Lendo
Ned Axthelm (EUA, contemporâneo)
óleo sobre tela
“A literatura não é uma experiência separada da vida; a literatura, a poesia e a arte estão também na vida; é preciso prestar atenção.”
Michèle Petit
Lendo
Ned Axthelm (EUA, contemporâneo)
óleo sobre tela
Michèle Petit
Reading,1900
George Agnew Reid ( Canadá 1860-1947)
pastel sobre papel; 59 x 40 cm
Mlle De Lespinasse
Julie de Lespinasse
Mlle de Lespinasse
(1732-1778)
Dança no harem
Giulio Rosati (Itália, 1857-1917)
óleo sobre tela
“Lembro-me de andar por galerias de arte, em meio a obras do século XIX: a obsessão que eles tinham por haréns. Dúzias de pinturas de haréns, mulheres gordas deitadas à toa em divãs, com turbantes na cabeça ou barretes de veludo, sendo abanadas com rabos de penas de pavão, um eunuco ao fundo montando guarda. Estudos de carne sedentária pintados por homens que nunca tinham estado lá. Aquelas pinturas deveriam ser eróticas e eu achava que eram, na época; mas vejo agora o que realmente retratavam. Eram pinturas que retratavam animação suspensa, retratavam espera, retratavam objetos que não estavam em uso. Eram pinturas que retratavam o tédio. Mas talvez o tédio seja erótico, quando mulheres o fazem, por homens.”
O conto da aia
A mocinha aí em cima, me lembrou meus anos de adolescente. Estudava numa escrivaninha como essa. Não tinha gavetas laterais. Havia uma gaveta grande e rasa para lápis, réguas, clipes, material de papelaria. Embaixo havia um armário de duas portas, com uma grande prateleira, onde eu guardava meus livros, minhas revistas, tudo que era só meu e não da família. A tampa fechada, era um alívio, dizia: “não precisa mais fazer dever de casa”. Essa jovem da ilustração parece estar escrevendo em seu diário. Manter um diário foi sempre uma tarefa que não consegui realizar. Comecei muitos. Mas sem sucesso. A vida sempre foi muito cheia de aventuras, brincadeiras. Era muito ocupada e tudo parecia tão menos interessante quando era posto no papel, tão mais reduzido de excitação que não valia a pena relatar o dia a dia. Mas a jovem adulta voltou aos cadernos. Não aos diários. Cadernos de citações, frases de livros, poemas.
No YouTube no início de cada ano aparecem dezenas de vídeos ensinando as vantagens de se manter um diário para o equilíbrio emocional, para boas decisões. Ou a importância para o pintor, artista plástico, de carregar consigo um caderno de sketches. Para leitores e escritores há as cadernetas de bolso para que se anote uma ideia, observação feita na rua, no jardim, na praia, algo que possa ser colocado como detalhe na sua escrita. Não tenho nenhum deles. Este ano, pela primeira vez, coloquei na bolsa um pequenino caderno para isso, mas vou precisar me lembrar de que tenho essa ferramenta. Como nunca usei, talvez precise me esforçar para lembrar de que tenho essa coisa na bolsa.









O que faço, é uma adaptação do que é conhecido como Commonplace Book. Não, não é o típico Commonplace Book, objeto vindo de um hábito criado na Renascença, na Itália, das pessoas guardarem citações, ditados, ideias do que fazer, ideias do que escrever, ideias próprias e uma variedade de anotações. O meu Commonplace Book é de coisas que vou lendo, que não são citações que encontrei em livros. Essas eu tenho em cadernos separados e já escrevi sobre eles aqui no blog, no dia 23 de outubro de 2022, sob o título: O acaso sempre ensina. Meu livro de anotações é de coisas que aparecem no meu caminho, ou alguma coisa que preciso verificar para um nota de rodapé ou para um detalhe que venha a ser interessante – não importante, mas interessante – para o futuro. Não há ordem. Não há assunto específico. São coisas que acho que ainda voltarei a consultar, apesar de não saber exatamente porque.
Todos eles são feitos exatamente como esse acima nas fotos, que é i caderno de 2022. Divido um pedaço da página, nos cantos, onde só coloco títulos ou ilustrações sobre o texto. Sou uma pessoa que pensa por imagens. Minha memória imagética é mais desenvolvida do que a memória de textos. Por exemplo, não sei uma única de minhas poesias de cor. Apesar de ter publicado um livro de poesias, ter diversas outras poesias publicadas em antologias e estar tratando de meu próximo livro de poemas. Mas preciso ler meus textos, porque não consigo me lembrar deles de cor. Contudo, consigo resgatar conhecimento ou onde encontrar algo que procuro, por causa das “figurinhas” que imprimo e colo no caderno. Cada louco com sua mania, essa é uma das minhas.
