Fábula: O lobo e o cordeiro, texto de Monteiro Lobato

5 04 2012

 

O lobo e o cordeiro

Estava o cordeiro a beber num córrego, quando apareceu um lobo esfaimado , de horrendo aspecto.

— Que desaforo é esse de turvar a água que venho beber? — disse o monstro arreganhando os dentes.  Espere, que vou castigar tamanha má-criação!…

O cordeirinho, trêmulo de medo,respondeu com inocência:

— Como posso turvar a água que o senhor vai beber se ela corre do senhor para mim?

Era verdade aquilo e o lobo atrapalhou-se com a resposta.  Mas não deu  o rabo a torcer.

— Além disso — inventou ele — sei que você andou falando mal de mim o ano passado.

— Como poderia falar mal do senhor o ano passado, se nasci este ano?

Novamente confundido pela voz da inocência, o lobo insistiu:

— Se não foi você, foi seu irmão mais velho, o que dá no mesmo.

— Como poderia ser meu irmão mais velho, se sou filho único?

O lobo furioso, vendo que com razões claras não vencia o pobrezinho, veio com uma razão de lobo faminto:

— Pois se não foi seu irmão, foi seu pai ou seu avô!

E — nhoc! — sangrou-o no pescoço.

Contra a força não há argumentos.

Em: Fábulas, Monteiro Lobato, São Paulo, Ed. Brasiliense:1966, 20ª edição.

José Bento Monteiro Lobato, (Taubaté, SP, 1882 – 1948).  Escritor, contista; dedicou-se à literatura infantil. Foi um dos fundadores da Companhia Editora Nacional. Chamava-se José Renato Monteiro Lobato e alterou o nome posteriormente para José Bento.

Obras:

A Barca de Gleyre, 1944

A Caçada da Onça, 1924

A ceia dos acusados, 1936

A Chave do Tamanho, 1942

A Correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto, 1955

A Epopéia Americana, 1940

A Menina do Narizinho Arrebitado, 1924

Alice no País do Espelho, 1933

América, 1932

Aritmética da Emília, 1935

As caçadas de Pedrinho, 1933

Aventuras de Hans Staden, 1927

Caçada da Onça, 1925

Cidades Mortas, 1919

Contos Leves, 1935

Contos Pesados, 1940

Conversa entre Amigos, 1986

D. Quixote das crianças, 1936

Emília no País da Gramática, 1934

Escândalo do Petróleo, 1936

Fábulas, 1922

Fábulas de Narizinho, 1923

Ferro, 1931

Filosofia da vida, 1937

Formação da mentalidade, 1940

Geografia de Dona Benta, 1935

História da civilização, 1946

História da filosofia, 1935

História da literatura mundial, 1941

História das Invenções, 1935

História do Mundo para crianças, 1933

Histórias de Tia Nastácia, 1937

How Henry Ford is Regarded in Brazil, 1926

Idéias de Jeca Tatu, 1919

Jeca-Tatuzinho, 1925

Lucia, ou a Menina de Narizinho Arrebitado, 1921

Memórias de Emília, 1936

Mister Slang e o Brasil, 1927

Mundo da Lua, 1923

Na Antevéspera, 1933

Narizinho Arrebitado, 1923

Negrinha, 1920

Novas Reinações de Narizinho, 1933

O Choque das Raças ou O Presidente Negro, 1926

O Garimpeiro do Rio das Garças, 1930

O livro da jangal, 1941

O Macaco que Se Fez Homem, 1923

O Marquês de Rabicó, 1922

O Minotauro, 1939

O pequeno César, 1935

O Picapau Amarelo, 1939

O pó de pirlimpimpim, 1931

O Poço do Visconde, 1937

O presidente negro, 1926

O Saci, 1918

Onda Verde, 1923

Os Doze Trabalhos de Hércules,  1944

Os grandes pensadores, 1939

Os Negros, 1924

Prefácios e Entrevistas, 1946

Problema Vital, 1918

Reforma da Natureza, 1941

Reinações de Narizinho, 1931

Serões de Dona Benta,  1937

Urupês, 1918

Viagem ao Céu, 1932

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Esta fábula de Monteiro Lobato é uma das centenas de variações feitas através dos séculos da fábulas de Esopo, escritor grego, que viveu no século VI AC.  Suas fábulas foram reunidas e atribuídas a ele, por Demétrius em 325 AC.  Desde então tornaram-se clássicos da cultura ocidental e muitos escritores como Monteiro Lobato, re-escreveram e ficaram famosos por recriarem estas histórias, o que mostra a universalidade dos textos, das emoções descritas e da moral neles exemplificada.  Entre os mais famosos escritores que recriaram as Fábulas de Esopo estão Fedro e La Fontaine.

