A arte do ensaio muda de cara

21 02 2013

Chatterton-Purdy-PamelaLeitora, s/d

Pamela Chatterton-Purdy (EUA, contemporânea)

www.chatterton-purdyart.com

O  mais recente número da revista New Republic, traz o interessante artigo The New Essayists or the decline of a form, por Adam Kirsch.  Ele demonstra que a morte do ensaio literário, diferente do que se presumia há quase 30 anos, não chegou a existir e que hoje o ensaio está mais vivo do que se poderia esperar. Há um número significativo de volumes de ensaios chegando às listas de mais vendidos.  Algo muito maior do que o sonhado em passado recente. O assunto me interessa porque o ensaio é uma das minhas formas favoritas de leitura e muito já desejei, quando adolescente, pensando que me caberia um espaço nas artes literárias, que esta seria a minha forma de expressão.  Desde os Ensaios de Montaigne, aos de Emerson, aos de Gore Vidal, para dar exemplos genéricos e universais, considero o ensaio como uma forma literária agradabilíssima, em que podemos seguir a maneira de pensar do autor, apreciar seus argumentos e além disso apreciar o estilo e a perspicácia com que um argumento seduz o leitor.  Nem sempre é necessário que se concorde com o autor.  Um bom ensaísta pode ser apreciado pelo método e pela arte literária mesmo que se discorde do conteúdo.

Adam Kirsch lembra, no entanto, que o ensaio mudou de cara. Ele considera quatro livros publicados nos Estados Unidos e descobre que o conceito que tivemos de ensaio já não se aplica.  O ensaio ao que tudo indica passou a ser uma performance e não uma reflexão do autor.  Passou a ser uma crônica, um causo de ficção, deixando para trás aquilo que percebemos no verdadeiro, ou melhor na antiga concepção do ensaio, que é a opinião do autor, que a justifica pelo uso de suas associações, pelo  uso de suas convicções.  O ensaio atual não passa de uma meta linguagem, em que o autor cria um personagem que por sua vez é quem considera diversos aspectos culturais.  Como se Dona Candoca, alterego do colunista Artur Xexeo, com o qual ele expressa opiniões nem sempre das mais eruditas, fosse na verdade a personagem que pensasse e organizasse uma linha de pensamentos e os defendesse.  É o eu de ficção que agora toma o lugar do pensador.  Lembra também que os detalhes do dia a dia do personagem inventado são agora o assunto pelo qual percebemos e debatemos o mundo.   É o reality-show do eu ficcionalizado.  É o tele-ensaio.  Pena.  Para onde foram os pensadores?  Levante-se, por favor, o verdadeiro pensador.

PERGUNTA: Qual é o seu ensaísta brasileiro favorito?

Ah, sim, o meu?  Provavelmente Gilberto Freyre, mas é difícil dizer. Ledo Ivo está muito próximo dele.





Montando uma livraria, texto de Penelope Fitzgerald

13 02 2013

BOOKS Got book worm by Camille Engel

Tem traças?

Camille Engel (EUA, contemporânea)

óleo sobre madeira,  30 x 30 cm

www.camille-engel.com

“Os livros novos vinham em séries de dezoito, embrulhados em fino papel marrom. Enquanto os separava , eles foram encaixando-se em sua própria hierarquia social. Os pesados e luxuosos livros  sobre casas de campo, os livros sobre as igrejas de Suffolk, as memórias de estadistas, em vários volumes, ocuparam o lugar que era seu por direito de nascimento na vitrine da frente. Outros indispensáveis, mas não aristocráticos, ocupariam as prateleiras do meio. Era o lugar para os Livros do Automóvel – do Austin ai Wolseley –, obras técnicas sobre polimento de seixos, mapas locais e guias.  Entre estes, as populares reminiscências da guerra, com sobrecapa em tons cáqui e vermelho-sangue, encaravam-se como rivais, com eriçada hostilidade. Lá atrás, nas sombras, estavam os Stickers, em grande parte de filosofia e poesia, que ela tinha pouca esperança de chegar a ver o último. Os Stayers – dicionários, livros de referência  etc. – iriam direto para a parte de trás, junto com as Bíblias,  e livros-prêmio que , segundo suas esperanças , a Sra Traill, do Primário, daria de presente aos alunos bem-sucedidos. Finalmente vinham os engradados dos sovados remanescentes da Müller. Uns poucos eram até de segunda mão. Embora ela fosse treinada para nunca olhar dentro dos livros enquanto estivesse trabalhando, abriu dois deles – velhas edições do Everyman, com uma desbotada carta verde-oliva, estampada a ouro. Havia a caprichada guarda, que examinara cheia de perplexidade quando era menina. Um bom livro é a preciosa força vital de um espírito superior, embalsamado e entesourado com o objetivo de uma vida após a vida. Depois de alguma hesitação, ela o colocou entre Religião e Medicina Doméstica.”

Em: A Livraria, Penelope Fitzgerald, Rio de Janeiro, Bertrand Books: 2000, p.44, tradução de Sonia Coutinho.