Lembrei-me de colocar essa postagem aqui, porque estou fazendo minhas primeiras anotações no Commonplace Book deste ano. Numero todas as páginas. Guardo algumas páginas no final para um índice, E assim muita informação secundária e interessante não só é guardada como faz parte de um processo a que tenho fácil acesso.
Não é o verdadeiro Commonplace Book. Os puristas não gostarão de ver esse nome aplicado a esses cadernos. Mas é para mim.
E vocês? Com ajudam sua memória? Como guardam informações que um dia poderão vir a utilizar?
Meus pais
Auke Leistra, (Holanda, 1958)
acrílica, 52 x 39 cm
Joseph Epstein
(EUA, 1937)
O conselho vem dos juízes do Booker Prize de 2024, que recebi na newsletter do Booker. Todos são escritores e tiveram um ano dedicado à leitura de outros escritores para votar nos melhores do ano. A tradução é minha, e informal
Aconselho você encontrar alguém que leia com você, um amigo. Falar sobre livros é uma atividade que faz a leitura uma parte mais natural do dia a dia. Aquelas perguntas: até onde você chegou, com o livro tal? Que mais você vai ler, depois deste? É uma estratégia perfeita para ler mais e mais. E, leve um livro onde quer que você vá. Você encontrará momentos escondidos em que você poderá ler.
Uma coisa que ajuda é manter disciplina na leitura, tratando a leitura como um trabalho a ser feito em horas específicas e dar prioridade à ela. Mas devo dizer, que sei que estou diante de um vencedor em potencial quando encontro um livro que não posso deixar de lado. Houve alguns que acabei colocando apoiados à minha frente enquanto eu lavava pratos ou enquanto estava na Stair-Master, ou que me fizeram perder meus horários diversas vezes. Estou louca para contar para as pessoas quais foram esses livros. Quando um livro tem esse efeito, não é nunca uma guerra arranjar um tempo para ler, é uma luta organizar todas as outras coisas à volta daquela leitura. Qualquer um que goste de ler saberá a que me refiro.
Sempre defendi a ideia de leitura vagarosa e sempre. Não acho que vivemos num mundo mais atarefado do que as pessoas do passado, mas vivemos num momento com muitas outras distrações. Sempre digo a meus alunos que no lugar de ir para a internet ou abrir o telefone nos primeiros minutos da manhã, nesse mesmo período, eles podem ler por 15 ou 20 minutos de Guerra e Paz. Se fizerem isso ai fim de 12 semanas eles podem acabar de ler o livro inteiro. Para leitores que queiram aumentar o tempo de leitura em suas vidas, talvez pudessem arranjar um canto de leitura onde telas, de todo tipo (telefones, tablets e computadores) sejam proibidos.
Leitura e concentração andam cada vez mais difíceis. Li um listinha a respeito. Dica um, coloque seu telefone em outro aposento, e troque o rolar das telas por um livro enquanto come, usa o transporte público ou quando seu amigo não aparece para um encontro. Nadamos num mar de palavras, hoje, então eu também recomendo voltar-se para os clássicos — uma voz de outro tempo pode ser mais eficiente do que a verborreia contemporânea. Mas principalmente, lembre-se do telefone.
Acho que aderir a um horário para a leitura é a melhor maneira de planejar a leitura de muitos livros. No meu caso, gosto de ler entre 5 e 9 da manhã, quando tenho a mente clara, antes de começar meu dia verdadeiramente. É importante se aproximar de cada livro, página por página até que você se encontre incapaz de deixá-lo de lado. Um ótimo livro força o leitor a continuar lendo até o fim.
Hoje foi a festa de fim de ano do Grupo de Leitura Papalivros. Foi a 21ª reunião de Natal. Ainda que ao longo destes anos o grupo tenha mudado de perfil, há cinco membros que pertencem ao primeiro ano de leituras. Este é um ótimo histórico. Crescemos juntas nesses anos e continuamos firmes. Leitoras que se divertem e têm opiniões. Que 2025 nos traga muitas alegrias, bons livros, grandes oportunidades, muitas viagens pessoais e imaginárias através de nossas leituras! Obrigada meninas. Três de vocês não puderam participar, mas estaremos juntas de novo para mais um ano de aventuras!
Aos curiosos: há uma página neste blog, ali, no canto direito. clique em PAPALIVROS e vocês verão todos os livros que lemos nesses vinte e um anos!