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Inglaterra, Argentina, Faulklands, Malvinas e a fineza de julgamento de Elsie Lessa

4 04 2012

Londres, Casas do Parlamento, 1903

Claude Monet ( 1840-1926)

óleo sobre tela

[Claude Monet pintou uma série enorme de paisagens como esta, retratando as casas do parlamento inglês, num estudo sobre os efeitos da neblina.  Não sei exatamente o número total de varições desse tema, mas elas foram pintadas em 1900-1904]

Esta semana vimos muitos programas na televisão e artigos no jornal que lembram o aniversário de 30 anos da Guerra das  Ilhas Malvinas ou Faulklands.  Não me pronuncio politicamente nesse blog.  Este não é o objetivo desse lugar, mas não pude deixar de me lembrar dessa crônica de Elsie Lessa,  quando vi tais comemorações:  uma crônica que eu havia lido há alguns anos.  Devo dizer, que sou fã de algumas cidades no mundo.  Londres está entre elas.  [As outras? Paris, Madri, Coimbra, Córdoba, Sarlat e Siena, lugares que por várias e diversas razões cheguei a conhecer muito bem e a visitar inúmeras vezes]. Mas meu sonho de consumo, aquele que a gente acalenta sem dizer palavra porque sabe ser quase impossível, aquele que só se realizaria se um dia eu ganhasse na loteria, (e jogo sempre na esperança)  é ter um “flat” em Londres, uma cidade verdadeiramente cosmopolita.  Como poucas.

COTIDIANO INGLÊS

Elsie Lessa

Estrangeira, com quase cinco anos de Londres, é muito frequente virem me perguntar, brasileiros e ingleses, o que acho da Inglaterra.  Posso dizer a ambos, sem mentir, que acho um privilégio ter desfrutado dela por tanto tempo.  Porque?  Tranquilidade, um sentido de segurança, de ser respeitado como ser humano, de ser deixada viver, sem atritos, num mecanismo social de rodas bem azeitadas, dentro das falibilidades humanas. É um sapato que não dói no pé, como todas as felicidades, negativo, não incomoda, não machuca e a gente só se dá conta disso quando, à força de uso, lembra que está na hora de substituí-lo ou de ter que deixar o país.

As pequenas coisas da vida: o inevitável “obrigado por ter chamado” de qualquer amiga inglesa, para quem a gente ligou. O “por favor” e o “muito obrigado” de que é recheado o cotidiano.

Outro dia eu esperava o ônibus na esquina e, decerto para entreter a espera, aquele senhor de cabelos brancos e roupa meio puída me chamou atenção para aquele desperdício de dois postes tão juntos.  Não era preciso não estava ali aquele com a tabuleta da parada? Para que o outro?  Era assim que eles gastavam o nosso dinheiro e por aí vai.  Entrei contente na conversa e na argumentação, tinha todíssima razão, a gente devia escrever ao “Council” (Conselho Municipal), dona Tatcher era uma senhora sem juízo, a vida estava cara, essas amenidades.  Veio o meu ônibus, o dele não.  E eu já estava dentro quando o meu vizinho de rua, como fazia meu pai quando lhe agradeciam ter pago a passagem de bonde, levantou um pouco o chapéu, saudou-me, agradecendo: “obrigado por ter falado comigo”. Está aí um obrigado que nunca ninguém antes me dissera.

Sou jornalista, gosto de papear, num dia a dia sem muitos interlocutores e usufruo os privilégios da feliz idade a que cheguei, que me põe a salvo de intenções equívocas, ao iniciar uma conversa com um vizinho de balcão de café.  Era ali na Brompton Arcade para o cafezinho das 4, com um cheiro que deixa os fregueses de bom humor.  Entrei na deixa fácil do café do Brasil, falamos de outros, cafés e países, ele já me oferecia galante uma segunda xícara quando me despedi.  Este já era um “gentleman” bem-apessoado,ao contrário do homem reclamador de Chelsea.  Só os unia a mesma boa educação: “muito obrigado por ter falado comigo”.  Tudo boa gente.

Há 8 semanas este país está em estado de conflito, se não de guerra, já tendo ceifado uma meninada e alguns dos seus comandantes.  Não ouvi uma discussão em voz alta sobre ela, embora seja muito comentada.  A televisão tem vozes soturnas, nunca esbravejantes.  Inevitavelmente são transmitidas as notícias e as estatísticas dos dois lados, embora divirjam. São mostrados trechos inteiros da televisão argentina.  Sem comentários ou com um único, certa vez: “A televisão aqui é um pouco diferente”. Nos programas de auditório, fascinantes, em que se discute tudo, (outro dia tomava parte um argentino do auditório), aceitam-se, em voz baixa, todos os argumentos a favor, contra, nem a favor nem contra, muito pelo contrário. Admite-se que seres humanos tenham diferentes pontos de vista e que os defendam, com bons modos e serenidade.  A Rainha tem um filho na frente de batalha e nem ela nem ninguém faz estardalhaço disso.  Ela respondeu simplesmente, perguntada: “São tempos de preocupação e sofrimento para todos nós.  Nossos corações estão com eles,  Mas a vida deve continuar…”  O príncipe mais moço, Edward, acaba de se alistar como fuzileiro naval.  Com uma única nota para a imprensa: não por causa da guerra, mas como parte da educação dos rapazes da família real”. É, a Inglaterra não dói no pé.

Em: Ponte Rio-Londres, Elsie Lessa, Rio de Janeiro, Record:1984.





Lima Barreto: “O destino do Chaves “, um conto ainda relevante

31 03 2012

Caricatura portuguesa sobre a política, de Alonso, 1923.

