa a sua carreira;

Mas então apressa os passos

A tartaruga matreira.

À meta chega primeiro

Apanha o prêmio apressada,

Pregando a lebre vencida

Uma grande surriada.

Não basta só haver posses

Para obter o que intentamos;

É preciso por-lhe os meios,

Quando não atrás ficamos.

O contendor não desprezes

Por fraco, se te investir;

Porque um anão acordado

Mata um gigante a dormir.





“Lundu de Dona Sinhá”, Wilson W. Rodrigues

24 11 2020

Batucada, 1935

Armando Vianna (Brasil, 1897 – 1992)

óleo sobre tela, 37 x 46 cm

 

Lundu de Dona Sinhá

 

Wilson W. Rodrigues

 

Tanta brancura na pele,

tanta negrura nos olhos,

tanta risada sonora

no mundo não há

fora do colo macio,

dos olhos tão envolventes,

da boquinha tão vermelha

de dona Sinhá.

 

Pegar com jeito no leque,

fazer mesura na valsa,

dizer adeus com o lenço

no mundo não há

como o jeito delicado,

o sapatinho de seda,

a mãozinha tão alva

de dona Sinhá.

 

Rezar, na igreja, sonhando,

dizer “não”, sempre sorrindo,

prometer tanto em silêncio

no mundo não há

como a reza mais sincera,

os lábios enganadores

e as promessas escondidas

de dona Sinhá.

 

Fingir chilique de choro,

zombar do próprio marido

e trair o próprio amante

no mundo não há

como as lágrimas fingidas,

os carinhos mentirosos

e os amores levianos

de dona Sinhá.

 

Em: Bahia Flor: poemas, Wilson W. Rodrigues, Rio de Janeiro, Editora Publicitan: 1949, pp. 51-55

 

 

Wilson Woodrow Rodrigues (São Salvador, BA, 1916 – ?), poeta, jornalista, folcorista, escritor, professor.

Obras

    A caveirinha do preá, s/d

    Desnovelando, s/d

    O galo da campina,s/d

    O pintainho, s/d

    Por que a onça ficou pintada, s/d

    A rãzinha,s/d

    Três potes, s/d

    O bicho-folha,s/d

    A carapuça vermelha,s/d

    Bahia flor, poesia, (1949)

    Folclore Coreográfico do Brasil, (1953)

    Contos, s/d

    Contos do Rei-sol, s/d

    Contos dos caminhos, s/d

    Pai João, (1952)

    Sombra de Deus, s/d

    Lendas do Brasil, s/d





O ovo do coelho, Paulo Leminski

16 11 2020

Ilustração Pauli Ebner.

Ovo do coelho

 

Paulo Leminski

 

Coelho não bota ovo,

quem bota ovo é galinha.

Mas eu conheço um coelho

que é mesmo uma maravilha.

 

Os ovos que ele bota,

você nem imagina.

São ovos de chocolate

ou ovos de baunilha.

 

Por isso, nosso coelho

foi expulso da família.

O pai dele disse: – Meu filho,

isso é coisa de galinha.

 

O coelho respondeu rapidamente:

– Meu pai eu não tenho culpa,

botar ovo é meu destino.

Se não posso botar ovos em casa,

prefiro botar sozinho.

 

E foi assim que o coelho

saiu de casa para a rua,

botando ovo na Páscoa,

no sonho de todo mundo.





O tempo passa, soneto de Maria Braga Horta

31 10 2020
Ilustração, Clara M. Burd
         V

 

Maria Braga Horta

 

O tempo passa.  E passam sol e lua

tantas vezes no céu, que perco a conta

do tempo que, passando, se insinua

na vida que a velhice hoje defronta.

 

O tempo passa, a história continua.

É uma história de amor que se reconta.

Uma história de amor que perpetua

a vida: ora uma acaba, outra desponta.

 

Venho outra vez com bruxas e dragões

e princesas e príncipes e anões

para o mundo irreal dos dois netinhos.

 

Vejo em seus olhos sempre o mesmo brilho

que pairava no olhar de cada filho

…e ainda vão passando os carneirinhos…

 

Brasília, 28-2-1968

 

 

Em: Caminho de Estrelas, Maria Braga Horta, São Paulo,  Massao Ohno Editor: 1996, p. 239





“O acendedor de lampiões” poema de Jorge de Lima

26 10 2020
lamplighter-carrying-out-his-duty-mary-evans-picture-libraryGravura anônima do Século XIX.
O acendedor de lampiões

 

Jorge de Lima

 

 

Lá vem o acendedor de lampiões da rua!

