Cyrano de Bergerac, o verdadeiro – celebrando os 400 anos de nascimento!

9 03 2019

 

 

8-1-1898 Lillustration,Benoît-Constant Coquelin (Coquelin aîné), en Cyrano de Bergerac, à la première de la pièce du même nom, d' Edmond Rostand, le 27 décembre 1897 au théâtre de la Porte-Saint-Martin..Benoît-Constant Coquelin, como Cyrano de Bergerac na estreia  da peça do mesmo nome, de Edmond Rostand, no dia 27 de dezembro de 1897, no teatro Porte-Saint-Martin. Como apareceu na Revista L’Illustration de 8 de janeiro de 1898.

 

 

Quem não se apaixonou pelo drama de Cyrano de Bergerac contado por Edmond de Rostand em sua peça teatral do final do século XIX?  No entanto, poucos sabem que houve um verdadeiro Cyrano, escritor, francês, nascido em Paris em 6 de março de 1619 [data de batismo, data de nascimento incerta].  Chamava-se Savinien de Cyrano e adicionou Bergerac depois que seu pai herdou de sua mãe a propriedade em Bergerac, local próximo a Rambouillet na Dordonha, às margens do rio Yvette, em 1616.

Sabe-se pouco de sua vida, morreu aos 36 anos, ferimentos, razão incerta.  Veio de  família com conhecimento, com aprendizado e alguma posição social, já que seu pai tinha o título de Senhor de Mauvières e Bergerac.  Mesmo pelos padrões da época, a biblioteca de seu pai, Abel de Cyrano, advogado no Parlamento em Paris, seria considerada pequena (126 livros) , mas a diversidade das obras listadas no inventário após a morte de Abel, sugere um pai curioso pelo estudo de línguas e literatura da antiguidade, com interesse em diversos assuntos, inclusive o protestantismo.  Bom lembrar que no século XVII, ainda que já houvesse muitos livros publicados, eles eram caros e não estavam ao alcance de qualquer pessoa.  A biblioteca de Abel tinha obras jurídicas, de língua e literaturas antigas; obras dos grandes humanistas da Renascença (Erasmo, Rabelais) e alguns livros que mostravam interesse pelas ciências. Há conhecidos trabalhos protestantes de François de la Noue, George Buchanan,  Pierre de La Ramée, Pierre Hamon e Philippe Duplessis-Mornay.  Essas obras sugerem que na sua juventude o pai de Savinien esteve rodeado por huguenotes.  Mas também estão lá duas Bíblias, um Novo Testamento e um livro de orações a São Basílio em grego. Assim é possível assumir que Sevinien tenha tido uma boa e sólida instrução em casa.

 

 

cyrano Etienne Jehandier DesrochersCyrano de Bergerac

Étienne-Jehandier Desrochers (1668 – 1741)

Gravura, de quadro a óleo

 

A família sai de Paris para Bergerac por volta de 1620, quando Savinien era bebê.  Sua educação portanto foi dada pelo ensino paroquial. Não se sabe exatamente quando ele chega a Paris para prosseguir com os estudos.  Permanece na casa de conhecidos de seus pais, talvez até na casa de seu tio Samuel de Cyrano, mas não se sabe ao certo que escola frequentou: se o Collège de Beauvais ou o Collège de Lisieux.  Em 1636, quando Savinien está com quinze-dezesseis anos,  seu pai vende a propriedade em Bergerac e retorna a Paris. Por volta de 1639, Savinien se enlista na Guarde, onde serve nas campanhas de 1639 e 1640.  Membro da pequena nobreza, Savinien ficou conhecido por sua habilidade com a espada e por gabar-se disso. Acredita-se que deixou a carreira militar para voltar a Paris dedicar-se à produção literária.

 

Savinien_de_Cyrano_de_BergeracRetrato de Cyrano, desenhado e gravado por artista anônimo, baseado em obra de Zacharie Heince, 1654.

 

 

As obras de Cyrano de Bergerac,  L’Autre Monde: ou les États et Empires de la Lune (“História cômica dos Estados e Impérios da Lua”), publicada postumamente em 1657 e Les États et Empires du Soleil (“Os Estados e Impérios do Sol”) em 1662, são clássicos como primeiras obras de ficção científica.  No primeiro livro, Cyrano viaja  à lua,  usando um foguete com uma cabine impulsionado por fogos de artifício (rojões) e lá se encontra com habitantes de 4 pernas, com armas que atiram na caça e as cozinham, assim como brincos que educam crianças.   Mistura ciência e romance nessas obras e elas eventualmente servem de exemplo para obras de seus sucessores, Jonathan Swift, Edgar Allan Poe, Voltaire.

Contemporâneo do grande dramaturgo francês Molière, Cyrano não vive para ver seu compatriota pegar emprestado algumas de suas ideias da obra Le Pédant joué, que também serve de fonte de ideias para outra estrela literária francesa: Corneille.

 

Obra:

Le Ministre d’Estat flambé en vers burlesques [O  ministro de Estadi assado em verso cômico], 1649.

 

 La Mort d’Agrippine, tragédie, par Mr de Cyrano Bergerac, 1654  [A morte de Agrippina, tragédia]

Les Œuvres diverses de Mr de Cyrano Bergerac [Obras diversas do Senhor Cyrano Bergerac] 1654

Histoire comique par Monsieur de Cyrano Bergerac contenant les Estats & Empires de la Lune [História cômica incluindo os Estados e Imperios da Lua], 1657

Les Nouvelles œuvres de Monsieur de Cyrano Bergerac. Contenant l’Histoire comique des Estats et Empires du Soleil, plusieurs lettres et autres pièces divertissantes [As novas obras do Sr. Cyrano Bergerac. Incluindo A história cômica dos Estados e Impérios do Sol, diversas cartas e outras peças de divertimento], 1662.

Les œuvres diverses de M. Cyrano de Bergerac [ Obras diversas do Sr. Cyrano de Bergerac], 1709

 

Aqui algumas ilustrações em sua obra:

 

1657 - Portada 1662

 

1657_ Cyrano de Bergerac´s L’Histoire comique contenant les états et empires du soleil_

 

1657__ Cyrano de Bergerac´s L’Histoire comique contenant les états et empires du soleil _

 

1657__ Le parlement des oiseaux des Etats et Empires du soleil_

 

travelling to the moon

 

 





Imagem de leitura — Carlo Corsi

20 02 2019

 

 

 

carlo corsi (itália, 1879- 1966)A leitura do Carlino, 1918

[Carlino é um jornal, símbolo de Bolonha]

Carlo Corsi (Itália, 1879- 1966)

Coleção Particular





Imagem de leitura — Eugenio Scorzelli

28 12 2018

 

 

 

 

scorzelli-eugenio-(ARgentina 1890-1958-it-donna-che-legge-ost,Senhora lendo

Eugenio Scorzelli (Argentina/Itália, 1890 — 1958)

óleo sobre tela





Livros para presente? Que tal autores de língua francesa?