O destino do Chaves

Lima Barreto

Trouxe Chaves, quando nasceu, o nome de Felismino.  Seus padrinhos, a pedido dos pais, conservaram-lhe o nome do Santo do dia do seu nascimento; mas acrescentaram a este, o de Felicíssimo.  Veio a chamar-se, portanto, Felismino Felicíssimo Chaves da Costa.

Antes do batismo, sua mãe, senhora duplamente crente, tanto na Igreja Católica como nas práticas da adivinhação e feitiçaria, mandou chamar algumas pessoas conspícuas  e entendidas nessas últimas misteriosas coisas e pediu-lhes que dissessem o futuro da criança. A mãe de Chaves ainda estava de resguardo; e as “fadas” locais disseram a “buena-dicha” do pequeno.

Falou em primeiro lugar a Victoria, uma velha indiática, originária da raça extinta dos Caetés, aqueles indígenas sacrílegos que, logo nos primórdios da colonização do Brasil, não trepidaram em cremar as carnes do primeiro bispo do nosso país, D. Pero Fernandes Sardinha.

A velha cabocla falou em primeiro lugar e com brevidade:

— Iaiá, ele vai longe; vai ser grande coisa.

Disse isto, após ter feito algumas gatimonhas, caretas e cuspinhar nos quatro cantos do aposento, que ainda rescendia a alfazema.

Seguiu-se à velha índia, a não menos velha Maria Ângela, uma preta da raça catrinta, rainha do terreiro e respeitada por toda aquela redondeza, pelo poder de seus bruxedos e feitiços.

Era aparecer alguém com moléstia tenaz, queixar-se de atrasos de vida ou desgraças domésticas, todos aconselhavam a una você:

— Isto, D. Dadá – por exemplo – é “uma coisa feita”.  Não há que ver!  Porque a senhora não procura a tia Maria Ângela, para cortar?

Sendo assim famosa e respeitada, indo ler o horóscopo do infante Felismino, esperava ser a primeira ouvida.  Não o foi, porém; agastou-se. Contudo, não deixou cair o seu despeito.

Quando chegou a sua vez de deitar o vaticínio, preliminarmente fez uns passos de jongo, em melopeia horrível e profética:

— Sim, menino, meu anjinho: vancê será grande coisa… Mamãe é bem boa… Eu não corta... Mas vancê não será feliz naquilo que vancê e os seus quisé.

A mãe não se conteve e perguntou:

— Em que será então?

A velha negra não teve tempo de responder.

Pai Luís, um velho preto congo, também entendido nessas coisas transcendentes de adivinhar o futuro dos outros, e que viera prognosticar a vida a vir de Felismino, apressou-se, um tanto amuado, em afirmar:

— Eu não gunguria ningror; não qué botá biongo nem mangá; mas eu diz que criança sê macota no que ele não sabe.

Chaves fez-se rapazola e foi matriculado na escola militar do Ceará, porque em criança andava de chapéu armado, feito com jornal, tendo uma espada de bambu na cinta e corria pela chácara paterna, montado num cabo de vassoura. Era um bom augúrio para uma bela carreira militar…

Não acabou o curso e foi desligado por falta de pontos. Terminou mal ou bem, aos tombos os preparatórios, e foi mandado estudar medicina, na Bahia.  Foi logo reprovado em Botânica e Zoologia, no primeiro ano.  Tomou então a resolução de estudar direito. Formou-se afinal. Fez-se promotor, juiz, ganhou influência na comarca. Guindaram-no a deputado. Ele viveu, na Câmara Federal, calado e, por isso mesmo, logo foi feito senador pelo seu estado natal.

Veio a governar a República o Imperador Pechisbeque. Um belo dia, sem saber como, Felismino Felicíssimo Chaves da Costa deitou-se senador e levantou-se da cama ministro do estado dos negócios da Marinha.

Todos os horóscopos dos feiticeiros de sua terra se haviam cumprido exatamente.

15-12-1920

Em: A Nova Califórnia e outros contos, Lima Barreto, seleção e apresentação de Flávio Moreira da Costa, Rio de Janeiro, Revan: 1994.





Uma passagem de Esaú e Jacó de Machado de Assis

30 03 2012

Igreja de Nossa Senhora do Socorro, em São Cristóvão, 1850-1856.

Pieter Godfried Bertichen (Holanda ?, 1796- Petrópolis, Brasil, c. 1866)

Litografia colorida à mão, 18 x 27

Museu Imperial, Petrópolis.

Hoje me peguei relendo algumas passagens de Esaú e Jacó, de Machado de Assis.  E resolvi postar aqui,  parte do capítulo IV,  A missa do coupé, que considero uma jóia representativa do estilo do autor, de sua ironia, de seu modo sucinto, de sua palavra certa.  Não há como não se sair com um sorriso no lábios depois da leitura desse texto tão revelador do comportamento humano.  [ O livro já se encontra em domínio público e há diversos portais oferecendo o texto completo.]

CAPÍTULO IV / A MISSA DO COUPÉ

……………………………………………………………………………………………….

Mergulharam outra vez no silêncio. Ao entrar no Catete, Natividade recordou a manhã em que ali passou, naquele mesmo coupé, e confiou ao marido o estado de gravidez. Voltavam de uma missa de defunto, na Igreja de S. Domingos.

