Ilustração de Elizabeth Tyler Wolcott.
Teu dia, Mãe, se reveste
dos remorsos que chorei:
pelo muito que me deste
pelo pouco que te dei.
(Roberto Medeiros)
Ilustração de Elizabeth Tyler Wolcott.
Teu dia, Mãe, se reveste
dos remorsos que chorei:
pelo muito que me deste
pelo pouco que te dei.
(Roberto Medeiros)
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Vista da janela para colheita de algodão, 1999
Enrico Bianco (Itália,1918 — Brasil, 2013)
óleo sobre madeira, 40 x 60 cm
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Sabino de Campos
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Foi há cinco mil anos, mais ou menos,
Que o algodão apareceu na China,
Para vestir os grandes e pequenos,
Como um favor da branca lei divina.
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Os tempos vão passando entre os venenos
Da ostentação na sociedade fina,
Como o linho e a lã — de flóculos amenos —
E a seda que reluz, treme e fascina.
–
Surgem velas alvíssimas nos longes
Do oceano… O linho alveja nos altares.
A lã se esgarça no burel dos monges.
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E a Vida, na utilíssima expressão,
Percorre a terra inteira, céus e mares,
Celebrando a vitória do algodão!
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Em: Natureza: versos, Sabino de Campos, Rio de Janeiro, Pongetti: 1960, p. 105
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Ilustração John Whitcomb.-–
Inveja, grave pecado,
maléfico, perigoso;
fazendo grande o invejado
torna pequeno o invejoso.
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(Marília Fairbanks Maciel)
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Lua, ilustração John Alcorn.–
Em frente à tua janela,
teve a lua que parar;
achando-te muito bela,
se pôs a te contemplar…
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(Trova portuguesa)
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Ilustração de Gustave Doré.–
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Olavo Bilac
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Um camundongo humilde e pobre
Foi um dia cair nas garras de um leão.
E esse animal possante e nobre
Não o matou por compaixão.
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Ora, tempos depois, passeando descuidoso,
Numa armadilha o leão caiu:
Urrou de raiva e dor, estorceu-se furioso…
Com todo o seu vigor as cordas não partiu.
–
Então, o mesmo fraco e pequenino rato
Chegou: viu a aflição do robusto animal,
E, não querendo ser ingrato,
Tanto as cordas roeu, que as partiu afinal…
–
Vede bem: um favor, feito aos que estão sofrendo,
Pode sempre trazer em paga outro favor.
E o mais forte de nós, do orgulho se esquecendo,
Deve aos fracos tratar com caridade e amor.
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Em: Criança Brasileira: quarto livro de leitura, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agor: 1949, p.59
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Ilustração botânica do maracujá [Passiflora edulis Sims] de Maria Cecília Tomasi.
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Sônia Carneiro Leão
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Pego o maracujá e me assusto
Tão dura e tão oca
essa fruta mais louca
me deixa perplexa
de tão desconexa.
Sua carne é só casca.
Seu ventre, sementes.
Sua polpa tão pouca,
não dá pros meus dentes,
Maracujá intrigante,
enrugado, velhinho,
de gosto aceso, bacante,
como o do vinho.
Quero morder, não consigo.
Chupar, tão pouco não posso.
Que fazer, então, contigo,
com o teu paradoxo?
Ninguém o fura com o dedo
para evitar contusão,
esconde dentro o segredo
o doce-azedo da paixão.
Respeitamos o non-sense
da sua concepção.
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Em: Respostas ao Criador Das Frutas, Sônia Carneiro Leão, auto-publicação,Holos Design, ilustrado por Renata Vilanova, p. 13.
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Sônia Carneiro Leão nasceu no Rio de Janeiro, mas reside em Recife. Psicanalista, escritora, poetisa, contista e tradutora.
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Outono, ilustração de Paul Bransom (1885-1979).–
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Mário Quintana
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O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma,
Sob a vidraça descida…
–
Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
De carícia a contrapelo…
–
Partir, ó alma, que dizes?
Colher as horas, em suma…
Mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte nenhuma!
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Em: Prosa e Verso, Mário Quintana – série paradidática Globo, Porto Alegre, Edições Globo: 1978, p. 12
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Anita Malfatti (Brasil, 1889-1964)
óleo sobre tela, 39 x 49 cm
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Bernardino Lopes
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Homens e moças, crianças,
Todos vêm fora, ao terreiro.
Um deles, chamando às danças,
Põe-se a rufar no pandeiro…
–
Principia a cantarola…
Um camponês de unha adunca
Ponteia alegre a viola.
Faz um luar como nunca!
–
Salta um rapaz no fadinho;
Uma mulher, de corpinho,
Vem requebrando de lá;
–
E a meninada bizarra
Faz uma grande algazarra
Brincando de tempo-será*.
–
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* O negrito é do texto original.
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Em: Cromos, Bernardino Lopes, 1881
Abaixo a brincadeira tempo-será.–
Tempo será — brincadeira de pique. As crianças escolhem um pegador. Ele e as outras crianças então recitam o seguinte:
Pegador — Tempo será.
Crianças — De cericecó.
P — Laranja da China.
C — Pimenta em pó.
P — Pinto que pia?
C — Pi-pi-ri-pi.
P — Galo que canta.
C — Cocorocó
P — Quem é o durão?
C — Só eu só.
P — Olha que lhe pego.
C — Não é capaz.
P — Olha que lhe pego.
C — Se for capaz…
Todos fogem do pegador. O primeiro que for pego será o pegador seguinte.
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Amigos, Mark Arian–
Amigo é um grande tesouro
guardado com muito jeito.
A chave é talhada a ouro,
a fechadura é no peito.
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(José Carlos Gomes)
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Cristina Jaco (Brasil, contemporânea)
acrílica sobre tela, 40 x 50 cm
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Henriqueta Lisboa
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Boizinho de olhos cansados
boizinho de olhos compridos
sentado nas quatro patas
numa curva do caminho.
–
Os carros subindo o morro
(boizinho agora se lembra)
cantavam — ou era um choro?
Mas isso foi no outro tempo.
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Em: Nova Lírica, Henriqueta Lisboa, Belo Horizonte, Imprensa Oficial: 1972, p.36