Niels Frederik Schiottz Jensen,(Dinamarca 1855 –1941)
óleo sobre tela
“Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.”
Italo Calvino
Niels Frederik Schiottz Jensen,(Dinamarca 1855 –1941)
óleo sobre tela
Italo Calvino
Tom e Jerry na praia, disputas e perseguições de lado.
Bom ver brigas resolvidas. A vida é curta. Ninguém ganha com desentendimentos. Mas brigas que levam anos são mais difíceis de resolver. O rancor cria raízes. Por isso é surpreendente que uma das mais famosas brigas literárias do século XX tenha chegado ao final este mês: Paul Theroux e V. S. Naipaul, voltaram a se falar.
V. S. Naipaul tinha como “discípulo” Paul Theroux. Os dois eram muito amigos. Até o dia em que Naipaul decidiu vender alguns presentes que Theroux havia lhe dado…
Pronto. Briga feita. Por anos não se falaram. Quase duas décadas!
O gesto de reconciliação veio de Theroux, a parte que havia se sentido ferida. Talvez, aos 73 anos de idade, ele tenha aprendido a perdoar. Mas, contrário à sabedoria popular, nem sempre a sensatez é resultado da idade. Paul Theroux, que não é bobo, deve ter reconhecido que presentes são dados para que o recipiente faça o que quiser com eles. Ou não seriam presentes, seriam empréstimos…
O momento da reconciliação foi público, durante o Festival Literário de Jaipur na Índia. Em uma palestra, Paul Theroux elogiou o livro de Naipaul, Uma casa para o Sr. Biswas, comparando o recipiente do Nobel de Literatura em 2001, com o autor britânico do século XIX, Charles Dickens. V. S. Naipaul, que estava na plateia, mostrou, aos 82 anos de idade, como havia sido importante a amizade deles e como a briga o havia afetado. Teve um momento de catarse, chorando abertamente ao ouvir os elogios de seu antigo discípulo. Um momento de dar engasgo na garganta…
Boas novas!
Fonte: The Telegraph
René Magritte (Bélgica, 1898-1967)
óleo sobre tela, 81 x 60 cm
Coleção Particular, Paris
Nenhum dos peixes à venda, anunciados pelo alto-falante da van na rua em frente de casa, nadou de volta para casa. Todos tinham sido apanhados no caminho, assim reflete o poeta JHJ centro das atenções da protagonista Kitty Finch. É dela o poema que dá nome ao romance de Deborah Levy, Nadando de Volta para Casa. Nele a jovem poetisa abusa dos etcs, e pede para que o leitor entenda que todo etc. esconde algo que não pode ser dito. Na prosa de Levy tudo é dito de maneira oblíqua, envolta na névoa de um sonho.
A história é simples. Joe, Isabel e a filha Nina saem da Inglaterra para passar as férias numa casa alugada nos arredores de Nice, na Côte d’Azur. Levam consigo um casal amigo: Laura e Mitchell. Chegando lá, o inesperado acontece pela presença de Kitty, que se torna hóspede deles. À volta desse núcleo há Jurgen, o caseiro alemão, Claude, o dono do café, Madeleine, a vizinha médica de 80 anos e a dona da casa alugada da qual só ouvimos falar, uma psicanalista. A maior parte do romance se passa em oito dias, em julho de 1994. A narrativa é circular e repleta de enigmas. Não é necessário desvendá-los para entender o romance, mas para mim se tornou um jogo, um quebra-cabeças delicioso, que não consigo deixar de lado.
O livro começa com uma cena de terror psicológico, como em um pesadelo: “Quando Kitty Finch tirou a mão do volante e lhe disse que o amava, ele não soube mais se ela o estava ameaçando ou conversando com ele” (9). Não sabemos quem são Kitty Finch, nem seu companheiro de viagem, mas o alerta para o perigo, para a dualidade dos sentimentos do homem que a acompanha, é sentido e familiar, lembra os perigos dos sonhos que nos acordam em pânico, ansiosos. Esta cena se repete, ligeiramente modificada, através do texto, do mesmo modo que muitas imagens também se repetem, com pequenas alterações, quando sonhamos.
