Ilustração de B. Midderigh Bokhorst
Que saudades dos folguedos
dos meus Natais mais risonhos…
em que singelos brinquedos
amanheciam meus sonhos!
João Freire Filho
Que saudades dos folguedos
dos meus Natais mais risonhos…
em que singelos brinquedos
amanheciam meus sonhos!
João Freire Filho
Ilustração, desconheço a autoria.–
–
“Apostemos, disse à lebre
A tartaruga matreira,
Que eu chego primeiro ao alvo
Do que tu, que és tão ligeira!”
Dado o sinal da partida,
Estando as duas a par,
A tartaruga começa
Lentamente a caminhar.
A lebre, tendo vergonha
De correr diante dela,
Tratando uma tal vitória
De peta ou bagatela,
Deita-se e dorme o seu pouco;
Ergue-se e põe-se a observar
De que parte sopra o vento,
E depois entra a pastar;
Eis deita uma vista d’olhos
Sobre a caminhante sorna,
Inda a vê longe da meta,
E a pastar de novo torna.
Olha; e depois a vê perto,
Começa a sua carreira;
Mas então apressa os passos
A tartaruga matreira.
À meta chega primeiro
Apanha o prêmio apressada,
Pregando a lebre vencida
Uma grande surriada.
Não basta só haver posses
Para obter o que intentamos;
É preciso por-lhe os meios,
Quando não atrás ficamos.
O contendor não desprezes
Por fraco, se te investir;
Porque um anão acordado
Mata um gigante a dormir.
Batucada, 1935
Armando Vianna (Brasil, 1897 – 1992)
óleo sobre tela, 37 x 46 cm
Wilson W. Rodrigues
Tanta brancura na pele,
tanta negrura nos olhos,
tanta risada sonora
no mundo não há
fora do colo macio,
dos olhos tão envolventes,
da boquinha tão vermelha
de dona Sinhá.
Pegar com jeito no leque,
fazer mesura na valsa,
dizer adeus com o lenço
no mundo não há
como o jeito delicado,
o sapatinho de seda,
a mãozinha tão alva
de dona Sinhá.
Rezar, na igreja, sonhando,
dizer “não”, sempre sorrindo,
prometer tanto em silêncio
no mundo não há
como a reza mais sincera,
os lábios enganadores
e as promessas escondidas
de dona Sinhá.
Fingir chilique de choro,
zombar do próprio marido
e trair o próprio amante
no mundo não há
como as lágrimas fingidas,
os carinhos mentirosos
e os amores levianos
de dona Sinhá.
Em: Bahia Flor: poemas, Wilson W. Rodrigues, Rio de Janeiro, Editora Publicitan: 1949, pp. 51-55
Wilson Woodrow Rodrigues (São Salvador, BA, 1916 – ?), poeta, jornalista, folcorista, escritor, professor.
Obras
A caveirinha do preá, s/d
Desnovelando, s/d
O galo da campina,s/d
O pintainho, s/d
Por que a onça ficou pintada, s/d
A rãzinha,s/d
Três potes, s/d
O bicho-folha,s/d
A carapuça vermelha,s/d
Bahia flor, poesia, (1949)
Folclore Coreográfico do Brasil, (1953)
Contos, s/d
Contos do Rei-sol, s/d
Contos dos caminhos, s/d
Pai João, (1952)
Sombra de Deus, s/d
Lendas do Brasil, s/d
Ilustração Pauli Ebner.
Paulo Leminski
Coelho não bota ovo,
quem bota ovo é galinha.
Mas eu conheço um coelho
que é mesmo uma maravilha.
Os ovos que ele bota,
você nem imagina.
São ovos de chocolate
ou ovos de baunilha.
Por isso, nosso coelho
foi expulso da família.
O pai dele disse: – Meu filho,
isso é coisa de galinha.
O coelho respondeu rapidamente:
– Meu pai eu não tenho culpa,
botar ovo é meu destino.
Se não posso botar ovos em casa,
prefiro botar sozinho.
E foi assim que o coelho
saiu de casa para a rua,
botando ovo na Páscoa,
no sonho de todo mundo.

