Soneto de Bernardino Lopes: “A filha, pálida e loura” 1881

6 12 2013

ARTHUR TIMOTHEO DA COSTA - Bordadeira, óleo sobre tela, 64X53cmBordadeira, s/d

Arthur Timótheo da Costa (Brasil, 1882-1923)

óleo sobre tela, 64 x 53 cm

XVI

A filha, pálida e loura

Faz seu serão de costura:

Às vezes pensa… ou procura

Dentro do cesto a tesoura.

Vive numa dobradura

A singular criatura!

Ralha-lhe o pai com doçura,

Ao regressar da lavoura.

Dá na varanda oito e meia…

Levanta-se logo a moça,

Pondo os morins no baú;

Traz os preparos da ceia;

E nas tigelas de louça,

Tomam café com biju.

Em: Cromos, 1881





O vendedor de cocadas, texto de Marques Rebelo

7 05 2013

artigos.imagens.A0110.I00173 O vendedor de cocada

Darcy Cruz (Brasil, 1931)

óleo sobre tela, 50 x 70 cm

Ibac

9 de fevereiro [1941]

Cavalete ao ombro, grande baú pintado no cocuruto da cabeça pixaim, com uma folha de laranjeira contra os lábios, o doceiro emitia esperadíssimos sons anunciando-se à freguesia. Cocada brancas e pretas, quindins, bons-bocados, papos-de-anjo, pastéis de nata, bolinhos de cará, beijus, balas de ovo, de leite de coco, de guaco – ótimas para a tosse! Um universo de açúcar.

Era velho o preto, chamava mamãe de Iaiá, tinha sempre uma bala de quebra para Cristinha. Sua hora era pelo meio do dia, quando o sol ia a pino. Três vezes passava o padeiro empurrando a barulhenta carrocinha aprovisonadora. Deixava-se entregue à vigilância de um moleque e lá ia, peludo e bigodudo, de casa em casa, a cesta coberta com um pano braço que já fora saco de farinha. Pão francês, pão alemão, pão italiano (um pouco massudo), pão-de-provença, de milho, de forma, de ovo, pão trançado, pão-cacete e periquitos – a três por um tostão, obrigatórios nas merendas escolares – e roscas de barão, rosquinhas de manteiga, caramujos, tarecos, cavacos, joelhinhos, bolachas de água e sal. Tudo quente, cheiroso, estalando – a vida abundante, solícita, módica, vida provinciana para sempre extinta”.

Em: A mudança, Marques Rebelo, 2º volume de O Espelho Partido, São Paulo, Martins: 1962





O caboclo, o padre e o estudante conto folclórico do Brasil, Luiz da Câmara Cascudo

10 04 2013

priest-extends

 

Padre, 1977

Fernando Botero (Colômbia, 1932)

Óleo sobre tela

O caboclo, o padre e o estudante

Um estudante e um padre viajavam pelo sertão, tendo como bagageiro um caboclo. Deram-lhe numa casa um pequeno queijo de cabra. Não sabendo como dividí-lo, mesmo porque chegaria um pequenino pedaço para cada um, o padre resolveu que todos dormissem e o queijo seria daquele que tivesse, durante a noite, o sonho mais bonito, pensando engabelar todos com os seus recursos oratórios. Todos aceitaram e foram dormir. À noite, o caboclo acordou, foi ao queijo e comeu-o.

Pela manhã, os três sentaram à mesa para tomar café e cada qual teve de contar o seu sonho. O frade disse ter sonhado com a escada de Jacob e descreveu-a brilhantemente. Por ela, ele subia triunfalmente para o céu. O estudante, então, narrou que sonhara já dentro do céu à espera do padre que subia. O caboclo sorriu e falou:

– Eu sonhei que vi seu padre subindo a escada e seu doutor lá dentro do céu, rodeado de amigos. Eu ficava na terra e gritava:

Seu doutor, seu padre, o queijo! Vosmincês esqueceram o queijo.

Então, vosmincês respondiam de longe, do céu:

– Come o queijo, caboclo! Come o queijo, caboclo! Nós estamos no céu, não queremos queijo.

O sonho foi tão forte que eu pensei que era de verdade, levantei-me, enquanto vosmincês dormiam, e comi o queijo…

Em: Contos Tradicionais do Brasil (folclore) de Luís da Câmara Cascudo, Rio de Janeiro, Ediouro:1967





Paz da consciência, poesia para a infância, de Adelmar Tavares

9 03 2013

plantar, ajudando o papai, eloise wilkinIlustração de Eloise Wilkin.

