Reminiscências da vida colegial, texto José de Alencar

14 10 2013

1 - escola Nikolai Bogdanov-Belsky (1868-1945) 1

Aula de aritmética, s.d.

Nicolai Bogdanov-Belsky (Rússia 1868-1945)

óleo sobre tela

II — REMINISCÊNCIAS DA VIDA COLEGIAL

 No ano de 1840 frequentava eu o Colégio de Instrução Elementar, estabelecido à rua do Lavradio n. 17, e dirigido pelo Sr. Januário Matheus Ferreira, a cuja memória eu tributo a maior veneração.Depois daquele que é para nós meninos a encarnação de Deus e o nosso humano Criador, foi esse o primeiro homem que me incutiu respeito, em que macatei o símbolo das autoridades. Quando me recolho da labutação diária com o espírito mais desprendido das preocupações do presente, e sucede-me ao passar pela rua do Lavradio pôr os olhos na tabuleta do colégio que ainda lá está na sacada do n. 17, mas com diversa designação; transporto-me insensivelmente àquele tempo, em que de fraque e boné, com os livros sobraçados, eu esperava ali na calçada fronteira o toque da sineta que anunciava a abertura das aulas. Toda minha vida colegial se desenha no espírito com tão vivas cores, que parecem frescas de ontem, e todavia mais de trinta anos já lhes pairaram sobre. Vejo o enxame dos meninos, alvoroçando na loja, que servia de saguão; assisto aos manejos da cabala para a próxima eleição do monitor geral; ouço o tropel do bando que sobe as escadas, e se dispersa no vasto salão onde cada um busca o seu banco numerado. Mas o que sobretudo assoma nessa tela é o vulto grave de Januário Matheus Ferreira, como eu o via passeando diante da classe, com um livro na mão e a cabeça reclinada pelo hábito da reflexão.Usava ele de sapatos rinchadores; nenhum dos alunos do seu colégio ouvia de longe aquele som particular, na volta de um corredor, que não sentisse um involuntário sobressalto.

Januário era talvez ríspido e severo em demasia; porém, nenhum professor o excedeu no zelo e entusiasmo com que desempenhava o seu árduo ministério. Identificava-se com o discípulo; transmitia-lhe suas emoções e tinha o dom de criar no coração infantil os mais nobres estímulos, educando o espírito com a emulação escolástica para os grandes certames da inteligência.Os modestos triunfos, que todos nós obtemos na escola, e que não vêm ainda travados de fel como as mentidas ovações do mundo; essas primícias literárias tão puras, devo-as a ele, a meu respeitável mestre que talvez deixou em meu ânimo o gérmen dessa fértil ambição de correr após uma luz que nos foge; ilusão que felizmente já dissipou-se. Dividia-se o diretor por todas as classes embora tivesse cada uma seu professor especial; desse modo andava sempre ao corrente do aproveitamento de seus alunos, e trazia os mestres como os discípulos em constante inspeção. Quando, nesse revezamento de lições, que ele de propósito salteava, acontecia achar atrasada alguma classe, demorava-se com ela dias e semanas, até que obtinha adiantá-la e só então a restituía ao respectivo professor. Meado, o ano, porém, o melhor dos cuidados do diretor voltava-se para as últimas classes, que ele se esmerava em preparar para os exames. Eram estes dias de gala e de honra para o colégio, visitado por quanto havia na Corte de ilustre em política e letras. Pertencia eu à sexta classe, e havia conquistado a frente da mesma, não por superioridade intelectual, sim por mais assídua aplicação e maior desejo de aprender. Januario exultava a cada uma de minhas vitórias, como se fora ele próprio que estivesse no banco dos alunos a disputar-lhes o lugar, em vez de achar-se como professor dirigindo os seus discípulos.

Como e porque sou romancista, José de Alencar, Rio de Janeiro, Leuzinger: 1893 em DOMÍNIO PÚBLICO





Um gesto que fala: Paulo Coelho na Feira do Livro de Frankfurt

8 10 2013

GEORGINA DE ALBUQUERQUE (1885-1962) A Leitura ost, Ass. cid 42 x 32 cm.A leitura, s/d

Georgina de Albuquerque (Brasil, 1882-1962)

óleo sobre tela, 42 x 32 cm

No início de setembro uma pequena notícia, durante a Bienal do Livro, aqui no Rio de Janeiro, atraiu a minha atenção: descobriu-se que apesar das vendas de livros de ficção terem aumentado muito no Brasil, os leitores brasileiros preferiam a ficção estrangeira.  Preferem-na em grandes números.  A leitura de ficção no Brasil aumentou no último ano 42%, mas só tivemos 11% de aumento nas vendas do mesmo gênero por escritores nacionais.  Os brasileiros se recusam a comprar e a se render ao encanto dos escritores brasileiros. Isso não me pareceria normal não estivesse eu envolvida em projetos de divulgação da leitura. Sei que é verdadeiro. É uma daquelas nossas vergonhas, que varremos para debaixo do tapete, porque desvendá-la e trazê-la à luz, estragaria os prazeres de muita gente que se acredita responsável pela cultura nacional.