15 12 2018

 

EVHE (França), La lectrice, huile sur toile, 54 x 65 cm.Leitora

Evelyne Heimburger (França, contemporânea)

óleo sobre tela, 54 x 65 cm

 

 

Até os anos 70 do século XX ninguém poderia se considerar bem letrado, sem conhecimento básico da literatura em francês.  Não só da clássica, Balzac, Flaubert, Stendhal, Dumas, Maupassant, Jules Verne entre outros do século XIX, como os da primeira metade do século XX: Camus, Gide, Sartre, Beauvoir, Simenon, Colette, Yourcenar.

Assim como aconteceu nas artes plásticas ao final da Segunda Guerra Mundial,  o centro literário do mundo ocidental saiu da França e desembarcou nos Estados Unidos.  O mesmo ocorre através dos séculos: centros culturais locais e universais só existem onde há poder financeiro.  A Europa em pedaços, pobre, devastada pela guerra, não oferecia suporte para as artes: plásticas, literárias, dança, música ou qualquer outra. As artes necessitam de ambiente com amplo  poder econômico que as mantenham como boas amantes, que devem ser belas e dispendiosas, elas precisam ser teúdas e manteúdas.  Nas minhas primeiras aulas de história da arte, quer o tema seja arte moderna, medieval, barroca ou de qualquer era, tenho imenso prazer de chocar jovens idealistas que ali se encontram ao dizer, logo na primeira hora, que sem dinheiro não temos arte. Olhos cheios de emoção, sonhadores, visionários, custam a acreditar que no santuário do saber, na aula de história da arte, pudéssemos falar tão abertamente do vil metal.  O ar de desgosto é geral e alguns alunos ainda acham que conseguiriam arguir contra esta observação, mas estudar história, é em grande parte estudar os movimentos econômicos do mundo.  Pode ser história da ciência, militar, naval ou da arte.  O caminho será o mesmo.

Voltando à literatura na língua francesa: sim, ela sofreu.  Sofreu muito. O mundo anteriormente criado e mantido pela França estava ferido.  Quase ferido de morte.  Em parte com ajuda dos próprios franceses que, em muitas regiões, se submeteram aos invasores.  Passados meros 10 anos do final da Segunda Guerra Mundial a França sofreu mais ainda com a Guerra da Independência da Argélia,  de 1954 a 1962. Não bastasse a devastação a que o país se submetera no Regime de Vichy, a geração seguinte de franceses se afundou e morreu no norte da África. Os franceses dizem que 400.000 pessoas morreram dos dois lados, enquanto a Argélia mantém que 1.500.000 morreram.  Qualquer que seja o número, no final da Segunda Guerra Mundial a França contava um pouco mais de 40 milhões de cidadãos.  Quer sejam 200.000 ou 750.000 franceses mortos, o número é grande demais para o tamanho do país.

Com essas reviravoltas a produção literária francesa deixou a desejar se comparada ao que acontecia no resto do mundo.  E o poder financeiro estava fora da França e dos países em que a língua francesa era prevalente. Volta, os poucos, no início deste século. É claro que houve bons e capazes escritores no final do século XX, mas nunca chegaram a ter a proeminência de seus pares de outras terras.   Volta, reforçada pelas mãos de escritores vindos das ex-colônias, assim como aconteceu com Inglaterra e Portugal cujas obras contemporâneas estão repletas de talentos nascidos nos países aculturados.  A França ganhou a Segunda Guerra, junto aos aliados, mas perdeu poder no mundo.  A língua francesa, na época de minha mãe, um requisito para qualquer cidadão no mundo, perdeu influência, porque o país perdeu influência econômica.  Por mais que isso me deixe entristecida, já que me dediquei e dedico à leitura em francês, temos que admitir que a importância de uma língua está também atrelada ao poder econômico daqueles que a falam.  Nesse aspecto, a Inglaterra, também sofrida com a Segunda Guerra Mundial, e membro da mesma aliança de países que venceu o Eixo, se saiu bem melhor. Não só porque o inglês já era considerado a língua comercial do mundo, e portanto falada por muitos,  mas era a língua nativa da maioria dos países aliados.  A Grã-Bretanha recuperou e expandiu seu poder nas criações literárias produzindo alguns dos mais interessantes escritores na segunda metade do século XX,  muitos deles vindos de antigas colônias: Doris Lessing,  R.K. Narayan, Salman Rushdie, Kazuo Ishiguro, Alice Munro, Margaret Atwood e os britânicos Graham Greene, Martin Amis, Margaret Drabble, Ian McEwan, A. S. Bayett, Julian Barnes, Hilary Mantel, John Banville, Cólm Tóybín, Allan Hollinghurst,  Zadie Smith, Penelope Lively, entre outros que no momento me escapam.

Mas a França só perdeu o brilho temporariamente.  Aos poucos, a literatura originalmente produzida em francês reganha status voltando com algumas grandes contribuições de romancistas. Muitas obras ainda dedicadas às grandes chagas sociais do país sofrido por tantas e consecutivas guerras.   Isso é importante porque cada uma dessas nações europeias, sofridas com as guerras do século passado, tem visões bastante diferentes do mundo, sobre o que importa e sobre o papel do ser humano nas sociedades. São dessas tradições humanísticas, que enriquecem o cotidiano cultural do planeta, que a nossa cultura ocidental depende. Aqui estão alguns dos mais recentes livros cujos originais são em francês.  Eu me limito aqui ao que foi traduzido e publicado no Brasil nos últimos anos quatro anos, de 2014 a 2018, ou seja, obras que podemos encontrar nas livrarias com maior facilidade.  Esses livros muito adicionariam à sua biblioteca e espero que mostrem a variedade criativa dos autores contemporâneos.

 

CANção de ninar

 

1 — Canção de Ninar, de Leila Slimani, Editora Tusquets, 2018, 192 páginas  —- Apesar da relutância do marido, Myriam, mãe de duas crianças pequenas, decide voltar a trabalhar em um escritório de advocacia. O casal inicia uma seleção rigorosa em busca da babá perfeita e fica encantado ao encontrar Louise: discreta, educada e dedicada, ela se dá bem com as crianças, mantém a casa sempre limpa e não reclama quando precisa ficar até tarde.  Aos poucos, no entanto, a relação de dependência mútua entre a família e Louise dá origem a pequenas frustrações – até o dia em que ocorre uma tragédia. Com uma tensão crescente construída desde as primeiras linhas, Canção de ninar trata de questões que revelam a essência de nossos tempos, abordando as relações de poder, os preconceitos de classe e entre culturas, o papel da mulher na sociedade e as cobranças envolvendo a maternidade.

