As viúvas das quintas-feiras, de Claudia Piñeiro

23 07 2008

 

 

Nas duas últimas décadas do século XX, a cidade de Raleigh na Carolina do Norte, EUA, vivenciou um grande surto econômico.  Com isto passou a ser um lugar ideal para muitos americanos morarem.  Habitações de todo tipo se fizeram necessárias e especuladores imobiliários assim como construtores juntaram esforços.  De um mês para o outro via-se comunidades inteiras aparecerem, onde antes só havia um sítio ou uma pequena fazenda nos limites urbanos da cidade.  Muitas vezes, lagos foram escavados, enormes, suficientes para uma pequena competição das menores embarcações.  Com freqüência estas comunidades também tinham seu próprio campo de golfe.  No início, estas novas residências apareceram preenchendo os lotes de ruas já existentes, preferencialmente em bons bairros; aqueles já delineados quanto aos seus habitantes.  Mas quando a migração interna do país — do centro-oeste ou norte para Raleigh, — aumentou, comunidades começaram a aparecer, cujo perfil era muito menos democrático do que a cidade havia tido até então.  Comunidades exclusivas, fechadas com muros e portões, com guardas e cercas eletrônicas apareceram; afinal, Raleigh e Cary, seu subúrbio, eram o próprio vale do silício da costa este dos EUA. 

 

Capa da edição brasileira

Capa da edição brasileira

Muitos foram os lagos e campos de golfe criados nesta região. Pertenciam a comunidades com centenas de casas, separadas por tamanhos e preços diferentes.  Não muito diferente do plano original de Brasília.  Casas de um certo preço, de um certo padrão próximas às suas semelhantes.  Edifícios de pequenos apartamentos no canto do terreno dedicado aos edifícios.  Numa área, casas tinham telhas de asfalto, em outra, casas de dois andares.  Tudo dentro das regras do plano urbano de desenvolvimento. Não há como sair da norma nestas comunidades.  Assim disfarça-se, também, a segregação financeira. 

 

Nestas comunidades fechadas, que lembram pequenas aldeias porque têm muitos serviços dedicados a uma pequena população: escolas de ensino básico, creches e até estádios esportivos; o que se vende é a sensação de segurança.   Ninguém questiona a falta de liberdade de mudar a cor do lado de fora da casa ou o tipo de telhado.  Cada uma tem regras específicas e claras estipuladas nas escrituras,  muitas das quais seriam inválidas  em território brasileiro. 

 

Vem à mente neste momento um bairro em Raleigh,  construído à volta de um lago – também escavado pelo homem.  Chamava-se: Rue Sans Famille.   Havia é claro muitas ruas nesta comunidade de centenas de casas.  A diferença deste bairro para outro estava numa única cláusula na escritura: a proibição de crianças morarem neste condomínio.  Assim, se você é jovem e está pensando aumentar a família, tem que primeiro vender a sua casa.  16 anos era a idade mínima para morar neste local.  Não importa se você é divorciado e os filhos vêm visitar.  A regra é clara e leva qualquer infrator à justiça:  sem crianças.

 

Eu me expando em explicações para simplesmente dizer que quando Claudia Piñeiro descreveu em seu livro As viúvas das quintas-feiras [Editora Alfaguara] a comunidade fechada nos arredores de Buenos Aires, pude imaginá-la muito bem.   Como seus semelhantes americanos, as pessoas que decidem morar em Altos de la Cascada  acreditam que não só o ar que respiram é mais limpo, mas que  todos os outros seres humanos não merecem nem o ar e nem o luxo que lhes é servido.  Como na Argentina, no Brasil e nos Estados Unidos, moradores de vizinhanças como essas fogem do crime, do perigo real ou imaginado que acreditam existir nas partes das cidades mais populosas e menos seletivas

Capa da edição argentina.

Capa da edição argentina.