Aplaudo portanto o gesto de Paulo Coelho quando se recusou a participar como representante dos escritores brasileiros na maior feira de livros do mundo, a Feira de Frankfurt, na Alemanha, onde o Brasil é o país homenageado, este ano. Como divulgado pela Folha de São Paulo o escritor brasileiro mais vendido no mundo inteiro fez um ato de imolação a favor dos autores de ficção no Brasil, os verdadeiramente aclamados pelo público, aqueles que são lidos e relidos, e que representam a sociedade brasileira, de fato.

Reynaldo Fonseca, Leitura interessante, glicê, 55x65cm tiragem 10Leitura interessante

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)

gravura glicée, tiragem 10

Paulo Coelho não aprova “a maneira como o Brasil representa sua literatura“.  Concordo.  Os critérios de escolha são uma incógnita.  Por que?  Porque uma feira como a de Frankfurt, uma feira comercial que tem representantes de editoras estrangeiras querendo fazer negócios, comprar livros brasileiros de autores brasileiros, deveria ser um local onde os escritores que mais agradam aos brasileiros, os escritores que mais vendem no Brasil, fossem escolhidos para nos representar. Por que imaginar que eles gostariam de comprar autores que não têm apoio dos leitores?  As editoras não são ONGS.  São negócios.  Vivem de comprar e vender.  Se não apresentamos autores vendáveis, roubamos de nós mesmos a oportunidade de fazermos a nossa cultura conhecida.

Fico surpresa com as escolhas de autores.  Como explicar, por exemplo, que escritores como Eduardo Spohr, Thalita Rebouças, André Vianco, Raphael Draccon só para citar alguns, não estejam na lista daqueles que representam o gosto do leitor brasileiro?  Alguns dos escritores brasileiros indo à feira só são fenômeno de vendas porque têm contratos governamentais.  Cadê na lista os escritores que conseguem se fazer sem qualquer desses apoios?  Que conseguem se apoiar em si mesmos, naquilo que escrevem?

Maria Sylvia cordeiro, menina lendo, ost 80 x 100Menina lendo, s/d

Maria Sylvia Cordeiro (Brasil, contemporânea)

óleo sobre tela, 80 x 100 cm

Manoel Costa Pinto disse que os autores escolhidos eram aqueles agraciados com os principais prêmios de literatura do país e com “qualidade estética”.  “Qualidade estética”?  O que é isso? E, sinceramente, escolher os autores que ganharam prêmios literários…  esse é justamente o problema do Brasil.  Na maioria da vezes damos prêmios a quem o brasileiro não lê e ignoramos acintosamente aqueles que são sucesso comercial. Eliminar quem é sucesso de vendas no Brasil é uma posição pretensiosa, de quem usa uma forma e quer que seus representantes sejam só desse ou daquele jeito, que caibam nos limites da “qualidade estética” do momento.  Isso é um posicionamento elitista de quem acredita que o leitor, que não subscreve certa política, certa filosofia, o leitor, que não leva a sério as considerações filosóficas dos “profetas” da nossa literatura,  é um ignorante, um imbecil, que não sabe escolher.  É uma posição anacrônica que não cabe numa sociedade pluralista, numa sociedade onde ler faz parte daquilo que se faz por entretenimento, por diversão, por gosto.

Vergonha nacional este tipo de escolha “que vem de cima”.  Esta lista nos rouba de uma melhor representação de quem somos para o mundo.  Uma vergonha que Eduardo Sphor, autor que já vendeu mais de 600.000 volumes no Brasil, não esteja lá nos representando, nem Vianco, nem Thalita Rebouças, nem Raphael Draccon que são autores com fã-clube no Brasil.  Pobre Brasil que continua a ver literatura como uma maneira de seleção de classe social, como um divisor de águas entre “os iluminados” e o povo. Estamos muito mal servidos, como em tudo o mais no país, para ser franca.