 

 

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2 — Bússola, Mathias Énard,  Editora Todavia, 2018,  352 páginas —- Bússola é uma meditação musical e encantatória sobre Oriente e Ocidente, sobre “nós” e os “outros”.  Cai a noite sobre Viena e Franz Ritter, um musicólogo apaixo­nado pelo Oriente Médio, procura em vão dormir, à deriva entre sonhos e memórias, melancolia e febre. Revisitando sua vida – suas numerosas estadias em Istambul, Alepo, Damasco, Palmira, Teerã –, seu amor por Sarah, uma erudita francesa dona de uma inteligência feroz, e a memória de outros viajantes, aventureiros, acadêmicos e artistas do Ocidente que se apaixonaram pelo “outro” não europeu, Ritter (portador de uma doença aniquiladora) atravessa a noite nu­ma vertigem de memórias, viagens e histórias. Bússola é uma declaração de amor e uma jornada em busca da diferença, entre Ocidente e Oriente, entre ontem, hoje e amanhã. Um inventário sobre os traços que nos distinguem uns dos outros, e uma aposta – cheia de sabedoria – sobre aquilo que nos faz tão próximos e humanos.

 

 

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3 — Baseado em fatos reais, Delphine de Vigan, Editora Intrínseca, 2016, 256 páginas —- Em uma obra em que o leitor é levado constantemente a questionar o que lhe é apresentado, Delphine de Vigan constrói um clima confessional, sombrio e opressivo para expor a obsessão do mercado editorial e do cinema pelas narrativas baseadas em fatos reais. A linha tênue entre verdade e mentira oscila para enriquecer uma poderosa reflexão sobre o fazer literário e questionar as fronteiras entre aparentes dicotomias, como real e ficção, razão e loucura, público e privado. Um livro brilhante, que joga com os códigos da autoficção e do thriller psicológico.
Após o grande sucesso de seu último livro, em que revelava perturbadores segredos familiares, Delphine se vê diante da temível pergunta: o que vem depois de um texto tão pessoal, que comove tantos leitores? A inércia. O sucesso a fragiliza a tal ponto que a deixa completamente vulnerável. Ela não consegue mais escrever nem uma linha, nem sequer se sentar diante do computador ou segurar uma caneta. Está esgotada, e vive assombrada pela pressão da próxima obra.   Tomada pelo bloqueio criativo, o sentimento de impotência e isolamento permeiam constantemente sua vida: os filhos gêmeos, Louise e Paul, estão prestes a sair de casa para seguir o próprio caminho e ingressar na universidade. Além disso, seu namorado, François, é um famoso jornalista e apresentador de um programa de crítica literária e está sempre viajando para o exterior. A instabilidade emocional de Delphine ainda é agravada pelas cartas de teor bastante violento que recebe de um remetente anônimo, ameaçando-a por ter exposto publicamente sua família. Nesse cenário de fragilidade, Delphine conhece L., uma mulher sofisticada, confiante, feminina, carismática e atraente. Tudo o que ela sempre desejou ser. L. parece ter um passado misterioso, trabalha como ghost-writer, e entra de modo insidioso na vida da escritora, que vê na amizade uma forma de superar seu bloqueio criativo. L. é a amiga perfeita, sempre disponível, e logo passa a interferir nos aspectos mais íntimos da vida de Delphine. O domínio de uma sobre a outra é inesperado. A conexão entre elas parece… inacreditável.

 

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4 — O caso Meursault, Kamel Saoud, Editora Biblioteca Azul, 2016, 168 páginas —-  O romance tem como ponto de partida um dos maiores clássicos da literatura francesa no século XX, O Estrangeiro, de Albert Camus, cuja trama é reconstruída sob o ponto de vista do homem assassinado por Meursault, o personagem central da obra camusiana. Sem voz nem nome no livro do escritor francês, o árabe morto recupera a identidade na narrativa de Kamel Daoud. Em um bar em Orã, na Argélia, Haroun, irmão mais novo do assassinado, fala a um universitário parisiense interessado em ouvir o que foi oculto no romance de Camus. O foco da conversa é a cena decisiva de O Estrangeiro, na qual o narrador Meursault, ao se sentir ameaçado por desconhecidos em uma praia deserta, atira em um homem, sob um sol escaldante. Em O caso Meursault, a vítima ganha o nome de Moussa, um homem simples e cheio de vida, conforme a lembrança de Haroun. O personagem relata sua infância marcada pelo assassinato do irmão e pela busca desesperada da mãe pelo corpo do filho. Mas o autor não se limita a isso e surpreende quando, fazendo bom uso da ficção, retira Moussa, o árabe ignorado, do lugar do injustiçado. Com prosa irônica e cortante, o escritor faz evocar, na figura de Meursault, o próprio Camus. No momento em que o leitor revisita o narrador de O Estrangeiro ouvindo a voz de seu próprio autor, Kamel Daoud transforma sua ficção em um espaço livre, sem censura, para pensar a questão do colonialismo e os impasses da Argélia independência.

 

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5 — O fim de Eddy, Édouard Louis, Editora Tusquets, 2018, 178 páginas —- “Todas as manhãs, enquanto me arrumava no banheiro, eu repetia a mesma frase sem parar, tantas vezes que ela terminaria por perder o sentido, passaria a não ser mais do que uma sucessão de sílabas, de sons. Eu parava e retomava a frase: Hoje eu vou ser um durão. Eu me lembro porque eu repetia exatamente aquela frase, como se faz com uma oração, com aquelas exatas palavras – Hoje eu vou ser um durão (e eu choro enquanto escrevo estas linhas: choro porque eu acho essa frase ridícula e horripilante, essa frase que, durante anos, me acompanhou e que de certa forma ocupou, não creio que haja exagero em dizer isso, o centro da minha vida).”

O fim de Eddy, romance autobiográfico de uma das mais proeminentes vozes da nova literatura francesa, desvela o conservadorismo e o preconceito da sociedade no interior da França. De forma cruel, seca e sufocante, a violência e a amargura de uma pequena cidade de operários se contrapõem à sensibilidade do despertar sexual de um garoto, estabelecendo um paralelo direto com as experiências do próprio autor.

 

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6 – Submissão, Michel Houellebecq, Editora Alfahuara, 2015, 258 páginas —- França, 2022. Depois de um segundo turno acirrado, as eleições presidenciais são vencidas por Mohammed Ben Abbes, o candidato da chamada Fraternidade Muçulmana. Carismático e conciliador, Ben Abbes agrupa uma frente democrática ampla. Mas as mudanças sociais, no início imperceptíveis, aos poucos se tornam dramáticas. François é um acadêmico solitário e desencantado, que espera da vida apenas um pouco de uniformidade. Tomado de surpresa pelo regime islâmico, ele se vê obrigado a lidar com essa nova realidade, cujas consequências — ao contrário do que ele poderia esperar — não serão necessariamente desastrosas. Comparado a 1984, de George Orwell, e a Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, Submissão é uma sátira precisa, devastadora, sobre os valores da nossa própria sociedade. É um dos livros mais impactantes da literatura atual.