Paz da consciência

Adelmar Tavares

Paz da consciência: eis a única riqueza
Da tua vida de trabalhador.
Ela fará palácio de realeza,
A cabana onde more o teu amor.

Teu dia será sempre de beleza.
Teu pão não travará pelo amargor
De o teres arrancado à alheia mesa.
Pão de trabalho é pão que sabe a flor. . .

Nas boas horas de êxtase, de calma,
Verás teu pensamento em luz serena,
E um céu, todo de estrelas, na tua alma.

E ao fundo do teu justo coração,
Como um campo verde, ao som da avena,
Ovelhas, muito brancas, dormirão. . .


Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1967, Coleção Henriqueta.

adelmar_tavares

Adelmar Tavares (Brasil, PE, 1888-  RJ, 1963) advogado, poeta, trovador.  Formou-se como advogado pela Universidade de Pernambuco, no Recife, sua cidade natal, em 1909, quando se nudou para o Rio de Janeiro onde trabalhou como promotor público. membro da Academia Brasileira de Letras.Faleceu no Rio de Janeiro em 1963.

Obras:

Descantes – trovas, 1907

Trovas e trovadores – conferência, 1910

Luz dos meus olhos, Myriam – poesia, 1912

A poesia das violas – poesia, 1921

Noite cheia de estrelas – poesia, 1923

A linda mentira – prosa, 1926

Poesias, 1929

Trovas, 1931

O caminho enluarado – poesia,1932

A luz do altar – poesia,1934

Poesias escolhidas, 1946

Poesias completas, 1958





O Carnaval de 1941 por Marques Rebelo

24 01 2013

carnaval 1941

Carnaval 1941, blog Boemia e Nostalgia.

24 de fevereiro [1941]

Se o Carnaval vem desaparecendo das ruas,com mais curiosos do que mascarados, e às vezes sem nenhum dos dois, vai crescendo nos salões, onde impera uma certa licenciosidade que tende a aumentar uma certa brutalidade, ou talvez melhor dito, um certo estabanamento, que antes não se registrava nos ambientes fechados – é que o zé-povinho está vindo para eles.

Adonis insistiu, saímos para uma voltinha na Cinelândia, peruamos a entrada do Municipal, cujo baile de gala vem dando uma nota de elegância, e Gérson Macário entrava faustosamente fantasiado de odalisca, fomos até o Largo do Carioca, retornamos. Luísa ficara com as crianças na irrevogável ausência de Felicidade.

— Já voltaram?!

— Deu para cansar.

— Muito animado?

— Bastante chué.

— Aqui não passou nada. É como se não fosse carnaval”.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Em: A mudança, Marques Rebelo, 2º volume de O Espelho Partido, São Paulo, Martins: 1962





O Pavão, texto de Rubem Braga

18 01 2013

A figueira e o pavão, Walter Crane, 1895

A figueira e o pavão, 1895, ilustração de Walter Crane.

O Pavão

Rubem Braga

Eu considerei a glória de um pavão, ostentando o esplendor, de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros,e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d’água em que a luz se fragmenta como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.

Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.

Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.

Em: Ai de Ti Copacabana! Rubem Braga, Rio de Janeiro, Sabiá: 1969, 5ª edição





Em resposta às dúvidas sobre alguns textos antigos postados aqui: Marisa Lajolo fala sobre a obra de Monteiro Lobato

14 09 2012



Desde que tenho postado alguns contos antigos que fazem parte da nossa herança cultural tenho recebido questionamentos sobre a necessidade de se reformular os contos para ajustarmos essas tradições à cultura moderna.

Sou contra.

Hoje foi uma indagação, bem educada, — elas nem sempre são —  sobre Os três companheiros, conto da tradição oral coletado por Luiz da Câmara Cascudo.  Mas já tive comentarios e até pedidos de retirada  sobre outras postagens.   Sou contra a modificação de qualquer dessas tradições folclóricas para que  se ajustem aos modos do momento.  Sou inclusive contra  a modificação da música infantil Atirei um pau no gato.  Acho que estamos sistematicamente assumindo que as pessoas de hoje não têm a habilidade de distinguir o que é certo do que é errado.  Isso é de um reducionismo colossal.  E acredito que muitas vezes essa tentativa de censura reflita no fundo um medo sobre as massas serem educadas, as massas que “não sabem distinguir o certo do errado.”  Posto hoje o comentário da Profa Maria Lajolo como resposta.