Ilustrando os entraves para uma boa educação

12 09 2013

amorepsicheEros e Psiquê, 1787-1793

Antonio Canova (Itália, 1757-1822)

Mármore

155 x 168 cm

Museu do Louvre, Paris

A lenda grega de Eros e Psiquê está entre as mais conhecidas por todos aqueles que se dedicam aos estudos humanistas,  das  artes visuais à psicologia. É uma história deliciosa, constantemente  referenciada na pintura, na escultura.  Também serve de pano de fundo ou de base de estudo para a psicologia – Freud, Carl Jung, James Hillman entre outros fizeram uso extensivo do mito para o entendimento do ser humano.

A versão mais difundida dessa lenda é de autoria de Apuleio, autor latino do século II  que escreveu o romance picaresco Metamorfose, ou como é mais popularmente conhecido O asno de ouro. Psiquê e Eros é na verdade uma das histórias contadas no livro de Apuleio, em que um homem, transformado em burro, precisa passar por diversos obstáculos a ele impostos para receber a graça de voltar à forma humana.  Mas sabemos que a lenda de Eros e Psiquê data dos tempos áureos da Grécia antiga.  Há representações desse romance por volta de 400 a.C.  Platão e Plotino entre outros pensadores de longa data também fazem referências à essa história.  Em suma, trata-se de um clássico da cultura ocidental, texto essencial para melhor conhecimento dos princípios humanísticos.

ZEUGMA MOSAICS (1st to 2nd century C.E.) in Gaziantep Museum, Gaziantep, Turkey The winged god Eros (Love) sits on a throne beside his wife Psykhe (Soul), or mother Aphrodite

Eros sentado ao lado de sua esposa Psyquê, séc. I-II d.C.

Mosaicos Zeugma

Museu de Gaziantep, Turquia

De todos os clássicos que li na minha formação como historiadora da arte O asno de ouro foi um dos pude ler sem quaisquer dificuldades de entendimento graças à belíssima tradução de E.F. Kennedy.  Sim, como estudei fora do país, fiz a leitura desse clássico, em inglês, The Golden Ass, na edição Penguin de bolso.  O meu volume, com anotações a lápis, com marcas em tinta amarela para ressaltar partes do texto, está caindo aos pedaços e subsiste preso com um forte elástico que mantém capas e recheio juntos.  Desfazer-me dele?  Nunca.  Este volume tem a história das minhas leituras.  Sendo uma edição de bolso, de custo mínimo, nunca pensei que poderia estar tratando casualmente demais uma obra que pudesse ser um dia tratada como rara. Era e é uma ferramenta de trabalho.

Fiquei escandalizada quando ao preparar minhas notas para a discussão em aula do quadro Primavera, 1478-82, de Sandro Botticelli [acervo da Galleria degli Uffizi, Florença] e procurei nas livrarias cariocas O asno de ouro de Apuleio.  Não existe.  Há no momento duas edições em português que, se interessada, eu poderia encomendar em Portugal.  Há a edição simplificada do romance original titulada: Conto de Amor e Psiquê, que reduz o livro de Apuleio justamente à história que dá nome à esta edição, publicada pela Biblioteca dos Editores Independentes, 128 páginas.  Para essa compra teria que esperar 70 dias para a entrega.  Esta beleza, sem custo de transporte, me custaria R$23,90.  Não gosto de clássicos reduzidos.  Perde-se a beleza do texto, ainda mais quando o texto já é traduzido [nesse caso traduzido do latim]. É como ler as notas chamadas BURRO, notas de resumos de obras clássicas para se dar a impressão se ser mais erudito do que se é.  Essas edições me lembram os anos em que eu estudava piano e no afã de mostrar que fazia progresso, muitas vezes tentei  as  “peças facilitadas” que nunca soaram bem: uma idiotice que não engana ninguém.

goldenassbO asno de ouro, c. 1530

Anônimo

afresco

Salle delle Gesta Rossiane

Rocca dei Rossi,  San Secondo, Itália

Há também a possibilidade de comprar O Burro de Ouro [sic] [Por que trocar o nome de um clássico?  No mundo inteiro a palavra usada é ASNO.]  da editora portuguesa Cotovia, 250 páginas, também levando 70 dias no mínimo para entrega.  Esta beleza leva o preço de R$113,90.  Ou seja, não é só o burro que é de ouro, as letras impressas também devem ser.  R$113,90 equivalem a 17% do salário mínimo brasileiro, sem o custo de transporte de Portugal para o Brasil.

ga30O asno de ouro, 1905

Henry Justice Ford (1860-1941)

Agora vamos a algumas considerações.  Portugal tem 10.000.000 – dez milhões de habitantes, o Brasil tem 198.000.000 – cento e noventa e oito milhões. Portugal tem duas edições do romance de Apuleio. O Brasil tem ZERO. Há algo de errado.  O Brasil tem 19 vezes mais habitantes do que Portugal.  Mesmo que tenhamos uma percentagem pequena que letrados, não se justifica que não tenhamos a possibilidade de acesso a um clássico de importância em diversos campos de estudos universitários, em português.  É inadmissível  que não se possa comprar por um preço razoável esse texto; que não haja uma única editora dedicada ao nicho dos clássicos; é bom lembrar que se trata de uma publicação do século IV, ou seja, em domínio público.  A tradução pode não estar em domínio público, mas quanto custa re-editar, quanto custa o pagamento de uma revisão da tradução já feita?