 

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7 — O leitor do trem das 6h27, Jean-Paul Didierlaurent — Editora Intrínseca,  2015, 176 páginas —- Um romance sensível sobre o poder dos livros e da literatura. Operário discreto de uma usina que destrói encalhe de livros, Guylain Vignolles é um solteiro na casa dos trinta anos que leva uma vida monótona e solitária. Todos os dias, esse amante das palavras salva algumas páginas dos dentes de metal da ameaçadora máquina que opera. A cada trajeto até o trabalho, ele lê no trem das 6h27 os trechos que escaparam do triturador na véspera. Um dia, Guylain encontra textos de um misterioso desconhecido que vão fazê-lo buscar cores diferentes para seu mundo e escrever uma nova história para sua vida. Com delicadeza e comicidade, Didierlaurent revela um universo singular, pleno de amor e poesia, em que os personagens mais banais são seres extraordinários e a literatura remedia a monotonia cotidiana.

 

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8 — O círculo dos Mahé, Georges Simenon, Editora Companhia das Letras: 2017, 120 páginas —- Aos trinta e cinco anos, casado e com dois filhos, o dr. François Mahé ainda mora com a mãe e leva uma típica vida pequeno-burguesa. Certo verão ele decide ir com a família à ilha de Porquerolles, no sul da França. No entanto, um constante mal-estar o impede de desfrutar o paraíso mediterrâneo. Ao ser chamado para examinar uma mulher no leito de morte, o médico se vê entre uma família humilde e fica fascinado pela mais velha dos três filhos, uma jovem muito magra que usava um vestido vermelho. Começa então uma história de obsessão e crise profunda, e somos levados pela jornada sombria da alma do protagonista. A morte da mãe também abalará as estruturas do dr. Mahé e, com o passar do tempo, ele será impelido a retornar à ilha mediterrânea ano após ano, como que hipnotizado pela garota. Com sua prosa enxuta e fluente, Simenon faz um retrato soturno da psique de um homem medíocre que vislumbra uma alternativa à banalidade, mas sofre para conseguir alcançá-la.

 

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9 — Felicidade conjugal, Tahar Ben Jelloun, Editora Bertrand Brasil, 2014, 322 páginas —-  Existe felicidade conjugal em uma sociedade na qual o casamento é uma instituição inabalável? O protagonista, um pintor obrigado a se aposentar após sofrer um AVC, sofre com a certeza de que sua relação conjugal caótica foi a responsável por seu colapso. Diante disso, com o tempo ocioso e com medo de cair em depressão, ele decide escrever suas memórias, narrando o começo do relacionamento, a má relação com os sogros, o amor louco, a rotina e o ódio que se instalou. Um trabalho de autoanálise, que vai ajudá-lo a encontrar coragem para se libertar da relação destrutiva com a esposa. Esta é a primeira parte do livro, chamada de “O homem que amava demais as mulheres”.  Ao descobrir, por acaso os escritos do marido, a esposa decide escrever sua versão dos fatos. Começa então a segunda metade, intitulada de “Minha versão dos fatos – Resposta a O homem que amava demais as mulheres”. Obviamente, as versões são divergentes, a ponto de o leitor questionar se os dois fizeram parte da mesma história, do mesmo casal.
Sucesso de crítica e multipremiado por toda a Europa, Tahar Ben Jelloun retrata em Felicidade conjugal a história de um homem que resolve pintar seu último quadro: o de seu relacionamento. As cores são fortes, e, como toda obra de arte, sempre há mais de uma opinião sobre o mesmo assunto, a mesma vida, os mesmos atos.

 

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10 — Limonov, Emmanuel Carrère, Editora Tag Experiências Literárias, 2017, 377 páginas —- Limonov não é um personagem de ficção. Ele existe. Eu o conheço. Ele foi delinquente na Ucrânia, ídolo do underground soviético; mendigo, depois mordomo de um bilionário em Manhattan; escritor da moda em Paris; soldado perdido nas guerras dos Bálcãs; e agora, no imenso caos do pós-comunismo na Rússia, velho chefe carismático de um partido de jovens desesperados. Ele mesmo se vê como herói, podemos considerá-lo um tratante: suspendo neste ponto meu julgamento. É uma vida perigosa, ambígua: um verdadeiro romance de aventuras. É também, creio eu, uma vida que conta alguma coisa. Não apenas sobre ele, Limonov, não apenas sobre a Rússia, mas sobre a história de nós todos desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

 

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11 — Remissão de pena, [Trilogia Essencial] Patrick Modiano, Editora Record, 2015, 128 páginas —- A autobiografia romanceada do autor do Prêmio Nobel de Literatura em 2014. Patrick e seu irmão são confiados a amigas de seus pais em Paris após a Segunda Guerra. Das mulheres responsáveis pelos dois meninos pouco se sabe além do que revelam os trechos de conversas entreouvidas por Patrick: que uma delas é uma pessoa triste e que a outra foi artista de circo. Isso e o fato de receberem as visitas frequentes de Jean D. e Roger Vincent durante o dia e de diversos visitantes noturnos. Nesse mundo intangível, os dois irmãos seguem de mãos dadas pela infância através da rue du Docteur-Dornaine e em meio a visitas a castelos, excursões a Paris, leitura de histórias de aventura, tardes ouvindo rádio — sempre à espera de que, um dia, alguém volte para buscá-los.

 

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12 — A caderneta vermelha, Antoine Laurain, Editora Alfaguara, 2016, 125 páginas —-  Caminhando pelas ruas de Paris em uma manhã tranquila, o livreiro Laurent Letellier encontra uma bolsa feminina abandonada. Não há nada em seu interior que indique a quem ela pertence – nenhum documento, endereço, celular ou informações de contato. A bolsa contém, no entanto, uma série de outros objetos. Entre eles, uma curiosa caderneta vermelha repleta de anotações, ideias e pensamentos que revelam a Laurent uma pessoa que ele certamente adoraria conhecer. Decidido a encontrar a dona da bolsa, mas tendo à sua disposição pouquíssimas pistas que possam ajudá-lo, Laurent se vê diante de um dilema: como encontrar uma mulher desconhecida em uma cidade de milhões de habitantes?

 

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13 — A extraordinária viagem do faquir que ficou preso no armário Ikea, Romain Puértolas, Editora Record, 2014, 256 páginas —-  A figura de um faquir está associada à meditação, ao treinamento e à magia. Mas, no caso de Ajatashatru Ahvaka Singh, é mais provável que o público se depare com truques e trapaças. A última de suas artimanhas foi convencer sua aldeia a pagar por uma viagem a França para adquirir a Camadepregösa, um modelo de cama de pregos vendida pela Ikea. Só que ele não contava em ficar preso dentro de um dos armários da loja. Nem que o móvel seria despachado para outro país. Assim, o faquir e seu turbante partem para uma aventura, ainda que involuntária, pelo mundo, fazendo uma horda de inimigos, alguns amigos e aprontando muitas confusões pelo caminho.

