Imagem de leitura — Rosso Fiorentino

10 12 2009

Dois querubins lendo, 1518  [DETALHE]

Altar da Virgem Maria no trono com Menino Jesus e Quatro  Santos

Giovanni Battista di Jacopo, ou Rosso Fiorentino, ou Il Rosso ( que quer dizer O Ruivo)  (Florença 1494 — Fontainebleau 1540)

óleo sobre madeira  — 172 x 141 cm

Galleria degli Uffizi, Florença.

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Rosso Fiorentino, foi um dos grandes pintores maneiristas da Itália.  Nascido em Florença, foi paprendiz de Andrea del Sarto, junto com Pontormo. Depois de 1527, foi para França, onde Permaneceu até sua morte. Junto com Francesco Primaticcio, era um dos principais mestres da Escola de Fontainebleau, no Castelo de Fontainebleau.





Lapinha, poema de Natal de Wilson W. Rodrigues

10 12 2009

LAPINHA

 

                                                                          Wilson W. Rodrigues

Cristo fugiu do presépio,

veio em meu sonho dormir.

Eu quis cantar de alegria

mas, contentei-me em sorrir.

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Se cantasse, acordaria

e talvez Cristo chorasse.

Era tão belo dormindo,

dei um beijo em sua face.

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Nessa noite de Natal

Deus veio me visitar.

Estava triste, sozinho,

minha festa era sonhar.

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Ai!  Sonho!  Presepe d’alma!

Ai!  Cristo – visita santa!

Dorme, meu Cristo menino,

minha tristeza  acalanta…

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Em:  Bahia Flor: poemas, de Wilson W Rodrigues, Rio de Janeiro, Editora Publicitan: 1948

 

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Wilson Woodrow Rodrigues — poeta, folclorista, jornalista, professor e técnico de educação.  Nasceu em 6 de julho de 1916, na cidade de São Salvador, Bahia.  Filho do Cel. Julio Rodrigues de Sousa e de D. Josina Parente Rodrigues, família do Recôncavo Baiano.  Desde menino revelou vocação para a poesia, tendo publicado as suas primeiras composições em periódicos escolares.  Seu primeiro livro publicado teve as bençãos antecipadas do poeta Jorge de Lima.

Obras: 

 A caveirinha do preá,  Arca ed.: s/d, Rio de Janeiro

Desnovelando, Arca ed., s/d, Rio de Janeiro

O galo da campina, Arca ed,: s/d, Rio de Janeiro

O pintainho, Arca ed.: s/d, Rio de Janeiro

Por que a onça ficou pintada, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

A rãzinha, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

Três potes, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

O bicho-folha, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

A carapuça vermelha, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

Bahia flor, 1948 (poesias)

Folclore Coreográfico do Brasil, 1953

Contos, s/d

Contos do Rei-sol, s/d

Contos dos caminhos, s/d

Pai João, 1952

Sombra de Deus

Pai João, 1952

Lendas do Brasil





Canto de Natal — poema de Manuel Bandeira

7 12 2009

Nascimento de Jesus

Arte folclórica dos Estados Unidos, anônimo

 

Canto de Natal

 

                                                                          Manuel Bandeira

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O nosso menino

Nasceu em Belém

Nasceu tão-somente

Para querer bem.

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Nasceu sobre as palhas

O nosso menino.

Mas a mãe sabia

Que ele era divino.

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Vem para sofrer

A morte na cruz,

O nosso menino.

Seu nome é Jesus.

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Por nós ele aceita

O humano destino:

Louvemos a glória

De Jesus menino.

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Em: Bandeira, antologia poética, Rio de Janeiro, José Olympio:1978, 10ª edição.

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Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (Recife, 19 de abril de 1886 — Rio de Janeiro, 13 de outubro de 1968)  poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro.