 

 

 

 

Quando, no entanto, a economia local, regional ou mundial muda o perfil dos empregos e das companhias; e o desemprego, nunca antes previsto, começa ser percebido aqui e ali, penetrando até mesmo no território santificado destas comunidades, os habitantes destas ilhas de bem-aventurança, acham difícil manejar a realidade.  E de repente, se descobrem espiando vizinhos, analisando problemas com seus pares, com seus companheiros de golfe. Uma mudança brusca de status social se mostra difícil de ser encarada.  Há imediatamente uma divisão entre os verdadeiros sobreviventes – aqueles que se adaptam às novas circunstâncias – e os que insistem em viver como se nada pudesse os afetar.  A discriminação, no início sutil, chega a níveis impensáveis e a resoluções ainda mais incompreensíveis.

 

Passado na virada do século XXI, na Argentina, época em que aquele país sofria com uma crise econômica, os habitantes de Altos de La Cascada preferem ignorar a realidade fora das cercas de metal que os protege.   O romance, que tem um tempo rápido, maravilhoso, em plena compatibilidade com a época que está retratando, é muito intenso por mais ou menos seus primeiros dois terços.  Depois perde um pouco a mágica para recuperá-la no capítulo final com uma conclusão completamente inesperada.   Este final renasceu o meu interesse pela leitura e “salvou” o romance para mim.   Apesar do título, não são só as mulheres desta comunidade que são retratadas.  Seus maridos, seus filhos são tão parte da história quanto elas.   Diversos assuntos muito atuais são retratados de tal maneira que nos fazem pensar criticamente a respeito da sociedade em que vivemos: anti-semitismo, preconceito de cor, espancamento e abuso de mulheres, preferências sexuais inusitadas.  E para aumentar o nosso interesse há um mistério que precisa ser resolvido.  

 

Alejandra Lopez.

Claudia Piñeiro. Foto: Alejandra Lopez.

Acho que este é um ótimo livro para se levar numa pequena viagem de férias, para um fim de semana prolongado.  Ele mostra com cuidado o mundo em que todos nós vivemos e faz com que se considere: esta é  a maneira como realmente queremos viver nossas vidas?   Será que vale a pena nos isolarmos do mundo à nossa volta?  Vivermos rodeados só daqueles que se parecem conosco?  Perder o contexto, nos exilarmos da nossa textura cultural, é uma maneira plausível de solucionarmos problemas sociais?

Recomendo o livro.  Boa leitura.

 

Este livro ganhou o Prêmio Literário Clarín em 2005.

 

 

♦♦♦♦♦♦

 

Esta resenha apareceu primeiro em inglês na página: Living in the postcard.





TÊNIS, poema de Guilherme de Almeida, infantil

21 07 2008

 

TÊNIS

 

A titia

borda e espia

o gato branco, enroscado

no feltro verde da mesa

e acordado,

com certeza.

 

Um novelo

cai.  E, ao vê-lo,

o gato bate na bola

e a bola, branca de neve,

pula e rola,

fofa e leve…

 

Silenciosa,

vagarosa,

 uma duas angolinhas…  

a bola solta uma lenta,

longa linha

que se aumenta.

 

Pouco a pouco,

no mais louco

desnorteante corrupio,

a bola desaparece.

Mas o fio

Cresce… cresce…

 

 

Guilherme de Almeida

 

 

 

Guilherme de Andrade e Almeida – (SP 1890 — SP 1969) foi um advogado, jornalista, poeta, ensaísta e tradutor brasileiro.

 

Principais Obras

Poesia

Nós (1917);

A dança das horas (1919);

Messidor (1919);

Livro de horas de Soror Dolorosa (1920);

Era uma vez… (1922);

A flauta que eu perdi (1924);

Meu (1925);

Raça (1925);

Encantamento (1925);

Simplicidade (1929);

Você (1931);

Poemas escolhidos (1931);

Acaso (1938);

Poesia vária (1947);

Toda a poesia (1953).