Este mesmo que vem infatigavelmente,

Parodiar o sol e associar-se à lua

Quando a sombra da noite enegrece o poente!

 

Um, dois, três lampiões, acende e continua

Outros mais a acender imperturbavelmente,

À medida que a noite aos poucos se acentua

E a palidez da lua apenas pressente.

 

Triste ironia atroz que o senso humano irrita: —

Ele que doira a noite e ilumina a cidade,

Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

 

Tanta gente também nos outros insinua

Crenças, religiões, amor, felicidade,

Como este acendedor de lampiões de rua!

 

 

Em: Poesias Completas, Jorge de Lima, vol. I, Rio de Janeiro, Cia. José Aguilar Editora: 1974.p. 62





As samambaias, poesia de Hélio Pellegrino

24 09 2020

 

 

samambaias, foto-LadyceWestSamambaias, foto: Ladyce West

 

 

As samambaias

 

Hélio Pellegrino

 

As samambaias

debruçadas no espaço

esplendem seu silêncio.

 

Que farta verdade

em seu verde farfalha!

 

Rio, 2/10/1980

 

Em: Minérios Domados, poesia reunida, Hélio Pellegrino, Rio de Janeiro, Rocco: 1993, p. 47.





Natividade da Serra, poesia de Cesídio Ambrogi

31 08 2020

Casario

Francisco Céa (Brasil, 1908 – 1978 ?)

Natividade na Serra

 

Cesídio Ambrogi

 

Meu vilarejo – um cromo estilizado:

O Largo da Matriz. Uma palmeira.

A cadeia sem preso nem soldado.

Calma em tudo. Silêncio. Pasmaceira.

 

Andorinhas em bando, no ar lavado.

O rio. O campo além de uma porteira.

Um velho casarão acaçapado

— Nossa casa tranquila e hospitaleira.

 

O Cruzeiro lá em cima, em plena serra,

Braços abertos para minha terra…

E eu criança e feliz.  Que doce idade!

 

Hoje, porém, meu Deus, quanta emoção!

Do meu peito no triste mangueirão,

Cavo e soturno, o aboio da saudade…

 

Em: 232 Poetas Paulistas: antologia,  ed. e col. Pedro de Alcântara Worms, São Paulo, Conquista: 1968, p. 209.

 

Cesídio Ambrogi nasceu em Natividade da Serra, a 22 de maio de 1894. Faleceu em 27 de julho de 1974. Professor, escritor, jornalista, poeta eclético.  Fundador da “Sociedade Taubateana de Ensino” e considerado presidente perpétuo da União Brasileira de Trovadores (UBT-Taubaté).   Casou-se em 1920 com Petronilha Chiaradia, que faleceu em 1933. Tiveram dois filhos. Cinco anos depois, contraiu matrimônio com a advogada, professora e também trovadora Lígia Teresinha Fumagalli com quem teve mais cinco filhos.

Obras:

As moreninhas, 1923

 





Balaio, poema de Wilson W. Rodrigues

24 08 2020

Homem com cavalos

Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885 – 1962)

óleo sobre  tela, 32 x 40 cm

 

 
Balaio

 

Wilson W. Rodrigues

 

 

Deixa o meu balaio velho

que guardei como lembrança

do tempo em que no balaio

levava muita esperança…

 

Eu mesmo fiz o balaio,

entrancei-o em sua trança,

cantando as minhas cantigas

que aprendi quando criança.

 

Com o balaio nas costas,

tive tanta ilusão mansa,

pensei até que amaria

a filha do rei de França.

 

Com tanta coisa sonhei!

Tudo se foi sem tardança…

Só meu balaio ficou

com minha desesperança.

 

Em: Bahia Flor: poemas, Wilson W. Rodrigues, Rio de Janeiro, Editora Publicitan: 1949.p. 55.





Analogia, poesia de Ferreira Leal

17 08 2020

Ilustração de Harrison Fisher (1875 – 1934)

Analogia

 

Ferreira Leal

 

 

Entre Elisa e a pimenta

Acho tanta semelhança,

Que quando a moça me tenta,

Vem-me a pimenta à lembrança.

 

Se a donzela se agonia,

Da fruta assume o rubor;

E p’ra mais analogia

Têm ambas o mesmo ardor.

 

Quer que uma e outra excite

O destino alterações

A pimenta – no apetite,

Elisa – nos corações.

 

Afinal, se mais se atenta,

Tanto acordo se divisa,

Que, como Elisa é pimenta,

Também a pimenta é lisa.

 

 

Em: Mosaico, diversos autores, Rio de Janeiro, Biblioteca Brasileira: 1878, N

 º 2, agosto, página 37.