Imagem de leitura — José Ferraz de Almeida Júnior

24 04 2012

Repouso, s/d

José Ferraz de Almeida Júnior (Brasil, 1850-1899)

óleo sobre tela, 85 x 115 cm

Coleção Particular, Rio de Janeiro

José Ferraz de Almeida Júnior nasceu em Itu, no estado de São Paulo em 1850.  Ingressou na Academia Imperial de Belas Artes , no Rio de Janeiro, em 1869.  Lá estudou com Victor Meireles e Le Chevrel.  Desistiu do prêmio de viagem à Europa, mas mais tarde, com uma pensão concedida pelo Imperador D. Pedro II  viajou para a Europa em 1876, estudando com Alexandre Cabanel na Escola de Belas Artes de Paris.  Antes de voltar ao Brasil, prolongou sua viagem pela Europa, principalmente através da Itália.  Realizou sua primeira exposição individual no Rio de Janeiro em 1882. Em 1889 retornou definitivamente para São Paulo.   Morreu em Piracicaba em 1899.





Língua Portuguesa — soneto de Lindolfo Gomes

24 03 2012

Natureza morta com tinteiro, s/d

José Ferraz de Almeida Júnior (Brasil, 1850-1899)

óleo sobre tela, 38 x 51 cm

Língua Portuguesa

Lindolfo Gomes

Amo-te, ó minha Língua Portuguesa,

Doce, maviosa, rica e feiticeira,

De todas do universo és a primeira,

Que nenhuma haverá de mais beleza.

Do carme expressional da Natureza

Em ti ressoa a sinfonia inteira…

E, transplantada à terra brasileira,

Mais formosa ficaste com certeza.

Vingaram de teu tronco outros renovos,

Do esplendor destas matas no conchego…

És Bíblia de três raças e dois povos…

Resumes num vocábulo um poema:

Saudade, flor das plagas do Mondego,

Mais saudosa na pátria de Iracema!

Em: 232 Poetas Paulistas: antologia, ed. e seleção Pedro de Alcântara Worms, Rio de Janeiro, Conquista:1968.

Lindolfo Eduardo Gomes (SP 1875 – RJ 1953) Poeta, Jornalista, contista, ensaísta, folclorista, professor e teatrólogo.  Passou sua juventudo em Resende, no estado do  RJ, mudando-se mais tarde para Juiz de Fora, MG, onde passou grande parte da sua vida profissional tendo redigido para os jornais O Pharol, Jornal do Commercio, Diário do Povo, Diário Mercantil, revista Marília, entre outros.

Obras:

Folclore e Tradições do Brasil, 1915

Contos Populares Brasileiros, 1918

Nihil novi, 1927





No turno de — poema de Gilberto Mendonça Teles

28 01 2012

Tiradentes, duas igrejas

Oscar Araripe ( Rio de Janeiro, contemporâneo)

86 x 110cm

www.oscarararipe.com.br

No turno de


Para Luiz Carlos Alves

Eu fui a Belo Horizonte
ver as meninas gerais.
Vi montanhas e montanhas,
soube de seus litorais,
conheci Minas por dentro,
gostei de alguns minerais,
visitei as novas praças
e seus antigos currais,
vi a toca das raposas,
ouvi discursos e uais,
vi políticos cursando
colégios eleitorais,
vi contistas e contistas
cada qual contando mais,
vi poetas de vanguarda
desenhando nos jornais,
conheci suas tendências,
seus refrões episcopais,
vi gente de toda parte,
do Piauí, de Goiás
(goiano fazendo cera,
piauiense muito mais),
vi homens pulando cercas,
mulheres com seus plurais,
vi a família mineira
na barra dos tribunais,
e na Rua Carangola
(Ouro Preto no cartaz)
vi uma moça morena
cantando seus madrigais,
fazendo um túnel no tempo
e me fazendo sinais
de que só existe Minas
na forma dos festivais,
quando o barroco já rouco
cochicha pelos beirais,
quando a lua e a serenata
passeiam pelos quintais,
quando há miados de gata
no serenô das gerais.

Em: Plural de nuvens, Gilberto Mendonça Teles, Rio de Janeiro, José Olympio: 1990


Gilberto Mendonça Teles (Bela Vista de Goiás, 30 de junho de 1931) é um poeta e crítico literário brasileiro.