Ensaios:

Do sentimento nacionalista na poesia brasileira, (1926);

Ritmo, elemento de expressão (1926)

 





O Patinho, poema infantil: Francisca Júlia

18 07 2008

 

O PATINHO

 

 

O pintainho do pato,

galante, amarelo e novo,

mal saiu da casca do ovo,

busca as águas do regato.

 

Todo ele, tão lindo e louro,

enquanto nas águas bóia,

tem a graça de uma jóia

feita em ouro.

 

 

 

Francisca Júlia

 

 

Francisca Júlia da Silva Munster (SP 1871 – SP 1920)  Poetisa brasileira.

 

 

 

Obras:

 

 

1895 – Mármores

1899 – Livro da Infância

1903 – Esfinges

1908 – A Feitiçaria Sob o Ponto de Vista Científico (discurso)

1912 – Alma Infantil (com Júlio César da Silva)

1921 – Esfinges – 2º ed. (ampliada)

 





BASTOS TIGRE, poema infantil: Os Dentes

17 07 2008

 

OS DENTES

 

Devemos os nossos dentes

Zelar com o maior rigor.

Ser, com eles, negligentes,

Causa sempre dissabor.

 

            Deles tudo se remova

            Que os possa prejudicar,

            Limpando-os com água e escova

            Pela manhã e ao deitar.

 

E toda atenção é pouca

No cuidá-los muito bem.

Se entra a vida pela boca,

Entra a moléstia também.

 

            A cárie apenas começa?

            Não se dê parte de fraco:

Vá-se ao dentista depressa

Que sempre a cárie é um “buraco”.

 

Dos dentes mantendo o asseio

Podemos ficar contentes,

Pois quase não há receio

De chorar com dor de dentes.

 

 

 

Bastos Tigre

 

 

Manuel Bastos Tigre (PE 1882 – RJ 1957) — foi um bibliotecário, jornalista, poeta, compositor, humorista e destacado publicitário brasileiro.

 

Obras publicadas:

 

Saguão da Posteridade, 1902.

Versos Perversos, 1905.

O Maxixe, 1906.

Moinhos de Vento, 1913.

O Rapadura, 1915.

Grão de Bico, 1915.

Bolhas de Sabão, 1919.

Arlequim, 1922.

Fonte da Carioca, 1922.

Ver e Amar, 1922.

Penso, logo… eis isto, 1923.

A Ceia dos Coronéis, 1924.

Meu bebê, 1924.

Poemas da Primeira Infância, 1925.

Brinquedos de Natal, 1925.

Chantez Clair, 1926.

Zig-Zag, 1926.

Carnaval: poemas em louvor ao Momo, 1932.

Poesias Humorísticas, 1933.

Entardecer, 1935.

As Parábolas de Cristo, 1937.

Getúlio Vargas, 1937.

Uma Coisa e Outra, 1937.

Li-Vi-Ouvi, 1938.

Senhorita Vitamina, 1942.

Recitália, 1943.

Martins Fontes, 1943.

Aconteceu ou Podia ter Acontecido, 1944.

Cancionário, 1946.

Conceitos e Preceitos, 1946.

Musa Gaiata, 1949.

Sol de Inverno, 1955.

 

 

Do livro:

 

Criança Brasileira: segundo livro de leitura, Theobaldo Miranda Santos, Agir: 1950, Rio de Janeiro.





As Profissões — poema infantil de Nelson Nunes da Costa

16 07 2008

 

AS PROFISSÕES

 

— Sou lavrador — cavo a terra

Para depois semear.

 

— Eu, pescador, passo a vida

Na canoa sobre o mar.

 

                                   — Mitigo as dores da vida

                                   Sou solícita enfermeira.

 

— Eu sou  mecânico perito,

Não sei de melhor carreira.

 

                                   — Operário, desde cedo,

                                   Que começa o meu labor.