 

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14 — A outra história, Tatiana de Rosnay, Editora Intrínseca, 2016, 272 páginas —-Ágil, repleto de camadas e belamente escrito, A outra história é uma reflexão sobre identidade, o processo de ser escritor e a glória e o preço da fama, um retrato de como as decisões de antigas gerações ecoam no presente e moldam o futuro.
Aos vinte e quatro anos, Nicolas Duhamel se depara com um segredo de família perturbador mantido a sete chaves por muitos anos. Perplexo, embarca para São Petersburgo em uma jornada em busca da verdade. Porém, as respostas não surgirão tão facilmente.
Os mistérios de sua origem familiar o levam a escrever seu primeiro romance, O envelope, e a assiná-lo como Nicolas Kolt. Após três anos do inesperado e estrondoso sucesso mundial do livro, Nicolas é um escritor vaidoso, com muitos fãs, um autor obcecado pela fama e pelas redes sociais a ponto de deixar de lado a família e os amigos.
Tanta aclamação, no entanto, tem seu preço, e todos perguntam sobre o novo livro. Mas Nicolas não é capaz de escrever sequer uma linha e não suporta mais mentir. Desejando se afastar de tudo para encontrar uma nova inspiração, ele viaja para a Itália com sua namorada Malvina e se hospeda em um luxuoso hotel na costa da Toscana. Durante o fim de semana em que espera paz e tranquilidade para compor a outra história, Nicolas Kolt se vê diante de perigos e segredos que podem colocar seu futuro em jogo.

 

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15 — Os desorientados, Amin Maalouf, Editora Bertrand Brasil, 2014, 490 páginas —- Durante 25 anos, Adam não voltou mais à sua terra natal. Depois de fugir da guerra que assolou seu país, ele foi viver na França e se tornou um historiador renomado. Nesse meio-tempo, perdeu contato com seu círculo de amizade, que se dispersou por diversos lugares do mundo em busca de exílio. Quando decide voltar, o protagonista sente-se um estrangeiro em seu próprio país.  Os desorientados é um romance que expõe o que representaram os conflitos para aqueles que hoje estão na meia-idade. Até agora poucas obras haviam sido escritas a respeito dos anos de guerra e da carnificina ocorrida no Líbano. Maalouf faz isso sem comiseração, mas com sabedoria, adquirida após anos de estudo e vivência. Ao trazer à tona a questão cultural e exclusão dos cidadãos em sua própria pátria, o autor aborda, sem citá-la diretamente, a guerra no Líbano e aspectos negativos da sociedade libanesa.

 

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16 — Coração e alma, Maylis De Kerangal, Editora Radio Londres, 2017, 235 páginas —  Coração e alma é a história de um transplante cardíaco. É um relato de precisão cirúrgica, repleto de personagens inesquecíveis, em que histórias pessoais, diálogos e descrições técnicas se entrelaçam num ritmo frenético, digno de um grande filme de ação. O romance narra as vinte e quatro horas épicas entre um terrível acidente de trânsito ocorrido depois uma sessão de surf cheia de adrenalina — que causa a morte cerebral de um rapaz de 20 anos, Simon — e o instante em que seu coração recomeça a bater no peito de uma parisiense de 50 anos, Claire. Uma viagem emocionante e tocante, um tour de force que manterá o leitor em suspense até a última linha.

 

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17 — Irene, Pierre Lemaitre, Editora Universo dos Livros, 2015, 400 páginas —-  Para o comandante Camille Verhoeven, a vida não poderia estar melhor: ele tem um casamento feliz e está esperando o primeiro filho com a amável Irene.  Mas sua rotina agradável é interrompida por um assassinato cuja brutalidade choca toda a Brigada Criminal. O caso se torna ainda mais sombrio quando são encontradas similaridades entre o crime e o assassinato hediondo relatado em Dália Negra, um romance policial de James Ellroy, publicado em 1987.  A imprensa, então, apelida o assassino de “O Romancista” e a investigação do caso se desenvolve com os dois homens – o comandante Verhoeven e O Romancista – sob o olhar público, e um está determinado a ser mais inteligente do que o outro. No entanto, só é possível haver um ganhador: aquele que tem menos a perder.

 

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18 — A mulher no espelho, Eric-emmanuel Schmitt, Editora Record, 2014, 400 páginas —- Em Bruges durante a Renascença Anne foge no dia de seu casamento. Hanna mora na Viena imperial e acaba de se casar com um membro da elite local. Mas o que seria o começo de um final feliz é motivo de angústia para ela. Já Anny, nos dias de hoje, tem tudo o que se poderia desejar: dinheiro, beleza e sucesso. Tudo, menos felicidade. Três mulheres, três épocas, três histórias, o mesmo sentimento de inadequação. Schmitt narra de forma brilhante a jornada de personagens inquietas que buscam a verdade por trás da complexa existência.

 

NOTAS:

Esta é uma lista que não tenta cobrir tudo publicado no Brasil entre 2014-2018 em tradução de autores franceses ou considerados de língua francesa.

Este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Os grupos de leitura selecionam os melhores do ano!

10 12 2018

 

 

birdbook camille engelPenas e ficção

Camille Engel (EUA, contemporânea)

óleo sobre madeira,  50 x 40 cm

 

 

Dois grupos de leitura votaram nos livros lidos durante o ano.

 

Ao Pé da Letra

(grupo formado por 10 pessoas, leu 14 livros este ano):

 

1–- A terra inteira e o céu infinito, Ruth Ozeki

2 — Bartleby, o escrivão, Herman Melville

3 — A moça com brinco de pérola, Tracy Chevalier

4 — O caminho de casa, Yaa Gyasi

5 — As brasas, Sándor Márai

6 — Be Rio, Marco Machado

7 — O homem sem doença, Arnon Grunberg

8 — Um cavalheiro em Moscou, Amor Towles

9 — Pequenos incêndios por toda parte, Celeste Ng

10 — Nosso homem em Havana, Graham Greene

11 — O sol nasce para todos, Harper Lee

12 — A verdade sobre o caso de Harry Quebert, Joël Dicker

13 — Toda luz que não podemos ver, Anthony Doerr

14 — O leitor do trem das 6h27, Jean-Paul Didierlaurent

 

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Melhor livro do ano

 

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1º lugar — Um cavalheiro em Moscou

Amor Towles

Editora Intrínseca, 2018, 464 páginas

SINOPSE: Nobre acusado de escrever uma poesia contra os ideais da Revolução Russa, Aleksandr Ilitch Rostov, “O Conde”, é condenado à prisão domiciliar no sótão do hotel Metropol, lugar associado ao luxo e sofisticação da antiga aristocracia de Moscou. Mesmo após as transformações políticas que alteraram para sempre a Rússia no início do século XX, o hotel conseguiu se manter como o destino predileto de estrelas de cinema, aristocratas, militares, diplomatas, bons-vivants e jornalistas, além de ser um importante palco de disputas que marcariam a história mundial. Mudanças, contudo, não paravam de entrar pelo saguão do hotel, criando um desequilíbrio cada vez maior entre os velhos costumes e o mundo exterior. Graças à personalidade cativante e otimista do Conde, aliada à gentileza típica de suas origens, ele soube lidar com a sua nova condição. Diante do risco crescente de se tornar um monumento ao passado até ser definitivamente esquecido, o Conde passa a integrar a equipe do hotel e a aprofundar laços com aqueles que vivem ao seu redor. Com sua perspectiva única de prisioneiro de duas realidades distintas, o Conde apresenta ao leitor sua sabedoria e sensibilidade ao abandonar certos hábitos e se abrir para as incertezas de novos tempos que, mesmo com a capacidade de transformar a vida como a conhecemos, nunca conseguirão acabar com a nobreza de um verdadeiro cavalheiro.