Obras:


Alvorada, 1955.
Estrela-d’Alva, 1958
Fábula de Fogo, 1961
Pássaro de Pedra, 1962
Sonetos do Azul sem Tempo, 1964
Sintaxe Invisível, 1967
La Palabra Perdida (Antología),1967
A Raíz da Fala, 1972
Arte de Armar. Rio de de Janeiro: Imago, 1977
Poemas Reunidos, 1978
Plural de Nuvens, 1984
Sociologia Goiana, 1982
Hora Aberta, 1986
Palavra (Antologia Poética),1990
L ´Animal (Anthologie Poétique), 1990
Nominais, 1993
Os Melhores Poemas de Gilberto Mendonça Teles
Sonetos (Reunião), 1998





Canção, poema de Onestaldo de Pennafort

4 01 2012

Mulher e flores, s/d

Antonio Rocco ( Itália, 1880- Brasil, 1944)

óleo sobre tela, 76 x 50 cm

Canção

Onestaldo de Pennafort

Quando murmuro teu nome,
a minha voz se consome
em ternura e adoração.


Quando teus olhos me olham,
parece eu se desfolham
as rosas de algum jardim

Ó meu amor, se é preciso
eu direi que o teu sorriso
é doce como um olhar.

Mas é preciso que eu diga,
ó minha suave amiga,
isso que sinto e tu vês,

mas é preciso que eu diga?

Onestaldo de Pennafort Caldas (RJ-1902- 1987) jornalista, ensaísta, tradutor e funcionário público. Escreveu para diversos periódicos brasileiros, tais como Fon-Fon, Careta, Autores e Livros, Para Todos e O Malho.  Faleceu no Rio de Janeiro, sua cidade natal, em 1987.

Obras

Escombros Floridos, 1921, poesia

Perfume e outros poemas, 1924, poesia

Interior e outros poemas, 1927, poesia

Espelho d’ Água: Jogos da Noite, 1931, poesia

Nuvens da tarde, 1954, poesia

Um rei da valsa, 1958, música

O festim, a dança e a degolação, 1960, crítica literária

Romanceiro, 1981, poesia

Além de traduções do inglês e do francês.





Árvore, poema de Hélio Pellegrino, para o Dia da Árvore

17 09 2011

Paisagem, década de 1940

Joaquim Figueira (Brasil, 1904-1943)

óleo sobre tela, 50 x 60 cm

Árvore

Hélio Pellegrino

Quanto silêncio em tua raiz,

árvore, respiraste,

para chegar a ousar

a doçura que ousaste;

quanta nortada sacudiu,

na fúria rouca de águas bravas,

tua galharia, até que houvesse

esta flor calma em tua haste.

Em: Minérios domados- poesia reunida,  Hélio Pellegrino,  Rio de Janeiro, Rocco: 1993


Hélio Pellegrino nasceu em Belo-Horizonte em 1924 e morreu no Rio de Janeiro em 1988.  Cursou a faculdade de medicina em Belo Horizonte, mas terde vindo para o Rio de Janeiro com a família, inicia-se na psicanálise, que  praticou por décadas ao mesmo tempo que se dedicava ao jornalismo. Teve também a oportunidade de desenvolver sua carreira de  escritor e poeta.

Obras literária :

Poema do príncipe exilado, 1947

A burrice do demônio, 1988

Minérios Domados, 1993

Meditação de Natal, 2003

Lucidez embriagada, 2004





Volpi, nos olhos de Murilo Mendes

4 09 2011


Mogi das cruzes, 1939

Alfredo Volpi (Brasil, 1896-1988)

Óleo sobre tela, 54 x 81 cm

Museu de Arte Contemporânea – USP

VOLPI

           –       –              –  Murilo Mendes

Alfredo Volpi, substantivo próprio, indica um artesão que opera um horizonte proposto, implanta a cor quadrada no quadrado, ajuda a demarcar a cidade terrestre limpa excluindo a bomba.

*

Volpicor  Volpiespaço  Volpitempo  Volpiaberto área de recorte exato campo preciso da cidade pilotado programado.

*

Volpi A figurativo.  Volpi B abstrato concreto.  Divide-se em duas metades que afinal se justapõem; aderindo à realidade, um só corpo, uma só cabeça.  Informação múltipla.