Obras:

3 Conferências sobre Cultura Hispano-americana,  1959  

50 poemas escolhidos pelo autor , 1955  

A Autoria das Cartas Chilenas, 1940  

A Cinza das Horas, 1917  

A Cópula, 1986  

A Leste do Éden, 1958  

A Morte, 1965  

A Versificação em Língua Portuguesa    

Alumbramentos, 1960  

Andorinha, Andorinha  1965  

Antologia de Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos  1946  

Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana  1938  

Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Romântica  1937  

Antologia dos Poetas Brasileiros: fase moderna  1967  

Antologia dos Poetas Brasileiros: Fase Simbolista  1937  

Antologia Poética  1961  

Apresentação da Poesia Brasileira  1944  

Auto Sacramental do Divino Narciso, de Sóror Juana Inés de la Cruz    

Carnaval  1919  

Cartas de Mário de Andrade a Manuel Bandeira  1958  

Colóquio Unilateralmente Sentimental  1968  

Crônicas da Província do Brasil  1937  

De Poetas e de Poesia  1954  

Discurso de Posse de Manuel Bandeira na Academia Brasileira de Letras  1941  

Em Busca do Verso Puro, de Pedro Henríquez Ureña  1946  

Estrela da Manhã  1936  

Estrela da Tarde  1960  

Estrela da Vida Inteira  1966  

Flauta de Papel  1957  

Francisco Mignone  1956  

Glória de Antero  1943  

Gonçalves Dias  1952  

Guia de Ouro Preto  1938  

Itinerário de Pasárgada  1954  

Itinerários  1974  

Libertinagem  1930  

Literatura Hispano-americana  1949  

Macbeth, de Shakespeare  1958  

Mafuá do Malungo  1948  

Maria Stuart, de Schiller  1955  

Mário de Andrade: animador da cultura musical brasileira  1954  

Meus Poemas Preferidos  1967  

Noções de História das Literaturas  1940  

Noturno do Morro do Encanto  1955  

O Melhor Soneto de Manuel Bandeira  1955  

Obras Poéticas  1956  

Obras Poéticas de Gonçalves Dias  1944  

Obras-primas da Lírica Brasileira  1943  

Opus 10  1952  

Oração de Paraninfo  1946  

Os Reis Vagabundos  1966  

Panorama das Literaturas das Américas  1958  

Pasárgada  1960  

Poemas Traduzidos  1945  

Poemas-gráficos: 3 ensaios tipográficos no centenário do poeta  1986  

Poesia do Brasil  1963  

Poesia e prosa  1958  

Poesia e Vida de Gonçalves Dias  1962  

Poesias  1924  

Poesias completas  1940  

Poesias Escolhidas  1937  

Poesias, de Alphonsus de Guimaraens  1938  

Portinari  1939  

Recepção do sr. Peregrino Júnior  1947  

Recordações de Manuel Bandeira nos Arquivos Implacáveis de João Condé  1990  

Rimas, de José Albano  1948  

Rio de Janeiro em Prosa & Verso  1965  

Rubaiyat, de Omar Khayyan  1965  

Sonetos Completos e Poemas Escolhidos, de Antero de Quental  1942  

Um Poema de Manuel Bandeira  1956





Vorte quem tem fé — um conto de J. B. de Mello e Souza

6 12 2009

 

Igreja de São Bento, Vale do Tamanduateí, SP, s/d

José Wasth Rodrigues (Brasil, 1891-1957)

Aquarela, 32 x 47 cm.

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Vorte quem tem fé

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                                               À memória de Horácio Senne

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                                                         ” A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova daquelas que não se vêem.”   —-      S. PAULO, Epístola aos Hebreus, 11

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          Nada se pode articular contra a sinceridade com que a gente do Vale do Paraíba pratica seus deveres religiosos.  Pelo menos, era assim no meu tempo de menino: os preceitos da Igreja, nós os cumpríamos com uma pontualidade inalterável, e mais ainda:  com profunda unção espiritual.

          Por alguns anos (antes de nos transferirmos para a Chacrinha, às margens do Paraíba), residimos perto da Matriz, e tivemos como vizinho o velho vigário Gaudêncio Antônio de Campos.

          Tal circunstância, acrescida pelos desvelos de minha mãe, concorreu para a dedicação e o interesse com que eu e meus manos nos dedicávamos a tudo o que dissesse respeito ao culto.

          Por ocasião das grandes e solenes procissões, nós figurávamos em lugares de realce, trajando roupas vermelhas, e tendo nas mãos pesados círios.  Nas rezas do mês de Maria, igualmente, éramos incluídos na guarda de honra do altar.  Como mais velho, eu, compenetradíssimo, fiscalizava meus irmãos, pois o maior prazer do Nelson era brincar com a chama de sua vela, e reacender as que se apagassem, para o que saía pingando cera em todo o mundo; e o do Júlio, bater nos cachorros que entrassem no templo, os quais saiam ganindo lamentosamente, o que a meu ver perturbava a atenção piedosa dos fiéis.

