Leilão de jardim, poesia infantil de Cecília Meireles

20 02 2013

vendido

Bolinha vende um ramo de flores para Raposo. Ilustração Marjorie Henderson Buell.

Leilão de Jardim

Cecília Meireles

Quem me compra um jardim com flores?

Borboletas de muitas cores,

lavadeiras e passarinhos,

ovos verdes e azuis nos ninhos?

 –

Quem me compra este caracol?

Quem me compra um raio de sol?

Um lagarto entre o muro e a hera,

uma estátua da Primavera?

 –

Quem me compra este formigueiro?

E este sapo, que é jardineiro?

E a cigarra e a sua canção?

E o grilinho dentro do chão?

 –

(Este é o meu leilão.)

 





Chuva, poesia infantil de Luísa Ducla Soares

13 02 2013

chuva e gato preto B. Midderigh Bokhorst,

Ilustração alemã, sem autoria, década de 1930.

Chuva

Luísa Ducla Soares

Cai a chuva, ploc, ploc
corre a chuva ploc, ploc
como um cavalo a galope.

Enche a rua, plás, plás
esconde a lua, plás, plás
e leva as folhas atrás.

Risca os vidros, truz, truz
molha os gatos, truz, truz

e até apaga a luz.

Parte as flores, plim, plim
maça a gente plim, plim
parece não ter mais fim.

Em: A Gata Tareca e Outros Poemas Levados da Breca, Luísa Ducla Soares, Teorema: 1990





Os caquis, poema de Sônia Carneiro Leão

9 02 2013

Jean Xanthakos, Caquis e uvas, osm, 9x12

Caquis e uvas, s/d

Jean Xanthakos (Brasil, 1936 (?))

óleo sobre madeira

Os caquis

Ah! Os caquis,

esses tomates inflados.

Os caquis,

esses pneus assanhados,

risonhos, safados,

que nos convidam a morder

sua carne aguada, açucarada.

Os caquis,

vítimas da nossa voracidade.

Os caquis,

que se abrem à primeira dentada,

docemente, docilmente,

feito fêmea dominada.

Ah! Os caquis já vão-se embora.

Despeço-me deles agora.

Mas não faz mal,

estou satisfeita,

esperando a próxima colheita.

Em: Respostas ao criador das frutas, Sônia Carneiro Leão, Recife, Editora da autora: 2010

Sônia Carneiro Leão nasceu no Rio de Janeiro, mas reside em Recife.  Psicanalista, escritora, poetisa, contista  e tradutora.





Papagaio de papel, poesia infantil de Carlos Chiacchio

4 02 2013

David Ricci, Segurando Pipa esperando o vento, 2005, ost, 60x 40cm

Menino segurando pipa, 2005

David Ricci (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 60 x 40 cm

Papagaio de papel

Carlos Chiacchio

Certa vez, era noite de luar,

Havia vento

A valer.

Bom para empinar

Meu papagaio oblongo de espavento.

Se havia vento, que importava a noite.

Era só dependurar

Longo,a lanterna acesa a todo o açoite

Do vento, e soltar

Meu papagaio oblongo, num momento.

Dito e feito.

Mas, ao peso da lanterna, não subia

O invento,

Senão a curtos vôos, de jeito

Que toda gente via

Com certo espanto aquela luz ao vento:

“Vai destelhar as casa  com tamanho arrojo…

“Vai pegar fogo em tudo, e o sobressalto

“E o incêndio semear daquele bojo….”

Era, esse, o tom geral da gritaria.