*

Um solo Volpi: Volpi sobre Volpi.  Janela brancaverdeazul.  Bandeira de rigor e sem fronteiras.

Em:  Transistor: antologia de prosa, Murilo Mendes, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1980

Banderinha, 1958

Alfredo Volpi (Brasil, 1896-1988)

têpera sobre tela, 44 x 22 cm

Museu de Arte Contemporânea — USP

Murilo Rodrigues Mendes (1901 —1975) poeta, cronista, jornalista, professor.  Nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais.  Mudou-se definitivamente para o Rio de Janeiro em 1920.  Formou-se em medicina.   Percorreu o mundo divulgando a cultura brasileira.  Na década de 1950 estabeleceu-se na Itália onde ensinou literatura brasileira na Universidade de Pisa.  Faleceu em Lisboa em 1975.

Obra:

Poemas, 1930

Bumba-meu-poeta, 1930

História do Brasil, 1933

Tempo e eternidade – com Jorge de Lima, 1935

A poesia em pânico, 1937

O Visionário, 1941

As metamorfoses, 1944

Mundo enigma, 1945

O discípulo de Emaús, 1945

Poesia liberdade, 1947

Janela do caos, [França] 1949

Contemplação de Ouro Preto, 1954

Office humain [França], 1954

Poesias [Obra completa até esta data], 1959

Tempo espanhol [Portugal], 1959

Siciliana [Itália], 1959

Poesie [Itália], 1961

Finestra del caos [Itália], 1961

Siete poemas inéditos [Espanha], 1961

Poemas [Espanha],1962

Antologia Poética [Portugal], 1964

Le Metamorfosi [Itália], 1964

Italianíssima (7 Murilogrami) [Itália],1965

Poemas inéditos de Murilo Mendes [Espanha], 1965

A idade do serrote, 1968

Convergência, 1970

Poesia libertá [Itália], 1971

Poliedro, 1972

Retratos-relâmpagos, 1ª série, 1973

Antologia Poética, 1976

Poesia Completa e Prosa, 1994





Canto de minha terra, poesia de Olegário Mariano, para a Semana da Pátria

1 09 2011

Simplicidade, s/d

Reinaldo de Almeida Barros ( Brasil, contemporâneo)

acrílica sobre papel

Reinaldo de Almeida Barros

Canto de minha terra

Olegário Mariano

Amo-te, ó minha terra, por tudo o que me tens dado:

Pelo azul do teu céu,  pelas tuas árvores, pelo teu mar;

Pelas estrelas do Cruzeiro que me deixam anestesiado,

Pelos crepúsculos profundos que põem lágrimas no meu olhar.

Pelo canto harmonioso dos teus pássaros, pelo cehiro

Das tuas matas virgens, pelo mugido dos teus bois;

Pelos raios do sol, do grande sol que eu vi primeiro…

Pelas sombras das tuas noites, noites ermas que eu vi depois.

Pela esmeralda líquida dos teus rios cristalinos,

Pela pureza das tuas fontes, pelo brilho dos teus arrebóis;

Pelas tuas igrejas que respiram pelos pulmões dos sinos,

Pelas tuas casa lendárias, onde amaram nossos avós;

Pelo ouro que o lavrador  arranca de tuas entranhas,

Pela bênção que o poeta recebe do teu céu azul.

Pela tristeza infinita, infinita das tuas montanhas,

Pelas lendas que vêm do norte, pelas glórias que vêm do sul.

Pelo trapo da bandeira que flamula ao vento sereno,

Pelo teu seio maternal onde a cabeça adormeci,

Sinto a dor angustiada de ter o coração pequeno

Para conter a onda sonora que canta de mor por ti.

Em: Criança brasileira: quarto livro de leitura, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir: 1949

Olegário Mariano Carneiro da Cunha (Brasil, 1889 — 1958) Usou também o pseudônimo João da Avenida, poeta, político e diplomata brasileiro.  Em 1938, foi eleito Príncipe dos Poetas Brasileiros,  substituindo Alberto de Oliveira que morrera e que, por sua vez, havia substituído Olavo Bilac.  Membro da Academia Brasileira de Letras.