 

— Nos incêndios, o bombeiro,

Revela o grande valor.

 

                                   — Eu sou médico excelente,

                                   Tenho curas assombrosas.

 

— Na cozinha, ao fogo ardente,

Faço comidas gostosas.

 

                                   — Comerciante zeloso,

                                   Não me afasto do balcão.

 

— Eu sou modista afamada,

Pois coso com perfeição.

 

                                   — Sacerdote caridoso,

                                   Eu trabalho pela cruz.

 

— Aprendiz de carpinteiro,

Eu sou o que foi Jesus.

 

                                   Toda profissão é nobre

                                   Exercida com carinho,

                                   Só o homem preguiçoso

                                   Acha o trabalho mesquinho.

 

 

Nelson Costa

 

Nelson Nunes da Costa ( RJ 1899 – 1976) Jornalista, professor, Membro da Academia Carioca de Letras.  Estudioso da Historiografia carioca foi diretor do departamento de História e Documentação do Município do Rio de Janeiro.  Cronista, jornalista, professor, contista e escritor.  

 

Algumas obras:

 

Bonecos e bonecas Conto, 1922  

Páginas cariocas Crítica, teoria e história literárias, 1924  

Rio de ontem e de hoje Crítica, teoria e história literárias, 1958  

O Rio através dos séculos: a história da cidade em seu 4° centenário, 1965

 

 

Do livro:

 

Criança brasileira: segundo livro de leitura, Theobaldo Miranda Santos, Agir: 1950, Rio de Janeiro.

 

 

 

 





Manhã na Roça, poesia infantil de Alda Pereira da Fonseca

15 07 2008

 

Fazenda em São Paulo, Lucia de Lima (Brasil, contemporânea), A/T.

Fazenda em São Paulo, Lucia de Lima (Brasil, contemporânea), A/T.

MANHÃ NA ROÇA

 

 

O sol clareia o horizonte,

Canta o galo no poleiro,

Bala a ovelhinha no monte,

Piam pintos no terreiro.

 

A fazenda despertou,

Num ruído alvissareiro.

Na roça o sol já encontrou

O matutino roceiro.

 

Tudo então vibra e se agita,

Nos trabalhos da lavoura,

Enquanto a ave saltita,

Na ramagem que o sol doura.

 

A vaca chama o terneiro,

Que ainda dorme no curral!

Mais longe grunhem cevados,

Grasnam patos no quintal.

 

Eis a vida que desperta,

Para o penoso labor,

Que dará colheita certa

De lucro compensador.

 

Alda Pereira da Fonseca

 

 

Do livro:

Terra Bandeirante: a vida na cidade e na roça no Estado de São Paulo, 2° ano do curso básico, Theobaldo Miranda Santos, Agir: 1954, RJ

 

 

Alda Pereira da Fonseca (RJ, 1882 – ?) — Cientista carioca, especializou-se na área da botânica e representou o Ministério de Agricultura em várias comissões nacionais e também em viagem de estudos ao exterior. Além da área científica, Alda  foi romancista, cronista, contista, poeta, novelista, roteirista, escritora de Literatura Infantil.

 

Lúcia de Lima, (RJ) – professora, arquiteta, pintora, artista plástica, trabalhando no Rio de Janeiro.

http://www.luciadelima.com.br

 

 

 

 





Vozes dos animais, poema de Pedro Diniz

13 07 2008
Animais da fazenda, ilustração de Steve Morrison

Animais da fazenda, ilustração de Steve Morrison

 

 

VOZES DOS ANIMAIS

 

Muge a vaca; berra o touro;

Grasna a rã; ruge o leão;

O gato mia; uiva o lobo;

Também uiva e ladra o cão.

 

Relincha o nobre cavalo;

Os elefantes dão urros;

A tímida ovelha bala;

Zurrar é próprio dos burros.

 

Sabem as aves ligeiras

O canto seu variar:

Fazem às vezes gorjeios

Às vezes põem-se a chilrar.