O texto escolhido para apreciação hoje vem com uma nota sobre traduções. Todos nós cometemos deslizes.  Mas há algumas omissões em se tratando de traduções que às vezes podem modificar ou tirar o charme de uma passagem.  Este é o caso da tradução do inglês para o português desse texto acima.

Aí,  as palavras Stickers e Stayers, usadas no original com letra maiúscula,  para dar idéia das categorias de livros na imaginação da dona da livraria, foram erroneamente mantidas no original em inglês, como se tratassem de nome próprios, de nomes de uma coleção de livros.  Esse é o caso só da palavra mais adiante no mesmo texto, Everyman.  Esta, Everyman, se refere a uma coleção de textos, cuja publicação começou em 1906 com o editor Joseph Malaby Dent e existe até hoje, atualmente publicada também nos Estados Unidos com o mesmo rótulo.  A coleção publicava literatura que poderia ser apreciada por Todos os homens – Everyman – ou melhor ainda que Todos os Homens  devessem ler ou conhecer, nada muito diferente das publicações que de vez em quando aparecem aqui no Brasil, em geral sob o auspício de diários, jornais de boa tiragem.  A Everyman´s Library – Biblioteca do Homem Comum — é e foi, uma instituição na Inglaterra. Seu equivalente nos Estados Unidos é a Harvard Classsics – os Clássicos de Harvard, iniciada em 1909. Os títulos de ambas as coleções, de um lado ou de outro do Atlântico, nunca se esgotam, são publicações que se renovam. A tradutora fez muito bem de deixar Everyman em inglês, por tratar-se de uma marca.

No entanto as palavras Stickers e Stayers, nada têm a ver com marcas, com nomes próprios.  Elas, sim, revelam a maneira de pensar da heroína de Penelope Fitzgerald enquanto decide como organizar a livraria que estava para abrir.  Stickers, do verbo “to stick”, ficar, grudar, ficar encalhado  – que neste contexto são os livros que ficam, ou seja, os  que são raramente vendidos, mas que toda livraria séria precisa ter; enquanto que os Stayers,  do verbo “to stay”, permanecer, são aqueles livros que são o sustentáculo de uma livraria, os dicionários, uma coisa que todas as livrarias precisam ter.

São decisões difíceis essas que tradutores fazem. Nenhuma tradução é perfeita. Cada uma é um novo livro que se assemelha ao original como irmãos univitelinos, que à primeira vista parecem exatamente iguais, mas que com um olhar mais atento mostram suas pequeníssimas diferenças.





Qual é o valor da leitura literária?

6 02 2013

Christophe Vacher ( França) Estudo noturnoEstudo noturno, s/d

Christophe Vacher (França, 1966)

aquarela sobre papel, 23 x 34 cm

www.vacher.com

Uma questão antiga: qual é o valor da literatura para quem a lê?  O que ela faz?  Por que motivo devemos ler romances?  Essas perguntas voltam a ser debatidas no livro How Literature Saved My Life [Como a literatura salvou a minha vida] de David Shields, recentemente resenhado por André Alexis para o The Globe & Mail.  A pergunta central do livro de Davis Shields parece ser: o que acontece conosco quando lemos?  E a tentativa de responder a essa pergunta  uma, duas ou múltiplas vezes, produz a coletânea de pequenos ensaios esmiuçando o papel da literatura na vida do leitor.

André Alexis nota que o livro de Shields  começa com a frase: “Toda crítica é uma forma de autobiografia”, [“All criticism is a form of autobiography.”]. Concordo.  E isso me levou não só a ler o resto da resenha, como a colocar o livro de David Shields na minha lista de desejados.

Mas achei também interessante outras afirmações que aparecem no livro:

A literatura nos permite adquirir uma perspectiva sobre aspectos daquilo que é mais assustador no ser humano.

● A literatura mantem tudo — o que pensamos, queremos, sonhamos, tudo o que amedronta — no ar, em equilíbrio.

Essas questões me levaram a procurar entre minhas anotações, afirmações que ajudam a definir o papel que a literatura tem para o leitor.

Acho bastante pertinente e contemporânea a visão do professor de literatura Santi Tafarella, que no blog Prometheus Unbound, afirma que o que a literatura nos traz de importante:

● Des-familiarização e a linguagem carregada são duas das coisas que encontramos na literatura. [Defamiliarization and charged language: these are two of the things we go to literature for]. Desfamiliarização é a procura e o achado daquilo que não nos é conhecido.  Ou seja, travamos um diálogo com um mundo desconhecido. E linguagem carregada, é aquela em que cada palavra pode ter além dos valores tradicionais e convencionais, aqueles emotivos em que o contexto e as variações trazem nuances ao entendimento que nos enriquecem.

chulovich-marina-v

Sem título

Marina V. Chulovich (Rússia, 1956)

óleo sobre tela

Por outro lado a crença de que a literatura preserva os ideais do ser humano tais como amor, fé, liberdade parece ser generalizado e um conceito que alguns imaginam voltar até o período grego.

O autor inglês C. S. Lewis, é citado como tendo dito que,

● A literatura soma à realidade, não a descreve simplesmente.  Ela enriquece a vida cotidiana e a alimenta; e sobre esse aspecto, ela irriga os desertos em que nossas vidas se transformaram.