“Na Igreja de S. Domingos diz-se hoje uma missa por alma de João de Melo, falecido em Maricá.” Tal foi o anúncio que ainda agora podes ler em algumas folhas de 1869. Não me ficou o dia, o mês foi agosto. O anúncio está certo, foi aquilo mesmo, sem mais nada, nem o nome da pessoa ou pessoas que mandaram dizer a missa, nem hora, nem convite. Não se disse sequer que o defunto era escrivão, ofício que só perdeu com a morte. Enfim, parece que até lhe tiraram um nome; ele era, se estou bem informado, João de Melo e Barros.

Não se sabendo quem mandava dizer a missa, ninguém lá foi. A igreja escolhida deu ainda menos relevo ao ato; não era vistosa, nem buscada, mas velhota, sem galas nem gente, metida ao canto de um pequeno largo, adequada à missa recôndita e anônima.

Às oito horas parou um coupé à porta; o lacaio desceu, abriu a portinhola, desbarretou-se e perfilou-se. Saiu um senhor e deu a mão a uma senhora, a senhora saiu e tomou o braço ao senhor, atravessaram o pedacinho de largo e entraram na igreja. Na sacristia era tudo espanto. A alma que a tais sítios atraíra um carro de luxo, cavalos de raça, e duas pessoas tão finas não seria como as outras almas ali sufragadas. A missa foi ouvida sem pêsames nem lágrimas. Quando acabou, o  senhor foi à sacristia dar as espórtulas. O sacristão, agasalhando na algibeira a nota de dez mil réis que recebeu, achou que ela provava a sublimidade do defunto; mas que defunto era esse? O mesmo pensaria a caixa das almas,se pensasse, quando a luva da senhora deixou cair dentro uma pratinha de cinco tostões. Já então havia na igreja meia dúzia de crianças maltrapilhas, e fora, alguma gente às portas e no largo, esperando. O senhor, chegando à porta, relanceou os olhos, ainda que vagamente, e viu que era objeto de curiosidade. A senhora trazia os seus no chão. E os dois entravam no carro, com o mesmo gesto, o lacaio bateu a portinhola e partiram.

A gente local não falou de outra coisa naquele e nos dias seguintes. Sacristão e vizinhos relembravam o coupé, com orgulho. Era a missa do coupé. As outras missas vieram vindo, todas a pé, algumas de sapato roto, não raras descalças, capinhas velhas, morins estragados, missas de chita ao domingo, missas de tamancos. Tudo voltou ao costume,mas a missa do coupé viveu na memória por muitos meses. Afinal não se falou mais nela;esqueceu como um baile.

Pois o coupé era este mesmo. A missa foi mandada dizer por aquele senhor, cujo nome é Santos, e o defunto era seu parente, ainda que pobre. Também ele foi pobre, também ele nasceu em Maricá. Vindo para o Rio de Janeiro, por ocasião da febre das ações (1855), dizem que revelou grandes qualidades para ganhar dinheiro depressa. Ganhou logo muito, e fê-lo perder a outros. Casou em 1859 com esta Natividade, que ia então nos vinte anos e não tinha dinheiro, mas era bela e amava apaixonadamente. A Fortuna os abençoou com a riqueza. Anos depois tinham eles uma casa nobre, carruagem, cavalos e relações novas e distintas. Dos dois parentes pobres de Natividade morreu o pai em 1866, restava-lhe uma irmã. Santos tinha alguns em Maricá, a quem nunca mandou dinheiro, fosse mesquinhez, fosse habilidade. Mesquinhez não creio, ele gastava largo e dava muitas esmolas. Habilidade seria; tirava-lhes o gosto de vir cá pedir-lhe mais.

Não lhe valeu isto com João de Melo, que um dia apareceu aqui, a pedir-lhe emprego. Queria ser, como ele, diretor de banco. Santos arranjou-lhe depressa um lugar de escrivão no cível em Maricá, e despachou-o com os melhores conselhos deste mundo.

João de Melo retirou-se com a escrivania, e dizem que uma grande paixão também. Natividade era a mais bela mulher daquele tempo. No fim, com os seus cabelos quase sexagenários, fazia crer na tradição. João de Melo ficou alucinado quando a viu, ela conheceu isso, e portou-se bem. Não lhe fechou o rosto, é verdade, e era mais bela assim que zangada; também não lhe fechou os olhos que eram negros e cálidos. Só lhe fechou o coração, um coração que devia amar como nenhum outro, foi a conclusão de João de Melo uma noite em que a viu ir decotada a um baile. Teve ímpeto de pegar dela, descer, voar, perderem-se…

Em vez disso, uma escrivania e Maricá; era um abismo. Caiu nele; três dias depois saiu do Rio de Janeiro para não voltar. A princípio escreveu muitas cartas ao parente, com a esperança de que ela as lesse também, e compreendesse que algumas palavras eram para si. Mas Santos não lhe deu resposta, e o tempo e a ausência acabaram por fazer de João de Melo um excelente escrivão. Morreu de uma pneumonia.