Obras:

Angelus , 1911

Sonetos, 1921

Evangelho da sombra e do silêncio, 1913

Água corrente, com uma carta prefácio de Olavo Bilac, 1917

Últimas Cigarras, 1920

Castelos na areia, 1922

Cidade maravilhosa, 1923

Bataclan, crônicas em verso, 1927

Canto da minha terra, 1931

Destino, 1931

Poemas de amor e de saudade, 1932

Teatro, 1932

Antologia de tradutores, 1932

Poesias escolhidas, 1932

O amor na poesia brasileira, 1933

Vida Caixa de brinquedos, crônicas em verso, 1933

O enamorado da vida, com prefácio de Júlio Dantas, 1937

Abolição da escravatura e os homens do norte, conferência, 1939

Em louvor da língua portuguesa, 1940

A vida que já vivi, memórias, 1945

Quando vem baixando o crepúsculo, 1945

Cantigas de encurtar caminho, 1949

Tangará conta histórias, poesia infantil, 1953

Toda uma vida de poesia, 2 vols., 1957





Imagem de leitura — Bertha Worms

1 08 2011

A dama da revista, 1909

Bertha Worms ( França, 1868 — Brasil,  1937)

óleo sobre tela,  100 x 68 cm

Anna Clemence Berhe Abraham Worms, nasceu em Uckange na França em 1868. Começou cedo, aos treze anos, sua educação na pintura, iniciando os estudos na  Escola de Belas Artes de Paris.   Foi aluna de Robert Fleury,  Gustave Boulanger e de Benjamin Vonstant.  Como professora de desenho dedicou-se ao ensiono nas escolas comunitárias de Paris.  Depois de se casar em 1892 com o brasileiro Fernando Samuel Worms, emigra para o Brasil.  Fixando residência em São Paulo abre o Curso de  Desenho e Pintura.  Já em 1895 ganha a Medalha de Ouro na I Exposição de Belas Artes no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo.  De dicou-se sobretudo à pintura de gênero e ao retrato.   Morreu em São Paulo em 1937.





Minha terra, poema de Casimiro de Abreu

26 06 2011

Paisagem com touro, 1925

Tarsila do Amaral ( Brasil, 1886 – 1973)

óleo sobre tela, 52 x 65 cm

Coleção Particular

Minha terra

                             Casimiro de Abreu

Todos cantam sua terra

Também vou cantar a minha

Nas débeis cordas da lira

Hei de fazê-la rainha.

— Hei de dar-lhe a realeza

Nesse trono de beleza

Em que a mão da natureza

Esmerou-se em quanto tinha.

Correi pras bandas do sul:

Debaixo de um céu de anil

Encontrareis o gigante

Santa Cruz, hoje Brasil.

— É uma terra de amores,

Alcatifada de flores,

Onde a brisa fala amores

Nas belas tardes de abril.

Tem tantas belezas, tantas,

A minha terra natal,

Que nem as sonha o poeta

E nem as canta um mortal!

— É uma terra encantada

— Mimoso jardim de fada –

Do mundo todo invejada,

Que o mundo não tem igual.

Em: Vamos Estudar?  Theobaldo Miranda Santos, 3ª série primária, edição especial para o estado do Rio de Janeiro, RJ, Agyr:1957, 9ª edição.

Casimiro José Marques de Abreu (Barra de São João, 4 de janeiro de 1839 — Nova Friburgo, 18 de outubro de 1860) poeta brasileiro da segunda geração romântica. Foi a Portugal com seu pai em 1853, onde permaneceu até 1857. Morreu aos 21 anos de idade de tuberculose. Deixou um único livro de poesias publicado em 1859, Primaveras, mas foi o suficiente para se tornar um dos mais populares poetas brasileiros de todos os tempos. 

Obras: 

Teatro:

Camões e o Jaú , 1856

 Poesia:

Primaveras, 1859

 Romances: 

Carolina, 1856

Camila, romance inacabado, 1856

A virgem loura,

Páginas do coração, prosa poética,1857





Rafael Falco, pintor brasileiro. Alguém tem mais informações?

30 05 2011

A morte de Fernão Dias Paes Leme, década de 40

Rafael Falco (Oran, 1885- São Paulo 1967)

Óleo sobre tela

Salão Nobre do Café Seleto, São Paulo *

* — Tudo indica que o Café Seleto foi vendido no final da década de 1970 à companhia de alimentos Sarah Lee.  Resta saber se a pintura continua lá.

