Você lê ficção brasileira?

10 09 2013

benoît van innisIlustração de Benoît van Innis.

Na semana passada foi divulgado na imprensa carioca, durante a Bienal do Livro no Rio de Janeiro, que a literatura estrangeira foi o segmento editorial que mais cresceu em vendas no Brasil. 33% de livros vendidos no primeiro semestre deste ano  foram livros de ficção estrangeira.   Isso reflete um crescimento de 42%, sobre o ano passado, enquanto o mercado de vendas de livros de um ano para o outro cresceu muito menos, só 11%.

Os 30 livros de ficção mais vendidos no Brasil representam 36% das vendas. O poder de um best-seller internacional é bem forte, na pesquisa, feita pela companhia multinacional alemã GFK, ficou claro que sem as vendas do livro Cinquenta tons de cinza, da editora Intrínseca, a venda de ficção estrangeira teria vendido muito menos só 23% em vez de 42%.  Não há falta de leitores no país.  Não é uma questão de preço, porque os livros estrangeiros em geral são mais caros porque custam mais (considere-se direitos autorais e de publicação pagos em outra moeda e despesas com tradução).  O problema não é nem falta de leitores, nem falta de dinheiro.  Então, há uma pergunta que se faz necessária:

Por que os autores brasileiros de ficção não conseguem vender tão bem quanto os estrangeiros?

Fonte: Jornal O Globo, 27 de agosto de 2013.





O azul está por todo lado, texto de Lloyd Jones

27 07 2013

Newman Shutze (Brasil, 1960)Superfície com azul e branco, Acrílico sobre tela140 x 110 cmSuperfície com azul e branco, s/d

Newman Shutze (Brasil, 1960)

Acrílica sobre tela, 140 x 110 cm

O azul está por todo lado

Lloyd Jones

“ Existe um lugar chamado Egito – ela disse. – Não sei nada sobre esse lugar. Gostaria de poder contar para vocês sobre o Egito. Perdoem-me por não saber mais. Porém, se quiserem, posso contar-lhes tudo o que sei sobre a cor azul.

Então nós ouvimos sobre a cor azul.

— Azul é a cor do Pacífico. É o ar que respiramos. Azul é o intervalo de ar entre todas as coisas, como as palmeiras e os telhados de zinco. Se não fosse pelo azul, não veríamos os morcegos. Obrigada, meu Deus, por nos ter dado a cor azul.

“É surpreendente como a cor azul está sempre aparecendo”, continuou a avó de Daniel. “É só olhar que você vê. Você pode encontrar o azul espiando pelas frestas do cais em Kieta. E vocês sabem o que ele está tentando fazer? Ele está tentando alcançar as vísceras fedorentas dos peixes para levá-los de volta para casa.  Se o azul fosse um animal, ou uma planta, ou uma ave, ele seria uma gaivota. Ele mete o seu bico em tudo.

“O azul tem poderes mágicos também”, ela disse. “Olhe para um recife e digam se estou mentindo. O azul bate num recife e qual é a cor que ele solta? É o branco!  Como ele faz isso?”

Olhamos para o Sr. Watts em busca de explicação, mas ele fingiu não notar nossos rostos indagadores. Estava sentado na ponta da cadeira, de braços cruzados. Cada pedaço dele parecia focado no que a avó do Daniel estava dizendo. Um a um, voltamos a nossa atenção para a velhinha com boca manchada de bétel.

— Uma última coisa crianças, e então deixo vocês em paz. O azul pertence ao céu e não pode ser roubado, razão pela qual os missionários grudaram azul nas janelas das primeiras igrejas que construíram aqui na ilha.

O Sr. Watts abriu bem os olhos daquele jeito que já tinha se tornado familiar, como se estivesse acordando. Foi até a avó de Daniel com a mão estendida. A velha estendeu a dela para ele   segurar e então ele se virou para turma.

— Hoje nós tivemos muita sorte. Muita sorte. Fomos lembrados que, apesar de não podermos conhecer o mundo todo, se formos suficientemente inteligentes, podemos torná-lo algo novo. Podemos inventá-lo com as coisas que vemos à nossa volta. Só precisamos olhar e tentar ser tão imaginativos quanto a avó de Daniel. – Ele pôs a mão no ombro da velha senhora. – Obrigado – ele disse. – Muito obrigado.