          O vigário Gaudêncio, homem boníssimo, utilizava, sempre que possível, nosso concurso nas festinhas da paróquia.  É claro que não designo por essa forma as grandes solenidades, religiosas e populares, que se efetuavam outrora, como ainda hoje, nos dias 23 a 25 de junho, e que compreendem as homenagens ao Santo Precursor, padroeiro da cidade e as festas anuais consagradas ao Divino Espírito Santo.  Nesses dias havia alvorada, missas cantadas (pregando o Evangelho ilustres oradores sacros), imponentes procissões, retretas ao jardim público, mesas de doces franqueadas ao povo, como nas hecatésias atenienses, leilões, fogos de artifício o que tudo figurava nos programas impressos em enormes folhas de papel de cor, e absorvia as atenções de toda a gente, durante aquele movimentado tríduo.

          Dessas solenidades, porém, a que mais me impressionava era a proclamação dos festeiros para o ano seguinte.   Os festeiros eram três:  o “Imperador”, o “Capitão do Mastro” e o “Alferes da Bandeira.”  O primeiro, superintendia toda a festa; o segundo tinha a seu cargo a ereção do mastro, alto poste de madeira, cantado em frente a Matriz, poste que devia ser anualmente substituído.  Na extremidade do tal mastro ficaria o quadro, isto é, a bandeira, em que São João Batista se via com o inseparável cordeirinho aos pés.  Ao “Alferes da Bandeira” cabia a feitura desse quadro.

          Salvo casos especialíssimos (de promessas, ou de donativos altamente valiosos), os festeiros eram escolhidos mediante sorteio, entre paroquianos de notória idoneidade, que se apresentassem candidatos àquelas honrosas funções.

Quando se proclamava o “Imperador”, estando a velha igreja repleta, sentia-se certo frisson na assistência: a música tocava, os sinos vibravam, e o foguetório enchia o ar com seus estrondos.  É claro que tais homenagens lisonjeavam a vaidade dos pretendentes.

          Lembra-me ainda o dia em que o vigário Gaudêncio se mostrava preocupado com qualquer problema de solução difícil.

          — Estou numa dúvida desagradável, seu João de Deus – dizia ele a meu pai.  – Imagine que eu já havia assumido compromisso com o Rebouças de Carvalho, o Dr. França e o Chico Carlos, para imperador, capitão do mastro e alferes da bandeira.  Agora soube que o Zé Carlos e o Monteiro também fazem questão fechada de ser festeiros.  Não quero faltar a minha palavra, mas também não desejo magoar a esses bons amigos…  Que acha você que convém fazer?

          Meu pai formulou uma solução conciliatória, mas o padre fez ver que nada conseguiria, dada a intransigência dos candidatos. 

          O Nelson, que comigo assistia ao grave debate, animou-se a propor outra sugestão. 

          —  Pois vamos ver o que é, menino, disse o sacerdote, já sorrindo por conta da extravagância que esperava.

          —  Em vez de três festeiros, o senhor arranja cinco.

          —  Cinco?  Mas, como?  Se são só três os cargos!

          —  Isso não tem importância!  O senhor arranja mais dois: o major da fogueira, e o tenente do pau de sebo!

           É claro que a idéia do Nelson nem sequer foi objeto de deliberação o que o decepcionou bastante.  Atribuímos a recusa do padre ao fato de não ser possível promover o Capitão José Carlos a “major”, nem rebaixar o Capitão Moreira a “tenente”.

          Convém recordar que naquele tempo todos os fazendeiros do interior adquiriam patentes de oficiais da extinta “Guarda Nacional”, e, como esses títulos nunca mudavam, aderiam ou anexavam-se indelevelmente aos nomes dos respectivos portadores.

          —  O padre Gaudêncio é muito atrasado, observou Nelson, despeitado.  E é teimoso na sua opinião.  Nunca muda nada!  Todos os anos há de se fazer a mesma coisa que se fazia há cinqüenta anos atrás!