Mas de repente,

Meu lindo papagaio

Brilha, de súbito, como um raio,

A bailar ziguezagueando pela altura,

Muito acima do clamor de toda a gente,

Meu alado sonho de papel luzente,

Alto, a voar, muito alto…

Até perder de rumo…

Até a chama apagar…

Até tornar-se em fumo…

Em: Encantos literários: antologia, Deomira Stefani, São Paulo, Ática:s/d

carlos-chiacchio1

Carlos Chiacchio ( Januária, MG 1884 – Salvador, BA, 1947)  jornalista, orador, poeta, cronista, crítico literário, membro do IGH-BA, Academia de Letras da Bahia, foi o chefe e animador do grupo modernista na Bahia, em 1928, em torno da revista Arco & Flecha (1928-1929).  Estudou no colégio Spencer em Salvador, cidade onde mais tarde também se formou em medicina.

Obras:

A Dor, 1910

A Margem de uma polêmica, 1914

Biocrítica, 1941

Canto de marcha, 1942

Cronologia de Rui, 1949

Euclides da Cunha, 1940

Infância, poesia, 1938

Modernistas e Ultramodernistas, 1951

Os grifos, 1923

Paginário de Roberto Correia, 1945

Presciliano Silva, 1927

Primavera, 1910, 1941





Siri, poesia infantil de Ana Maria Machado

1 02 2013

caranguejo 1

 

Siri

Ana Maria Machado

Siri
não ri
em serviço.

Se troca a casca
vira ouriço
procura concha,
busca uma toca e,
sumiço.

Não dá mole por aí.
Pra não virar sopa
faz boca
de siri.

Em: Sinais do Mar, Ana Maria Machado, São Paulo, Cosac Naify: 2009 , 1ª edição.





A cantiga que cantavas, poesia infantil de Tasso da Silveira

8 01 2013

musica no jardim, 1918Ilustração publicada em 1918.

A cantiga que cantavas

Tasso da Silveira

A cantiga que cantavas

não tinha acompanhamento

nem de nenhum instrumento

nem de outra voz, nem de vento,

nem de água em murmúrio vão.

Subia pura na noite.

Subia serenamente

fresca, simples, inocente,

para os astros, para a lua,

no seio da solidão.

Afora o canto que entoavas,

tudo era recolhimento

no vasto e perdido mundo.

Tudo era êxtase profundo.

Ao teu canto claro e lento,

tudo era deslumbramento.

Não havia voz de vento,

nem água em murmúrio vão.

Teu canto, no vasto mundo,

não tinha acompanhamento.

Em: Antologia de poemas para a infância, vários autores, Rio de Janeiro, Ediouro:2004

Tasso Azevedo da Silveira ( Brasil, 1895 – 1968) advogado e  escritor. Um dos fundadores da Revista Fanal que circulou de 1911 a 1913.  Pertenceu ao movimento de vanguarda literária no Paraná.

Obras:

A igreja silenciosa, 1911

Fio d’água, poesia, 1918

A alma heróica dos homens, poesia, 1924

Alegria criadora: 1922-1925, ensaios, 1928

As imagens acesas, poesia, 1928

Alegorias do homem novo

Canto do Cristo do Corcovado, poesia, 1931

Canto absoluto, 1940

Discurso ao povo infiel

Cantos do campo de batalha, poesia, 1945

Contemplação do eterno, poesia, 1952

Canções a Curitiba, poesia, 1955

Puro canto, poesia, 1956

Regresso à origem, poesia, 1960

Poemas de antes, poesia, s/d

As mãos e o espírito, teatro, 1957





Lili e o telefone, poesia infantil de José Elias

2 01 2013

telefone, meredith johnsonMenina ao telefone, ilustração de Meredith Johnson.

Lili e o telefone

José Elias

Mal tocava o telefone,

Lili corria pra atender.

Só sabia falar: – Alô! Alô!

Qual é o seu nome?

E ficava naquele alô alô danado,

sem chamar quem foi chamado.

Um dia, foi atender,

como sempre apressadinha,

e saiu daquele alô, alô:

— Aqui é Lili. Aí, quem fala?

A fala falou grosso,

do outro lado da linha:

– Quem fala é o fantasminha!

Hahahahá, é o fantasminha!

Agora , se o telefone toca,

Lili nem se toca

ou fica meio encolhidinha.