E se não me engano Horácio na Arte Poética, diz que:

a literatura une o útil ao agradável: deleita e instrui ao mesmo tempo.

Há muitas maneiras de se ver como e porque devemos dedicar nosso tempo à literatura. Cada um tem uma opinião, cada época vê o papel da literatura na vida do homem de uma maneira diferente.

Você tem uma opinião?  Gostaria de dizer por que a literatura é importante para você?  Que papel ela tem na sua vida?  E que papel ela tem na vida de todos?





Descobrindo Machado de Assis, texto de Marques Rebelo

2 01 2013

Belmmiro de Almeida, (brasil 1858-1935) Amuada,oleosobremadeira,33x41, pontilhista, museu mariano procópio, mg

Amuada, s/d

Belmiro de Almeida (Brasil, 1858-1935)

óleo sobre madeira, 33 x 41

Museu Mariano Procópio, MG

“23 de junho [1939]

Meu primeiro contato com Machado de Assis data do mês que passei com Mimi e Florzinha, quando Roberto, ainda em colo de ama, não fora entregue aos cuidados das tias. Depois de vários adiamentos, papai resolvera limpar a casa, fazer alguns retoques no telhado e no forro, reformar o banheiro  — estava bastante maltratada.

Pintada a óleo, a óleo devia ser repintada, mas como cheiro de óleo envenena, durante a pintura não poderia continuar habitada. Houve uma distribuição de domicílios. Papai e mamãe foram para a casa de Ataliba, Mariquinhas carregou Emanuel para Magé, eu e Madalena ficamos na casa das primas, que era na Boca do Mato. A novidade foi excitante. Navegadores de primeira viagem, sentíamo-nos à deriva – e o casarão suburbano, com comida, hábitos, móveis, decoração, conversas e linguagem diferentes, com outra paisagem, outra luz, outro cheiro e calor, era um cosmos que se abria em mil e mil descobrimentos fascinantes.

Mimi era leitora inveterada e, de pouco dormir, chegava a romper madrugadas com livros na mão, livros dos quais, por não ignorar os meus pendores livrescos, contava-me depois os enredos com o mais lato seguimento e minudência. Se eu gostava, lia o livro, o que resultava em longas e posteriores conversações nas quais a boa prima não se dava conta, em absoluto, da nossa diferença de idade e com suma sisudez, manejando pincenê como uma batuta, aceitava ou rebatia os meus balbuciantes argumentos literários, o que de resto me envaidecia.

E foi assim que travei conhecimento com o mestre. Ela havia devorado Helena numa noite e no outro dia estava com a sensibilidade em polvorosa – é o melhor livro dele, dizia, e narrou-me todo o entrecho depois do almoço, na fresca e ensombrada varanda, que ladeava a casa em toda a sua longitude e que até o meio tinha uma tecedura de guaco, cujas virtudes expectorantes, sob a forma de chá ou de balas, eram amplamente recomendadas e exploradas.

Solicitei o romance, mas a verdade é que achei decepcionante, transmiti minha impressão, Mimi repisou o seu entusiasmo, e não pensei mais no autor.

Um ou dois anos mais tarde, passava eu para aquilo que no colégio se chamava o curso adiantado de português, isto é, o curso ao termo do qual era tirado o exame final dessa matéria. Para leitura e análise tínhamos uma grossa antologia de pífio papel, mas se houve livro que eu amasse, foi este. As amostras que trazia davam logo para gostar ou detestar. Foi nele que li “O Plesbicito”, de Artur de Azevedo, incorporando-o imediatamente à minha perene simpatia. Foi nele que amei Maupassant, por causa do “Adereço de esmeraldas”, amor que foi diminuindo como tempo até se mudar em desinteresse, desinteresse de que escaparam as curtas páginas de “Ao luar”, sim de que escaparam as curtas páginas de “Ao luar”.  Foi nele que Schiller me arrepiou com o episódio da luva e Coppée me emocionou como os vícios daquele capitão reformado, a primeira ficção francesa em que eu encontrava uma referência ao Brasil. Foi nele também que li um trecho de Dickens, “O jantar de Toby”, jantar de tripas numa noite glacial, jantar de pobre, trazido pela filhinha, maravilhosa revelação, pois a alegria de Toby me impressionou tanto que eu quis sem demora conhecer o romance por inteiro. Foi nele que aprendi a detestar Garcia Redondo, Pedro Rabelo, Coelho Neto, Alcides Maia, Macedo e tantos outros. Foi nele que, afinal, encontrei o meu Machado.  Vinha em pedaços como fatias de um grande bolo, grande e saboroso.  Fui comendo deliciado: aquele admirável trecho do fanático por brigas de galo, o do pesadelo em que o diabo tira libras de um saco para por em outro, o episódio da ponta do nariz, a célebre volta aos tempos, cavalgada às avessas, imorredouro retrocesso, e, principalmente, o famoso jantar da família Brás Cubas, ágape a que iria assistir, coberto de vergonha, numerosos similares. E o que não pude acreditar mui prontamente foi que houvesse relação entre o padeiro desses nacos surpreendentes e o confeiteiro de Helena de tão chocha  e açucarada memória. E atirei-me ao manjar inteiro, começando pelas Memórias Póstumas de Brás Cubas. Daí para Quincas Borba, depois para Dom Casmurro, quando fiquei para toda a vida apaixonado por Capitu, paixão que só se igualaria com a provocada por Vidinha, a gargalhante mulatinha dos lundus. Quando cheguei aos contos – “Conto de escola”, “Uns braços”, “O diplomático”, “Uma senhora”, “Missa do galo”, “Capítulo de chapéus”, “Ideias de canário” – quando cheguei aos contos alumbramento de que Antônio Ramos compartilhava, senti que formavam um trilho ideal, caminho único encimado por uma estrela, estrela guiadora, bem diversa daquelas,  indiferentes às lagrimas e aos risos, que o mal-aventurado Rubião pedia à bela Sofia que fitasse”.