Em: O Sr. Pip, Lloyd Jones, trad. Léa Viveiros de Castro, Rio de Janeiro, Rocco:2007, pp. 68-69





As fases da vida: “O verão sem homens” de Siri Hustvedt

17 07 2013

602px-Gustav_Klimt_020As três idades da mulher, 1905

Gustav Klimt (Áustria, 1862-1918 )

óleo sobre tela, 180 x 180 cm

Galeria Nacional de Arte Moderna, Roma

Há uma fase em que a maioria das mulheres se encontra na difícil posição de Mia Fredrickson, personagem principal em O verão sem homens: presa entre pais octogenários e filhos adolescentes ou jovens adultos, todos requerendo atenção.  Além disso,  essas mulheres precisam  gerenciar suas carreiras, lidar com as mudanças físicas da menopausa.  Dúvidas sobre a própria sensualidade pós-climatério são muitas vezes acentuadas pelo conformismo de um longo casamento, onde o parceiro já nem sempre está atento, carinhoso ou interessado.  O terreno é fértil para qualquer novelista e em grande parte, Siri Hustvedt consegue explorar bem os diversos aspectos dessa fase.

Sua estratégia foi colocar Mia Fredrickson, personagem principal do romance, poeta laureada e professora, abandonada pelo marido depois de 30 anos de casados, rodeada de mulheres nas mais diversas fases da vida, por um verão.  Para se restabelecer do choque da separação Mia aluga uma casa numa pequena cidade onde sua mãe mora num asilo para idosos e arranja um  trabalho de verão, dando aulas de poesia para um grupo de adolescentes.  Sua única amizade fora este círculo é com a vizinha, mãe de dois filhos pequenos, entre eles uma adorável menina.  Um arranjo perfeito:  todas as fases mais importantes na vida de uma mulher representadas.  Ótima idéia.  Da menina sonhadora  de poucos anos,  filha da vizinha ao grupo de adolescentes sensíveis e maldosas ;  da filha de Mia começando uma carreira artística à  vizinha, mulher m fase reprodutora, casada; da poeta já na menopausa e à mãe no final da vida, todas as fases da vida de uma mulher estão  representadas e dialogam entre si.   Como o título sugere este é um livro sem homens, ainda que muito aconteça por causa das ações dos homens vislumbrados.  Digo vislumbrados porque são representados sem profundidade, quase caricaturalmente.

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Sarcástica, mordaz no humor, Siri Hustvedt tem momentos brilhantes na narrativa.  E confesso que li ávida e com muito prazer os primeiros dois terços do livro.  Mas Mia Fredrickson não cativa como personagem.  Lá pelas tantas não me interessava mais o que aconteceria com ela.  Foi aí que percebi que muito mais importante do que uma história bem  contada, para a autora, o que  importou foram as teorias sobre o comportamento feminino nas diversas etapas da vida, examinadas com frieza intelectual.

Há momentos de grande sensibilidade e clareza, principalmente as precisas observações sobre o envelhecer.  Mas  tanto o grupo de adolescentes quanto o grupo de senhoras do asilo são caracterizadas de maneira simplista e é difícil de mantê-las separadas.  Sabemos os nomes de todas, mas seus perfis não se salientam o suficiente para se tornarem  personagens fora do grupo.  O texto é intercalado também de  muitas citações literárias.  Relevantes.  E há também diversas formas narrativas, inclusive, a de direcionar observações ao “Caro Leitor”, que nem sempre deixa o texto correr imune à interferência.  Aos poucos a Siri Hutsvedt, intelectual analítica, aparece demais, deixando de lado a voz narrativa da romancista.  Mas há, nesse pequeno livro, uma interessante descrição sobre diferenças entre os sexos, além da menção de diversos estudos científicos.  Isso, no entanto, enfraquece o impacto do texto.

SiriHustvedt-small6Siri Hutsvedt

Híbrido, nem romance,  nem ensaio.  O resultado é a combinação de uma tese sobre a condição feminina e um romance: nem um nem outro totalmente.  Se ensaio peca pela ficção e pela abundância de personagens.  Se romance peca pelo distanciamento intelectual, pelas inúmeras citações científicas e literárias. Acaba afetado e artificial, quase pretensioso.  O que o salva o texto são o humor de algumas passagens, e a série de citações de artigos científicos que suportam o texto, que é de um  feminismo, suave, de terceira geração, que se apoia nas diferenças de comportamento entre os sexos.   Apesar disso é uma história de leitura leve, perfeita para um verão na praia, com ou sem homens.