E antes de alguém vir falar sobre direitos dos animais, sugiro que vejam a postagem que tenho sobre a fotógrafa Ellen van Deelen.





O papagaio real, conto tradicional do Brasil, coletado por Luiz da Cãmara Cascudo

28 08 2012

Jovem reclinada com papagaio

Valentine Cameron Prinsep (Inglaterra,  1838-1904)

óleo sobre tela

O papagaio real

Duas moças moravam juntas e eram irmãs, uma muito boa e a outra maldizente e preguiçosa. Cada uma tinha seu quarto. A mais velha começou a notar um barulho de asa e depois fala de homem no quarto da irmã. Ficou desconfiada e foi olhar pelo buraco da fechadura.  Viu uma bacia cheia d’água no meio do quarto.  Quando deu meia-noite chegou na janela um papagaio enorme, muito bonito e voou para dentro, metendo-se na bacia, sacudindo-se todo, espalhando água para todos os lados. Cada gota d’água virava ouro e o papagaioo, quando saiu do banho, foi um príncipe mais formoso do mundo. Sentou-se ao lado da irmã e pegaram a conversar como noivos. A irmã ficou roxa de inveja. No outro dia, de tarde, encheu o peitoril da janela de cacos de vidro, assim como a bacia. Nas horas da noite o papagaio chegou e batendo no peitoril cortou-se todo. Voou para a bacia e cortou-se ainda mais. Arrastando-se, o papagaio não virou príncipe, mas chegou até a janela e disse para a moça que estava assombrada com o que acontecera:

— Ai ingrata! Dobraste-me os encantos! Se me quiseres ver só no reino de Acelóis

E, batendo asas, desapareceu. A moça quase se acaba de chorar e de se lastimar. Brigou muito com a irmã e deixou a casa, procurando o noivo pelo mundo. Ia andando, empregando-se como criada nas casas só para perguntar onde ficava o reino de Acelóis. Ninguém sabia ensinar e a moça ia ficando desanimada.

Uma noite, depois de muito viajar, já cansada, ficou com medo dos animais ferozes e subiu em uma árvore, escondendo-se bem nas folhas. Estava amoquecada quando diversos bichos esquisitos chegaram para baixo do pé de pau e pegaram a conversar.

— De onde chegou você?

— Do reino da Lua!

— E você?

— O reino do Sol!

— E você?

— Do reino dos Ventos!

A moça prestou atenção. No primeiro cantar dos galos sumiram-se todos, e ela desceu e continuou a marcha. Andou, andou, até que chegou noutra mata e, para não ser devorada, trepou numa árvore. Lá em cima, quando a noite ficou bem fechada, chegaram umas vozes no pé do pau.

— De onde veio?

— Do reino da Estrela!

— De onde veio?

— Do reino de Acelóis!

— Que novidades me traz?

— O príncipe está doente e ninguém sabe como tratar dele…

A moça botou reparo e na madrugada seguiu no mesmo rumo pois as vozes já tratavam do reino de Acelóis. Andou, andou, andou. Finalmente, quando anoiteceu, estava dentro de uma floresta. Subiu em um pau e ficou quieta, lá em cima. Mais tarde as vozes começaram na falaria:

— De onde vem você?

— Do reino de Acelóis!

— Como vai o príncipe?

— Vai mal, coitado, não tem remédio!

— Ora não tem! Tem! O remédio é ele beber três gotas de sangue do dedo mindinho de uma moça donzela que queria morrer por ele!

Quando amanheceu o dia, a moça tocou-se na estrada. Ia o sol se sumindo quando ela avistou o reinado de Acelóis. Entrou no reinado e pediu agasalho numa casa. Na hora da ceia perguntou o que havia e disseram que o assunto da terra era a doença do príncipe. A moça, no outro dia, mudou os trajes, foi ao palácio e pediu para falar com o rei.

— Rei Senhor! Atrevo-me a dizer que ponho o príncipe bonzinho se Rei Senhor me der, de tinta e papel, a metade do reinado e de tudo quanto lhe pertencer.