Em: A mudança, Marques Rebelo, 2º volume de O Espelho Partido, São Paulo, Martins: 1962





As brasas de Sándor Márai: solilóquio sobre a amizade

9 12 2012

153

Caçadores no bosque, 1880

Antoni Piotrowski (Polônia, 1853-1924)

Óleo sobre tela, 127 x 170cm

Christie’s Auction House, junho 2009

Um pequeno romance de grande impacto, As Brasas de Sándor Márai revolve em torno da amizade de dois homens, amizade de infância.  A trama é simples: um confronto entre dois amigos após quarenta e um anos de separação.  Um evento, que se esclarece ao longo da segunda metade do livro, foi o ponto de fricção entre eles.  O encontro entre os dois, cuidadosamente encenado por Henrik, um militar aposentado do exército do antigo império austro-húngaro,  leva ao clímax do romance, quando, num penoso e intenso solilóquio,  ele descortina as nuances de emoções e comportamentos, que explicam e justificam o evento que  levou ao término da amizade.

Nesse monólogo raramente interrompido por Konrad, o amigo que o visita, e que agora reside em Londres,  Henrik  explora suas reações ao longo dos anos, depois da separação dele, do amigo e de Krisztina, sua esposa.  A trama traz ao proscênio o melhor que a literatura tem a dar: um estudo das emoções humanas.  Como componentes da trama, fazendo parte do cenário, trazidos vez por outra para o foco de luz no palco, estão o amor, a inveja, a traição, a honra e o dever.

as-brasas

No entanto há uma extensa metáfora  nessa encenação, que se passa no ano de 1919, logo após a desintegração do império austro-húngaro.   Ambos os amigos vêm de famílias com nobreza, mas Henrik pertence a uma família mais importante, mais chegada à realeza húngara, enquanto Konrad vem de uma família nobre  empobrecida, cujos laços nobiliárquicos estavam enraizados na Polônia e que precisa vender terras para poder mantê-lo na escola militar.  Há um desequilíbrio de classe social e financeiro entre os dois que faz um paralelo direto com a realidade daquele império formado em 1867, entre a casa dos Habsburgos e a família real da Hungria.  Quando Sándor Márai caracteriza a amizade como um dever, na fala de Henrik, ele fala de amigos ou de nações?  E Konrad lembra a Henrik, que tudo que juraram defender, já não existe, mas Henrik só admite que o modo de vida do qual fazia parte talvez não exista mais ao final da narrativa.

Konrad é retratado não só como passional como indigno de confiança, como quando toca piano, uma peça de Chopin, de quem era parente distante, e se transforma. Falsidade e deslealdade eram características atribuídas a povos não húngaros. Para Henrik, ou melhor, para o verdadeiro húngaro, Konrad prova ser dessa estirpe desleal, assim como por extensão sua própria mãe e Krisztina, sua esposa.    Ainda que a presença de Konrad pareça quase acidental na trama, já que é o monólogo de Henrik que revela a complexidade de seus sentimentos e de suas ações, Konrad é essencial pois torna-se o avesso, a imagem espelhada, de Henrik.  Assim vemos os dois lados do império austro-húngaro: a nobreza traída, e os que dela escaparam, mesmo que a grandes penas.   Diferente do esperado esta é uma história escrita não por quem venceu a guerra, mas por quem a perdeu.

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Sándor Márai

Eventualmente Henrik reconhece que há coisas piores do que o sofrimento e a morte, entre elas, a perda do amor-próprio. E isto também pode ser visto não só como sua descoberta pessoal depois de passar quarenta e um anos analisando os eventos que levaram ao final dessa amizade, como pode ser considerado o retrato daqueles que por orgulho, dívida, dever resistiram à dissolução do império.

Como eixo da trama está Krisztina, traída duas vezes: por Henrik e por Konrad.  Uma mulher enigmática, estrangeira, pobre, que receia seus próprios pensamentos e mantém um estranho diário,  documento  íntimo, cuja importância Henrik cultiva através dos anos e que ao final se faz totalmente desnecessário.  Ela também pode ser vista por dois ângulos: traída por dois homens e traidora dos dois.  Que versão adotar?

