
Livros proibidos, 1897
Alexander Mark Rossi ( Inglaterra, 1840-1916)
Óleo sobre tela
Royal Academy, Londres
Quem quiser se deliciar com o espírito empreendedor de uma menina americana deve passar pelo blog BATATA TRANSGÊNICA e ler, como a jovem adolescente não só conseguiu burlar as restrições impostas por sua escola católica conservadora, mas como conseguiu também, com uma única idéia posta em prática seduzir estudantes que antes não liam livros em se tornarem leitores assíduos.
O efeito da proibição da leitura de uma série de livros muito conhecidos teve o efeito oposto ao que a direção da escola certamente esperava. Esta revelação me lembrou uma ocasião na minha adolescência. Meus pais eram, ambos, leitores sistemáticos e ecléticos, e nunca deixaram transparecer que vigiavam o que líamos. Na verdade, para mim, pelo menos, eles pareciam até bastante liberais. Quando fiz onze anos, minha mãe me deu um volume de José de Alencar: O Tronco do Ipê, com uma notinha, dizendo que eu já estava bem grandinha e que ela achava que agora eu já poderia ler alguns livros de adultos.
Abracei O Tronco do Ipê como se fosse maná. A fome de ficar adulta era grande. E confesso que até hoje, este livrinho bem água-com-açúcar é de vez em quando relido para matar as saudades. Qual não foi a minha surpresa então, ao descobrir, alguns anos mais tarde, que havia limites no que eu podia ler. Boa parte da minha mesada, ou qualquer dinheiro que eu ganhasse extra – trabalhei pela primeira vez aos 16 anos – era gasta na compra de livros. Meus livros! Tinha um orgulho imenso de possuí-los. Verdadeira rato-de-sebos, fui ajuntando um grupo pequeno de favoritos. Lia muito e lia de tudo. Principalmente livros de política e sociologia, que na época da ditadura eram proibidos.
Mas um dia, aos quinze anos, cheguei em casa feliz com Trópico de Câncer, de Henry Miller. Deixei rapidamente o livro no sofá da sala para fazer qualquer coisa lá dentro. Quando voltei, para pegar o livro e lê-lo, tive uma surpresa. Minha mãe havia se transformado na Bruxa Malvada da Branca de Neve. Sério! Com um ar de poucos amigos, ela me perguntou onde eu havia conseguido aquele livro? Onde o havia comprado? Porque ela queria ir até aquela livraria. Como é que uma livraria responsável poderia vender tamanha pornografia para uma menina de quinze anos? Eles estavam fora de ordem. Eu era menor. E assim continuou por muito tempo. Meu coração diz horas, mas tenho certeza de que não deve ter passado de 20 minutos de reclamações e inquisições. E aí, para meu maior espanto, ela pegou o livro NOVINHO e, na minha frente, rasgou-o em centenas de pedaços numa raiva avassaladora. Fiquei pasma! Aquilo era inconcebível. Minha mãe, uma professora, rasgando livros! Chorei, chorei de raiva, de frustração, de susto. Foi como se ela tivesse me dado uma boa sova. E mais tarde, ainda fiquei uma vez mais surpresa, quando meu pai chegou em casa e para meu espanto concordou com todas as decisões de mamãe inclusive com o rasgar do volume de Henry Miller.
Só vim a ler Trópico de Câncer depois dos 30 anos. E achei-o muito enjoado. Mas entendo a fascinação que um livro proibido, ou um livro “para adultos” pode ter para um adolescente. Minha mãe sabia disso também ou não teria me apresentado a José de Alencar daquela maneira. A pergunta que fica: como é que educadores de uma escola onde há adolescentes, e ainda por cima de uma escola religiosa, que têm a obrigação de conhecer os motivos que levaram Adão e Eva a serem expulsos do Paraíso, como que eles, de repente, não se lembram de que o fruto proibido é sempre mais saboroso? E se precisam proibir que proíbam com motivos sérios. A lista de livros proibidos – que copiei do blog BATATA TRANSGÊNICA — repito aqui abaixo, é ridícula! Não só grandes textos da cultura ocidental estão incluídos como textos pertinentes para qualquer boa educação, de Darwin ao Alcorão. Eu tiraria meus filhos desta escola. Não pensaria duas vezes!
A LISTA




Escola: pintura à óleo de Diva do Val Golfieri (Brasil, contemporânea)


Copacabana, 2 horas da tarde.