Como folhas ao léu: O silêncio das montanhas de Khaled Hosseini

17 06 2013

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Uma aldeia no Afeganistão

Jawid Altaf (Afeganistão, contemporâneo)

Óleo sobre tela

www.talents-of-afghanistan.com

Gostei mais de O silêncio das montanhas do que de O caçador de pipas.  Além do autor em comum, esses dois romances têm o Afeganistão como ponto de partida e a cultura afegã norteia ambas histórias. As semelhanças acabam aí.  Contrária à sinopse do livro, esta não é a história de dois irmãos.  Esta é a história de um deles, de Pari, a menina que aos quatro anos de idade se vê separada do irmão Abdullah, a quem ama. Para acompanhá-la seguimos as vidas daqueles que serão importantes em sua vida. Nem sempre porque a conhecem ou porque interferem diretamente no curso de seu destino.  Alguns, os conhecemos, porque apesar de parecerem distantes da trama principal, são responsáveis por ações ou decisões que indiretamente interferem na vida de Pari. Informações que inicialmente parecem extemporâneas, gratuitas mesmo, se mostram de grande valia com o passar das páginas e Khaled Hosseini nos orienta, por entre labirintos temáticos num estilo que lembra  as narrativas longas e redundantes das culturas orais, a prestar atenção ao rumo daquela que ele elegeu para nos guiar nessa trama, a menina, a jovem e depois a senhora Pari.  As histórias detalhadas, vívidas e pungentes desses personagens secundários, de suas conexões próximas ou não à nossa heroína, são  fonte de um esplêndido trabalho de contextualização, que encanta, surpreende e nos leva a ponderar sobre a influência do acaso nos nossos destinos.

Com surpreendente destreza Khaled Hosseini nos revela a beleza crua, trágica, sem polimento, da luta pela sobrevivência, da batalha que engaja todos nós, diariamente, cada qual à sua maneira, mesmo quando não a percebemos. Seus personagens são ricos em detalhes e tridimensionais.  Têm sonhos, aspirações e lutam para realizá-los na medida do possível, com as ferramentas a seu dispor, dentro das circunstâncias que lhes são impostas.  Por quê?  E por quem?  Não importa.  Como nós, eles estão ao sabor do acaso, folhas ao léu, abandonados em seus destinos, tomando as melhores decisões dentro de seus limites. Tudo nesse caso parece válido: traição, assassinato, guerra, crueldade. Como cada um sobrevive é ditado muitas vezes pela tradição e pela oportunidade.  Como manter um resquício de dignidade e aceitar o seu quinhão é a alma da sobrevivência.  É também o que os faz humanos.

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Para quem acredita que trabalho árduo e perseverança — acompanhados do bom caráter —abrem portas para o sucesso, O silêncio das montanhas será frustrante.  Nele a fortuna tem papel importante: dá rasteiras, inebria, é cruel. A vida é injusta: “Adel não era ingênuo a ponto de não saber que o mundo era basicamente um lugar injusto; bastava olhar pela janela do quarto” (pág. 234).  Não há personagens que não tenham que se submeter aos improváveis caprichos do destino: “A beleza é uma dádiva imensa e imerecida, distribuída aleatória e estupidamente” (pág. 284).  Nem mesmo o amor escapa sua interferência.  É a linda moça desfigurada por um cachorro; é o menino que descobre seu pai não ser o herói que imaginava; é a doença incurável que retira a vida prematuramente. São os amores impossíveis, as pequenas e grandes traições que trazem o inesperado a todas as vidas, a todos os seres. A sucessão de desencontros é permanente e avassaladora, e só é domada pela persistência da memória entre os que se amam. Uma memória com imperfeições, igualmente aleatória, mas que dá vida, profundidade e significado às existências. A memória aparece vital para a sobrevivência, mesmo que seus pesadelos escravizem e assombrem.