As brasas é uma obra que nos leva a pensar em círculos.  A considerar as desventuras do ser humano.  É apropriado perguntar se precisamos de tanto sofrimento.  De tanta angústia auto-imposta. E vale lembrar que as conotações de valores como dever, dívida, lealdade, mesmo que possam ser consideradas absolutas por uns, terão sempre uma dualidade, um reverso que pode não ser esperado.





Escrevendo resenhas de livros: crítica positiva ou negativa?

24 08 2012

Aisha lendo Joseph Campbell, 2000

Milé Murtanovski (Canadá, 1979)

Aquarela,  57 x 57 cm

Milé Murtanovski

O artigo de J. Robert Lennon, How to write a bad review, do dia 18 de agosto deste ano, publicado na Salon, aborda um tema digno de reflexão: o papel a crítica nos romances de ficção.  Desde que a internet se tornou a sala de estar para o encontro de ideias e de gostos literários, vejo resenhas de livros de toda espécie.  A prática é mais acentuada nos Estados Unidos que têm longa tradição de incentivo nas escolas secundárias e no nível universitário à crítica de texto e à total liberdade de expressão.  Em suma, não há por lá os parâmetros que enfrentamos aqui no Brasil, quer na crítica literária, quer na campanha política, nem tampouco nas regras da publicidade.  Parâmetros que limitam  a comparação explícita de produtos semelhantes de diferentes marcas, que proíbem a menção de um concorrente em campanha política.  Essa distorção brasileira, que tenta abrandar a competição e evitar a priori o que poderia ser considerado competição “desleal” leva a que não se possa debater verdadeiramente qualquer assunto, muito menos uma obra de ficção.

Meu passado como leitora/crítica inclui resenhas publicadas para jornais americanos, algumas das quais chegaram até a ser mencionadas como blurb nas contracapas de edições mais populares de livros criticados por mim  – cito, como exemplo, a contracapa de The Road to Lichfield, de Penelope Lively.   Meu hábito de escrever resenhas vem de longa data, como já expliquei anteriormente no blog: faço-as porque elas me ajudam a finalizar, a sedimentar a leitura de um livro.  Quando a Amazon apareceu abrindo seu espaço para resenhas e até listas de recomendação, passei a escrever lá sobre livros que lia. Até listas de livros recomendados cheguei a fazer sobre assuntos diversos.

Café, década de 1920

Gerda Wegener (Dinamarca, 1886-1940)

gravura

O hábito veio comigo para o Brasil. Depois de me familiarizar com publicações brasileiras, coloquei algumas opiniões no portal da livraria online Submarino.  Qual não foi a minha surpresa ao verificar que pelas regras do portal, eu não poderia fazer comparações com qualquer outro livro [mesmo que do mesmo autor] e que as resenhas mais críticas, mostrando o meu desgosto ou desprezo pelo que acabara de ler, não poderiam e não foram publicadas.   Na época — e já lá se vão uns quase dez anos — fiquei pasma com o cerceamento à minha liberdade de expressão.

Comparando a experiência que tive entre esses semelhantes portais (ambas livrarias na rede que aceitavam a opinião dos leitores) havia uma evidente tentativa de censura a qualquer opinião negativa no Brasil.  Isso justificava, em parte,  a  insossa lista de opiniões sobre livros no portal da companhia brasileira.  Críticas ou opiniões que se limitavam a expressões adolescentes quer na idade ou na mente.  “AMEI!” ou pior ainda,” acho que vou gostar, ainda não li”  eram frases comuns encontradas nas supostas opiniões sobre livros de diversos autores.  Não sei se o portal Submarino mudou sua política quanto a opiniões dos leitores.  Não sei, porque me desinteressei de colocar minhas opiniões por lá.  E agora, já a caminho do quinto ano do blog, coloco minhas resenhas aqui e assim como no portal SKOOB onde nunca tive minhas opiniões limitadas ou censuradas.

Leitora, [La Liseuse] 1873

Jules Dalou (França, 1838-1902)

Terracota

Museu  de Arte, Rhode Island School of Design, EUA

Diferente do que propõe o autor J. Robert Lennon há alguns anos não escrevo resenhas de livros de que não gosto.  Já tive essa fase, e causei algum espanto quando desbaratei com um livro de contos da premiada Nadine Gordimer por achá-los previsíveis demais e outra em que reclamei dos lugares comuns na prosa de Isabel Allende.  A decisão de não escrever sobre aquilo de que não gosto vem dos últimos vinte anos. Não tenho a verve da ironia, do sarcasmo bem controlado, da palavra destruidora em uma única nota que vemos nos grandes críticos literários ou de arte. Esse dom me escapa. Ainda este mês, fiz uma pequena homenagem ao crítico de arte Robert Hughes, cujo falecimento havia sido anunciado.  Homenagem merecida por ele ter sido tão consistente na defesa de suas opiniões, mantendo-as claras, irônicas ou sarcásticas quando assim achava necessário.  Ele brindava o espírito crítico, o posicionamento sem apelos ao politicamente correto.  Muitos outros grandes críticos conseguem surpreender e suscitam um sorriso de reconhecimento por um ponto de vista sagaz, acurado, mesmerizante.  Isso acontecia com Gore Vidal, Oscar Wilde ou até mesmo Eça de Queiroz.  Minhas limitações não me deixam escrever assim, ainda que aprecie quem consiga se posicionar de maneira lúcida e aguda ao analisar um livro, uma obra de arte.

