Quadrinha pelo Dia das Mães

6 05 2014

 

 

mãe e filho, Elizabeth Tyler WolcottIlustração de Elizabeth Tyler Wolcott.

 

Teu dia, Mãe, se reveste
dos remorsos que chorei:
pelo muito que me deste
pelo pouco que te dei.

 

(Roberto Medeiros)





O algodão, poema de Sabino de Campos

2 05 2014

BIANCO, Enrico (1918) Vista da janela para colheita de algodão,Óleo sobre madeira industrializada - 40 x 60. Assinado e datado 1999 cid e versoVista da janela para colheita de algodão, 1999

Enrico Bianco (Itália,1918 — Brasil, 2013)

óleo sobre madeira, 40 x 60 cm

O Algodão

Sabino de Campos

Foi há cinco mil anos, mais ou menos,

Que o algodão apareceu na China,

Para vestir os grandes e pequenos,

Como um favor da branca lei divina.

Os tempos vão passando entre os venenos

Da ostentação na sociedade fina,

Como o linho e a lã — de flóculos amenos —

E a seda que reluz, treme e fascina.

Surgem velas alvíssimas nos longes

Do oceano… O linho alveja nos altares.

A lã se esgarça no burel dos monges.

E a Vida, na utilíssima expressão,

Percorre a terra inteira, céus e mares,

Celebrando a vitória do algodão!

Rio, 2-12-1946

Em: Natureza: versos, Sabino de Campos, Rio de Janeiro, Pongetti: 1960, p. 105





Quadrinha da inveja

30 04 2014

inveja, Jon Whitcomb 1906-1988Ilustração John Whitcomb.-

Inveja, grave pecado,

maléfico, perigoso;

fazendo grande o invejado

torna pequeno o invejoso.

(Marília Fairbanks Maciel)





Quadrinha da lua, trova portuguesa

25 04 2014

lua john alcornLua, ilustração John Alcorn.

Em frente à tua janela,

teve a lua que parar;

achando-te muito bela,

se pôs a te contemplar…

(Trova portuguesa)





O leão e o camundongo, poema de Olavo Bilac

16 04 2014

DoreLionForWimIlustração de Gustave Doré.

O leão e o camundongo

Olavo Bilac

Um camundongo humilde e pobre

Foi um dia cair nas garras de um leão.

E esse animal possante e nobre

Não o matou por compaixão.

Ora, tempos depois, passeando descuidoso,

Numa armadilha o leão caiu:

Urrou de raiva e dor, estorceu-se furioso…

Com todo o seu vigor as cordas não partiu.

Então, o mesmo fraco e pequenino rato

Chegou: viu a aflição do robusto animal,

E, não querendo ser ingrato,

Tanto as cordas roeu, que as partiu afinal…

Vede bem: um favor, feito aos que estão sofrendo,

Pode sempre trazer em paga outro favor.

E o mais forte de nós, do orgulho se esquecendo,

Deve aos fracos tratar com caridade e amor.

Em: Criança Brasileira: quarto livro de leitura, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agor: 1949, p.59





O Maracujá, poesia de Sônia Carneiro Leão

10 04 2014

 

Aquarela_Passiflora_edulis_01Ilustração botânica do maracujá [Passiflora edulis Sims] de Maria Cecília Tomasi.

O Maracujá

Sônia Carneiro Leão

Pego o maracujá e me assusto

Tão dura e tão oca

essa fruta mais louca

me deixa perplexa

de tão desconexa.

Sua carne é só casca.

Seu ventre, sementes.

Sua polpa tão pouca,

não dá pros meus dentes,

Maracujá intrigante,

enrugado, velhinho,

de gosto aceso, bacante,

como o do vinho.

Quero morder, não consigo.

Chupar, tão pouco não posso.

Que fazer, então, contigo,

com o teu paradoxo?

Ninguém o fura com o dedo

para evitar contusão,

esconde dentro o segredo

o doce-azedo da paixão.

Respeitamos o non-sense

da sua concepção.

Em: Respostas ao Criador Das Frutas, Sônia Carneiro Leão, auto-publicação,Holos Design,  ilustrado por Renata Vilanova, p. 13.

 –

Sônia Carneiro Leão nasceu no Rio de Janeiro, mas reside em Recife.  Psicanalista, escritora, poetisa, contista  e tradutora.

 





Canção do outono — poesia de Mário Quintana

7 04 2014

outono, Paul Bransom (1885-1979)Outono, ilustração de Paul Bransom (1885-1979).

Canção de Outono

Mário Quintana

O outono toca realejo

No pátio da minha vida.

Velha canção, sempre a mesma,

Sob a vidraça descida…

Tristeza? Encanto? Desejo?

Como é possível sabê-lo?

Um gozo incerto e dorido

De carícia a contrapelo…

Partir, ó alma, que dizes?

Colher as horas, em suma…

Mas os caminhos do Outono

Vão dar em parte nenhuma!

Em: Prosa e Verso, Mário Quintana – série paradidática Globo, Porto Alegre, Edições Globo: 1978, p. 12

 





Soneto de Bernardino Lopes do livro Cromos (1881)

31 03 2014

ANITA MALFATTI (1889 - 1964),O Samba, 1940,ost, 39x49cmO Samba, 1940

Anita Malfatti (Brasil, 1889-1964)

óleo sobre tela, 39 x 49 cm

XXII

Bernardino Lopes

Homens e moças, crianças,

Todos vêm fora, ao terreiro.

Um deles, chamando às danças,

Põe-se a rufar no pandeiro…

Principia a cantarola…

Um camponês de unha adunca

Ponteia alegre a viola.

Faz um luar como nunca!

Salta um rapaz no fadinho;

Uma mulher, de corpinho,

Vem requebrando de lá;

E a meninada bizarra

Faz uma grande algazarra

Brincando de tempo-será*.

* O negrito é do texto original.

Em: Cromos, Bernardino Lopes, 1881

Abaixo a  brincadeira tempo-será.

Tempo será — brincadeira de pique. As crianças escolhem um pegador. Ele e as outras crianças então recitam o seguinte:

Pegador — Tempo será.
Crianças — De cericecó.
P — Laranja da China.
C — Pimenta em pó.
P — Pinto que pia?
C — Pi-pi-ri-pi.
P — Galo que canta.
C — Cocorocó
P — Quem é o durão?
C — Só eu só.
P — Olha que lhe pego.
C — Não é capaz.
P — Olha que lhe pego.
C — Se for capaz…

Todos fogem do pegador. O primeiro que for pego será o pegador seguinte.





Quadrinha do amigo

25 03 2014

Amigos, Mark ArianAmigos, Mark Arian

Amigo é um grande tesouro

guardado com muito jeito.

A chave é talhada a ouro,

a fechadura é no peito.

(José Carlos Gomes)





Boizinho velho, poesia de Henriqueta Lisboa

19 03 2014

dp_26-06-2013_03Boi no pasto, 2013

Cristina Jaco (Brasil, contemporânea)

acrílica sobre tela, 40 x 50 cm

www.cristinajaco.art.br

Boizinho velho

Henriqueta Lisboa

Boizinho de olhos cansados

boizinho de olhos compridos

sentado nas quatro patas

numa curva do caminho.

Os carros subindo o morro

(boizinho agora se lembra)

cantavam — ou era um choro?

Mas isso foi no outro tempo.

Em: Nova Lírica, Henriqueta Lisboa, Belo Horizonte, Imprensa Oficial: 1972, p.36