 

Bramam os tigres, as onças;

Pia, pia o pintinho;

Cucurica e canta o galo;

Late e gane o cachorrinho.

 

A vitelinha dá berros;

O cordeirinho, balidos;

O macaquinho dá guinchos;

A criancinha vagidos.

 

 

Pedro Diniz

 

 

 

Criança brasileira, Theobaldo Miranda Santos, Agir: 1950, Rio de Janeiro





João e Maria, poesia infantil de Martins D’Alvarez

12 07 2008

 

JOÃO E MARIA

 

João e Maria,

todos os dias.

saíam cedo

pelos caminhos.

Maria em busca

de borboletas,

João à procura

de passarinhos.

Porém um dia

João e Maria

atrás dos bichos

tanto correram,

que não souberam

voltar pra casa;

viram, chorando,

que se perderam.

E os dois, rezando

pediram a Deus

que os conduzisse

para seus pais,

que eles juravam

com borboletas

e passarinhos

não mexer mais.

E Deus, ouvindo-os,

mandou que um anjo

a casa os guiasse

pelos caminhos.

E os dois meninos

não mais mexeram

com as borboletas

e os passarinhos.

 

 

Martins D’Alvarez  ( 1904 – ?)

 

Poema no livro: Leituras Infantis, Theobaldo Miranda Santos, Agir: 1962, Rio de Janeiro

  

 

Martins D’Alvarez                                                         

 

 

Nasceu na cidade de Barbalha, Estado do Ceara, em 14 de setembro de 1904.

Filho de Antonio Martins de Jesus a de Antonia Leite da Cruz Martins. Fez

os estudos primarios na sua cidade natal, os secundários, no Liceu do Ceara.

Formou-se em Odontologia.. Transferiu desde o ano de 1938 a sua residência

para o Rio de Janeiro, onde exerceu, além de atividades na imprensa, atividades

no magistério superior.

Livros publicados:

“A Ronda das horas verdes”, 1930 (versos).

“Quarta-feira de cinzas”, 1932 (novela).

Menção honrosa da Academia Brasileira de Letras.

“Vitral”, 1934 (Poemas).

“0 Norte Canta”, 1941 (poesia popular).

“No Mundo da Lua”, 1942 (poesia para crianças).
 
 Outros poemas de Martins d’Alvarez neste blog:

 

 

 

 

 





A pesca das estrelas — Wilson W. Rodrigues

11 07 2008

Céu estrelado, 2007, Douglas Soares ( MG, Brasil)

Céu estrelado, 2007, Douglas Soares ( MG, Brasil)

 

Hoje, arrumando uma prateleira de livros que quase não uso, deparei-me com um volume comprado num sebo, de Wilson W. Rodrigues, poeta brasileiro, sobre quem sei muito pouco.  Não tenho nenhuma de suas poesias, mas além de poeta, Wilson W. Rodrigues foi um folclorista, arrecadando histórias e compilando-as.  Aproveito para repassar aqui um trechinho mínimo encontrado pela manhã.

 

 

 

 

 

 

 

 

A PESCA DAS ESTRELAS

 

            Pai João menino foi à pescaria.  E estava alegre porque os negros diziam que iam pescar estrelas na lagoa onde morrera o Quiçambé.

            Quando chegaram, as águas do lago estavam cheinhas de estrelas.  Tomaram as canoas e jogaram as redes.

            — A pesca vai ser boa.

            O moleque só queria uma estrela ou uma estrelinha.

            Quando puxaram a rede, ela veio cheia, mas todas as estrelas se transformaram em peixes.

 

 

Pai João menino, de Wilson W. Rodrigues, Editora Publicitan (Coleção Mãe Maria, vol.2): s/d, Rio de Janeiro, página 97.  [texto datado, Distrito Federal, 1949]

 

 

Wilson Woodrow Rodrigues, nasceu em 1916 em Salvador, BA.  Foi poeta, folclorista e jornalista.