          Em casa a turma fez caçoada.  Sugeriram-se mais dois postos, altamente honrosos:  o de coronel da retreta e o de general da procissão.

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          Mais do que as festas juninas, porém, o fato que ora vou referir comprova o espírito religioso do povo queluzense.  Quando ele ocorreu, já o padre Gaudêncio, valetudinário, havia deixado o árduo ministério.  Pastoreava a paróquia o padre Paulo Machado.

          Prolongada estiagem estava causando graves danos à lavoura, em todo o município.  Tres longos meses haviam transcorridos, sem que do alto caísse um pingo d’água.  Os lavradores queixavam-se e com razão.  Rios e ribeirões das fazendas distantes do Paraíba minguavam a olhos vistos.  O gado perecia. 

          Quando ocorrem tais períodos de secas, o céu torna-se pardacento, todo por igual, e os dias passam sem que nos venha o refrigério de uma brisa, o que produz em toda gente, nos animais, e até nas plantas uma tristeza esquisita, um desalento sem remédio.

          O povo de Queluz suportava a ausência de chuvas enquanto podia.  Se  a natureza perseverasse em sua ação inclemente, não havia discutir: recorria-se a São Roque.

Procissão, 2007

Vera Sabino (Brasil, PR.  Contemporânea)

Acrílica sobre eucatex

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          São Roque tem o seu culto em modesta capelinha em torno da qual se formou um pequeno povoado, simples arraial, que do município de Areias foi recentemente transferido para o de Queluz.   Cerca de três quilômetros separam o povoado de qualquer das duas cidades.  Numa e noutra tem o santo apreciável número de devotos.

          Para trazer São Roque a Queluz tornava-se necessário a autorização do vigário.  Obtida a licença, organizavam-se os crentes em procissão e lá iam, galgando a estrada que contorna a Fortaleza, e repetindo orações que se iniciavam e se encerravam pela prece “Ad petendam pluviam”.

          De volta, ao reentrar a procissão na cidade, o povo vinha receber a imagem do milagroso santo, e, com demonstrações do maior respeito acompanhava-a até o alto da Matriz.

          Repicavam os sinos e soltavam-se foguetes, condimento indispensável em tais cerimônias.

          —  Ora, não é tanto assim, objetou o sacerdote, cautelosamente.  E prosseguiu:  Talvez convenha aguardar uns dias mais…   Penso que só em caso extremo devemos apelar para São Roque, e removê-lo de sua capela para a Matriz…

          —  Mas…  V. Revma.  não se opõe?

          —  A que a imagem venha, não!…  Apenas acho que ainda é cedo…  Consultem os zeladores; depois…  veremos o que se há de fazer.

          Os solicitantes retiraram-se descontentes com o resultado da tentativa.

          À tardinha, ao despertar de sua sesta habitual, o vigário teve uma surpresa que o deixou contrariadíssimo.

          Soube que à sua revelia, os mesmos devotos e outros vários tinham estado na igreja, e dali  retiraram tudo o que era necessário ao cortejo.  Descendo, processionalmente, a ladeira, e atravessando a ponte do Paraíba, o grupo se engrossou com grande número de aderentes.  Quando o sacerdote teve plena ciência do caso, já a procissão subia a Fortaleza, fora da zona urbana, entoando o cântico “Ad petendam pluviam”.

          Mas o Padre Paulo não se deixava convencer facilmente.  Considerou que aquilo significava  um desrespeito a sua autoridade.

          A vinda de São Roque importava na realização de uma festinha, dias depois do aguaceiro, na data fixada para o regresso do santo.  Ora, ele vigário, julgara prematura a vinda da imagem, pensando já nas conseqüências.  Resolveu agir com presteza no sentido de procrastinar a execução daquele ato.

          Saiu imediatamente, arranjou, às pressas, um veículo do tipo que outrora se chamava “aranha”, e foi no encalço da procissão.

          Em poucos minutos alcançou-a.

          Os romeiros interromperam a marcha, ao vê-lo.

          —  Então, que é isso, meus amigos?  Vocês vão, assim, buscar São Roque?