O rei deu, de tinta e papel, a metade de tudo que possuía. A moça foi para o quarto, meiou um copo d’água, furou o dedo mindinho, botou três gotas de sangue dentro, misturou e mandou ele beber. Assim que o príncipe engoliu, foi abrindo os olhos, levantando-se da cama e abraçando a moça, numa alegria por demais.

O rei ficou muito satisfeito e quando o príncipe disse que aquela era a sua verdadeira noiva desde o tempo em que ele estava encantado em um papagaio real, o rei não quis dar consentimento porque a moça não era princesa. A moça então falou:

— Rei Senhor! Tenho por tinta e papel a metade de tudo quanto é do rei senhor neste reinado. O príncipe é do rei senhor e eu tenho por minha a metade dele. Se rei senhor não quiser que eu case com ele inteiro, levarei para casa uma banda.

Ao ouvir falar em cortar o príncipe pelo meio, como a um porco, o rei chegou-se às boas e deu o consentimento. Foram três dias de festas e danças e até eu me meti no meio, trazendo uma latinha de doce, mas na ladeira do Encontrão, dei uma queda e ela, páfo! —no chão!…

Em: Contos Tradicionais do Brasil (folclore) de Luís da Câmara Cascudo, Rio de Janeiro, Ediouro:1967





Darel, texto de Rachel Jardim

18 07 2012

Galo

Darel Valença Lins (Brasil, 1934)

gravura [água-forte]

Darel

Rachel Jardim

Chamava-se Darel porque os pais estavam acompanhando um filme em série, em que o mocinho se chamava Darel. Só que pronunciavam, é claro, Darél, e não Deirel. Também Deirel não teria lhe assentado, com aquele sotaque nordestino.

Naquela época eu andava meio solta aqui no Rio. Minhas raízes ainda estavam muito em Minas. Por aqui, vagava como alma penada, mais do que existia. (Aliás, vagar sempre foi a minha tendência. E o existir era tão dentro, que ficava imperceptível.) Conheci Cláudio Correia e Castro, menino, em Juiz de Fora. Murgel pelo lado da mãe, primo de Kalma. Por esse tempo ele pintava, ou melhor, gravava. Suas gravuras tinham um pouco da atmosfera de Van Gogh. Lembro-me nitidamente de um par de botinas. Tão solitárias!…

Num domingo, fui ao seu atelier. Ele me apresentou a Darel e também a um rapaz magro, com cara de anjo perdido, chamado Marcelo Grassman. Fisicamente, era o oposto de Darel. Este, não devia ser muito bem alimentado, mas parecia. O outro dava para ilustrar um quadro sobre a fome.

Cláudio emprestava o seu estúdio para os dois trabalharem, pois ambos, vindos de fora, estavam na fase da sobrevivência.

Darel, quando apareci, desenhava no chão. Eu olhei as gravuras e disse: ” Humilhados e Ofendidos, não é?” Ele levantou os olhos: “Você reconhece?”  Claro que reconhecia.  Elas estão na minha parede: “De Darel para Rachel”.

Eu tinha paixão por Goeldi. Darel sofria fortemente a sua influência. Mas ao contrário de Goeldi, fisicamente não se parecia como que desenhava (há pintores e escritores que são idênticos, na própria aparência, ao que fazem. Nada mais parecidio com Murilo Rubião do que os seus próprios personagens). Era atarracado, vital, corado, muito mais Sancho Pança do que Dom Quixote. Percebia-se logo a firme determinação de vencer, a que preço fosse. Venceu o talento, mas nunca teria perdido, mesmo sem talento.

Acho que Darel jamais me entendeu muito bem. Não há muita coisa em comum, creio, entre mineiros e nortistas. Mas ficamos amigos. Espantoso como é que naquele tempo, quando passava fome, jamais teve pinta de pobre. Marcelo Grassman parecia miserável. Darel usava sempre uma jaqueta tipo cardigan, meio gasta, que tinha sido de Cláudio, com calças de flanela cinza, também herdadas. Entraria, tranquilamente, no Country. Suas origens, entretanto, eram as mais modestas. Tinha vocação para rico e “bem”. “Bem” já era, rico ficou. (“Bem”, expressão que aprendi na Faculdade Católica da rua São Clemente. Ali todos eram. Para muitos, era a mais importante condição existencial.)

