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Londres, Casas do Parlamento, 1903
Claude Monet ( 1840-1926)
óleo sobre tela
[Claude Monet pintou uma série enorme de paisagens como esta, retratando as casas do parlamento inglês, num estudo sobre os efeitos da neblina. Não sei exatamente o número total de varições desse tema, mas elas foram pintadas em 1900-1904]
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Esta semana vimos muitos programas na televisão e artigos no jornal que lembram o aniversário de 30 anos da Guerra das Ilhas Malvinas ou Faulklands. Não me pronuncio politicamente nesse blog. Este não é o objetivo desse lugar, mas não pude deixar de me lembrar dessa crônica de Elsie Lessa, quando vi tais comemorações: uma crônica que eu havia lido há alguns anos. Devo dizer, que sou fã de algumas cidades no mundo. Londres está entre elas. [As outras? Paris, Madri, Coimbra, Córdoba, Sarlat e Siena, lugares que por várias e diversas razões cheguei a conhecer muito bem e a visitar inúmeras vezes]. Mas meu sonho de consumo, aquele que a gente acalenta sem dizer palavra porque sabe ser quase impossível, aquele que só se realizaria se um dia eu ganhasse na loteria, (e jogo sempre na esperança) é ter um “flat” em Londres, uma cidade verdadeiramente cosmopolita. Como poucas.
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COTIDIANO INGLÊS
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Elsie Lessa
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Estrangeira, com quase cinco anos de Londres, é muito frequente virem me perguntar, brasileiros e ingleses, o que acho da Inglaterra. Posso dizer a ambos, sem mentir, que acho um privilégio ter desfrutado dela por tanto tempo. Porque? Tranquilidade, um sentido de segurança, de ser respeitado como ser humano, de ser deixada viver, sem atritos, num mecanismo social de rodas bem azeitadas, dentro das falibilidades humanas. É um sapato que não dói no pé, como todas as felicidades, negativo, não incomoda, não machuca e a gente só se dá conta disso quando, à força de uso, lembra que está na hora de substituí-lo ou de ter que deixar o país.
As pequenas coisas da vida: o inevitável “obrigado por ter chamado” de qualquer amiga inglesa, para quem a gente ligou. O “por favor” e o “muito obrigado” de que é recheado o cotidiano.
Outro dia eu esperava o ônibus na esquina e, decerto para entreter a espera, aquele senhor de cabelos brancos e roupa meio puída me chamou atenção para aquele desperdício de dois postes tão juntos. Não era preciso não estava ali aquele com a tabuleta da parada? Para que o outro? Era assim que eles gastavam o nosso dinheiro e por aí vai. Entrei contente na conversa e na argumentação, tinha todíssima razão, a gente devia escrever ao “Council” (Conselho Municipal), dona Tatcher era uma senhora sem juízo, a vida estava cara, essas amenidades. Veio o meu ônibus, o dele não. E eu já estava dentro quando o meu vizinho de rua, como fazia meu pai quando lhe agradeciam ter pago a passagem de bonde, levantou um pouco o chapéu, saudou-me, agradecendo: “obrigado por ter falado comigo”. Está aí um obrigado que nunca ninguém antes me dissera.
Sou jornalista, gosto de papear, num dia a dia sem muitos interlocutores e usufruo os privilégios da feliz idade a que cheguei, que me põe a salvo de intenções equívocas, ao iniciar uma conversa com um vizinho de balcão de café. Era ali na Brompton Arcade para o cafezinho das 4, com um cheiro que deixa os fregueses de bom humor. Entrei na deixa fácil do café do Brasil, falamos de outros, cafés e países, ele já me oferecia galante uma segunda xícara quando me despedi. Este já era um “gentleman” bem-apessoado,ao contrário do homem reclamador de Chelsea. Só os unia a mesma boa educação: “muito obrigado por ter falado comigo”. Tudo boa gente.
Há 8 semanas este país está em estado de conflito, se não de guerra, já tendo ceifado uma meninada e alguns dos seus comandantes. Não ouvi uma discussão em voz alta sobre ela, embora seja muito comentada. A televisão tem vozes soturnas, nunca esbravejantes. Inevitavelmente são transmitidas as notícias e as estatísticas dos dois lados, embora divirjam. São mostrados trechos inteiros da televisão argentina. Sem comentários ou com um único, certa vez: “A televisão aqui é um pouco diferente”. Nos programas de auditório, fascinantes, em que se discute tudo, (outro dia tomava parte um argentino do auditório), aceitam-se, em voz baixa, todos os argumentos a favor, contra, nem a favor nem contra, muito pelo contrário. Admite-se que seres humanos tenham diferentes pontos de vista e que os defendam, com bons modos e serenidade. A Rainha tem um filho na frente de batalha e nem ela nem ninguém faz estardalhaço disso. Ela respondeu simplesmente, perguntada: “São tempos de preocupação e sofrimento para todos nós. Nossos corações estão com eles, Mas a vida deve continuar…” O príncipe mais moço, Edward, acaba de se alistar como fuzileiro naval. Com uma única nota para a imprensa: não por causa da guerra, mas como parte da educação dos rapazes da família real”. É, a Inglaterra não dói no pé.
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Em: Ponte Rio-Londres, Elsie Lessa, Rio de Janeiro, Record:1984.






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