          —  Vamos, seu Vigário – explicou o líder do movimento – como Vossa Reverendíssima disse que não se opunha, e todos os zeladores concordaram, nós não quisemos incomodar Vossa Reverendíssima, que estava descansando, e…

          —  Mas aqui ninguém acredita em São Roque!  — exclamou o vigário, em tom paternal de censura.

          —  Perdão, seu Vigário, mas nós todos confiamos no santo…

          —  Ninguém acredita, insistiu energético, o sacerdote.  E a prova é esta: ninguém trouxe guarda-chuva!  Se vocês, realmente, têm fé em São Roque, voltem, para buscar os guarda-chuvas!

          Ouvindo essa recomendação, um dos crentes tomou a iniciativa de transmitir a todos os demais o aviso, exclamando em voz bem alta, no linguajar de roceiro:

          —  Vorte quem tem fé!  Vorte tudo, pra morde buscá os guarda-chuva!

          Não houve remédio, senão atender.  Todo o bando voltou, com raras exceções.  Tornou atrás, igualmente, o vigário, convencido de que pelo menos naquela tarde não seria possível a marcha que ele interceptara.

          Mas enganou-se.  Os devotos de São Roque, em matéria de pertinácia, nada deixavam a desejar, relativamente ao padre que os guiara.  A procissão atrasou-se em três quartos de hora; mas reconstituiu-se, e prosseguiu.

          A julgar pela quantidade de paraguas, a fé em São Roque era, mesmo, profunda.

          Ao cair da noite, regressavam os devotos a Queluz.  A imagem vinha com eles, é claro.

          A essa hora, nuvens sombrias já se iam acumulando para os lados da Figueira. 

          E quando a procissão entrou na cidade, chovia a cântaros.  Os guarda-chuvas prestaram excelente serviço a seus possuidores.

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          No dia seguinte, o Padre Paulo encontrou, na boca da ponte, dois paroquianos que haviam participado da procissão, e foi ter com eles.

          —  E não é que a chuva veiu ônte mêmo, seu Vigário.

          —  Ora, como não havia de vir!  Que São Roque é milagroso, todos nós sabemos.  Agora – o que eu notei é que todos mostraram ter  Fe no santo, menos vocês dois!

          —  Pruquê, seu Vigário?

          —  Porque só vocês não voltaram para buscar o guarda-chuva!

          —  Ah!  seu padre!  Nós tem muita fé em São Roque, mas nós não tem guarda-chuva!

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Em: Histórias do rio Paraíba: episódios e tradições regionais, de J.B. de Mello e Souza, São Paulo, Saraiva:1951, 2 volumes,  pp  80-88, volume I 

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João Batista de Mello e Souza (SP 1888 — RJ 1969) — Pseudônimo:  J. Meluza —  Contista, romancista, poeta, memoralista, autor didático e de Literatura Infantil, teatrólogo, historiador, tradutor, folclorista, diplomado em Direito (1910), funcionário público, professor universitário, jornalista, membro da Academia Carioca de Letras. Prêmio Joaquim Nabuco -ABL (1949).

Obras:

Sacuntala de Calidasa e outras histórias de heroísmo e amor, contos indianos,

Lendas Medievais, contos

A sombra do bambual, teatro, 1955

Histórias do Rio Paraíba, 2 vol, contos e memórias, 1951

Histórias famosas do Velho Mundo, contos,

Majupira, romance histórico, 1949

Sete lendas de amor e outras poesias, 1959

Estudantes do meu tempo, contos e memórias, 1958

História da América, história, 1957

História do Brasil, história, 1959

História Geral, história, 1956

O homem sem pátria, 1963





O presépio — poema de Natal de Joaquim Serra

5 12 2009

O presépio

                                                  Joaquim Serra

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Na palhoça iluminada,

Que fica junto da ermida,

Des que a missa foi cantada

Se congrega a multidão;

Toldo de mirta florida,

Flores de mágico aroma

Ornam o presépio, que toma

Na sala grande extensão.

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Quão lindo está!  Não lhe falta

Nem o astro milagroso

Que de repente brilhou;

Nem o galo, que o repouso

Deixara por noite alta

E que inspirado cantou!

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Tudo o que a lenda memora

E consagra a tradição,

Vê-se ali, grosseiro embora,

Despido de perfeição.

——

Céu de estrelinhas douradas,

Estrelas de papelão;

Brancas nuvens fabricadas

Da plumagem do algodão!