René Magritte (Bélgica, 1898-1967)
óleo sobre tela, 73 x 97 cm
Kunstsammlung Nordrhein-Westfalen, Düsseldorf, Germany
Já no capítulo seguinte ainda sob essa influência da incerteza, somos apresentados à imagem de uma sereia, sedutora mulher de longos cabelos vermelhos, até a cintura. Imersa na água ela atrai os olhos de Jozef Nowogrodzki, também conhecido como Joe Harold Jacobs, ou JHJ, “ou o poeta famoso, o poeta britânico, o poeta babaca, o poeta judeu, o poeta ateu, o poeta modernista, o poeta pós-Holocausto, o poeta mulherengo” (154); um homem de muitos rótulos, no entanto indefinível. Essa pluralidade de personagens reflete um poeta que se metamorfoseia em muitos, aumentando o conteúdo onírico e hermético da narrativa. Kitty Finch é a sereia destinada a seduzir o poeta. Suas palavras, poesia, escritos são seu canto para Ulisses: tentadora, perigosa, aliciante, antropófaga.
JHJ se prepara para dar uma palestra na Polônia, terra onde nasceu em 1937. Foi abandonado numa floresta por seus pais que alimentavam a esperança de que ele sobrevivesse aos nazistas. Acabou na Inglaterra, aos cinco anos de idade. Quando é perguntado se se sente inglês, por dentro, sua resposta é tão ambígua quanto todos os seus nomes e atitudes: Eu tenho “uma porra de um sentimento engraçado” (48). Na verdade Joe não sabe quem é. Seus etcs são muitos e ele corre o perigo de se afogar no desconhecido.
Ninguém melhor do que Kitty Finch para saber disso. Não só ela sabe tudo sobre Joe, como declara a que veio: “Eu vim para França, para salvar você de seus pensamentos” (32). Ela tem uma simbiose telepática com ele. “A poesia de Joe é, mais do que qualquer outra coisa, uma conversa comigo. Ele diz coisas que eu costumo pensar. Nós temos um contato nervoso” (52). Kitty Finch é uma botânica que admite sofrer de um desequilíbrio mental. Mas deixa de tomar seu remédio, para poder sentir emoções. O problema mental sem controle permite que ela entre e saia livremente de seu inconsciente, desvendando sua fragilidade. É a única personagem que se expõe. Emocionalmente. E fisicamente. Sem pudor. Apesar de estranharem, todos à sua volta aceitam essa nudez, até mesmo Isabel, esposa de Joe, para surpresa da amiga Laura, que percebe desde o início a intenção da jovem de seduzir o marido da amiga. Dos nove personagens Kitty é a mais transparente e a menos compreendida. Diáfana. Quase translúcida. Ela perambula pela propriedade com o descuido de quem não duvida de seu lugar, de sua importância.
No entanto, tendo admitido seu problema mental, Kitty se torna um personagem mais enigmático. Não sabemos se devemos ou não acreditar no que diz. Sua tarefa de seduzir Joe encontra resistência. Não porque ele não queira. Mulherengo, seu casamento com a mulher jornalista que viaja constantemente para os confins do mundo, é repleto de pequenas traições, de muitas namoradas. É um obsessivo Don Juan, mesmo amando sua esposa e seduzindo-a com favos de mel. Mas JHJ resiste porque pressente o perigo: Kitty Finch poderia levá-lo ao reino das sombras em que transita. Amá-la, deixar-se perder em suas profundezas, seria um mergulho no desconhecido; a aceitação do submundo do inconsciente e a percepção do verdadeiro reino das sombras a que pertence.
O mundo solar e o mundo das sombras se entrelaçam na narrativa, desde a lembrança da alegoria da caverna de Platão, quando Kitty vê um jovem desaparecer na parede, levando uma braçada de cicuta; ao capítulo em que Jurgen explica para Claude, como o alienígena ET e seu amigo terrestre se espelhavam. Kitty Finch é a sereia de JHJ, sua chave de entrada para esse outro mundo que o comerá vivo, como aconteceu no conto O pescador e a alma de Oscar Wilde. Em seu desespero, Jozef tenta passar para outro essa oportunidade e sugere que ela peça a Jurgen que leia o seu poema. Mas ela declara peremptoriamente: “Meu poema é uma conversa com você e com ninguém mais.” (90) Jozef Nowogrodzki sabe do mundo desconhecido, do mundo das profundezas do sonho, das emoções e do inconsciente. Seu desespero é palpável na reflexão durante o encontro que tem com Kitty para conversar sobre a poesia dela (91). Ele tenta desesperadamente resistir ao sedutor mergulho que vê inevitável: o mergulho no desconhecido dos etcs de sua vida.