AWB1895

O rapto de Psiquê, 1883

Adolphe-William Bouguereau (França, 1825-1905)

óleo sobre tela, 209 x 120 cm

Coleção Particular

Porque eu  só tinha acesso ao meu texto em inglês, continuei querendo uma edição em que pudesse colocar as mãos sem ter que ir à Biblioteca Nacional.  Eu queria poder fazer uma citação em português para meus alunos e vendo-me exasperada com os 70 dias de espera e com o preço exorbitante, fui ao portal da Estante Virtual,  e as surpresas continuaram: há muitas publicações na seção infanto-juvenil – as tais facilitadas.  Há uma até na seção de Genealogia (essa eu também não entendi). Mas  só uma única publicação do texto integral à venda nesse consórcio de sebos brasileiros.  É de 1963, da editora Cultrix.  E pasmem: está classificada como LIVRO RARO, e custa a bagatela de R$99,90 + R$4,63 de frete de São Paulo para o Rio de Janeiro. E tem mais, não está lá em boas condições, segue a descrição no portal: Livro com sinais de uso, fitas adesiva na lombada devido a rasgos, manchas no miolo, lombada levemente descolando, manchas no verso da capa e da contracapa, sinais de desgastes, sinal de dobra na lombada, 235p. O livro Asno de Ouro é o único romance a ter sobrevivido inteiro da época do Império Romano, foi escrito em no século II d. C e conta a história de um rapaz chamado Lucius que foi transformado em asno por uma feiticeira. Esse livro serviu como inspiração para muitos autores clássicos como Boccaccio, Cervantes e Shakespeare.[o negrito é meu] Ah, eles também tem uma edição em italiano…

Para ter certeza de que não estava me revoltando sem razão fui a Amazon, onde encontrei um clássico de bolso, edição integral, igual ao meu volume, tradução de E.F. Kennedy,  por USD$ 10.89 [no câmbio de hoje, R$26,00]; encontrei também outras edições, um mundo de opções a preços muito tentadores: uma com a tradução de Sarah Ruden, a USD$ 12.60 [R$30,00], pela Yale University Press; uma edição com tradução do grande Robert Graves, da editora Farrar, Straus and Giroux, a USD $ 11.08 [R$ 26,00]; uma edição da Oxford University Press, tradução de P. G. Walsh ao custo de USD$ 10.45 [R$25,00]; Jack Lindsay é o tradutor na edição da Indiana University Press USD$ 14.40 [35,00];  a edição da Hackett Pub Co, com tradução Joel C. Relihan tem o preço de USD$ 13,30 [R$32,00], isso sem me ater ao livros que eu poderia baixar da internet, para leitura digital.

Cupid and Psyche (1st century, painting, Pompeii)Eros e Psiquê, século I

afresco

Pompéia

São muitas as edições a preços populares encontradas nos Estados Unidos.  Não devemos portanto nos surpreender da preferência que nossos alunos têm pelo uso constante do inglês; nem nos surpreender pelo desenvolvimento na maior parte das áreas de humanas e das ciências do nosso vizinho no norte.  Porque é de detalhes como esse, é da facilidade de se poder acessar informação que se faz uma cultura, que se distribui conhecimento.

Essa experiência demonstra uma das muitas dificuldades encontradas na educação brasileira. É lamentável.  É um exemplo pequenino que ilustra eloqüentemente as razões do nosso constante subdesenvolvimento intelectual.  Se esses volumes de obras clássicas não trazem lucro para as editoras, seria o caso de se abrir uma ONG com o intuito de publicar e distribuir clássicos no Brasil?  De cuidar que eles estivessem sempre nas prateleiras das nossas livrarias para venda?   Não tenho a solução. Tampouco acredito em soluções governamentais porque no Brasil elas não parecem ter continuidade.  Nossa salvação será a Penguin brasileira, talvez.  Mas deixaremos as decisões do que faz a cultura brasileira nas mãos de estrangeiros, mais uma vez. Pena.





