Resenha: “As redes da ilusão” de Amy Tan

4 07 2019

 

 

 

Painting04-600x457Aldeia à beira de rio, em Burma

U M.T. Hla (Burma, 1874 -1946)

Aquarela,  21 x 16cm

 

 

Comecei a leitura de As redes da ilusão de Amy Tan [tradução de Ana Deiró] de maneira hesitante: um fantasma, como narrador, não me parecia interessante.  Grande erro.  A alma morta que nos conta a história do livro tem um grande senso de humor, e não foram poucos os momentos de riso solto durante o convívio com essa protagonista.  Este é o primeiro livro de Amy Tan que leio.  Chego atrasada à famosa escritora de grandes sucessos.  Mas descobri que, entre seus seguidores, esta não é uma obra favorita.  Entendo.  A leitura deste volume me pareceu longa, com muitos momentos em que vi com pesar a falta de um editor que tivesse a responsabilidade de cortar umas cem páginas do total, repletas de detalhes que subtraem do interesse do leitor.

Trata-se da história de um grupo de turistas americanos que viaja a Burma, parando primeiro na China.  A narradora-fantasma seria a guia do grupo, mas morreu antes.  Daí seu interesse, em parte.  É um grupo heterogêneo, típicos ocidentais, americanos, mas poderiam facilmente ser brasileiros, que acreditam na superioridade de seus conhecimentos.  Absorvidos em si mesmos quase não aproveitam as oportunidades que lhes são apresentadas e por descuido de quem não entende a cultura onde se inseriu, fazem os maiores descalabros, causando revolta e aparecendo no noticiário local.  Ainda que a intenção do texto seja mostrar a falta de cuidado com a cultura dos outros que muitos turistas internacionais têm, essas “distrações” são fonte de grande humor e de alguma ponderação sobre o comportamento humano.

 

amy tan

 

Nesse meio tempo somos apresentados a um grupo de nativos da região que acredita,  que, um dia, um ser espiritual branco virá salvá-los. Ao verem os mais básicos e corriqueiros truques de mágica de um dos adolescentes do grupo, esse povo acredita na chegada de seu salvador.  E resolve raptá-lo.  Na verdade, levam o grupo inteiro de turistas pelos caminhos da floresta.  Turistas tão absorvidos em si próprios que não se dão conta de que estão sendo raptados. Para mim esta foi uma das partes mais interessantes da narrativa. De aventura em aventura, chegamos a vislumbrar alguns problemas de excesso de poder da junta militar de Burma, e a falta de respeito aos direitos humanos que ainda prevalece em muitos lugares no mundo.  Achei este desenvolvimento do texto sobre a política local, forçado e inserido para agradar à população americana de origem asiática.  Por mim, não é essa a maneira de se sensibilizar os leitores, ficou fora da cadência anterior, engraçada, quase uma comédia de erros.

 

amy tanAmy Tan

 

Curiosamente As redes da ilusão leva um nome diferente no original em inglês: “Saving fish from drowning” [salvando peixes do afogamento], que se refere a uma pequena passagem no livro, sobre uma lenda  local  que desculpa pescadores de matar os peixes pescados.  Eles pescam os peixes para que não morram afogados.  Quando morrem porque estão fora d’água não resta mais nada senão comê-los ou vendê-los.  Ilustra um ponto importante deste romance, que mostra que muitas vezes ajudamos alguém com as melhores intenções mas não conseguimos salvá-los de seus próprios destinos, como acontece com os turistas neste livro.

No todo, com menos umas cem páginas, este seria um livro recomendável a todos.  Como está, uma colcha de retalhos de aventuras díspares e com a inserção de postulados políticos, acho difícil recomendar a leitura universalmente.  Houve momentos em que do livro fui ao Google, para procurar imagens das cidades, montanhas, lugares descritos.  Isso ajudou a passar os momentos de enfado com um texto que nem sempre parece ter direção.  E é claro, aumentou muito a minha cultura sobre essa região do mundo.  Mas foi preciso um esforço meu, para vencer a prosa prolixa de Amy Tan.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Resenha de “As fúrias invisíveis do coração” de John Boyne

2 07 2019

 

 

 

AN IRISH VILLAGE by Markey RobinsonUma aldeia irlandesa, ilustração de Markey Robinson.

 

 

Este não foi o mais interessante romance de John Boyne.  É uma história ambiciosa, prolixa,  dramática que poderia ter tido maior impacto se o escritor não tivesse sucumbido à tentação de numerosos detalhes desnecessários e à armadilha comercial de um final feliz. Nesta longa obra o leitor acompanha a vida de um homem, irlandês, gay, nascido logo depois da Segunda Guerra Mundial, em 1945, de sua gestação à morte. Tomamos carona para acompanhar também mudanças de comportamento social no mundo pós-guerra e as dificuldades enfrentadas pelos homossexuais no mesmo período. Passamos pela Irlanda católica, pela Europa, centrada em Amsterdã, vamos aos Estados Unidos e como não poderia faltar somos levados a considerar alguns aspectos da horrível epidemia da AIDS que se espalhou pelo mundo a partir dos anos 80 do século passado. Definitivamente um projeto audacioso e necessário por trazer para o cultura popular considerações que vemos com maior frequência restritas a obras menos comerciais ou ao nicho da literatura gay.