Anjos soltos pelos ares,

Peixes saindo dos mares,

Feras chegando do além.

Marcha tudo, e vêm na frente

Os Reis Magos do Oriente

Em demanda de Belém.

——-

É esta a lapa; o Menino

Nas palhas está deitado,

Com um sorriso de alegria

Todo doçura e amor!

——

Contempla o quadro divino

São José ajoelhado,

E a Santíssima Maria

De Jericó meiga flor!

——

Trajando risonhas cores

Com muitos laços de fitas,

Rapazes, moças bonitas

Formam grupos de pastores.

———-

Que curiosos bailados,

Com maracás e pandeiros!

E o ruído dos cajados

Desses risonhos romeiros!

——–

Essa quadrilha dançante,

Cantando versos festivos,

Aos pés do celeste infante

Vai depor seus donativos:

———

Frutas, doces, sazonadas,

Ramilhetes de açucenas,

Cera, peles delicadas,

Pombinhos de brancas penas.

—–

São as joias que os pastores

Dão ao Deus onipotente!

E o povo aplaude os cantores

E o espetáculo inocente.

———

Eis o presepe singelo

Da devoção popular;

Oratório alegre e belo

Sagrado risonho altar!

——

——

Em: Poesia Brasileira para a Infância, de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito,  São Paulo, Saraiva: 1969.

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Joaquim Serra

——

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Joaquim Maria Serra Sobrinho ( MA 1838 — RJ 1888) jornalista, professor, político e teatrólogo.  Pseudônimos: Amigo Ausente, Ignotus, Max Sedlitz, Pietro de Castellamare, Tragaldabas.  Foi um intelectual muito ativo na segunda metade do século XIX.  Abolicionista, trabalhou lado a lado com Joaquim Nabuco, Quintino Bocaiuva e José do Patrocínio para o fim da escrevidão. 

Obras:

A capangada, sem data, séc. XIX

A pomba sem fel, sem data, séc. XIX

As Cousas da moda, sem data, séc. XIX

Epicedio à morte de Manuel Odorico Mendes, sem data, séc. XIX

O jogo das libras, sem data, séc. XIX

O remorso vivo, sem data, séc. XIX

Quem tem boca vai a Roma

Rei morto, rei posto

Biografia do ator brasileiro Germano Francisco de Oliveira, 1862

A coalisão, 1862

Julieta e Cecília, contos, 1863

Mosaico, poesia traduzida, 1865

O salto de Leucade, 1866

A casca da caneleira, romance de autoria coletiva, cabendo a J.S. a coordenação, 1866

Um coração de mulher, poema-romance, 1867

Versos de Pietro de Castellamare, 1868

Semanário maranhense, 1867

Quadros, poesias, 1873

Almanaque Humorístico Ilustrado, 1876

Diário oficial do império do Brasil, 1878

O abolicionista, 1880

Sessenta anos de jornalismo, a imprensa no Maranhão, 1820-80, por Ignotus, 1883

O coroado, 1887

Poesias e poemas, 1888

Os melros brancos, 1890





Imagem de leitura — Auguste Toulmouche

5 12 2009

Lição de leitura, 1865

Auguste Toulmouche ( França, 1829-1890)

Óleo sobre tela, 36 x 27 cm

Museu de Belas Artes, Boston, EUA

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Auguste Toulmouche (França, 1829-1890)

Nascido em Nantes, Auguste Toulmouche foi um artista de bastante presença nos Salões parisienses do século XIX.  Ficou conhecido pelo retrato de belas mulheres em ambientes de luxo.  Fez parte de um seleto grupo de artistas franceses como Jules Émile Saintin ( 1829-1894) e Charles Joseph Frederick Soulacroix ( n. 1825) que se especializaram, por assim dizer, no retrato de vestimentas de época dentro do enfoque da pintura de gênero.  Tinha uma visão romântica da vida diária que seduzia pelo seu idealismo e sentimentalismo.  Principalmente nos momentos do dia a dia das classes mais abastadas.