A imaginação é a solução: “O Sr. Pip” de Lloyd Jones

29 07 2013

Aldemir Martins (1922-2006) - Paisagem com sol amarelo - Acrílica sobre tela - 18,5 x 22,5 cm - 2000Paisagem com sol amarelo, 2000

Aldemir Martins (Brasil, Brasil, 1922-2006)

acríica sobre papel, 18 x 22 cm

Coleção Particular

Não me surpreende que este romance tenha levado o prêmio  de melhor livro em 2007, dentre os Escritores da Commonwealth, e que nesse mesmo ano tenha sido um dos finalistas do Man Booker Prize. O Sr. Pip, já nasceu um clássico.  E gerações futuras irão se encantar, aprender e se alimentar nessa surpreendente fonte de sabedoria elaborada por Lloyd Jones.

A história se passa em Bourgainville, arquipélago de Papua-Nova Guiné.  O enredo, entrelaçado com eventos reais durante a guerra civil de 1991, chega até nós através dos olhos de Matilda, uma menina-moça.  Lloyd Jones foi muito feliz na voz que encontrou para Matilda, a pré-adolescente, que encontramos com aproximadamente 13 anos e que nos seduz por sua candura e inteligência.  Seguimos seu crescimento até a idade adulta, físico e emocional. Mas é  o tom encontrado para ela, uma harmoniosa combinação da inocência da criança com a voz que amadurece por necessidade, que torna o livro sedutor.

O_SR_PIP_1255702135P

Inicialmente Matilda não tem meios de entender o mundo que a rodeia; a realidade da guerra civil é incompreensível. Despojadas dos confortos cotidianos, as crianças da ilha encontram em um de seus habitantes, Sr. Watts, uma maneira de se preservarem.  Ele se torna professor da criançada, quando já quase nada mais resta no local além da escola vazia, abandonada, cheia de lagartixas e trepadeiras crescendo de encontro às paredes.

Sr. Watts têm métodos diferentes de ensinar e com ele as crianças adquirem meios para lidar com a devastadora realidade que as cerca. Matilda segue seu professor passo a passo e acaba se apaixonando pelo personagem Pip, do livro Grandes Esperanças de Charles Dickens, o livro que todos lêem e relembram.

lloyd_jonesLloyd Jones

Com essa simples e transparente narrativa Lloyd Jones nos entrega uma pequena obra prima sobre o poder da imaginação, sobre as funções da literatura, sobre justiça e dignidade. Tudo através da metodologia de  Sr. Watts que seduz com sua paixão tanto seus alunos na ilha, quanto nós  leitores mesmerizados.  Como subtexto, temos uma vigorosa defesa do papel da literatura na vida de quem a ela se dedica, leitor ou escritor.  Através do Sr. Watts aprendemos também que temos diversas vidas, diversos papéis, que vão sendo adaptados às diferentes situações, de acordo com as nossas  necessidades.  Um saudável e belíssimo manual de sobrevivência através da criação literária.





A lista dos dez melhores livros

24 07 2013

Arie Azene (Israel)Bistrô Café

Arie Azene (Israel, 1934)

Serigrafia, 55 x 90cm

Quem resiste às listas?  Eu não consigo.   No final do mês de janeiro de 2012, a publicação virtual Brain Pickings publicou a lista de livros favoritos de todos os tempos de acordo com 125 escritores que foram entrevistados.  Vale lembrar que esta é uma revista virtual, representativa das culturas anglo-americanas, consequentemente as preferências dos escritores são voltadas aqueles escritores que causam impacto nessas sociedades, que são lidos obrigatoriamente pelos alunos de escola, livros que marcam presença.  A lista se tivesse sido feita na França certamente teria uma relação diferente de livros e autores mais importantes, assim como a nossa lista, cá pelo Brasil,  provavelmente incluiria alguns desses escritores, é óbvio, mas muitos outros de autores brasileiros.

A definição de MELHORES também precisa  ser bem entendida.  Não estamos aqui, falando de livros de importância para o mundo da arte literária, em geral, mas daqueles livros que têm significação importante para o leitor.  Pode até não ser a obra prima de um específico escritor, mas estar listado justamente por ter embalado sonhos, falado à alma, tocado o coração daqueles que se deram ao trabalho de listar seus favoritos.