 

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2º lugar — O leitor do trem das 6h27

Jean-Paul Didierlaurent

Editora Intrínseca, 2015, 176 páginas

SINOPSE: Um romance sensível sobre o poder dos livros e da literatura.  Operário discreto de uma usina que destrói encalhe de livros, Guylain Vignolles é um solteiro na casa dos trinta anos que leva uma vida monótona e solitária. Todos os dias, esse amante das palavras salva algumas páginas dos dentes de metal da ameaçadora máquina que opera.
A cada trajeto até o trabalho, ele lê no trem das 6h27 os trechos que escaparam do triturador na véspera. Um dia, Guylain encontra textos de um misterioso desconhecido que vão fazê-lo buscar cores diferentes para seu mundo e escrever uma nova história para sua vida.
Com delicadeza e comicidade, Didierlaurent revela um universo singular, pleno de amor e poesia, em que os personagens mais banais são seres extraordinários e a literatura remedia a monotonia cotidiana.

 

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3º lugar — A terra inteira e o céu infinito

Ruth Ozeki

Editora Casa da Palavra, 2014, 462 páginas

SINOPSE: O que acontece quando um diário perdida encontra o leitor certo? Numa remota ilha do Canadá, a escritora Ruth cata mariscos com o marido na praia quando se depara com um saco plástico coberto de cracas que envolve uma lancheira da Hello Kitty. Dentro, encontra um livro de Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido, e se surpreende ao descobrir que o miolo, na verdade, é o diário de uma menina japonesa, Nao. A sacola misteriosa, segundo os rumores dos habitantes, é mais um dos destroços do último tsunami que devastou o Japão e foi levado pelas correntezas até a ilha.

Desde então, Ruth é tragada pela história do diário de Nao, uma menina que, para escapar de uma realidade de sofrimento – de bullying dos colegas e de um pai desempregado e suicida –, resolve passar seus últimos dias lendo as cartas do bisavô, um falecido piloto camicase da Segunda Guerra Mundial, e contando sobre a vida da avó, uma monja budista de 104 anos.

O que Ruth não esperava era que o diário iria levá-la a uma viagem onde ela e Nao podem finalmente se encontrar fora do tempo e do espaço.

 

Papalivros

(grupo formado por 22 pessoas, leu 12 livros este ano):

 

1 – Entre cabras e ovelhas, de Joanna Cannon

2 – Amantes modernos, de Emma Straub

3 – Mulheres sem nome, de Martha Hall Kelly

4 – Mona Lisa: a mulher por trás do quadro, Dianne Hales

5 – Um cavalheiro em Moscou, Amor Towles

6 – A casa do califa: um ano em Casablanca, Tahir Shah

7 – O pecado de Porto Negro, Norberto Morais

8 – Pequenos incêndios por toda parte, Celeste Ng

9 – A mulher na janela, A. J. Finn

10 – A menina na montanha, Tara Westover

11 – As filhas do capitão, Maria Dueñas

12 – O leitor do trem das 6h27, Jean-Paul Didierlaurent

 

 

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Melhor livro do ano

 

UM_CAVALHEIRO_EM_MOSCOU_1515720646746406SK1515720646B

1º lugar — Um cavalheiro em Moscou

Amor Towles

Editora Intrínseca, 2018, 464 páginas

SINOPSE: Nobre acusado de escrever uma poesia contra os ideais da Revolução Russa, Aleksandr Ilitch Rostov, “O Conde”, é condenado à prisão domiciliar no sótão do hotel Metropol, lugar associado ao luxo e sofisticação da antiga aristocracia de Moscou. Mesmo após as transformações políticas que alteraram para sempre a Rússia no início do século XX, o hotel conseguiu se manter como o destino predileto de estrelas de cinema, aristocratas, militares, diplomatas, bons-vivants e jornalistas, além de ser um importante palco de disputas que marcariam a história mundial. Mudanças, contudo, não paravam de entrar pelo saguão do hotel, criando um desequilíbrio cada vez maior entre os velhos costumes e o mundo exterior. Graças à personalidade cativante e otimista do Conde, aliada à gentileza típica de suas origens, ele soube lidar com a sua nova condição. Diante do risco crescente de se tornar um monumento ao passado até ser definitivamente esquecido, o Conde passa a integrar a equipe do hotel e a aprofundar laços com aqueles que vivem ao seu redor. Com sua perspectiva única de prisioneiro de duas realidades distintas, o Conde apresenta ao leitor sua sabedoria e sensibilidade ao abandonar certos hábitos e se abrir para as incertezas de novos tempos que, mesmo com a capacidade de transformar a vida como a conhecemos, nunca conseguirão acabar com a nobreza de um verdadeiro cavalheiro.

 

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2º lugar — A casa do califa: um ano em Casablanca  [houve empate nesta colocação]

Tahir Sha

Editora Roça Nova, 2008, 351 páginas

SINOPSE: O livro descreve, com o mais refinado humor, o ano em que a família do autor se dedica a restaurar a Casa do Califa, uma mansão em ruínas em frente ao mar de Casablanca. Mergulham então nos costumes locais, enfrentando todo o tipo de situação.

 

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2º lugar — Pequenos incêndios por toda parte [houve empate nesta colocação]

Celeste Ng

Editora Intrínseca, 2018, 416 páginas

SINOPSE: Um encontro entre duas famílias completamente diferentes vai afetar a vida de todos. Em Shaker Heights tudo é planejado: da localização das escolas à cor usada na pintura das casas. E ninguém se identifica mais com esse espírito organizado do que Elena Richardson.

Mia Warren, uma artista solteira e enigmática, chega nessa bolha idílica com a filha adolescente e aluga uma casa que pertence aos Richardson. Em pouco tempo, as duas se tornam mais do que meras inquilinas: todos os quatro filhos da família Richardson se encantam com as novas moradoras de Shaker. Porém, Mia carrega um passado misterioso e um desprezo pelo status quo que ameaça desestruturar uma comunidade tão cuidadosamente ordenada.

Eleito nos Estados Unidos um dos melhores livros de 2017 por veículos como Entertainment Weekly, The Guardian e The Washington Post, Pequenos Incêndios Por Toda Parte explora o peso dos segredos, a natureza da arte e o perigo de acreditar que simplesmente seguir as regras vai evitar todos os desastres.

 


A coincidência de ambos os grupos nomearem o mesmo livro como melhor do ano, não passou despercebida. É verdade que Um cavalheiro em Moscou é obra fascinante.  Tom, reconstrução histórica sem excessos, alusões literárias pertinentes e um quê de aventura ao final fizeram esta leitura inesquecível para todos os participantes.