Maria Braga Horta
O tempo passa. E passam sol e lua
tantas vezes no céu, que perco a conta
do tempo que, passando, se insinua
na vida que a velhice hoje defronta.
O tempo passa, a história continua.
É uma história de amor que se reconta.
Uma história de amor que perpetua
a vida: ora uma acaba, outra desponta.
Venho outra vez com bruxas e dragões
e princesas e príncipes e anões
para o mundo irreal dos dois netinhos.
Vejo em seus olhos sempre o mesmo brilho
que pairava no olhar de cada filho
…e ainda vão passando os carneirinhos…
Brasília, 28-2-1968
Em: Caminho de Estrelas, Maria Braga Horta, São Paulo, Massao Ohno Editor: 1996, p. 239
Gravura anônima do Século XIX.
Jorge de Lima
Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!
Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas pressente.
Triste ironia atroz que o senso humano irrita: —
Ele que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.
Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade,
Como este acendedor de lampiões de rua!
Em: Poesias Completas, Jorge de Lima, vol. I, Rio de Janeiro, Cia. José Aguilar Editora: 1974.p. 62
Samambaias, foto: Ladyce West
Hélio Pellegrino
As samambaias
debruçadas no espaço
esplendem seu silêncio.
Que farta verdade
em seu verde farfalha!
Rio, 2/10/1980
Em: Minérios Domados, poesia reunida, Hélio Pellegrino, Rio de Janeiro, Rocco: 1993, p. 47.

Casario
Francisco Céa (Brasil, 1908 – 1978 ?)
Cesídio Ambrogi
Meu vilarejo – um cromo estilizado:
O Largo da Matriz. Uma palmeira.
A cadeia sem preso nem soldado.
Calma em tudo. Silêncio. Pasmaceira.
Andorinhas em bando, no ar lavado.
O rio. O campo além de uma porteira.
Um velho casarão acaçapado
— Nossa casa tranquila e hospitaleira.
O Cruzeiro lá em cima, em plena serra,
Braços abertos para minha terra…
E eu criança e feliz. Que doce idade!
Hoje, porém, meu Deus, quanta emoção!
Do meu peito no triste mangueirão,
Cavo e soturno, o aboio da saudade…
Em: 232 Poetas Paulistas: antologia, ed. e col. Pedro de Alcântara Worms, São Paulo, Conquista: 1968, p. 209.
Cesídio Ambrogi nasceu em Natividade da Serra, a 22 de maio de 1894. Faleceu em 27 de julho de 1974. Professor, escritor, jornalista, poeta eclético. Fundador da “Sociedade Taubateana de Ensino” e considerado presidente perpétuo da União Brasileira de Trovadores (UBT-Taubaté). Casou-se em 1920 com Petronilha Chiaradia, que faleceu em 1933. Tiveram dois filhos. Cinco anos depois, contraiu matrimônio com a advogada, professora e também trovadora Lígia Teresinha Fumagalli com quem teve mais cinco filhos.
Obras:
As moreninhas, 1923

Homem com cavalos
Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885 – 1962)
óleo sobre tela, 32 x 40 cm
Wilson W. Rodrigues
Deixa o meu balaio velho
que guardei como lembrança
do tempo em que no balaio
levava muita esperança…
Eu mesmo fiz o balaio,
entrancei-o em sua trança,
cantando as minhas cantigas
que aprendi quando criança.
Com o balaio nas costas,
tive tanta ilusão mansa,
pensei até que amaria
a filha do rei de França.
Com tanta coisa sonhei!
Tudo se foi sem tardança…
Só meu balaio ficou
com minha desesperança.
Em: Bahia Flor: poemas, Wilson W. Rodrigues, Rio de Janeiro, Editora Publicitan: 1949.p. 55.

Ilustração de Harrison Fisher (1875 – 1934)
Ferreira Leal
Entre Elisa e a pimenta
Acho tanta semelhança,
Que quando a moça me tenta,
Vem-me a pimenta à lembrança.
Se a donzela se agonia,
Da fruta assume o rubor;
E p’ra mais analogia
Têm ambas o mesmo ardor.
Quer que uma e outra excite
O destino alterações
A pimenta – no apetite,
Elisa – nos corações.
Afinal, se mais se atenta,
Tanto acordo se divisa,
Que, como Elisa é pimenta,
Também a pimenta é lisa.
Em: Mosaico, diversos autores, Rio de Janeiro, Biblioteca Brasileira: 1878, N
º 2, agosto, página 37.