Khaled-HosseiniKhaled Hosseini

Também surpreende nesse romance a habilidade demonstrada por Hosseini para a variedade narrativa.  Ele consegue misturar diversos modos narrativos sem prejudicar a evolução da história.  Vamos da epístola à entrevista, da fábula ao diálogo contemporâneo, do passado ao presente e de volta ao passado. Uma bela colcha de retalhos tecida pela narrativa e gerenciada com desembaraço e precisão.  Especial menção também deve ser feita à tradução de Cláudio Carina, que passa suave, sem estranhamento, dando ao texto o movimento característico do bom português.

O silêncio das montanhas [And the Mountains Echoed] tem um título inspirado em um verso de William Blake, “And all the hills echoed,” [E todas as colinas fizeram eco] com a palavra ‘hill’ substituída por ‘mountain’ [montanha]. Na nossa versão, o título sugere que as montanhas testemunham o que se passa no primeiro capítulo do livro, impulsionando a ação. Impassíveis, indiferentes, elas compartilham silenciosas do passar das nossas vidas.  De fato o título parece um sumário do espírito desse romance: a indiferença da natureza à nossa sina, aos nossos desejos.






Mal d’Afrique, texto de Francesca Marciano

24 04 2013

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Cânion do Rio Blyde,  s/d

Mabel Withers (África do Sul, 1870-1956)

aquarela, 16 x 25 cm

Le mal d’Afrique

Tanta gente tentou definir o sentimento que os franceses chamam de Mal d’Afrique, que de fato é uma doença. Os ingleses nunca tiveram uma definição para ele, acho que porque jamais gostaram de admitir que, de algum modo, estavam sendo ameaçados por este continente. Obviamente porque preferiam a idéia de governá-lo a de ser governados por ele.

Só agora compreendo como esse sentimento é uma forma de deteriorização. É como uma rachadura na madeira que vai avançando lentamente. Pouco a pouco ele se torna mais e mais profundo, até finalmente separar você do resto. Um dia você acorda e descobre que está flutuando sozinho, virou uma ilha independente arrancada de sua terra natal, de sua base moral. Tudo já aconteceu enquanto você dormia, e agora é tarde demais para tentar qualquer coisa: você está aqui fora não há retorno. Essa é uma viagem só de ida.

Contra sua vontade, você é obrigado a experimentar o horror eufórico de flutuar no vazio, suas amarras rompidas para sempre. É uma emoção que corroeu lentamente todos os seus vínculos, mas é também uma vertigem constante a que você nunca vai se acostumar.

É por isso que um dia você tem de voltar. Porque agora você não pertence mais a lugar nenhum. A nenhum endereço, casa ou número de telefone de nenhuma cidade. Porque uma vez que tenha estado aqui, pairando solto ao Grande Nada, você nunca mais vai ser capaz de encher seus pulmões com ar suficiente.

A África o observou e o arrancou do que você era antes.

É por isso que fica querendo fugir, mas sempre terá de voltar.

Depois,  é claro, há o céu.

Não há céu tão grande quanto este em nenhum outro lugar do mundo. Ele paira sobre você, como uma espécie de guarda-chuva gigantesco e lhe tira o fôlego. Você fica achatado entre a imensidão do ar sobre sua cabeça e o chão sólido. Ele cerca você por todos os lados, 360 graus, céu e terra, um o reflexo aéreo do outro. O horizonte aqui não é mais uma linha plana, mas um círculo sem fim, que faz sua cabeça rodopiar. Tentei descobrir que artifício existe por trás deste mistério, porque não vejo razão alguma para haver mais céu num lugar que noutro. Não fui capaz, contudo, de descobrir qual é a ilusão de óptica que torna o céu africano tão diferente de qualquer outro céu que você tenha visto na vida. Poderia ser o ângulo particular do planeta no Equador, ou quem sabe o modo como as nuvens flutuam, não acima da sua cabeça, mas bem diante de seu nariz, pousadas na borda mais baixa do guarda-chuva, logo acima do horizonte. Essas nuvens à deriva, que redesenham constantemente o mapa: num relance você pode ver uma tempestade se armando no norte, o sol brilhando no leste e, no oeste, um céu cinzento, que fatalmente vai azular-se a qualquer minuto. É como se centrar diante de uma gigantesca tela de televisão, assistindo a uma previsão do tempo cósmica.