Não vou repetir a lista dos favoritos dos séculos XIX e do século XX.  Se você está interessado, clique no link acima e veja a lista. Foram considerados  romances, coleções de contos, peças de teatro e poemas. Vou fazer observações sobre duas outras listas, publicadas no mesmo artigo de Maria Popova:

TOP TEN AUTHORS BY NUMBER OF BOOKS SELECTED —

[Os dez autores melhor colocados pelo número de livros selecionados]

  1. William Shakespeare — 11
  2. William Faulkner — 6
  3. Henry James — 6
  4. Jane Austen — 5
  5. Charles Dickens — 5
  6. Fyodor Dostoevsky — 5
  7. Ernest Hemingway — 5
  8. Franz Kafka — 5
  9. (tie) James Joyce, Thomas Mann, Vladimir Nabokov, Mark Twain, Virginia Woolf — 4
TOP TEN AUTHORS BY POINTS EARNED

[Os dez autores melhor colocados pelo número de pontos ganhos]

  1. Leo Tolstoy — 327
  2. William Shakespeare — 293
  3. James Joyce — 194
  4. Vladimir Nabokov — 190
  5. Fyodor Dostoevsky — 177
  6. William Faulkner — 173
  7. Charles Dickens — 168
  8. Anton Chekhov — 165
  9. Gustave Flaubert — 163
  10. Jane Austen — 161

Notem que há duas mulheres listadas com obras mencionadas, mas só Jane Austen, que tem 5 livros mencionados entre os 10 melhores, aparece na lista de pontos e  acaba em 10º lugar.   James Joyce que teve 4 obras  mencionadas, aparece em 3º lugar por pontos.  Pelo visto não vale a pena escrever muitos excelentes livros.  Pode-se escrever poucos, talvez nem tão apreciados por todos e ainda assim ter uma boa posição entre os 10 +.  Henry James, dessas listas, um dos meu favoritos, foi mencionado por 6 de suas obras.  Seis!  e não aparece na listagem de pontos.  Nem Kafka, lembrado por 5 publicações.  Oh, pobre William Shakespeare, com 11 trabalhos mencionados, ficou em 2º lugar pelo número de pontos coletados, perdendo para Tolstoy.  É por isso que essas listas estão sempre sendo feitas e estarão sempre atraindo a atenção de quem gosta de ler e de defender seus autores preferidos.  Elas são completamente subjetivas; elas refletem não só as preferências pessoais como o momento de cada um dos entrevistados.

Se você fizer uma lista dos livros que mais tiveram significado para você quando adolescente e depois outra lista para cada cinco anos após a adolescência, tenho certeza de alguns autores ou livros permanecerão presentes, mas outros estarão sendo adicionados desbancando ícones do passado. Essa é uma das belezas da leitura:  ela pode preencher ou refletir as nossas necessidades emocionais e mudar a medida que mudamos interiormente.





O Dogue — fábula de Lachambeaudie — (imitação) de Paula Brito

24 07 2013

arthur_wardle_-_press_gang_1902_os_24x30

Capataz, 1902

Arthur Wardle (Inglaterra, 1860-1949)

óleo sobre tela, 60 x 75 cm

O Dogue

Fábula de Lachambeaudie

(Imitação)

Paula Brito

Um Dogue belo, gordo e luzidio,

Dos que mui raro são aqui no Rio,

Num arrabalde de Paris, sozinho

Ia, calado, andando o seu caminho;

Um rústico aldeão, porém, ao vê-lo

Procurando a maneira de entretê-lo,

Atira-lhe uma pedra e diz — carrega;

O cão olha para ela e nem lhe pega.

No mesmo instante ao cão uma criança

Se chega e de o amimar tendo a lembrança,

Dá-lhe uma flor, na qual o Dogue pega,

E contente de si a flor carrega.

—–

Neste fato se vê que a grosseria

Té mesmo ao cão doméstico arrepia;

Assim os homens são! — Os ensinados

Servem para ensinar os malcriados.

Em:  O Espelho: revista de literatura, modas, indústria e artes, n. 9,  30 de outubro de 1859, p.11. da edição em facsímile, Rio de Janeiro, MEC:2008, p. 121

———–

Paula Brito  (Brasil, 1809-1861)





Minuto de sabedoria — Alexandre Herculano

23 07 2013

Jurandi Assis (BA, Brasil, 1939) Lendo no Campo  OST 48cmx60cmLendo no campo, s/d

Jurandi Assis (Brasil, 1939)

óleo sobre tela, 48 x 60 cm

“Querer é quase sempre poder: o que é excessivamente raro é o querer.”

240px-Alexandre_Herculano  Alexandre Herculano (Portugal, 1810-1877)





FLIP: equilíbrio entre a política e a arte literária?

9 07 2013

?????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????A discussão, 1959-60

Renato Guttuso (Itália, 1911-1987)

têmpera, óleo e jornal sobre tela, 220 x 249 cm

Tate Gallery, Londres

A questão lançada pela FLIP (Feira Literária Internacional de Paraty) para o resto do ano: qual é o ponto de equilíbrio entre o debate literário e a política?