Quando o movimento surrealista foi fundado por André Breton em 1924, tinha como espinha dorsal as obras de Sigmund Freud sobre o inconsciente. A meta era trazer à tona, através da escrita automática, imagens oníricas. A libertação das imagens do inconsciente vinha, segundo Freud, através do humor, do trocadilho, da ironia. O pintor surrealista René Magritte usou e abusou desses métodos para trazer aos lábios do espectador o sorriso do absurdo. Sua enorme série La clef de songes [a chave dos sonhos] em que imagens são aparentemente rotuladas por palavras ao acaso, é uma das representações visuais do humor corriqueiras na obra do pintor usadas como porta de entrada para o inconsciente.
Deborah Levy
A metáfora como a usada por Magritte em A invenção coletiva, — uma inversão da imagem da sereia, já tão bem estabelecida no inconsciente coletivo — ilustra o método que Freud acreditava ser o meio de solucionar os conflitos no inconsciente, por ser um enigma em disfarce. Daí, a abundante panóplia de imagens ambivalentes, de polaridades e duplicidades, dualismos e híbridos nas produções surrealistas na literatura e nas artes visuais. É bom lembrar que o Surrealismo foi, sobretudo, um movimento literário. Deborah Levy está bastante ciente dessas diretrizes, pois na epígrafe do romance Nadando de volta para casa, reproduz uma citação encontrada no primeiro número da revista Révolution Surréaliste, de dezembro de 1924: “De manhã, em todas as famílias, homens, mulheres e crianças, se não tiverem nada melhor para fazer, contam seus sonhos uns para os outros. Nós estamos todos à mercê dos sonhos e temos obrigação para conosco de testar sua força no estado de vigília.” É, portanto a partir dessa perspectiva que essa pequena obra de grande impacto, se descortina por 160 páginas.
O humor aludido acima é intermitente na narrativa. Há muitos momentos de sorrisos com as justaposições que Deborah Levy nos coloca. A médica vizinha é fonte de muita ironia, assim como são Mitchell e até mesmo Isabel. Com essas janelas de abertura para o subtexto da narrativa, chegamos ao nosso sonho coletivo, só restando saber o que realmente acontece quando Josef se encontra com seus etcs. Extraordinário. Uma pequena obra-prima.
[The screaming is all there]
Kai McCall (Canadá, 1968)
óleo sobre tela, 81 x 53 cm
Todo mundo já sabe que ler faz bem ao cérebro, aumenta a conectividade entre partes da nossa massa cinzenta, como comprovado por um estudo feito em 2013 na Emory University nos EUA.
Mas ler ficção é ainda mais interessante.
Você gosta de ler ficção? Mistérios, Romances, Espionagem, Ficção Científica, Ficção Histórica, Memórias? Pois saiba que as pessoas que gostam de ler ficção, em geral, têm maior empatia por outros seres humanos. Consequentemente leitores de ficção são bons amigos, capazes de se sensibilizar com as emoções dos outros. Na instituição New School for Social Research, os psicólogos David Comer Kidd e Emanuele Castano aprofundaram o estudo sobre leitura, contrastando a ficção literária com a ficção comercial mais estereotipada. Concluíram que a ficção literária ainda é melhor para o nosso entendimento do mundo, da sociedade que nos circunda, por apresentar uma realidade com personagens mais complexos que melhor refletem a vida real.
Ler, na verdade, ativa o nosso cérebro de tal maneira que ele imita as ações que lemos, passando para o leitor um pouco das emoções vividas pelos personagens fictícios.
[A título de curiosidade: recentemente senti meu coração bater mais rápido do que o normal, ao ler uma cena aterrorizante, de um inimigo batendo na porta de um apartamento onde se escondia um personagem, herói, na trilogia 1Q84, de Haruki Murakami.]
Tudo indica que quanto mais complexos os personagens, quanto mais ambíguos, quanto menos estereotipados, maior é o leque de emoções que permite o leitor de ter empatia pelo próximo e melhor compreensão do mundo à sua volta. No fundo, você se torna uma pessoa melhor.