 

 





Reflexões de viagem, texto de Bernhard Schlink

9 12 2018

 

 

Charles HoffbauerNova York, primeira metade do século XX

Charles Hoffbauer (EUA, 1875-1957)

óleo sobre madeira

 

 

“Sempre que estou em outro país me pergunto se seria mais feliz nele. Quando percorro as ruas e vejo numa esquina um grupo de pessoas conversando e rindo, penso que,  se eu vivesse ali, agora também estaria feliz num grupo em uma dessas esquinas. Quando passo por um café com mesas ao ar livre e um homem se aproxima de uma mesa onde há uma mulher sentada e os dois se cumprimentam alegremente, penso que ali eu também, um dia, encontraria uma mulher que se alegraria ao me ver, e que eu me alegraria em vê-la. E quando à noite se acendem as luzes nas janelas!  Cada janela promete ao mesmo tempo liberdade e aconchego, libertação da vida antiga e aconchego numa nova.”

 

 

Em: A mulher na escada, Bernhard Schlink, tradução de Lya Luft, Rio de Janeiro, Record: 2018, p. 65.





Palavras para lembrar — Aluísio de Azevedo

6 12 2018

 

 

István Nagy (Hungria, 1873-1937), O leitorO leitor

István Nagy (Hungria, 1873 – 1937)

óleo sobre tela

 

“Tudo mais, que aprendemos de ouvido ou que aprendemos nos livros, se evapora com o tempo e desaparece; só essas lições, que nos entraram pelos olhos e nos espalharam n’alma as suas raízes, só essas conservaremos por toda a vida e levaremos conosco para a sepultura.”

 

Aluísio de Azevedo





Livros, melhor presente não há!

3 12 2018

 

 

 

0c170d0f4c9b442ce9d31876668f0f65Ilustração de Rebecca Campbell.

 

Duas das maiores livrarias do país perigam não sobreviver.  Tudo indica que não se adaptaram ao mundo moderno, além de sofrerem de má gestão.  A rede Saraiva era responsável por 30% das vendas de livros no país.  No ano passado o mercado de livros aumentou em 9,1%.  Como pode uma livraria que responde por quase um terço do mercado brasileiro estar à beira da falência?  Mesmo quando o mercado aumentou?  Má gestão resume-se a manter o negócio com hábitos antigos, sem supervisão e por não entender as mudanças no mercado.  Mas não é isso que me traz às reflexões desta postagem.  No final de novembro Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras, fez um apelo para que lembrássemos a nossos amigos, conhecidos, familiares da importância dos livros, de todos os livros para nossas vidas, e que presenteássemos com livros. “Cartas de amor aos livros”, Luiz Schwarcz.

 

0639182eda5cf2e23087dcba64091a6aTintin lê, Hervé.

 

Não me lembro de meus primeiros livros. Tenho certeza de que vieram ao meu encontro antes de eu completar 3 anos.  Há uma foto minha, sentada no degrau da porta de entrada da casa de minha avó, agarrada a um livro. Absorta.  Cabelos soltos não muito longos cobrindo o rosto, porque olhava atentamente para as páginas à minha frente, mãos segurando um livro aberto, no colo, vestidinho de domingo, sapato e meia. Eu tinha 3 anos pela data escrita por papai, no verso da foto. Filha de professores, passei a vida rodeada por livros de todos os assuntos.  Mãe professora de literatura/línguas, pai cientista professor de física e química, um avô, o único que conheci, advogado, professor e jornalista com coluna nos jornais do Rio de Janeiro e de Mato Grosso, onde nascera. Com uma biblioteca com todos os livros encapados, catalogados e protegidos por estantes com portas de vidro de correr onde se refugiava após o jantar, ele se presenteava com a cachimbada da noite. Irmãs de minha mãe, professoras.  Irmão de meu pai também.  Livros formaram a essência do conceito casa, lar, aconchego, segurança, família, conversa, relacionamentos, conhecimento, prazer, entretenimento, valores.  Não consigo dissociar livros de minha vida. Portanto, para mim, é difícil imaginar que tenhamos que falar sobre as benesses da leitura, sobre o quanto ela contribuiu para a formação de  caráter, para a formação de quem somos.  Não sei mais o que aprendi através dos livros. Foram tantos livros, tantos assuntos, tanta informação. Mas sei que aprendi muito mais do que se não os tivesse lido.  Porque eles, amigos de todas as horas, em todos os lugares, são uma janela para o mundo externo e uma porta para o auto conhecimento. Livros nos fazem grandes, maiores do que nossas alturas, mais fortes do que nossos músculos.  Eles nos expõem  a mundos que jamais visitaríamos ou visitaremos, e passamos a entender outras realidades, outros modos de pensar. Livros trazem conhecimento sobre o qual podemos criar, crescer e construir uma realidade melhor para a sociedade em que vivemos.

 

lendo lobãoLobão procura aprender sobre o sucesso de seu competidor urso. Ilust. Walt Disney.

 

Do tempo de criança, antes de me apegar à coleção de Monteiro Lobato, que li toda, inclusive a História do Mundo para Crianças, me lembro de muitos livros sem necessariamente me lembrar de seus títulos. Pena.  Mas me lembro que, antes de me entregar às obras de Lobato, ao ler Simbad, o marinheiro, que ganhei de aniversário, aos seis anos de idade, corri para mamãe e disse:  “Olha, estou vendo um filme dentro da minha cabeça enquanto leio!”  Foi, acredito, a primeira vez que descobri que ninguém precisava ler para mim para que eu pudesse imaginar as cenas.  Isso poderia acontecer quando eu mesma estivesse encarregada da leitura.  Ou seja, a leitura já estava automática o suficiente para que eu não sofresse com o ato de ler. Podia ler e imaginar com fluência. Tornara-me leitora plena.  Daí para frente preferi que ninguém lesse para mim, isso era coisa que eu queria fazer por mim mesma, dando ênfase ao que eu achava importante.  Neste ano, aos seis anos, meu primeiro ano de escola, nós nos mudamos, no meio do ano letivo.  E fiquei até março do ano seguinte em casa, a conselho das diretoras das escolas, porque já estava mais à frente do que o pessoal que havia entrado comigo. Passei de julho a março lendo.  Li de tudo.  E li uma história que até hoje me acompanha, de um menino chinês, que tinha uma longa trança.  E não sei porque, ele precisava estudar à noite, à luz de um lampião.  E para que não dormisse, amarrou a trança num prego na parede atrás de sua mesa de leitura.  Assim, toda vez que ele cochilava e sua cabeça pendia para frente, levava um puxão da trança, acordava e voltava a estudar. Por que ele se achava nessa circunstância, não sei.  Não me lembro do título, nem do autor da história.  Era ilustrada.  Desenhos em linha preta, como nanquim, aquarelados de verde, num estilo dos anos 60 do século passado.  Muitas vezes que precisei vencer o sono, lembrei-me da trança deste chinesinho amarrada ao prego na parede.  Senti-me reconfortada ao saber que outros, muitos outros já haviam passado por situação semelhante e que cabia a mim achar um prego para minha trança, uma solução para a minha noite em claro.