Finalmente, depois de quase 3 anos de blog, tenho a oportunidade de ver que um pouquinho da minha garimpagem sobre arte brasileira pode chegar a dar frutos interessantes.  No dia 8 de março de 2009, coloquei uma tela de Rafael Falco, A morte de Fernão Dias Paes Leme, ilustrando o poema de  Afonso Louzada, Fernão Dias Paes Leme.  Como sempre tento ilustrar textos brasileiros com imagens de quadros brasileiros, que se adéquem.  Minha teoria é que se temos diversas informações sobre um momento, um evento ou uma figura histórica, como um bandeirante neste caso, se torna mais fácil para qualquer um de nós memorizar o que  lemos.  Um poema ou um quadro sobre um assunto semelhante pode fazer uma conexão na nossa memória que nos ajudará a lembrar da ocasião ou das informações.  Isso funciona porque alguns de nós têm facilidade para a memória visual, enquanto outros conseguem se lembrar de rimas ou de textos.  Tenho a impressão de que estou certa a este respeito ou as minhas postagens não estariam sendo conectadas a variados blogs e portais de auxílio ao vestibulando.  Isso me dá dupla responsabilidade.

Mas, recentemente fui contatada por familiares – 3ª e 4ª gerações de Rafael Falco  – interessados em informações sobre esse antepassado.  Isso me deu imenso – deixe-me reiterar – IMENSO prazer.  Porque se há coisa de que precisamos no nosso país é de pessoas interessadas, que se proponham a resgatar a história de um artista, de um poeta, às vezes esquecido pelas políticas e preconceitos de época, por ciúmes e inveja de seus contemporâneos, pelo descaso de intelectuais e também pela grande dificuldade de se fazer qualquer pesquisa no Brasil.  Isso faz com que informações sejam descartadas ou nunca usadas.   Como expliquei para esses leitores, eu mesma tenho na família um primo, que é neto de um conhecido escultor brasileiro.  Um escultor figurativo, realista.  Suas obras encontram-se nos parques públicos no Rio de Janeiro, em cidades vizinhas e até mesmo em parques no exterior.  No entanto, pouco se sabe a respeito do escultor e hoje a família, simplesmente para ter uma idéia de quem era esse antepassado, vira e mexe faz um passeio com a intenção de fotografar, colher dados e arrematar informações antes que elas se percam de vez.  E, agora, com a facilidade de se postar um apanhado de informações na internet, fica mais fácil pensar em distribuição de informações.  É importante ir despejando o que se sabe, porque não sabemos que o que às vezes corriqueiro para nós pode ser de maior valia para o nosso vizinho.

Tiradentes ante o carrasco, 1941

Rafael Falco (Oran, 1885- São Paulo 1967)

óleo sobre tela,  70 x 55 cm

Museu da Câmara dos Deputados, Brasília

Assim sendo, volto as minhas atenções ao pintor Rafael Falco.  Eu ia dar essas informações às suas netas, bisnetas e tataranetas respondendo aos comentários delas, mas resolvi fazer a postagem.  E ir mostrando a quem quer que seja como ir aprofundando as pesquisas.

Comecemos com suas datas.  As informações que tenho, são de Júlio Louzada, — um grande colhedor de informações sobre arte brasileira.  Sim, tudo indica que Rafael Falco nasceu em Oran, na Argélia, em 1885.

1)      Nessa época a Argélia era um estado da França. E Oran era uma cidade extremamente cosmopolita com europeus de quase todas as nações vivendo lá, era uma grande resort também.  Então, Rafael Falco, nascido em Oran, era originalmente cidadão francês.  Mas as leis de direito de cidadania são diferentes em cada país, vale a pena verificar se ele era francês mesmo ou se só nasceu em Oran,  filho de estrangeiros., nem sempre o direito à cidadania se aplica nesses casos.   Pelo nome seus pais poderiam ser espanhóis ou italianos.  Nessa época, final do século XIX, Oran era a capital do estado de Oran.  Era um departement – estado — francês e por isso mesmo é possível que haja documentação na França.  Lembrem-se de que a Argélia não era uma colônia francesa, muito pelo contrário, era considerada território francês, dividida em 3 estados todos considerados parte da França.  E só ficou independente na guerra da independência — chamada pelos franceses de guerra civil, já que era uma parte da França se separando da outra.  Essa guerra  levou muitos anos, desde meados da década de 1950 à década de 1960.  Essas informações do final do século XIX devem existir na França.  Uma excelente desculpa para os familiares irem à França ou até aprenderem francês.