Vamos ler…
Fonte: Mic
[Autorretrato]
Tamara Lempicka (Polônia, 1898-México, 1980)
Coleção Particular
Em 2012, seguindo uma publicação no jornal britânico The Guardian, em que seus leitores listavam as melhores frases de abertura de um romance de língua inglesa, publiquei aqui as poucas “melhores frases” em língua portuguesa que me chegaram à memória. Mas desde então comecei a prestar mais atenção ainda às frases de abertura dos livros que leio. Aos pouco irei postando, ocasionalmente uma ou outra abertura que me intrigue. Começo hoje com a escritora inglesa, Deborah Levy.
Em: Nadando de volta para casa, Deborah Levy, Rio de Janeiro, Rocco: 2014, p. 9, tradução de Léa Viveiros de Castro.
NOTA: LINK para a lista de melhores frases de abertura em língua sugeridas pelos leitores da Peregrina, publicadas em 6 de junho de 2012.
Komachi com livro, meados do século XIX
Kikugawa Eizan (Japão, 1787-1867)
Ukiyo xilogravura policromada
Paul Kelley (Canadá, 1955)
óleo sobre madeira, 45 x 65 cm
Alex Cree (Inglaterra, contemporâneo)
Os ingleses são mestres de listas. Já expliquei anteriormente que gosto de listas porque ela me fazem pensar sobre assuntos que passariam em branco… Os melhores livros do século XXI já foram causa de postagem aqui em abril do ano passado quando o jornal inglês The Guardian fez a pergunta a seus leitores: “daqui a cem anos que livros publicados no século XXI ainda serão lidos?” — Se interessado, aqui está a minha resposta.
Desta vez, falo da lista feita pela BBC sobre os melhores livros do século até o momento e pergunto: você já leu algum deles?
1 – A fantástica vida breve de Oscar Wao — de Junot Diaz, publicado no Brasil pela Record.
2 – O mundo conhecido — de Edward P. Jones, publicado no Brasil pela José Olympio
3 – Wolf Hall — de Hilary Mantel, publicado no Brasil pela Record.
4 – Gilead — de Marilynne Robinson, publicado no Brasil pela Nova Fronteira.
5 – As Correções — de Jonathan Frazen, publicado no Brasil pela Cia das Letras
6 – As incríveis aventuras de Kavalier e Clay — de Michael Chabon, publicado no Brasil pela Record
7 – A visita cruel do tempo — de Jennifer Egan, publicado no Brasil pela Intrínseca
8 – Billy Lean’s Long Hallftime Walk — de Ben Fountain, sem publicação no Brasil
9 – Reparação — de Ian McEwan — publicado no Brasil pela Cia das Letras
10 – Meio Sol Amarelo — de Chimamanda Ngozi Adichie, publicado no Brasil pela Cia das Letras
11 – Dentes Brancos — Zadie Smith, publicado no Brasil pela Cia das Letras
12 – Middlesex — de Jeffrey Eugenides, publicado no Brasil pela Cia das Letras
De posse desta lista vou passar o Carnaval no ar condicionado, lendo. Na mesinha de cabeceira estão: Middlesex — versão em inglês comprado no seu lançamento (2003) e ainda não lido, mas outros membros da casa leram e gostaram. Dentes Brancos, versão em português também não lido apesar de comprado quando publicado no Brasil, por recomendação do marido. Wolf Hall que está na mesma situação. MAS, há algo a meu favor: conheço boa parte dos autores por outras publicações… Por que ainda não li estes livros? Prestem atenção ao número de páginas…. Tem que ser muito bom para que valha toda a dedicação. Há alguns autores que têm crédito comigo: Hilary Mantel é uma autora cujas obras conheço desde os tempos em que morei fora do Brasil. Já li muitos de seus romances… Já ouvi ótimas opiniões sobre Meio Sol Amarelo, mas acabo de ler Americanah da mesma autora e vou dar um tempo. Ian McEwan também é velho conhecido e Reparação já vi duas vezes no cinema. Preciso espaçar o envolvimento com o tema, apesar de gostar bastante de sua prosa.
Mas saio deste Carnaval certamente enriquecida por alguma excelente leitura.