Que o motivo da pratinha de Natividade deitada à caixa das almas fosse pagar a adoração do defunto não digo que sim, nem que não; faltam-me pormenores. Mas pode ser que sim, porque esta senhora era não menos grata que honesta. Quanto às larguezas do marido, não esqueças que o parente era defunto, e o defunto um parente menos.

Em: Esaú e Jacó de Machado de Assis, Rio de Janeiro, Edições de ouro: 1966.  Original publicado em 1904, hoje em domínio público.





O leão e o ratinho – fábula, texto de Monteiro Lobato

12 03 2012

Ilustração, assinatura ilegível.

O leão e o ratinho

Monteiro Lobato

Ao sair do buraco viu-se um ratinho entre as patas de um leão.  Estacou, de pelos em pé, paralisado pelo terror.  O leão, porém, não lhe fez mal nenhum.

— Segue em paz, ratinho; não tenhas medo do teu rei.

Dias depois o leão caiu numa rede.  Urrou desesperadamente, debateu-se, mas quanto mais se agitava mais preso no laço ficava.

Atraído pelos urros, apareceu o ratinho.

— Amor com amor se paga – disse ele lá consigo e pôs-se a roer as cordas.  Num instante conseguiu romper uma das malhas.  E como a rede era das tais que rompida a primeira malha as outras se afrouxam, pode o leão deslindar-se e fugir.

Mais vale paciência pequenina do que arrancos de leão.

José Bento Monteiro Lobato, (Taubaté, SP, 1882 – 1948).  Escritor, contista; dedicou-se à literatura infantil. Foi um dos fundadores da Companhia Editora Nacional. Chamava-se José Renato Monteiro Lobato e alterou o nome posteriormente para José Bento.

Obras:

A Barca de Gleyre, 1944

A Caçada da Onça, 1924

A ceia dos acusados, 1936

A Chave do Tamanho, 1942

A Correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto, 1955

A Epopéia Americana, 1940

A Menina do Narizinho Arrebitado, 1924

Alice no País do Espelho, 1933

América, 1932

Aritmética da Emília, 1935

As caçadas de Pedrinho, 1933

Aventuras de Hans Staden, 1927

Caçada da Onça, 1925

Cidades Mortas, 1919

Contos Leves, 1935

Contos Pesados, 1940

Conversa entre Amigos, 1986

D. Quixote das crianças, 1936

Emília no País da Gramática, 1934

Escândalo do Petróleo, 1936

Fábulas, 1922

Fábulas de Narizinho, 1923

Ferro, 1931

Filosofia da vida, 1937

Formação da mentalidade, 1940

Geografia de Dona Benta, 1935

História da civilização, 1946

História da filosofia, 1935

História da literatura mundial, 1941

História das Invenções, 1935

História do Mundo para crianças, 1933

Histórias de Tia Nastácia, 1937

How Henry Ford is Regarded in Brazil, 1926

Idéias de Jeca Tatu, 1919

Jeca-Tatuzinho, 1925

Lucia, ou a Menina de Narizinho Arrebitado, 1921

Memórias de Emília, 1936

Mister Slang e o Brasil, 1927

Mundo da Lua, 1923

Na Antevéspera, 1933

Narizinho Arrebitado, 1923

Negrinha, 1920

Novas Reinações de Narizinho, 1933

O Choque das Raças ou O Presidente Negro, 1926

O Garimpeiro do Rio das Garças, 1930

O livro da jangal, 1941

O Macaco que Se Fez Homem, 1923

O Marquês de Rabicó, 1922

O Minotauro, 1939

O pequeno César, 1935

O Picapau Amarelo, 1939

O pó de pirlimpimpim, 1931

O Poço do Visconde, 1937

O presidente negro, 1926

O Saci, 1918

Onda Verde, 1923

Os Doze Trabalhos de Hércules,  1944

Os grandes pensadores, 1939

Os Negros, 1924

Prefácios e Entrevistas, 1946

Problema Vital, 1918

Reforma da Natureza, 1941

Reinações de Narizinho, 1931

Serões de Dona Benta,  1937

Urupês, 1918

Viagem ao Céu, 1932

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Esta fábula de Monteiro Lobato é uma das centenas de variações feitas através dos séculos da fábulas de Esopo, escritor grego, que viveu no século VI AC.  Suas fábulas foram reunidas e atribuídas a ele, por Demétrius em 325 AC.  Desde então tornaram-se clássicos da cultura ocidental e muitos escritores como Monteiro Lobato, re-escreveram e ficaram famosos por recriarem estas histórias, o que mostra a universalidade dos textos, das emoções descritas e da moral neles exemplificada.  Entre os mais famosos escritores que recriaram as Fábulas de Esopo estão Fedro e La Fontaine.

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Os pampas, texto de José de Alencar

10 03 2012

Gaúcho na campanha, s/d

José Lutzenberger (Alemanha 1882- Brasil 1951)

aquarela sobre papel, 21 x 29 cm

Museu Ado Malogoli, Porto Alegre.

Os pampas

José de Alencar

“Ao por do sol perde o pampa os toques ardentes da luz meridional. As grandes sombras que não interceptam montes nem selvas, desdobram-se lentamente pelo campo fora.  É então que se assenta perfeitamente na imensa planície o nome castelhano.  A savana figura realmente um vasto lençol desfraldado por sobre a terra, velando a virgem natureza americana.