Você está viajando para o norte, rumo ao NFD, o legendário North Frontier District, e de repente é como se estivesse olhando a paisagem com um binóculo virado ao contrário. As últimas lentes grandes-angulares, que comprimem o infinito dentro de seu campo de visão. Seus olhos nunca lançaram um olhar tão amplo. Terra plana que se estende por todo o caminho até o distante perfil púrpura do Matthews Range e depois, exatamente quando você pensava que o espaço terminara, precisamente quando imaginava que a paisagem iria se fechar de novo à sua volta, que você iria se sentir menos exposto, uma outra cortina se ergue para revelar mais vastidão, e seus olhos ainda não conseguem divisar o seu fim.

Mais terra se estirando obedientemente sob seus pneus, oferecendo-se para ser trilhada. As maracás das suas rodas tornam-se a bandeira interminável de sua conquista. Você enche os pulmões com o cheiro seco de pedras quentes e poeira e tem a impressão de estar aspirando o universo.

Você se vê enquanto entra nessa geometria grandiosa, absoluta: você não passa de um pontinho diminuto, uma partícula minúscula que avança muito lentamente. Agora você se afogou no espaço, é obrigado a redefinir todas as proporções. Uma palavra que não lhe ocorria há anos lhe vem à mente. Ela brota de algum lugar dentro de você.

Você se sente humilde. Porque a África é o começo.

Não há abrigo aqui: nenhuma sombra, nenhuma parede, nenhum teto sob os quais se esconder. O homem nunca se deu ao trabalho de deixar sua marca na terra. Só choupanas minúsculas feitas de palha, como ninhos de aves que o vento vai varrer facilmente.

Você não pode se esconder.

Aqui está você,  sob esse sol causticante, exposto. Você percebe que tudo com que pode contar agora é o seu corpo. Nada do que aprendeu na escola, com a televisão, com seus amigos brilhantes, com os livros que leu, vai ajudá-la.

Só agora você se dá conta de que suas pernas não são fortes o bastante para correr, suas narinas não são capazes de cheirar, sua vista é fraca demais. Percebe que perdeu todos os seus poderes originais. Quando o vento sopra o cheiro acre de búfalo no seu nariz, um cheiro que você nunca tinha sentido antes, você reconhece o instantaneamente. Você sabe que o cheiro sempre esteve aqui. O seu, por outro lado, é o resultado de muitas coisas diferentes, de filtro solar a dentifrício.

Le mal d’Afrique é vertigem, é corrosão e, ao mesmo tempo, é nostalgia. É um desejo de retornar à infância, à mesma inocência e o mesmo  horror, quando tudo ainda era possível e cada dia poderia ter sido o dia da sua morte.

Em: As leis da selva, de Francesca Marciano, tradução de Maria Luiza X. de A. Borges, Rio de Janeiro, Record: 2001, pp: 20-23





Novos rumos na ficção científica?

30 03 2013

books logo rodney mathews

Ilustração de Rodney Mathews.

Um artigo interessante no Irish Times sobre a literatura de ficção científica, The new future od sci-fi,  atraiu a minha atenção nessa semana que passou.  Há muito que se fala da dificuldade de classificação das obras de ficção científica.  A fantasia e a ficção científica parecem se misturar em muitos momentos. Mas não importa, algumas obras acabam saindo da prateleira estritamente reservada às literaturas de gênero e entram para a categoria de clássicos da literatura mundial.  Desde de o século XIX que não faltam exemplos desse tipo de ficção considerada hoje parte integral, e essencial de uma boa educação.  Lá estão enfileirados nessas prateleiras  livros que estabeleceram o ramo da ficção científica  Frankenstein de Mary Shelley (1818), ao longo das obras do popularíssimo Júlio Verne, considerado o autor mais traduzido no mundo ( 148 línguas) com títulos como Viagem ao Centro da Terra (1864) Vinte Mil Léguas Submarinas (1870),  A Volta ao Mundo em Oitenta Dias (1873). No reino da fantasia, há também exemplos brilhantes do passado: As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift (1726) parecem ter aberto essa porta para o mundo moderno, ainda que a tradição do gênero venha desde a antiguidade. A criação literária classificada como fantasia parece ser mais inclusiva do que a ficção científica, e conta com contribuição no século XIX, de George MacDonald com Phantastes (1858) e de diversos outros que ocasionalmente embarcaram nessa nave, como William Morris The Well at the World’s End (1892), The Wood Beyond the World (1892) livros que foram de grande influência para autores como C. S. Lewis e J.R.R. Tolkien.

