Ilustração Roger Wilkerson.
Nas lojas sempre envolvido,
não tem crédito jamais…
– ou por ser desconhecido,
ou conhecido demais !…
(Rodolpho Abbud)
Ilustração Roger Wilkerson.
Nas lojas sempre envolvido,
não tem crédito jamais…
– ou por ser desconhecido,
ou conhecido demais !…
(Rodolpho Abbud)
Sydney Anne Neuwirth (EUA, contemporânea)
aquarela sobre papel, 75 x 60 cm
Flora Figueiredo
Querem um verso,
mas não sou capaz.
Vejo a palavra fraturar
as entrelinhas,
tento soldá-las,
ma não são minhas.
Rompeu-se o verbo
e me deixou para trás.
Em: Amor a céu aberto, Flora Figueiredo, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1992, p. 49
Lucia de Lima (Brasil, contemporânea)
acrílica sobre tela, 27 x 35 cm
Henrique Simas
Invisível é o ar
Invisível é a nuvem desfeita no céu
Invisível é a sombra que geme na noite
Invisível é a pérola no fundo do mar
Invisível é a marca do ressentimento
Invisível é a estrela que passou.
Invisível também és tu
Garça encantada da lagoa!
Em: Horizonte Vertical: poemas, Henrique Simas,prefácio de Alceu Amoroso Lima, Rio de Janeiro, Olímpica: 1967, p.90
Cartão postal francês com os três reis magos, provavelmente virada do século XIX-XX.
Cassiano Ricardo
E para ouvir a sua história
vieram três reis encantados:
um vermelho, o que lhe trouxe
a manhã como presente;
outro branco, o que lhe havia
feito presente do dia;
outro preto, finalmente,
rosto cortado de açoite.
O que lhe trouxera a Noite…
Em: Martim Cererê, Cassiano Ricardo, Rio de Janeiro, José Olympio: 1974, 13ª edição, p. 67.
Um casal e duas crianças dormindo na London Bridge, 1871
Gustave Doré (França, 1832-1883)
gravura, 19 x 24 cm
Berger Collection, Denver Art Museum
Pobreza, mísera peça,
soluços, pranto, ruína…
Té a palavra começa
por onde tudo termina.
(L.J. Soares de Macedo Fº)
Avenida Paulista com Rua Pamplona, 2004
Eduardo Cambuí Figueiredo Jr (Brasil, contemporâneo)
óleo sobre tela, 150 x 60 cm
Odylo Costa Filho
Veste o terno mais velho, e vai-te embora.
Atravessa o quintal e pula o muro.
E entre morte do luar e a luz da aurora
parte na antemanhã, ainda no escuro.
Bebe as velhas fachadas, as cidades
que a água penetra, ameiga e acaricia;
e nelas o sinal de outras idades
gosto de vinho velho em novo dia.
Quando cessar a febre das viagens
e cansares de tudo — das paisagens,
de ignotas gentes e de virgens praias —
volta aos brejos natais. Arma tua rede
em pleno campo. E mata tua sede
de pureza nas grandes sapucaias.
Em: Boca da noite, Odylo Costa Filho, Rio de Janeiro, Salamandra: 1979, p. 58
NB: na opinião leiga da Peregrina um dos mais belos sonetos do século XX.
É comum nas despedidas
depois dos risos e abraços,
ficarem almas feridas
e corações em pedaços.
(Décio Valente)
Ilustração para a fábula de La Fontaine, de Calvet-Rogniat.
Afonso Louzada
Depois de acumular barras e barras de ouro,
a formiga, afinal, sentiu o último alento,
pesarosa, talvez, como bom avarento,
de não poder levar consigo o seu tesouro.
–“A minha vida foi um trabalho incessante!
Trabalhei! Trabalhei sem parar um instante!”
Naquele mesmo dia, estranha coincidência,
exausta de cantar, a boêmia da cigarra
o derradeiro adeus deu, cheia de eloquência,
à vida que levara, ao léu, sempre na farra.
— “Cantei! Cantei, alheia ao mais, despreocupada,
que a vida é só amor; o resto não é nada!”
E, juntas, para o céu elas foram subindo.
A cigarra cantava, estuante de alegria:
— “Mas que dia! E que sol! Como tudo está lindo!”
— “O meu ouro ficou…” a formiga gemia.
Foi recebê-las Deus: — “Responde-me cigarra;
o que fizeste lá? O que fizeste, narra.”
— “Cantei. Sempre cantei, em meio à humana dor,
a alegria da vida, a alegria do amor”.
— “E tu?” — “Eu trabalhei. E tudo lá ficou…”
Depois de ouvi-las, Deus bondoso lhes falou:
–“O trabalho merece e a glória do Paraíso.
Mas tu, (disse esboçando esplêndido sorriso,
sob a fascinação do canto da cigarra)
se levaste, afinal, uma vida bizarra
alegraste, porém os corações aflitos
que sangravam de dor, dos humanos precitos”.
… E à flor dos lábios tendo seu melhor sorriso,
abriu para a cigarra as portas do Paraíso.
Em: Noturnos, Afonso Louzada, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional: 1947, pp, 11-12.
[esposa do pintor]
Stanislaw Wyspianski (Polônia, 1869-1907)
pastel sobre papel, 36 x 36 cm
Eu não explico a ninguém,
pois ainda não compreendi
porque te chamo meu bem
se sofro tanto por ti.
(Gilka Machado)
–
–
José Marques Campão (Brasil, 1892-1949)
óleo sobre madeira, 17 x 24 cm
–
–
Bernardino Lopes
–
Amanhecera. O tropeiro
Passa, cantando na estrada;
No seu casebre o roceiro
Prepara as foices e a enxada.
–
Ao rumor a luz casada
Enche de vida o terreiro;
Parecem bruma cerrada
As flores, lá! do espinheiro…
–
Aspira-se o olor suave
Do bom café… Alto e grave
Bate o pilão nas cozinhas.
–
Há junto à horta uns barrancos
Onde a mulher de tamancos,
Distribui milho às galinhas.
–
Em: Cromos, 1881