Essa fisionomia crepuscular do deserto é suave nos primeiros momentos; mas logo ressumbra tão funda tristeza que estringe a alma.  Parece que o vasto e imenso orbe cerra-se e vai minguando a ponto de espremer o coração.

Cada região da terra tem uma alma sua, raio criador que lhe imprime o cunho de originalidade. A natureza infiltra em todos os seres que ela gera e nutre aquela seiva própria; e forma uma família na grande sociedade universal.

Quantos seres habitam as estepes americanas, seja homem, animal ou planta, inspira nelas uma alma pampa.  Tem grandes virtudes essa alma. A coragem, a sobriedade, a rapidez são indígenas da savana.

No seio dessa profunda solidão, onde não há guarida para defesa, nem sombra para abrigo, é preciso afrontar o deserto com intrepidez, e sofrer as privações com paciência e suprimir as distâncias pela velocidade.

Até a árvore solitária que se ergue no meio dos pampas é tipo dessas virtudes.  Seu aspecto tem o  quer seja de arrojado e destemido; naquele tronco derreado, naqueles galhos convulsos, na folhagem desgrenhada, há uma atitude atlética. Logo se conhece que a árvore já lutou com o pampeiro e o venceu.  Uma terra seca e poucos orvalhos bastam à sua nutrição.  A árvore é sóbria e feita às inclemências do sol abrasador.  Veio de longe a semente; trouxe-a o tufão nas asas e atirou-a ali, onde medrou. É uma planta imigrante.

Como a árvore são a ema, o touro, o corcel, todos os filhos bravios da savana. Nenhum ente, porém, inspira mais energicamente a alma pampa do que o homem, o gaúcho. De cada ser que povoa o deserto toma ele o melhor; tem a velocidade de ema ou da corça, os brios do corcel e a veemência do touro.  O coração fê-lo a natureza franco e descortinado como a vasta cochilha; a paixão que o agita lembra os ímpetos do furacão, o mesmo bramido, a mesma pujança.  A esse turbilhão de sentimentos era indispensável uma amplitude de coração imensa como a savana.”





O espaço, poema de Henrique Simas

9 02 2012

O espaço

Henrique Simas

O vento soprou depois de alguma espera

E foram expulsos de dentro todos os fantasmas

Os restos de sombra o sol desfez.

A chuva terminou de apagar as últimas letras,

Arrancando da terra as raízes inúteis.

E nada mais sobrou além do espaço

Pronto a ser ocupado pelos novos donos,

Obstinados cultivadores de esperança.

Em: Horizonte Vertical: poemas, Henrique Simas,prefácio de Alceu Amoroso Lima, Rio de Janeiro, Olímpica: 1967, p. 78.





Natal, poema de Jair Amorim

20 12 2011

Fuga para o Egito, s/d

Bartolomé Esteban Murillo (Espanha, 1618-1682)

Óleo sobre tela, 210 x 166 cm

Instituto de Arte de Detroit, EUA

Natal

—-

Jair Amorim

—-

E ainda hoje nascerás mais uma vez…

Sobre os reis Magos

a estrela-guia

os deixará ofuscados e perplexos

pela emoção

da santíssima aparição

E Tu nascerás neste e em outros anos

enquanto homens de porre

e mulheres quase nuas, ao sol,

tostadas e maquiladas

esperarão a hora mágica da noite

para exibir seus corpos luzidios

tomando chopes e comendo rabanadas.

E Tu, Senhor, nascerás mais uma vez à meia noite

pequenino e lindo

com Tua mensagem incompreendida

para os inúteis amanhãs

do dia nosso de cada vida.

E em Teu nome, Tuas palavras vãs,

nós nos empanturraremos

de vinhos

tâmaras

e avelãs…

—-

—-

Em: Canto Magro de Jair Amorim,  Vitória, UFES: 1995

Jair Pedrinha de Carvalho Amorim (ES 1915 – SP 1993) poeta, compositor e jornalista.





Almas no jardim, um conto de Marques Rebelo

23 11 2011

Almas no jardim

Marques Rebelo

Cercada por uma muralha de morros negros e tristes, silenciosa e limpa, a pequena praça fica num bairro distante, no fim de uma rua nova mas abandonada.  Tem dois mesquinhos repuxos ao gosto municipal, quatro tabuleiros ingleses de grama dum verde que o vento e o sol fustigam e queimam, e vários ficus, ostentando, tesos, figuras recortadas por tesouras de reduzida originalidade.  Tem duas pérgolas também, duas ridículas pérgulas de madeira pintada de branco, onde umas trepadeiras, que se abrem em agressivos cachos solferinos, se enroscam mais ou menos raquiticamente. Sob cada pérgula, um banco.  Não são incômodos, mas que fossem! não há bancos incômodos para os casais de namorados.

Nessa pequena praça, ouvindo a música medíocre dos repuxos , ora numa, ora noutra pérgula, diariamente, ao cair da tarde, eu me encontro com ela, com ela que é branca como uma açucena, que é mansa como uma sombra, que é doce como um favo, com ela cuja voz é uma fonte cantando e cujo olhar traz para mim o mesmo mistério do céu noturno.