Por outro lado, depois que percebi o alcance que uma crítica colocada na rede pode ter, desisti de escrever resenhas de livros de que não gosto, de promovê-los mesmo que negativamente. Seria um absurdo fazer propaganda para algo que não endosso. Decidi então examinar porque certos livros se mostram interessantes na leitura e procuro explorar esse aspecto e incentivar as boas características do que leio ao longo do caminho.

Sem título

Carmen Segovia (Espanha, 1978)

www.carmensegovia.net

J. Robert Lennon menciona o grande número de críticas literárias que apareceram na rede desde a popularização dos blogs. Tanto nos Estados Unidos – de onde ele escreve – quanto no Brasil, onde nos encontramos, houve uma verdadeira inflação de resenhas literárias nos últimos dez anos.  Parece que todo mundo descobriu que pode dar a sua opinião.  E todos esperam que suas opiniões sejam lidas e apreciadas.  Deixamos de ficar calados e saímos à procura de “gente como a gente” nessa aventura coletiva da internet.  Esse fenômeno tem tudo para mudar o comportamento de todos os envolvidos: leitores e escritores.  Mas como está sendo usado?

Diferente dos Estados Unidos, a grande maioria dos usuários ativos na internet no Brasil  —   e certamente daqueles que se dispõem a escrever resenhas — são jovens.  Há uma timidez  no Brasil ao uso da internet por aqueles acima dos quarenta anos, e aversão generalizada por pessoas que temem a exposição demasiada, pelejam pela privacidade, como se não pudéssemos controlar aquilo que colocamos na rede.  Isso aumenta o domínio dos jovens nas discussões online, nos comentários, nos blogs, nas críticas.  Esses jovens críticos literários parecem estar ainda no processo de formação acadêmica na escola ou na faculdade. Testam suas habilidades e opiniões; procuram a identidade de suas cabeças pensantes.

A grande leitura do dia, 1950

Jean Hélion (França, 1904-1987)

óleo sobre tela, 128 x 190 cm

Coleção Particular

Nos portais dedicados à leitura, grande parte simplesmente copia e cola sinopses, menciona sem caracterização que adoraram a leitura, com uma ocasional menção da trama.  Parecem querer mostrar que leram os livros, mas fica por aí.  E há os que sentem a obrigação de mencionar autores clássicos, quando não filósofos, sedimentando suas opiniões nas raízes do passado, na boa atuação acadêmica, como se ter opiniões só fosse válido se nos mostrássemos eruditos. Refletem assim a posição acadêmica de praxe.  Na pressa de se mostrarem sábios ligam-se ao anacronismo da divisão de profetas da direita e da esquerda. Como se o mundo ainda se dividisse assim. Mas não é culpa deles.  É nossa.  Porque aceitamos diariamente esse tipo de discurso.

Há uma divisão marcante, cá, do lado de baixo do Equador,  entre Literatura e literatura, entre o que “Vale a pena ler” e o que “Não serve para nada”.  Uma divisão que desvenda um intelectualismo preconceituoso, uma hierarquização proporcional à elitização da cultura, um enfoque incompatível com a educação ampla e com o livre acesso digital.  Isso distancia bastante os intelectuais dos amantes da ficção.  Nos jornais, nos cadernos dedicados aos livros, cansamos de ver críticos esnobando o leitor médio, para dar espaço unicamente a alguma tese linguística do momento, alguma visão crítica europeia, que tira o chapéu para o filósofo da moda de esquerda ou para o filósofo que abandonou “os poderes nefastos da direita”.   Pouco se fala no prazer da leitura, nos motivos ou nas razões para nos deliciarmos, para refletirmos por algumas horas ou alguns dias, envolvidos por uma obra de ficção.  A leitura por esses supostos analistas da literatura não parece sedutora, não acorda sentimentos, não sacia fomes, não embriaga.

Robin com o amigo Trixie, em Torquay, 1952

Peter Samuelson (Inglaterra, 1912-1996)