Com Graciliano Ramos homenageado seria impossível deixar de falar de política em Paraty.  Além disso, as demonstrações nas ruas do Brasil durante a Copa das Confederações fizeram-se lógicos assuntos de conversa.   Mas ter a política como assunto predominante na feira  foge do que há de melhor nesse encontro, que é a celebração da arte literária.  Concordo com John Bainville.  Quando questionado sobre a política e a literatura foi claro ao afirmar que “Não dá pra misturar arte e política, porque acaba saindo arte política e política ruim“.

É claro que todos que queiram usar suas habilidades artísticas a serviço da política têm o direito de se manifestar dessa forma, mas em geral, a arte com mensagem política ou social, raramente chega a ser de boa qualidade.  E frequentemente perde o frescor e a originalidade. Em literatura, a política torna o texto  fugaz, com data de validade.

E a pergunta continua válida: haverá mesmo a necessidade de se saber o que um romancista pensa da política?  De que lado político ele vê o mundo? Não acredito nisso.  A obra deve se sustentar por si só.  Boa ou ruim,  liberal ou conservadora, marxista ou capitalista.  Não importa, o que fica é a obra.





O vendedor de cocadas, texto de Marques Rebelo

7 05 2013

artigos.imagens.A0110.I00173 O vendedor de cocada

Darcy Cruz (Brasil, 1931)

óleo sobre tela, 50 x 70 cm

Ibac

9 de fevereiro [1941]

Cavalete ao ombro, grande baú pintado no cocuruto da cabeça pixaim, com uma folha de laranjeira contra os lábios, o doceiro emitia esperadíssimos sons anunciando-se à freguesia. Cocada brancas e pretas, quindins, bons-bocados, papos-de-anjo, pastéis de nata, bolinhos de cará, beijus, balas de ovo, de leite de coco, de guaco – ótimas para a tosse! Um universo de açúcar.

Era velho o preto, chamava mamãe de Iaiá, tinha sempre uma bala de quebra para Cristinha. Sua hora era pelo meio do dia, quando o sol ia a pino. Três vezes passava o padeiro empurrando a barulhenta carrocinha aprovisonadora. Deixava-se entregue à vigilância de um moleque e lá ia, peludo e bigodudo, de casa em casa, a cesta coberta com um pano braço que já fora saco de farinha. Pão francês, pão alemão, pão italiano (um pouco massudo), pão-de-provença, de milho, de forma, de ovo, pão trançado, pão-cacete e periquitos – a três por um tostão, obrigatórios nas merendas escolares – e roscas de barão, rosquinhas de manteiga, caramujos, tarecos, cavacos, joelhinhos, bolachas de água e sal. Tudo quente, cheiroso, estalando – a vida abundante, solícita, módica, vida provinciana para sempre extinta”.

Em: A mudança, Marques Rebelo, 2º volume de O Espelho Partido, São Paulo, Martins: 1962





Os dez maiores pensadores do mundo? Você concorda?

26 04 2013

The_Thinker__1876-1877, Pierre AUguste Renoir, ost

Jovem sentada ou A reflexão, 1876-77

Pierre-Auguste Renoir (França, 1841-1919)

óleo sobre tela, 66 x 55 cm

Barber Institute of Fine Arts, Birmingham,

Inglaterra

A revista Prospect acabou de contabilizar sua enquete – feita a cada cinco anos – para eleger os maiores pensadores do momento. A lista traz nomeações de todos os caminhos, de diversas partes do mundo. Há um único brasileiro entre os 65 selecionados.  Para minha surpresa, esse foi Roberto Mangabeira Unger, classificado em 40º lugar.

Considerando-se que a maior parte dos leitores da Propect são fluentes em inglês,  usuários assíduos da internet e tem uma educação bem acima da média, acho que a lista é muito mais eclética do que eu teria imaginado se houvesse ponderado a respeito.  Teria  uma enorme predominância de americanos.  E no entanto, apesar de  estarem fortemente presentes – são 22 de 65 – um terço portanto não chegam à maioria e são  seguidos pela Inglaterra, país que aparece com 10 eleitos.