Ele me dizia coisas engraçadas: “Quando criança, chamava minhas figuras de kalungas.” (Anos mais tarde me falou: “Viu, ganhei dinheiro com os kalungas”…) Ou “Não, não gosto dessa espécie de religião sofisticada, tipo Mosteiro de São Bento. Religião, gosto mesmo, bem simplesinha, filhas de Maria, procissões ‘No céu triunfarei’, etc”… E falando de um padre conhecido: “Ele é desses tipos de padre que têm sempre, a respeito de Deus, uma frasezinha de algibeira…”

Anos depois, quando estava para me desquitar, fui falar com um padre. Disse-lhe que não acreditava em Deus. Ele respondeu:

— Mas Deus acredita na senhora… (como é que ela sabia?)  Lembrei-me das frasezinhas de algibeira de Darel e comecei a rir.

Quando Darel tirou primeiro lugar na bienal de São Paulo, quando lhe deram uma sala inteira para expor, fiquei orgulhosa de ter reconhecido nos seus “kalungas” as figuras de Aliocha, Nelly e Natacha. Era fácil. Naquela época, quando eu lia Dostoiewski, sentia febre. Senti muita febre nos anos 40.

Em: Os anos 40 (A Ficção e o Real de uma Época), de Rachel Jardim, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio: 1973.





Os três companheiros, conto folclórico brasileiro

8 06 2012

Três homens num bote, ilustração Paul Rainer.

Os três companheiros

Conto folclórico, texto de Luís da Câmara Cascudo

Um bombeiro, um soldador  e um ladrão eram muito amigos e resolveram viajar por esse mundo para melhorar a vida. Tinham eles um cavalo encantado que respondia todas as perguntas. Chegaram a um reinado onde toda gente estava triste porque a princesa fora furtada por uma serpente que morava no fundo do mar.  Os três companheiros acharam que podiam fazer essa façanha e consultaram o cavalo.  Este mandou o soldador fazer um bote de folhas de Flandres. Meteram-se nele e fizeram-se de vela.

Depois de muito navegar deram num ponto que era o palácio da serpente. Quem ia descer? O bombeiro não quis nem o soldador. O ladrão agarrou-se na corda que os outros seguravam e lá se foi para baixo. Pisando chão, viu um palácio enorme guardado por uma serpente que estava de boca aberta. O ladrão subiu depressa, morrendo de medo. Voltaram para casa e foram perguntar ao cavalo o que era possível fazer. O cavalo ensinou que a serpente dormia de boca aberta e quando estava acordada ficava com a boca fechada. Debaixo da cauda tinha a chave do palácio. Quem tirasse a chave, abrisse a porta, encontrava logo a princesa.  Os três amigos tomaram o bote de folha de Flandres e lá se foram para o mar.

Chegando no ponto os dois não queriam descer. O ladrão desceu e, como estava habituado, furtou a chave tão de mansinho que a serpente não acordou. Abriu a porta, entrou, foi ao salão, encontrou a princesa, disse que vinha buscá-la e saíram os dois até a corda. Agarraram-se e os dois puxaram para cima. Largaram vela e o bote navegou para terra.

Quando estavam no meio dos mares a serpente apareceu em cima d’água, que vinha feroz. Que se faz? Era a morte certa. – Deixa vir, disse o bombeiro. Quando a serpente chegou mais para perto, o bombeiro tirou uma bomba e jogou em cima da serpente. A bomba estourou e a serpente virou bagaço. Na luta, o bote fura-se e a água estava entrando de mais a mais, ameaçando ir tudo para o fundo do mar.

Que se faz? Morte certa! Deixe comigo – disse o soldador. Tirou seus ferros e soldou todos os buracos e o bote navegou a salvamento até a praia.

Chegaram no reinado recebidos com muitas festas pelo rei e pelo povo. O rei deu muito dinheiro aos três mas o ladrão, o bombeiro e o soldador queriam casar com a princesa.

— Se não fosse eu a princesa estava com a serpente! Dizia o ladrão.

— Se não fosse eu a serpente devorava todos, dizia o bombeiro.

— Se não fosse eu iam todos para o fundo do mar! Disse o soldador.

Discute, discute, briga e briga, finalmente a princesa escolheu o ladrão, que era seu salvador e este pagou muito dinheiro aos dois companheiros. O ladrão casou e mudou de vida e todos viveram satisfeitos.

Em: Contos Tradicionais do Brasil (folclore) de Luís da Câmara Cascudo, Rio de Janeiro, Ediouro:1967