Como bom escritor, apreciado por multidões,  John Boyne traz ritmo, drama e humor para um enredo que se desenvolve apoiado por uma dúzia de personagens curiosos, quase todos fora da norma, preenchendo a máxima popular comum nos nossos dias: “de perto ninguém é normal.”  Cada um é rebelde à sua maneira. Só o nosso biografado é o único a não se rebelar. Tímido e frouxo Cyril é um anti-herói. É um personagem principal, sem um osso de bravura, covarde e irresponsável,  incapaz de medir as consequências de seus atos para com terceiros.  E é ele quem acompanhamos com cuidado. E a quem devemos, no final, imaginar com carinho, entendimento e calor.  Uma façanha difícil para esta leitora.  O final desaponta.  Muda o tom da narrativa.  Do realismo aspirado durante a história, pulamos para o mundo da fantasia.  A boa vontade do autor traz um fechamento onde se reconhece os bons aspectos de todos os personagens envolvidos, num final feliz característico dos contos de fadas.

 

AS_FURIAS_INVISIVEIS_DO_CORACA_1502554798704540SK1502554799B

 

Talvez esse livro tivesse me agradado mais se não contivesse tantos erros históricos que demonstram uma pesquisa porca.  Descuidada.  Tive essa sensação algumas vezes até que de repente vejo General De Gaulle da França mencionado como tendo se aposentado em 1959, quando na verdade este foi o ano em que ele começou a presidência da França.  Daí por diante encontrei uma série de problemas.  Há uma visão anacrônica do mundo.  Preocupações sobre o cigarro, limitações de comportamento daqueles que fumam, por exemplo, aparecem como pertinentes nos anos 50-60 quando na verdade o fumo era liberado em todo canto, dentro e fora dos ambientes fechados.  Há o problema de mencionar a República Checa em 1987, quando na realidade, nesta época não havia este país.  O país fazia parte do que se chamava Checoslováquia.  O mesmo para a Eslovênia.  Foi preciso uma série de conflitos, de guerras entre 1989 e 1992 para que os países que formaram, a contragosto, desde 1945 o país Iugoslávia, voltassem a ser independentes como eram antes do domínio comunista, sob o comando do ditador Tito. Não há perdão para esse tipo de erro.  E esses não são os únicos erros.  Passando em revista outras resenhas em sites de livros e resenhas, vejo que tenho companhia, dezenas de outros leitores listaram muitos outros detalhes incôngruos.

 

boyneJohn Boyne

 

Um escritor tão popular quanto John Boyne tem a obrigação de trazer fatos históricos corretos.  Se ele não quer fazer a pesquisa, tenho certeza de que poderia pagar um assistente para verificar dados.  Não posso liberar de culpa a editora original, porque ela também deveria ter tido o interesse de checar esses detalhes.  Muitos leitores adquirem conhecimentos de história através de livros.  É um desserviço para com seus leitores que Boyne não se preocupe em limpar o texto.  Sinto, mas perde muito com isso.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Imagem de leitura — Inha Bastos

27 06 2019

 

 

 

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMenina que lê, 2008

Inha Bastos (Brasil, 1949)

óleos sobre tela, 50 x 50cm





Curiosidade literária: Evelyn Waugh

10 06 2019

 

 

 

EliÁguas-vivas sobre azul-anil

Eli Halpin (GB, contemporânea)

 

Em 1925, Evelyn Waugh, ainda desconhecido, sentiu-se entusiasmado com a perspectiva de trabalhar em Pisa, na Itália como secretário do escritor e tradutor Charles Kenneth Scott Moncrief, que estava naquela época envolvido com a tradução da obra de Marcel Proust,  À procura do tempo perdido, cujos primeiros dois volumes já haviam sido publicados.   Certo de que seria escolhido para a posição, Evelyn Waugh demitiu-se do trabalho como professor na Arnold House, um colégio para meninos no país de Gales.   Nesse meio tempo, ele havia mandado os primeiros capítulos de um livro que escrevia para o escritor Harold Acton [Sir Harold Mario Mitchell Acton] para que lhe desse sua opinião.  Acton não se mostrou entusiasmado.  Muito pelo contrário, reagiu de maneira bastante fria à proposta de Waugh, que ao perceber a reação do amigo de longa data, que, em parte, dizem ter inspirado o personagem ‘Anthony Blanche’ da obra Memórias de Brideshead, publicada anos mais tarde, Waugh prontamente queimou todo o manuscrito.