Mas aonde cai realmente a linha divisória que separa a ficção científica do resto da literatura?   E será essa uma questão importante?  Aparentemente escritores contemporâneos resolveram a questão simplesmente escrevendo.  E no processo não deram atenção a quaisquer limitações,  combinando a bel prazer características de ambos os gêneros para preencher suas necessidades narrativas.  O resultado é uma nova geração de escritores de ficção científica que não se enquadra perfeitamente aos moldes anteriormente determinados. Esses autores, ainda que não estejam ligados a qualquer movimento ou causa, parecem ter encontrado um meio de renovar um gênero considerado estagnado há algum tempo.  Se você está curioso faça uso da lista de autores selecionados por Gareth L Powell  para mostrar essa nova geração que é feita de escritores de diversas nacionalidades.  E  boa leitura!

Escritores:  Adam Christopher  autor de Empire State e Seven Wonders, Aliette de Bodard com a trilogia Obsidian and Blood;  Lauren Beukes autora de In Moxyland Zoo City;  Chuck Wendig com seu Black Birds ;  Lavie TidharLou Morgan,Emma Newman, com o título Between Two Thorns; Kim Lakin-Smith com o livro Cyber Circus e Tim Maughan.





Como escrever um romance, texto de Katherine Pancol

16 02 2013

François Fressineir, Belles_Heures

Ponto alto, s/d

François Fressinier (França, 1968)

Técnica mista com pintura a óleo

www.françoisfressinier.com

“Olhou para o computador, um lindo laptop branco que esperava por ela de goela aberta sobre a mesa da cozinha, cheia de livros, faturas, canetas hidrocor, Bics, folhas de papel, migalhas do café da manhã. Seu olhar deslizou sobre o círculo amarelado deixado pelo bule de chá, a tampa do pote de geléia de damasco, um guardanapo enrolado como uma serpente branca…Precisava abrir espaço para poder escrever e deixar sua tese de habilitação de lado. Precisava de tanta coisa, tanta coisa, suspirou, repentinamente cansada diante da idéia de todo o esforço que teria de fazer. Como escolher o tema de um livro? Como criar os personagens? A história? As reviravoltas? Elas se originam nos acontecimentos exteriores ou na revolução dos personagens? Como começar um capítulo? Como organizá-lo? Devia reler seus trabalhos e pesquisas para evocar as façanhas de Rolland, Guilherme, o Conquistador, Ricardo Coração de Leão, Henrique II, pedir ao espírito de Chrétien de Troyes que baixasse sobre ela? Ou se inspirar em Shirley, Hortense, Iris, Philippe, Antoine e Mylène, vesti-los com um hennin medieval, um par de polainas ou tamancos, instalá-los no campo ou no castelo? O cenário muda, as oscilações do coração perduram. O coração bate, idêntico, em Leonor, Scarlett ou Madonna. As pregas de um vestido, as cotas e malha de ferro se desfazem em poeira, mas os sentimentos permanecem. Por onde começar?, repetia Josephine consigo mesma, observando a intensidade da luz daquele mês de janeiro baixar suavemente sobre a cozinha, iluminar com luz pálida aborda da pia e morrer no escorredor. Existe alguns livro de receitas para escrever? Quinhentos gramas de amor, 350gr de referências históricas, um quilo de suor… deixe cozinhar em fogo brando, em forno quente, mexa para evitar que grude ou forme caroços, deixe repousar três meses, seis meses, um ano. Stendhal, segundo dizem, escreveu o Cartouche de Parma em três semanas, Simenon finalizava seus romances em dez dias. Mas durante quanto tempo eles carregaram essas obras consigo e lhes deram alimento ao levantar de manhã, vestir as calças, beber seu café, recolher correspondência, observar a luz da manhã se espalhando sobre a mesa do café da manhã ou contar os grãos de poeira num raio de sol? Deixar o tempo agir. Encontrar seu modo de usar. Beber café como Balzac. Escrever em pé como Hemingway. Encerrada como Colette, quando Willy a trancafiava. Fazer pesquisa como Zola. Usar ópio, um bom tinto, hachiche. Vociferar como Flaubert. Correr, devagar, dormir. Ou não dormir como Proust. E eu? O tecido encerado da toalha da mesa da cozinha, o face a face com a pia, o bule de chá, o tique-taque do relógio, as migalhas do café da manhã e as prestações a pagar! Léautaud dizia: “escreva como quem escreve uma carta, não  releia; não aprecio a grande literatura só gosto da conversação escrita.” A quem posso enviar uma carta? Não tenho nenhum amante me esperando no parque. Não tenho mais marido. Minha melhor amiga mora no mesmo andar que eu.”