óleo sobre tela, 64 x 84 cms

Coleção Particular

E, no entanto, são justamente as pessoas que não se interessam pelas teorias da moda, pelo filósofo do momento que agitam o mundo das publicações.  São esses leitores, que não se veem refletidos nos cadernos literários dos jornais, que mantêm editores, agentes e livrarias no azul, pessoas que compram livros recomendados por amigos, na mais preciosa das propagandas, o boca a boca, e que fazem de seus autores preferidos casos de sucesso literário, além, muito além da “mídia especializada”.  Diversos nomes ilustram essa divisão entre o que alguns consideram bons e o que o público aclama. A nossa história contemporânea de publicações está repleta desses fenômenos ignorados pela crítica, mas aplaudidos pelo público:  Rosa Montero, Muriel Barbery, Paolo Giordano, Fal Azevedo, Ronaldo Wrobel, Frances de Pontes Peebles, Maria Dueñas são só alguns dos que vêm à mente no momento. E não adianta dizer que o publico é inculto.  Aquele que hoje vai a uma livraria e compra um volume para leitura não é inculto.  É muitas vezes mais letrado do que os próprios críticos que se esforçam em preservar um preciosismo antiquado e segmentar as camadas de leitores, sem lhes dar crédito.  Todos perdem com essa cegueira que nos aflige: leitores, futuros leitores, autores, editores.  E nós também perdemos espaço para trocar ideias, para encontrar pessoas de gostos semelhantes, para analisarmos pela experiência o sentido da leitura.  Daí a crescente necessidade de grupos de leitura,  como recentemente mostrou o jornal O Globo do Rio de Janeiro, onde opinamos num ambiente de camaradagem, em que todos são iguais e respeitam diferentes pontos de vista.

Quanto às críticas literárias que destroem autores e livros, digam-me:  — Para quê e para quem?   Mas se você acredita que deve de fato destruir um livro, faça-o seguindo as poucas regras que J. Robert Lennon coloca em seu texto:

1 – Coloque a obra em contexto, de preferência lendo o maior número de títulos do autor.

2 – Tenha humildade quando mostrar sua opinião.

3 – Se o escritor é novato, ainda está no terceiro ou quarto livro, dê a ele crédito.

4 – Não critique o trabalho de seu inimigo

5 – Não seja um idiota

6 – Seja ponderado

7 – Lembre-se que o mundo da crítica literária é pequeno e não se importe quando alguém abominar o seu livro.





O conselho do Doutor Doido, conto tradicional brasileiro

25 05 2012

Contando histórias, ilustração de Maurício de Sousa.

O conselho do Doutor Doido

Um rapaz rico e solteiro desejava casar-se e começou a procurar noiva.  Um dia mandou preparar sua carruagem e passou por uma rua da cidade. Mandou parar, desceu e entrou numa casa.  Saiu uma mulher bonita e agradável.

— Senhora dona, me alcance um copo d’água!

A mulher foi buscar um copo d’água e agradou muito o rapaz que ficou satisfeito. Voltando para casa pensou em casar com ela.

No outro dia foi pedir água numa outra casa e saiu-lhe uma mulher ainda mais bonita e mais agradável. O rapaz ficou contente e achou que devia casar com ela.

No outro dia foi pedir de beber num rancho de palha onde foi servido por uma mocinha muito acanhada e bem parecida. O rapaz ainda gostou mais desta do que das outras. Para decicir procurou o padre vigário e pediu um conselho. O sacerdote disse:

— Vá procurar o Doutor Doido na Cidade Fulana. Ele não presta atenção a ninguém e vive passeando para lá e para cá, numa calçada. Diga o que quer e ouça o que ele disser.

O rapaz tomou sua carruagem e tocou-se para a Cidade Fulana. De tarde um criado do hotel levou-o para a tal rua onde ele viu o Doutor Doido andando para cima e para baixo, falando alto. O rapaz aproximou-se e contou o seu caso.

— Estou querendo casar e achei três mulheres que me agradam. Uma é mulher dama, outra uma viúva e a terceira uma moça donzela. Com quem devo dar a mão de esposo?

O Doutor veio cá e foi lá, e sem parar a marcha, respondeu:

— Quem sempre foi, sempre é. Besta velha não se acostuma em pasto novo! Quem nunca foi, vai-se fazer!

O rapaz tomou a carruagem, voltou e casou com a moça.

***

Em: Contos Tradicionais do Brasil (folclore), Luís da Câmara Cascudo, Rio de Janeiro,Ediouro: 1967

 

 





As melhores frases de abertura de romance em língua portuguesa? Dê o seu palpite!

29 04 2012

Minie lê um livro de autoajuda, ilustração Walt Disney.

Neste domingo, o jornal inglês The Guardian publicou uma lista das dez melhores primeiras frases de romances em língua inglesa.  A lista — The 10 best first lines in fiction — faz parte da seção de entretenimento e cultura do jornal que costuma ter um viés leve e jocoso nos fins de semana.  O objetivo é fazer com que durante o tempo de folga você pense nas suas leituras, e principalmente nas frases que, ao introduzir uma história, o fizeram de tal maneira que a continuação da leitura se tornou inevitável.

A lista inglesa inclui as aberturas para : 1)  Ulisses (1922) de James Joyce; 2) Orgulho e preconceito (1813) de Jane Austen; 3)  Jane Eyre (1847) de Charlotte Brönte; 4)  As aventuras de Huckleberry Finn (1884) de Mark Twain; 5) The luck of the Bodkins (1935) de P.G. Wodehouse; 6) Earthly Powers (1980) de Anthony Burgess; 7) I captured the castle (1948) Dodie Smith; 8) The Bell Jar (1963) de Sylvia Plath; 9) A história secreta (1992) de Donna Tartt; 10) A ilha do tesouro (1883) de Robert Louis Stevenson. [ Mantive os nomes em inglês dos livros que acredito não terem sido publicados em português].