2)      Como Rafael Falco já se encontrava ensinando desenho no Brasil, nas primeiras décadas do século XX, é provável que tenha chegado ao Brasil ainda criança, adolescente talvez, mas menor de idade.

3)      Dados dos serviços de imigração devem poder precisar a data de chegada de Rafael Falco ao Brasil.  Deve ter chegado com seus pais.  E como toda sua vida parece ter sido levada na região do ABC paulista, é provável que seus pais tenham entrado no Brasil pelo porto de Santos.  Há listagem dos navios chegados ao Brasil.  Há também muitos portais que ajudam a dar início a essa pesquisa, Genweb-genealogia brasileira é um de muitos.  Depois da internet, a pesquisa precisa ser feita em pessoa.  Mas vale a pena começar pela internet. A busca deve ser feita entre 1885-1900.  Lembrem-se de checar todas as possíveis formas de se escrever os nomes dos pesquisados.

Cédula de CR$ 5.000 cruzeiros-novos  cujo verso exibe gravura baseada no quadro de Rafael Falco, Tiradentes ante seu carrasco, que entrou em circulação em 1974.

O próximo dado certo que temos é que ele viveu por muitos anos, talvez a vida toda em São Carlos, no estado de São Paulo.  Sabemos também que ele ensinou desenho e caligrafia na Escola Normal de São Carlos, onde chegou a publicar um artigo na revista Excelsior: O desenho nas classes primárias. A revista Excelsior era uma publicação da Escola Normal de São Carlos que tratava de manter a memória da escola.  Não tenho certeza,  mas parece que ele foi professor nessa escola desde meados da década de 1910.  Há também a fotografia de uma ilustração dele na revista Excelsior que pode ser checada no link abaixo da dissertação A configuração do habitus professoral para o aluno-mestre: A Escola Normal de São Carlos (1911-1923) de Emerson Correia da Silva  — vá para a página 69.

Gravura feita por Rafael Falco ilustrando um poema de Longfellow.

Lá também Rafael Falco era membro do Centro Espírita de São Carlos e foi nessa cidade que ele ensinou pintura, entre 1918-1923, ao artista plástico Francisco Cimino, na Escola Normal de São Carlos. [Itaú Cultural]

Quanto à sua vida como pintor, coloco aqui o verbete encontrado no Dicionário de Artes Plásticas no Brasil, de Roberto Pontual [Civilização Brasileira:1969]

 –

Rafael Falco  (? – São Paulo ?)  Pintor.  Participando desde os primeiros SPBA [Salão Paulista de Belas Artes], neles recebeu medalha de bronze (1939), pequena e grande medalha prata (1940, 1941) , e os prêmios Prefeitura de São Paulo (1951 e 1965) e Assembléia Legislativa (1960).  Entre seus trabalhos mais importantes está o quadro Tiradentes ante o carrasco, que se encontra no palácio do Congresso Nacional, em Brasília.  As notas de cinco cruzeiros novos trazem no reverso idêntico tema por ele pintado.   Teodoro Braga reuniu referências bibliográficas a seu respeito em Artistas Pintores no Brasil (1942), tendo a coleção de fascículos  Grandes Personagens da Nossa História ( de publicação iniciada em São Paulo, no ano de 1969) reproduzido trabalhos de sua autoria, inclusive o citado Tiradentes ante o carrasco e A morte de Fernão Dias

Os Pioneiros

Rafael Falco ( Oran, 1885- São Paulo 1967)

óleo

Coleção Dulce Moura de Albuquerque

No texto acima, Roberto Pontual afirma que Teodoro Braga, no livro Artistas Pintores no Brasil (1942) tem dados bibliográficos sobre o pintor.  Eu não tenho em mãos este volume, mas acredito que ele exista tanto na Biblioteca Nacional aqui no Rio de Janeiro como na Biblioteca Municipal de São Paulo.  É só uma questão de procurar.  Não está online.