Em: Os olhos amarelos dos crocodilos, Katherine Pancol, Rio de Janeiro, Suma das Letras:2012, p.198-199.





Katherine Pancol e a ficção encantada para adultos

14 02 2013

family-ties-ruben-ubiera, acrilica sobre madeira, caixas de charutos, tampas.

Laços de família, s/d

Ruben Ubiera (República Dominicana, 1975)

acrílica sobre madeira

[tampas de caixas de charutos]

www.urbanpopsoul.com

Um milhão de franceses compraram e leram, presume-se, Os olhos amarelos dos crocodilos de Katherine Pancol. Quando soube desses números pensei estarmos falando de um livro para adolescentes.  Tamanha popularidade nos dias de hoje atribui-se com frequência a esses novos leitores. Mas nesse Carnaval arrisquei sua leitura, já que me veio recomendado por uma boa amiga.  Que prazer!

Trata-se de um romance sobre gente comum, fazendo coisas comuns, tomando decisões nem sempre sábias, chegando a resultados surpreendentes.  Essas páginas retratam uma família: uma família e seus correlatos. No centro da narrativa estão duas irmãs – Joséphine e Iris —  que não poderiam ser mais opostas em temperamento,  aparência física, posição social e interesses. Conhecemos seus filhos, seus pais, seus maridos, o padrasto e outros personagens que compõem esse cosmos urbano: amigos, amantes, namorados.   É uma história contemporânea, com personagens que, se não conhecemos, poderíamos vir a conhecer, entre nossos amigos e familiares.  São professores, advogados, comerciantes, adolescentes, cabeleireiros, vendedores, todos de maior ou menor sucesso profissional e, certamente, todos à procura do bem estar, da felicidade.  Katherine Pancol consegue gerenciar um bom leque de personalidades, mostrando como se víssemos numa lâmina de microscópio, um retrato das fragilidades e solidez dos valores da classe média.  Aqui, da classe média francesa, mas cujos objetivos, preocupações e limitações são típicas de qualquer lugar do mundo.

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Mas não é só um retrato da classe média.  Não.  Nessa receita de sucesso há também alguns ingredientes quase fantásticos que nos lembram que uma boa história precisa de mocinhos e vilões, de traição e de amor.  Se analisarmos alguns segmentos poderíamos traçar paralelos com muitos contos de fadas que povoaram nossa infância e que são apreciados até hoje por todos – veja-se o exemplo dos parques de diversões, onde Cinderela e Branca de Neve são sucesso absoluto.  Não que Katherine Pancol esteja contando uma história da carochinha para adultos. Não, não é isso.  Mas nesse romance há cobiça, afronta, roubo, más intenções, injúria tudo na dosagem certa para ser eventualmente corrigido e de extrema satisfação para o leitor.

No centro da história está Joséphine, a anti-heroína por excelência. Um patinho feio.  Um rato de biblioteca. Explorada por todos.  Reticente, compreensiva demais, apagada. Indecisa, altruísta, meditativa. Mas, por quem torcemos do início ao fim.  Nossa Gata Borralheira tem uma paixão: a Idade Média, o século XII.  Sonha com as heroínas da época, com as aventuras dos cavaleiros, com as Cruzadas, com os vilarejos do reino de Aquitânia.  Sua paixão, sua fascinação intelectual, é desprezada por todos à sua volta. Incompreendida, ela quase passa a vida em brancas nuvens, soçobrando de porto em porto, das filhas ao marido, à mãe, à irmã. E no entanto, sabemos que, se há justiça nesse mundo, ela será vingada, assim como acontece com todas as heroínas dos contos clássicos do folclore europeu de onde vieram os contos de Grimm e Andersen.