Logo depois de ter deixado sua posição na Arnold House, Evelyn Waugh soube que a posição de secretário de Moncrief não iria se concretizar. Essas duas derrotas, para quem estava tão certo de sucesso, foram suficientes para que Waugh entrasse em depressão e considerasse seriamente o suicídio.  É através de suas recordações que sabemos que ele levou a ideia do suicídio a sério.  Escreveu uma carta de adeus, foi à praia e deixando suas roupas embrulhadas junto com a carta, dirigiu-se ao mar com o objetivo de se afogar.  Eis que, já imerso na água, vencendo as ondas, é atacado por águas-vivas.  A dor e o desconforto foram tais, que ele voltou imediatamente para a areia, desistindo do plano.

E a literatura inglesa deve às águas-vivas a descoberta de um de seus grandes escritores do século XX.





Imagem de leitura — Lyn Fabian

8 05 2019

 

 

 

lyn fabian, (Austrália, contemp) time-out,Hora do descanso

Lyn Fabian (Austrália, contemporânea)

técnica mista

 





Ler livros para crianças

29 04 2019

 

 

 

Beth Palser, (EUA, contemporânea), Hora da Leitura, 2007, aquarelaHora da leitura, 2007

Beth  Palser (EUA, contemporânea)

aquarela

 

 

Recentemente Dr. Katherine Rundell, autora de livros infantis e também pesquisadora sobre o poeta John Donne no All Souls College, Oxford, deu entrevista ao jornal inglês The Guardian, onde explica sua teoria: adultos deveriam ler livros para crianças e adolescentes.

Não pense que ela defende essa ideia pensando em censura para os livros que seus filhos devam ou possam ler.  Nada disso.  Ela acredita que nos beneficiamos ao ler essas obras porque livros infantis lembram aos adultos o que é sonhar, desejar o impossível, pensar no que talvez não seja tão impossível.  Acreditar que pode haver justiça, amor, aventura e felicidade.  E também a ter esperança.

Tudo indica que ela não está sozinha nesta volta as livros da infância.  O mercado livreiro na Inglaterra mostra um aumento substancial de vendas de livros infantis para adultos. Numa pesquisa feita pelo jornal The Observer em 2018, foram vendidos 10 milhões e meio de livros de ficção para crianças, para serem lidos por pessoas acima dos 17 anos.  Isso reflete um aumento de 42% sobre 2015, quando só 7 milhões e 400 mil livros de crianças foram comprados para serem lidos por adultos.

Katherine Rundell acredita que isso faz parte do processo de auto conhecimento, de se voltar a ter contato com a criança que fomos. “Leia essa ficção e veja o mundo com olhos duplos: os seus e os da criança em você.”  Porque ler é uma das primeiras atividades que fazemos por nós mesmos. Ler os livros infantis que nos encantaram nos lembra de quem éramos quando criança, e mostra os elementos que fizeram a pessoa em que você se transformou.

Para leitura completa do artigo:

The Guardian





A intrigante primeira frase…

27 04 2019

 

 

 

mass-jose-gallegos

Missa, s.d.

José Gallegos y Arnosa (Espanha, 1859 – 1917)

óleo sobre tela, 51 x 71 cm

 

 

“Muito tempo antes que descobrissem que ele tinha dois filhos com mulheres diferentes, um em Drimoleague e o outro em Clonakilty, o padre James Monroe usou o altar da igreja de Nossa Senhora, Estrela do Mar, paróquia de Goleen, West Cork, para denunciar minha mãe com puta.”

 

 

John Boyne em: As fúrias invisíveis do coração, Rio de Janeiro, Companhia das Letras: 2017, página 13, primeira frase, primeiro capítulo.





Imagem de leitura — Aditya Phadke

3 04 2019

 

 

 

Luz dourada, Aditya Phadke (Índia, contemporâneo) Óleo sobre tela, 60 x 81 cmBrilho dourado

Aditya Phadke (Índia, contemporâneo)

Óleo sobre tela, 60 x 81 cm





Palavras para lembrar: Joseph Joubert

25 03 2019

 

 

 

Credit: Album / akg-imagesLeitores

Andrzej Pronaszko (Polônia, 1888 – 1961)

óleo sobre tela

 

 

“O grande inconveniente dos novos livros é que eles nos levam a ler os velhos.”

 

 

Joseph Joubert





Palavras para lembrar: Lin Yutang

20 03 2019

 

 

 

 

Leon Viorescu( Romênia,1886 - 1936)Leitura, ost, 64 x 49,5 cmLeitura

Leon Viorescu (Romênia, 1886 -1936)

óleo sobre tela, 64 x 49 cm

 

 

“Não se pode chamar leitura a essa tremenda quantidade de tempo que se perde com os jornais.”

 

Lin Yutang