Outros arquivos que devem conter informações sobre o pintor são os do Salão Paulista de Belas Artes [SPBA].  No ano passado, houve uma exposição em São Paulo,Um Percurso, Uma História – O Salão Paulista de Belas Artes, no Palácio dos Bandeirantes, que reuniu 66 obras de pintores que participaram desses salões, entre 1934 e 2003.  O SPBA já não existe mais.  Mas seus documentos devem ter achado abrigo no Arquivo Histórico de São Paulo.  A curadoria dessa exposição foi de  Ana Cristina Carvalho, do Acervo dos Palácios do Governo paulista.  É possível que ela possa dar maiores informações sobre a localização desses documentos.  Talvez seja bom lembrar que a maioria dos museus não mostra o seu acervo total para o público, francamente não há espaço.  Deste modo será interessante para os familiares, ou qualquer outra pessoa interessada em descobrir mais sobre o pintor, que obtenham — e demora muito tempo — informações sobre suas obras que possam estar nos armários dos porões de museus.

Outra possibilidade de informações está evidentemente relacionada não só ao quadro na Câmara dos Deputados em Brasília, mas também ao contrato para o uso da imagem de Tiradentes ante o carrasco pela Casa da Moeda do Brasil.   Cada um desses documentos certamente contribuirá para o enriquecimento do conhecimento do pintor.

Rafael Falco foi mais importante como pintor do que  a falta de informações sobre sua vida parece dizer.  Foi contemporâneo e colega de muitos dos grandes artistas plásticos do Brasil das primeiras décadas do século passado.  Há uma pequena passagem no livro de Rubem Santos Leão Aquino, Sociedade Brasileira: uma história através dos movimentos sociais: da crise do escravismo ao apogeu do neo-liberalismo, Editora Record: 2002, pág. 433 que cito abaixo que nos dá a idéia da variedade de conhecimentos que este pintor tinha:

“A pintura na década de 1930 consolidou tendências e concepções iniciadas com a Semana da Arte Moderna, de 1922.

Exposições salões e clubes reuniram artistas progressistas, muitas vezes expressando forte crítica social, com imagens de subúrbios e bairros operários, figuras de trabalhadores.

O paulista Cândido Torquato Portinari tornou-se conhecido por pinturas murais, de grandes proporções e executadas por encomendas governamentais.  Ganhou notoriedade desde 1935 quando sua tela Café foi premiada nos Estados Unidos.

Em 1936, o governo encomendou-lhe os murais do Monumento Rodoviário, na Estrada Rio-São Paulo, seguindo-se a portentosa decoração do prédio do Ministério da Educação – a chamada Evolução Econômica do Brasil.

. . . . . . . . . . . . . . . . .

Seguiram-se outras obras-primas, muitas vezes decorando e valorizando edifícios público se enriquecendo o patrimônio artístico nacional.

Além de Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Alberto da Veiga Guignard, Antônio Parreiras e do judeu-russo Lasar Segall, que já pontificavam desde a década de 1920, juntaram-se Ismael Néry, Iberê Camargo, Cícero Dias, Regina Veiga, Rafael Falco, Alfredo Volpi, Lula Cardoso Ayres, Lucy Citti Ferreira, Djanira e José Pancetti, ex-marinheiro e famoso por suas marinhas. ”

Assim chego ao final dos meus conhecimentos.  Gostaria de receber da família qualquer outra informação que eu não tenha colocado aqui.  E certamente gostaria de ter uma foto do pintor.  Como ele morreu em 1967 deve haver alguma foto dele, já que a fotografia era comum a todos.  Agradeço aos descendentes de Rafael Falco a oportunidade que me deram de expandir o conhecimento sobre mais um pequeno aspecto da arte brasileira e faço votos — e por favor me mantenham informada — de que suas pesquisas tragam muitos frutos e boas surpresas.

——–

NOTA: O nome do pintor pode aparecer como Rafael Falco, Raphael Falco ou Raphael Gaspar Falco.  Para quem quiser aprofundar a pesquisa essas três variações precisam ser testadas.  Como todos os documentos de época também eram na sua maioria escritos à mão há que decifrá-los.  Também a possibilidade de erros na transcrição de um documento para outro pode gerar diferenças em como se escreve um nome ou sobrenome.