Por esta hora, nesse bairro distante que o sol custa a deixar e cujo vento é qualquer coisa de extraordinariamente notável, a pequena praça é pouco frequentada. Raramente crianças vêm brincar nas retas ruazinhas de fino saibro, entre os quatro canteiros urbanos, em volta dos repuxos.  Para um casal apaixonado é uma solidão propícia, uma amável solidão.  Lá estamos todas as tardes, eu e ela, tecendo o delicado tecido das esperanças, frágil teia que não resiste ao menos sopro contrário.

— Você gosta de mim?

— Adoro!

— Se eu morresse…

— Bobo!

— Então eu não posso morrer?

— Não!

Sacudo os ombros:

— Pois morrerei.  Morrerás.  Morreremos.

Ela — que tem medo da morte! — treme:

— Não tem mais nada para dizer, não?

Tenho.  Tenho um mundo de coisas doces e ternas, ó miragens, ó sonhos, ó devaneios! E tenho um mundo de coisas graves também.  Coisas graves e sérias, mas que jamais sairão, jamais confessarei, ficarão para sempre dentro do meu peito inquieto, tubilhonantes, confusas — oh, extremamente dolorosamente confusas e opressoras! — porque tudo crestariam, pior que o vento da pequena praça, como um vento de fogo.

E ela talvez advinhe as minhas coisas graves e sérias.  Põe em mim os olhos cheios de amor:

— Amo-te com todos os mistérios da tua vida.

E é melhor assim.

Cai frequentes vezes, ela, num contemplativo mutismo, o queixo apoiado na mão e o braço apoiado no meu ombro.

— Em que está pensando? — pergunto.

— Em você.

— Ora!… Fala.

— Gosto mais de te ouvir.

Abre o amável sorriso de claros dentes, responde numa moleza:

— Adoro!…

E o amor é isto: se está triste, amo sua tristeza, se está alegre, amo a sua alegria; e há palavras que parecem sem sentido, mas que caem fundo no coração; e há silêncios que valem por todas as palavras; e ora é um sorriso que nos leva para o céu, ora é um baixar de olhos que nos traz o céu com mil estrelas.

Além de nós, uma vez por outra, um outro casal ocupa a pérgula fronteira.  Olham para nós, sorriem, compreendendo, e como nós desenrolam a eterna história dos corações.  Mas são casais intermitentes.  Constantes, constantes como o vento, somos nós.  Nós, os pardais e Liró.

Os pardais são inumeráveis — ciscam, chilreiam, voam, brigam, amam…  O guarda é um polícia municipal que deve andar pelos quarenta anos, mas a quem se pode dar muito mais.  Tem o porte muito pouco marcial (o pagamento anda sempre atrasado) e o andar de quem já não tem mais pernas.  Com o seu cinzento capacete colonial, escondendo um rosto avermelhado, gretado e melancólico, faz olho morto e complacente aos nossos beijos, aos nossos abraços demasiados.  Já que o vento não consente na primavera dos canteiros, que ao menos nos nossos corações — deve pensar ele — haja flores e outras manifestações primaveris.  Atira pedrinhas aos esquivos peixinhos vermelhos no tanque, peixinhos japoneses cuja cauda tem a transparência das medusas, fica horas e horas numa contemplação, não sei se estúpida ou poética, dos repuxos que não se cansam na sua música monótona, medíocre, inútil.  Com uma continência conivente e frouxa, cumprimenta-nos quando chegamos às quatro e quando saímos às sete, mais ou menos, hora em que a pequena praça começa a sofrer  a noturna invasão dos namorados do bairro.

Liró é o contraste do guarda.  Liró é alegre.  Liró  é brincalhão.  Liró é saltitante.  Mal apontamos, ele corre ao nosso encontro com os olhos transbordantes de simpatia.  Quando partimos, nos leva religiosamente até a esquina mais próxima.  Liró, sabemos, é realmente nosso amigo.  Tem o fraco difícil das verdadeiras e desinteressadas amizades.

Hoje não vimos Liró ( o nome foi posto por nós no primeiro dia que viemos à pequena praça).  Perguntamos ao guarda por ele.  Com voz surda, voz gasta, voz sem dentes, respondeu que não sabia.  Sumira desde a véspera., pouco depois de nos termos ido embora.

Ficamos tristes, inquietos (os pardais chilreavam insensíveis).  Se tiver sido apanhado pela carrocinha, combinamos, irei resgatá-lo no depósito público. Se tiver sido vítima de um automóvel — e ela ficou com os olhos úmidos — não voltaremos à pequena praça.  Porque Liró é a vida da pequena praça, convencemo-nos.  Toda a vida.

Em: Contos Reunidos, Marques Rebelo, Rio de Janeiro, José Olympio 1979, 2ª edição.