Tem vontade de atender, mas…

e se for o fantasminha?!

 –

Em:  Caixa mágica de surpresa, José Elias, São Paulo: Paulus, 1984.

 





Rondó do capitão, poesia de Manuel Bandeira

19 11 2012

Soldadinho de chumbo, s/d

Marysia Portinari ( Brasil, 1937)

óleo sobre tela, 30 x 20 cm

Rondó do capitão

Manuel Bandeira

Bão balalão,

Senhor capitão.

Tirai este peso

Do meu coração.

Não é de tristeza,

Não é de aflição:

É só de esperança,

Senhor capitão!

A leve esperança,

A aérea esperança…

Aérea, pois não!

Peso mais pesado

Não existe não.

Ah, livrai-me dele,

Senhor capitão!

8 de outubro de 1940

Em: Manuel Bandeira Antologia Poética, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio:1978, 10ª edição





O buraco do tatu, poesia infantil de Sérgio Caparelli

11 11 2012

Chico Bento joga tatu-bola, ilustração de Maurício de Sousa.

O buraco do tatu

Sérgio Caparelli

O tatu cava um buraco

a procura de uma lebre,

quando sai pra se coçar,

já está em Porto Alegre.

O tatu cava um buraco,

e fura a terra  com gana

quando sai pra respirar

já está em Copacabana.

O tatu cava um buraco

e retira a terra aos montes,

quando sai pra beber água

já está em Belo Horizonte.

O tatu cava um buraco

dia e noite, noite e dia,

quando sai pra descansar,

já está lá na Bahia.

O tatu cava um buraco,

tira a terra, muita terra,

quando sai por falta de ar,

já está na Inglaterra.

O tatu cava um buraco

e some dentro do chão,

quando sai pra respirar,

já está lá no Japão.

O tatu cava um buraco

com as garras muito fortes,

quando quer se refrescar

já está no Polo Norte.

O tatu cava um buraco

um buraco muito fundo,

quando sai pra descansar

já está no fim do mundo.

O tatu cava um buraco,

perde o fôlego, geme, sua,

quando quer voltar atrás,

leva um susto, está na lua.

Em: Boi da cara preta, Sérgio Caparelli, Porto Alegre,  LPM: 2000, 27ª edição





Cantigas — poesia de Jorge de Lima

9 11 2012

Lavadeiras no Rio Piabanha em Petrópolis, s/d

Carlos Gomes (Brasil, 1934-1990)

óleo sobre tela, 56 x 48 cm

Cantigas

Jorge de Lima

As cantigas lavam a roupa das lavadeiras.

As cantigas são tão bonitas, que as lavadeiras

ficam tão tristes, tão pensativas!

As cantigas tangem os bois dos boiadeiros!

Os bois são morosos, a carga é tão grande!

O caminho é tão comprido que não tem fim.

As cantigas são leves…

E as cantigas levam os bois, batem a roupa

das lavadeiras.

As almas negras pesam tanto, são

tão sujas como a roupa, pesadas

como os bois…

As cantigas são tão boas…

Lavam as almas dos pecadores!

Levam as almas dos pecadores!

Em: Poesia Brasileira para a Infância, de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1968

Jorge Mateus de Lima (União dos Palmares, AL, 23 de abril de 1893 — Rio de Janeiro, 15 de novembro de 1953) foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor e pintor brasileiro.

Obras:

Poesia:

XIV Alexandrinos (1914)

O Mundo do Menino Impossível (1925)

Poemas (1927)

Novos Poemas (1929)

O acendedor de lampiões (1932)

Tempo e Eternidade (1935)

A Túnica Inconsútil (1938)

Anunciação e encontro de Mira-Celi (1943)

Poemas Negros (1947)

Livro de Sonetos (1949)

Obra Poética (1950)

Invenção de Orfeu (1952)

Romance:

O anjo (1934)

Calunga (1935)

A mulher obscura (1939)

Guerra dentro do beco (1950)