Obras:

 

A caveirinha do preá,  Arca ed.: s/d, Rio de Janeiro

Desnovelando, Arca ed., s/d, Rio de Janeiro

O galo da campina, Arca ed,: s/d, Rio de Janeiro

O pintainho, Arca ed.: s/d, Rio de Janeiro

Por que a onça ficou pintada, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

A rãzinha, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

Três potes, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

O bicho-folha, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

A carapuça vermelha, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

Bahia flor, 1948 (poesias)

Folclore Coreográfico do Brasil, 1953

Contos, s/d

Contos do Rei-sol, s/d

Contos dos caminhos, s/d

Pai João, 1952

 

 





Um mestre da sutileza: Mario Benedetti

10 07 2008

 

 

Homem sentado lendo, 2004, Ivan Dario Hernandez (Venezuela, 1955)

Homem sentado lendo, 2004, Ivan Dario Hernandez (Venezuela, 1955)

Há dois dias luto com a minha inabilidade de escrever sobre este pequeno grande livro, A Trégua, do escritor uruguaio Mário Benedetti, originalmente publicado em 1960. Talvez antes dos dias de hoje eu não tivesse a maturidade para apreciar a complexa realidade emocional de Martín Santomé, protagonista da história.  Para fazer justiça a este texto triste, irônico e inigualável, e ainda por cima, tão correto psicologicamente, é preciso uma certa vivência, uma apreciação das limitações de vida que nos são impostas e simultaneamente que impomos a nos mesmos! 

 

Benedetti é um mestre da sutileza.  A leveza com que retrata a angústia pessoal, existencial de Martin Santomé é usada de maneira tão precisa quanto imagino o gesto de um cirurgião usando laser, cortando  finas camadas de pele, desvendando sentimentos só encontrados no mitocôndrias das tormentas pessoais.

 

O livro é narrado através das entradas num diário de Martin Santomé, um homem comum, da classe média, que enviuvando cedo, educa seus três filhos sem voltar a se casar.  Suas perspectivas de felicidade parecem ter-se esgotado.  Mas há uma sincera acomodação a esta realidade talvez nem tão promissora.

 

Em poucas páginas entendemos o abismo que sente em relação a seus três filhos e a difícil situação familiar que eles têm entre si.  Em poucas entradas em seu diário compreendemos a mesmice e a solidão deste empregado de uma firma de autopeças que depois de 25 anos de trabalho diário encontra-se à beira da aposentadoria, sem nenhuma perspectiva de poder mudar o seu destino.  Na verdade, este questionamento interno, existencial, parece sempre subjugado aos rituais burocráticos, à luta pela simples sobrevivência.

 

Eis que aparece Laura Avellaneda, uma jovem, da idade de seus filhos, que assim como  Martín conjuga da falta de perspectiva na vida, aparecendo mais acomodada do que seus anos de juventude nos levariam a considerar típicos.  Um relacionamento entre eles começa — a trégua — a que o título se refere, o hiato, na sua luta constante pela sobrevivência.

 

Este romance traz uma renovação na vida dele e uma esperança na dela.  A história, no entanto, é mais sobre a realidade psicológica de Martin do que sobre o romance.  E lê-lo é um prazer inesgotável. Devorei o livro.  É pequeno: 186 páginas.  Uma beleza!

Mas, a pergunta que me perseguiu foi: por que acredito que este livro não poderia ter sido escrito por um autor brasileiro?  Já quebrei a cabeça querendo respondê-la e não estou satisfeita com as minhas respostas, apesar de acreditar que a melancolia, que a aceitação de uma vida muito regrada e limitada, que o conformismo deste homem de 50 anos não são nossos.  Não pertencem ao campo psicológico da cultura brasileira, que no meu entender está ligada à fênix, a ave que renasce das cinzas.   Porém, é uma impressão apenas.