 

Magali lendo, Monica curiosaMagali lendo, Monica curiosa. Ilust.  Maurício de Sousa.

 

De meu pai, lembro-me principalmente carregando livros.  Eles também faziam parte de sua vida diária. Tínhamos o hábito de conversar à mesa, mesmo que a televisão estivesse ligada.  Conversar era uma coisa de família.  Falávamos de tudo. E papai era a “enciclopédia ambulante” para nós.  Não havia pergunta que ele não respondesse.  e se não soubesse, corria às estantes de seu cubículo (o antigo quarto da empregada) coberto de estantes de cima abaixo, com centenas e centenas de livros de todos os assuntos. Papai adorava aprender.  E passou essa curiosidade do aprendizado para seus três filhos.  Se perguntássemos alguma coisa, se ele precisasse dar uma explicação mais detalhada, ele saía por um momento da sala, para logo depois aparecer carregando dois, três volumes dos mais variados assuntos que pudessem ilustrar ou apontar para as respostas que procurávamos.  Sim, livros sempre foram parte do nosso dia a dia.  Não vamos romantizar esse hábito de papai.  Havia horas em que era muito chato.  Queríamos entender alguma coisa rapidamente, queríamos saber como responder às questões da escola e lá vinha ele prolongando as horas do dever de casa, dando informações muito além das que necessitávamos para a escola. Era um sofrimento, principalmente na adolescência, quando havia tantas outras opções para consumir nosso tempo, mesmo que elas fossem simplesmente divagar sobre as possibilidades.  Por vezes penso que papai teria adorado a Wikipedia.  Mas logo me lembro que não era fã de enciclopédias.  Não daquelas em diversos volumes.  Sempre dizia que o conhecimento da humanidade avançava em maior rapidez do que as edições das enciclopédias.  Papai gostava de livros, sobre um assunto, que se aprofundassem.  Todas as nossas enciclopédias eram em um único volume, lembro-me por exemplo de consultarmos sempre que podíamos a Larousse em um volume.  Era como um dicionário onde encontrávamos o mínimo necessário para depois irmos às bibliotecas procurar o que queríamos saber.

 

lendo, patinhas, noite, livros, mesa,Tio patinhas se diverte lendo, ilust. Walt Disney.

 

Lembro-me de livros serem um assunto entre os familiares, irmãos e cunhados de meus pais.  Era tão comum conversar sobre o que se lia, quanto falar sobre filmes vistos no cinema ou na televisão. Meus tios e meus pais passavam livros que liam por entre o resto da família. Eram livros de ficção que todos da família liam.  Autores brasileiros tinham preferência, mas lembro-me de livros de todo gênero Fernando Sabino,  Érico Veríssimo, Morris West, Françoise Sagan, Jorge Amado, Mário Palmério, Pearl S. Buck, Antônio Callado, Nabokov entre outros, passados de meus tios a meus pais e vice-versa e que só bem mais tarde viemos a ler. Havia também alguns livros que traziam muita conversa nos encontros familiares, nos aniversários Eram os deuses astronautas? de Erich von Däniken, O macaco nu de Desmond Morris, e Os dragões do Éden, de Carl Sagan, estes livros iam e vinham a berlinda nas conversas em família, ano após ano.  A ficção de suspense foi uma descoberta tardia de meus pais e tios (com exceção de Agatha Christie, que me lembro bem de terem lido) mas um gênero mais relacionado à política mundial da guerra fria, O dossiê de Odessa e os livros de John Le Carré,  fazem parte de um gosto tardio, mas a essa altura eu já não morava com eles.

Não era porque gostávamos de ler, que deixamos de ter nossas brincadeiras, nossas horas de criança.  Meus irmãos jogaram futebol, fizeram karatê, nós todos nadávamos, íamos à praia (morávamos próximo).  E continuamos leitores, como adultos.  Mas cada qual com suas preferências.  Marcus gostava de ler sobre ciências, música, e tinha gosto por alguns escritores de ficção, Camus entre eles.  Meu irmão Ricardo também gosta de ler e se dedica com prazer principalmente a biografias. Ambos se formaram em  engenharia.  Talvez por ter tido tanto contato com livros inicialmente pensei em fazer letras.  Mas depois a história da arte me levou por outros caminhos.  No entanto, a leitura sempre fez parte do meu dia a dia.

 

lendo, histórias, contando histórias, contos de fadas, dormir,Ilustração de Maurício de Sousa.

 

Dizem que o mundo digital está acabando com o livro como nós conhecemos, em papel.  Impresso.  Acredito que ambos irão viver lado a lado.  Leio tanto livros digitais quanto livros de papel.  E muitas vezes, mas muitas vezes mesmo, depois de ler a versão digital, compro o livro para poder ter comigo, emprestar, rever sua capa, seu dorso, sua maneira de ser.  O livro digital tem uma vantagem sobre o livro físico:  posso levar muitos livros para um fim de semana fora, sem que me pese um grama mais.  Mas o livro físico tem um encanto próprio e acredito que acabo usando as versões digitais como uma peneira para saber exatamente que livro gostaria de ter me acompanhando na vida.  Acredito que a leitura seja essencial para o crescimento emocional sadio de uma criança, de um adolescente e de um adulto.  A leitura nos dá companheiros de dramas familiares e muitas vezes ela nos dá respostas sem que saibamos onde aprendemos.  A leitura expande a mente e nos torna mais flexíveis e mais generosos com os outros que diferem de nós.

Sempre dou livros de presente.  Passo muito tempo imaginando que livro dar para quem.  E espero que tenham, na sua maioria, sido bons presentes.  Dar um livro bem escolhido mostra que pensamos nessa pessoa. E ao mesmo tempo, por nossas escolhas, nos mostramos também a ela.  É um ato de dar e de dar-se.  É um modo de aproximação, de carinho. É um gesto que diz: isso é uma das maneiras que penso em você.  Dar livros é libertar a imaginação do outro e respeitá-la ao mesmo tempo. Não pense duas vezes, dê um livro de presente aos seus amigos, parentes, filhos e netos.  Dar um livro é dar o mundo. Dar um livro é um gesto de amor.

 

© Ladyce West, Rio de Janeiro, 2018





Minutos de sabedoria: provérbio chinês

15 11 2018

 

Alphonse Mucha, Reverie 1896,Revêrie, de Alphonse Mucha, 1896.

 

“Um pouco de perfume sempre fica na mão de quem oferece flores.”

 

Provérbio chinês





Palavras para lembrar: Aluísio de Azevedo

8 11 2018

 

 

Elena Samokysh-Sudovskaya.Elena Petrovna Samokish-Sudkovskaya (1863-1924) RussieLeitura

Elena Petrovna Samokish-Sudkovskaya (Rússia, 1863-1924)

Aquarela

 

“É que seu gênio retraído e seco dava-se maravilhosamente com esses amigos submissos e generosos – os livros; esses faladores discretos, que podemos interromper à vontade e com os quais nos é permitido conversar dias inteiros, sem termos aliás obrigação de dar uma palavra.”

 

Aluísio de Azevedo