Pensando nesse entretenimento, comecei a fazer a minha própria lista.  Mas resolvi pedir auxílio dos leitores, porque não me acho tão capacitada para o trabalho.  Faço uma sugestão e espero que os leitores possam vir a contribuir com outras.  Lembrem-se: Só a primeira frase. 

Início da lista de primeiras frases de impacto na literatura de língua portuguesa:

1)

“Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte”.

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS  (1881) – Machado de Assis

E a sua contribuição?

Aproveite o longo fim de semana e dê tratos à bola…




Nesse 8 de março algumas das minhas escritoras favoritas!

8 03 2012

Mulher lendo, s/d

Bertha Wegmann (Dinamarca, 1846-1926)

óleo sobre tela

Hoje, quando comemoramos o Dia Internacional da Mulher faço minha homenagem listando escritoras cujos livros se tornaram favoritos meus nos últimos anos.  Tenho muitos outros na lista de meus favoritos, mas coloquei aqui aqueles que, por razões diversas, voltam a me assediar com imagens, pensamentos, mesmo depois de meses ou até anos da leitura de sua última página. Talvez até seja injusto falar de escritoras.  Devo dizer livros escritos por mulheres que me tocaram por uma razão ou outra.  Vou me limitar aos livros em português, ainda que mais ou menos 50% das minhas leituras seja feita em outras línguas.

Não vou colocar aqui nenhuma ordem de preferência.  Assim a lista vai em ordem democraticamente alfabética.  [É possível que ao longo do dia eu ainda corrija essa lista, pois escrevo diretamente ao blog sem nenhuma premeditação, sem nenhum rascunho.

Ayaan Hirsi Ali

Infiel: a história de uma mulher que dasafiou o islã, Editora Cia das Letras: 2007

Doris Lessing

As avós — Editora Cia das Letras: 2003

Fal Azevedo

Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite — Editora Rocco: 2008

Felipa Melo

Este é meu corpo — Editora Planeta do Brasil: 2004

Frances de Pontes Peebles

A costureira e o cangaceiro — Editora Nova Fronteira: 2009

Gina B. Nahai

Chuva Dourada – Editora Ediouro: 2007

Maria Dueñas

O tempo entre costuras — Editora Planeta do Brasil: 2010

Muriel Barbery

A elegância do ouriço — Editora Cia das Letras: 2008

Rosa Montero

A louca da casa, Editora Agir: 2003

História do rei transparente, Editora Ediouro: 2006

Xinran

Enterro Celestial,  Editora Cia das Letras: 2004





Quando o que aprendemos já ficou ultrapassado!

21 12 2011

Biblioteca Pública de Chelsea, 1920

Malcolm Drummond (Grã-Bretanha, 1880-1945)

óleo sobre tela

Bridgeman Art Library

Um dos livros cuja narrativa me encantou nesse fim de ano foi  O aprendizado da srta. Beatrice Hempel, de Sarah Shun-lien Bynum [Rocco:2011].  É o tipo de livro que tem passagens que nos fazem reconhecer atitudes e maneiras de pensar.  Enfim, reconhecemo-nos e aos que nos circundam.  Hoje coloco aqui um trechinho  que mostra a realização de uma professora de história que descobre que o que havia insistido muito para que seus alunos da 7ª série aprendessem  e o que estava à beira de ensinar — determinados fatos da história americana —  acabava de ser ultrapassado por novas teorias e descobertas.

——-

“Tendo falado dos índios com tanta aprovação, a srta Hempel ficou consternada ao encontrar, numa tarde de domingo na livraria, uma publicação nova dedicada a contradizê-la.  Ficou parada no corredor, com o cenho franzido.  De acordo com as últimas descobertas antropológicas, os índios não eram grandes amigos da Natureza; eles arrasavam florestas, caçavam animais quase até a extinção, saboreavam petiscos, como o feto do búfalo, enquanto deixavam a mãe se decompor lentamente ao sol.

O livro estava exposto numa prateleira com uma variedade de outros livros, todos aparentemente com a mesma tendência.  A srta Hempel percebeu que uma pequena indústria tinha surgido cujo único objetivo era revelar as mentiras e as mistificações da história americana.  Paul Revere não gritou “Os britânicos estão chegando!”  Thomas Jefferson seduziu, sim, e engravidou Sally Hemings, sua escrava.  Os fundadores da nação não estavam “nem um pouco interessados em igualdade para todos”.  E o biruta do John Brown era perfeitamente são.  Até mesmo a teoria da ponte entre os continentes estava sob ataque.  Parecia que, afinal de contas, os primeiros americanos não tinham chegado perambulando pelo estreito de Bering.

A srta Hempel se sentiu irritada e traída.  Tinha levado muito tempo para ler América! América!, e agora cá estava uma prateleira inteira de estudos acadêmicos lançando dúvida sobre tudo o que ela estava prestes a ensinar.

No entanto, ela admitia que esses livros realmente pareciam necessários; sua existência fazia sentido para ela.  Era tão difícil contar a história com fidelidade.  Não se podia confiar que uma pessoa conseguisse relatar o seu próprio passado com fidelidade, muito menos a história de um país inteiro.”