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Edi Dias da Cruz, pseudônimo: Marques Rebelo (RJ 1907-RJ 1973) jornalista, contista, cronista, novelista e romancista. Nasceu no Rio de Janeiro, mas mudou-se com a família para Barbacena em Minas Gerais. No início dos anos 20, ingressou na Faculdade de Medicina, que logo abandonou para se dedicar ao comércio.  Dedicou-se ao jornalismo profissional no início dos anos 20.  Escreveu seus primeiros contos por volta de 1927, quando fazia o Serviço Militar. Teve uma carreira brilhante como escritor e bastante produtiva.  Retratou como poucos a vida na cidade do Rio, no período que viveu as agitações de seu crescimento.





A mulher de vermelho e branco de Contardo Calligaris e a ambiguidade

11 11 2011

O que você vê nesta imagem?

Depois da leitura do excelente romance A mulher de vermelho e branco, de Contardo Calligaris, [ Cia das Letras: 2011] eu gostaria de poder rever meu primeiro professor em teoria da percepção, Antônio Gomes Penna (1917-2010), para dizer, “valeu mestre”, o senhor me preparou para a boa interpretação de texto e das artes visuais.  A  realidade é plural.  É a soma do que vemos e do que não vemos.  Mas, através desses anos, como historiadora da arte, o conhecimento da gestalt raramente se fez óbvio, pelo menos ostensivamente.  A razão é simples: a ênfase tem sido na historiadora e não no teórico das artes visuais.  A  história da cultura ocidental através das artes plásticas e da literatura prevaleceu sobre as teorias da percepção, se isso pode de fato acontecer, porque a  história também está sujeita a interpretações diversas,  não sendo fixa nem sedimentada.  Como tudo mais,  é a soma do que  vemos e do que não vemos.  O romance de Contardo Calligaris é uma fascinante e deliciosa aventura, contagiante e sedutora, no mundo das nossas percepções daquilo que nos rodeia, daquilo que nos afeta e até mesmo da interpretação dos nossos sonhos.

Mas não se enganem, A mulher de vermelho e branco é antes de tudo uma ótima história, contada de maneira simples, direta, sem muitos rodeios literários.  É um quase-thriller.  Digo um quase-thriller porque as aventuras que se desenrolam ao longo do caminho são mais de ordem intelectual.  Até mesmo o perigo é mais potencial do que factual, se bem que tão importante quanto.  Mas há um fio condutor de suspense até a última página, quando temos que reconsiderar tudo o que poderíamos ter imaginado e somá-lo ao que já considerávamos como certo.

A trama se passa em seis meses de 2003 com duas atualizações em 2010 e 2011 e retrata a vida do psicanalista Carlo Antonini, dentro e fora de seu consultório: vida profissional e particular.  São os dois aspectos de sua vida que se entrelaçam: ora o psicanalista, ora o homem comum nos ajudam a construir o enredo.  Seguindo seus passos e suas divagações, considerando os amigos, as conversas e, em particular, uma paciente entramos com ele na difícil arte de interpretar a realidade que se apresenta aos seus olhos.  A mulher de vermelho e branco não deixa de ser um envolvente ensaio prático sobre a ambiguidade, um documento lúdico que demonstra como as condições do observador modificam a importância do que é percebido.  

Nessa narrativa tudo tem muitas faces.  Tudo é a soma de todos os seus componentes tanto os percebidos quanto os que estão distantes do nosso conhecimento: as pessoas têm diferentes nacionalidades, vão e vêm de diferentes países, falam pelo menos duas diferentes línguas com familiaridade.  São famílias com mais de uma identidade, vindas de diversos lugares do mundo.  Duas mulheres, que a princípio parecem diametralmente opostas, ambas com singular dualidade entre seus nomes de batismo e os nomes pelos quais vêm a ser conhecidas, apresentam comportamentos que, por base em um evento, parecem se modificar no inesperado oposto do que haviam sido até então.  Ambas podem ou não ser suspeitas de atos de violência, mas ambas também podem demonstrar fragilidade e doçura. Até mesmo o psicanalista Carlo Antonini que narra o romance, que trafega com familiaridade entre São Paulo, Nova York e Paris, que muda de língua como se muda de roupa, considera a ambivalência do dentro e do fora de seu consultório, de seus motivos e até do que a vida poderia ter sido.  E ainda é confrontado com a ambivalente leitura que faz daqueles que o rodeiam, dos amigos e conhecidos. Não é que a realidade esteja sempre em questionamento na narrativa, é ela que se apresenta camaleonesca, múltipla, facetada e precisa ser ajustada à medida que os personagens dão vazão à fluidez de suas vidas.

Contardo Calligaris

Mais do que um romance, uma aventura ou um thriller,  A mulher de vermelho e branco é um exemplo do trabalho da psicologia cognitiva.  Ele demonstra que a realidade é ambígua, que cada pessoa, fato ou evento pode mudar de acordo com a interpretação que deles fazemos. E, no final, quase somos surpreendidos,  não necessariamente pela trama.  Mas quando consideramos o efeito da ambiguidade em tudo que nos cerca.  Como conseguimos navegar ao longo de nossas vidas sem maiores embates, sem grandes desentendimentos, quando não podemos compreender tudo o que nos cerca?  Parece fantástico, miraculoso até:  se cada um de nós percebe o mundo de maneira tão diferente,  tudo deveria contribuir para um caos ainda maior do que o que enfrentamos, para o oposto da ordem.    Vale a leitura.  Recomendo.