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Katherine Pancol

A história de Joséphine também dá grande satisfação ao leitor – e acredito que a maioria dos leitores desse romance sejam mulheres – porque é uma história, em que diferentemente dos contos de fadas, o poder transformador, o elemento que eventualmente altera a imagem que Joséphine tem de si mesma, não lhe vem através de fadas madrinhas, mas através de seu crescimento interno, crescimento emocional e descobertas sobre sua própria habilidade de controlar as vicissitudes, os obstáculos imprevisíveis que aparecem em seu caminho. À semelhança de muitos pequenos heróis, de muitos desportistas, políticos, pessoas que chegam a um lugar de prestígio, Joséphine terá que vencer seus próprios medos, seus próprios monstros, para se tornar a mulher cujo potencial antevemos, mas que seus pares não lhe creditam. Uma ótima narrativa, deliciosa mesmo, com um ritmo maravilhoso e algumas lições de vida.  Não se pode esperar mais de um bom entretenimento; afinal um milhão de franceses não poderiam estar errados.





Prece às estrelas, texto de Katherine Pancol

11 02 2013

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Memórias 1

Anônimo, trabalho folclórico

Óleo sobre tela, 50 x 60 cm

“Josephine desligou e seguiu titubeando até a varanda. Tinha o hábito de se refugiar ali. Da varanda, podia contemplar as estrelas. Interpretava cada cintilação,cada passagem de uma estrela cadente como um sinal de que estava sendo ouvida, de que o céu velava por ela. Naquela noite, ajoelhou-se no cimento, juntou as mãos e, erguendo os olhos para o céu, recitou uma prece:

— Estrelas, por favor, façam com que eu não fique mais sozinha, façam com que não seja mais tão pobre, façam com que não receba mais tantos ataques. Estou cansada, tão cansada… Estrelas, não se faz nada de bom sozinha e estou tão sozinha. Estrelas, concedam-me paz e força interior, concedam-me aquele que espero em segredo. Tanto faz que ele seja rico ou pobre, bonito ou feio, jovem ou velho, de qualquer altura, eu amo igual. Concedam-me um homem que me ame e que eu ame. Se for triste, eu o farei rir; se duvidar eu lhe darei segurança; se precisar lutar, estarei a seu lado. Não estou pedindo o impossível, só peço um homem, simplesmente um homem, porque no fim das contas, estrelas, o amor é a maior das riquezas… O amor que se dá é o amor que se recebe. É essa riqueza, sem ela eu não posso viver…

Inclinou a cabeça para o chão de cimento e se deixou levar por uma prece infinita.”

Em: Os olhos amarelos dos crocodilos, Katherine Pancol, Rio de Janeiro, Suma das Letras:2012, p.148.





Ansiedade, texto de Katherine Pancol

9 02 2013

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Max Ernst ( Alemanha 1891-1976)

óleo sobre tela, 130 x 96 cm

Peggy Guggenheim Collection, Veneza, Itália

“O mais duro era não se deixar levar pelo pânico. O pânico chegava sempre à noite. Podia ouvir o medo crescer dentro dela e não podia fugir. Virava e revirava no colchão sem conseguir dormir. Pagar as prestações do apartamento, as taxas do imóvel, os impostos, as lindas roupas de Hortense, a manutenção do carro, os seguros, as contas de telefone, a mensalidade da piscina, as férias, as entradas para o cinema, os sapatos, os aparelhos de dente… Enumerava as despesas e, com os olhos arregalados, aterrorizada, se enrolava nas cobertas para não pensar mais. Às vezes, acordava de vez, sentava na cama, fazia e refazia as contas em todos os sentidos para constatar que não, não ia conseguir, embora durante o dia os números tivessem dito sim! Acendia a luz, em pânico, e ia procurar o pedacinho de papel onde tinha rabiscado suas contas. Refazia tudo em todos os sentidos até reencontrar… seu bom-senso e apagar a luz, exausta.

Tinha medo das noites.”

Em: Os olhos amarelos dos crocodilos, Katherine Pancol, Rio de Janeiro, Suma das Letras:2012, p.82