Imagem de leitura — Luiz Costa

26 11 2009

Leitor de jornal, 1983

Luiz Costa ( Brasil, 1955)

acrílica sobre eucatex,  65 x 50 cm

www.luizcosta.com.br

Luiz Pereira da Costa ( Aimorés, MG, 1955) — Muda-se para Brasília em 1969, onde quatro anos depois passa a trabalhar na Galeria de Arte Oscar Seraphico.   Torna-se galerista em 1979, quando funda com o Jorge de Sousa a Galeria Parnaso em Brasília.   Estuda com João Evangelista e Hugo Mundi.  Em 1980 funda a Murale Escritório de Arte também em Brasília.  Estuda a figura humana com Cathleen Sidki.  A partir de 1982 começa a expor individualmente.  Desde então tem-se dedicado exclusivamente à pintura.

www.luizcosta.com.br





Nhá Carola, poesia Ricardo Gonçalves para uso escolar

24 11 2009

Daniel Penna ( SP, 1951) Fundo%20Quintal, osmFundo de quintal, 2009

Daniel Penna ( Brasil, 1951)

óleo sobre tela/ sobre madeira

18 cm x 24 cm

www.pennart.com.br

 

 

Nhá Carola

                                                            A .D. Olga

                                                          Ricardo Gonçalves

Arrepanhando o vestido

De chita azul, nhá Carola,

Põe feijão na caçarola

Para o almoço do marido.

Dorme um cachorro estendido

À porta da casinhola;

Gritam galinhas de Angola

No terreiro bem varrido.

Enquanto chia a panela,

A moça vai à janela,

A ver se o marido vem.

Mas entra logo zangada

Porque na volta da estrada

Não aparece ninguém.

Em: Poesia Brasileira para a Infância,  Cassiano Nunes e Maria da Silva Brito,  São Paulo, Saraiva:1968

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ricardo gonçalves

 

Ricardo Mendes Gonçalves  (SP, SP 1893 – SP, SP 1916) pseudônimos: Ricardo Gonçalves, Bruno de Cadiz, D. Ricardito.  Poeta, tradutor, jornalista, diplomado em Direito (1908), político, membro grupo Minarete.  Trabalhou para diversos jornais entre eles o Comércio de São Paulo e Estadinho. Foi também repórter do jornal O Correio Paulistano.

Obras:

 Ipês, 1922





Imagem de leitura — Gustav Oskar Björck

23 11 2009

Passatempos, 1926

Gustav Oskar  Björck ( Suécia, 1860-1929)

óleo sobre tela,  123 x 146 cm.

 

Gustav Oskar Björck, cujo nome também pode ser escrito Gustaf Oscar Björck, nasceu em  Estocolmo e foi treinado na Academia de belas Artes da mesma cidade.  Ele passou algum tempo na Colônia de Artistas em Skagen na Dinamarca assim como em Paris, Munique e na Itália.  Um de seus mais importantes quadros veio cedo na sua carreira:  Sinal de Perido, que está na coleção permanente do Museu de Arte de Copenhagen.  Sua pintura também é lembrada pelo chiaroscuro – onde  as diversas tonalidades de luz do sol brilhante à escuridão são reproduzidas.  Como retratista, Bjorck sempre tentou colocá-los nos seus mais íntimos contextos.  É considerado um dos maiores retratistas de seu tempo na Suécia.





Imagem de leitura — Henri Matisse

12 11 2009

Henri Matisse, (França) Liseuse au parasol, 1921, OST, Tate Gallery

Leitora com guarda-sol, 1921

Henri Matisse ( França 1869-1954)

óleo sobre tela

Tate Gallery,  Londres

 

Henri-Émile-Benoît Matisse  — ( França 1869-1954) —  foi um dos maiores e mais importantes artistas plásticos do século XX.  Foi desenhista, escultor e pintor. Nasceu em 31 de dezembro de 1869 em  Le Cateau-Cambrésis e faleceu em 3 de novembro de 1954 em Nice. Foi um dos principais representantes do movimento artístico conhecido como Fauvismo.  Mas como todos os grandes artistas sua obra tornou-se independente de qualquer movimento artístico, chegando a um estilo seu, único.  Sua importância e influência na arte são de  imensa magnitude, principalmente na  liberação do uso de cores, aliada a um desenho exemplar.  Mais tarde, no final da vida, volta a influenciar a arte do mundo ocidental trabalhando com colagens e imagens recortadas.