 Foram 10.000 eleitores  de mais de 100 países.  Interessante: em literatura há poucos mencionados, mas a grande potência nesse ramo é a Inglaterra.  Arundhaty Roy dentre os escritores é a melhor colocada, nativa da Índia, ganhou o Booker Prize, com  um dos mais interessantes romances do final do século passado: O Deus das pequenas coisas. Um dos meus favoritos de todos os tempos.  Ela é a primeira mulher a aparecer, colocada em nº 15 na lista.  Mas aparece aqui  por seu trabalho como ativista, já que o romance mencionado acima foi seu primeiro e único romance.   Outros escritores listados são David Grossman – que só conheço por seus trabalhos para adolescentes – lembro-me de ter lido Alguém para correr comigo;  Hilary Mantel, que conheço de seu trabalho anterior a  Wolf Hall sobre a Inglaterra de Thomas Cromwell, aclamado pela excelência em romance histórico e Zadie Smith, também inglesa cujos livros Dentes brancos e Sobre a beleza, foram excepcionalmente marcantes na minha lista de favoritos da década passada.  Não conheço o trabalho de Andrew Solomon.

Será que você conhece algum deles?

1. Richard Dawkins (UK), biólogo

2. Ashraf Ghani (Afeganistão) economista

3. Steven Pinker (Canada)psicólogo e linguista

4. Ali Allawi (Iraque)economista

5. Paul Krugman (EUA)economista e jornalista

6. Slavoj Žižek (Eslovênia) filósofo

7. Amartya Sen (Índia)economista

8. Peter Higgs (UK) físico teórico

9. Mohamed ElBaradei (Egito)diplomata

10.Daniel Kahneman (Israel)teórico da finança comportamental

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Moça com livro, 1879

José Ferraz de Almeida Júnior (Brasil, 1850-1899)

óleo sobre tela

Museu de Arte de São Paulo

11. Steven Weinberg,  (EUA), físico
12. Jared Diamond, (EUA) biólogo,antropólogo
13. Oliver Sacks, (UK) psicólogo
14. Ai Weiwei, (China)  artista plástico
15. Arundhati Roy, (Índia) escritora e ativista
16. Nate Silver, (EUA) estatístico
17. Asgar Farhadi, (Irã) cineasta
18. Ha-Joon Chang,(Coréia)  economista
19. Martha Nussbaum,(EUA), filósofa
20. Elon Musk, (África do Sul) empresário
21. Michael Sandel,(EUA) filósofo
22. Niall Ferguson,(UK) historiador
23. Hans Rosling, (Suécia) médico-estatístico
24. Anne Applebaum,(EUA), jornalista
25. Craig Venter, (EUA) biólogo
26. Shinya Yamanaka, (Japão)médico-biólogo
27. Jonathan Haidt, (EUA) psicólogo
28. George Soros, (EUA) filantropo
29. Francis Fukuyama, (EUA) cientista político
30. James Robinson e Daron Acemoglu, (EUA) cientista político e economista
31. Mario Draghi,(Itália) economista
32. Ramachandra Guha,(Índia) historiador
33. Hilary Mantel, (UK) escritora
34. Sebastian Thrun, (Alemanha) ciências informáticas
35. Zadie Smith, (UK) escritora
36. Hernando de Soto, (Peru) economista
37. Raghuram Rajan, (Índia) economista
38. James Hansen, (EUA) cientista do clima
39. Christine Lagarde,(França) economista
40. Roberto Unger,(Brasil) filósofo-economista
41. Moisés Naím,(Venezuela) cientista político
42. David Grossman, (Israel) escritor
43. Andrew Solomon, (UK) escritor
44. Esther Duflo,(França) economista
45. Eric Schmidt,(EUA)empresário
46. Wang Hui, (China) cientista político
47. Fernando Savater, (Espanha) filósofo
48. Alexei Navalny,(Rússia)advogado e ativista
49. Katherine Boo, (EUA) jornalista
50. Anne-Marie Slaughter (EUA), cientista político
51. Paul Collier,(UK) esconomista

Amberg, Wilhelm (1822-1899)

Jovem ao largo do regato, [Contemplação], antes de 1886

Wilhelm Anberg (Alemanha, 1822-1899)

óleo sobre tela, 82 x 61 cm

Museu de Arte da Filadélfia, EUA

52. Margaret Chan, (China) médica
53. Sheryl Sandberg,(EUA) empresária
54. Chen Guangcheng,(China) ativista
55. Robert Shiller,(EUA) economista
56.  Ivan Krastev,(Bulgária) cientista política
56. Nicholas Stern,(UK) economist
58. Theda Skocpol, (EUA)socióloga
59. Carmen Reinhart,(Cuba) economista
59. Ngozi Okonjo-Iweala,(Nigéria) economista
61. Jeremy Grantham, (UK)estrategista de investimentos
62. Thomas Piketty e Emmanuel Saez, (EUA)economista
63. Jessica Tuchman Mathews, (EUA) cientista política
64. Robert Silvers, (EUA) editor
65. Jean Pisani-Ferry, (França) economista