Patrimônio Cultural da Humanidade: Tipasa, Argélia

16 09 2014

 

 

tipasa_algeria

 

 

Argélia

 

Tipasa

 

Tipasa é um dos mais extraordinários complexos arqueológicos do Norte da África, talvez o mais importante para o estudo dos contatos das civilizações ao longo do Mediterrâneo tendo sido colonizada desde o século VI aEC ao século VI da nossa era. Localizada a 70 km a oeste de Argel, foi um posto de comércio de Cartago, e mais tarde foi um porto de prestígio do Império Romano, a partir do século III da nossa era. Nem mesmo a invasão dos Vândalos em 430 acabou com a prosperidade do local, só depois da reconquista da cidade pelos Bizantinos, em 531 que a cidade entrou em declínio até o final do século seguinte.





Esmerado: roundel romano do século III

3 06 2014

 

 

roundelRoundel com a cabeça de Medusa alada, Roma, anos 100 a 225 E.C. [Era Comum].
Prata, ouro e bronze.

NOTA: em heráldica, um roundel é uma figura em um escudo circular. Roundels estão entre as mais antigas figuras do escudo utilizadas em brasão.





Diferentes padrões na Wikipedia corfirmam a nossa ignorância

2 01 2014

Alfred Lambart - Juliet, Daughter of Richard H....Juliet, filha de Richard H. Fox de Surrey, 1931

Alfred Lambart (Inglaterra, 1902- 1970)

óleo sobre tela, 137 x 137cm

Laing Art Gallery, Newcastle-upon-Tyne, GB

O terceiro-mundismo das ideias no Brasil é aparente nas entradas da Wikipedia em português.  Muitas das definições e explicações na Wikipedia de assuntos internacionais, de história, literatura, arte, cultura em geral – exceto é claro a cultura televisiva e cinemática, em português, são pobres, falham nos detalhes, na significância do que se está procurando.  Os ensaios traduzidos são cortados e não dão detalhes já existentes em inglês ou em francês, ou em qualquer outra língua.

Não conheço a razão para essa diferença entre os textos em português e os de outras línguas. Mas vou dar o meu palpite.  Como exemplo mostro o que finalmente me irritou o suficiente para alavancar essa postagem:

Imperador Romano Marco Aurélio.

Em português temos aproximadamente uns 10 parágrafos sem qualquer referência às suas famosas Meditações. Na verdade elas não são nem mencionadas no parágrafo sobre influências desse imperador. Em inglês temos acima de 70 (parei de contar em 70) parágrafos, com extensa explicação sobre seu governo, sua contribuição literária, histórica, filosófica. Lendo a enciclopédia em português temos a impressão de que esse imperador não teve grande importância no desenvolvimento do império que tanto defendeu.

Mas, pior ainda, sua influência no destino do pensamento ocidental não é mencionado em português. Sua influência nas artes — no verbete em português — resume-se à estátua no Capitólio que influenciou estátuas equestres na Renascença. Além disso, aprendemos sobre sua influência no cinema. Não sobre sua influência filosófica na arte cinematográfica, mas sua “presença” na indústria, como no  filme de 1964 A queda do Império Romano; no filme Gladiador de 2000 – “ o papel de Marco Aurélio sendo desempenhado por Richard Harris”, e também aprendemos que Marco Aurélio é citado pelo personagem Hannibal Lecter em O Silêncio dos Inocentes, de 1991. A pessoa que escreveu esse verbete da Wikipedia não teve nem a curiosidade de se perguntar o motivo de Hannibal Lecter citar Marco Aurélio.  Se o fizesse talvez tivesse aprendido sobre a obra literária do imperador romano. No entanto, em nenhum momento na descrição da importância de Marco Aurélio fala-se da obra Meditações. A versão em português de suas Meditações que são até hoje estudadas por serem um dos grandes livros sobre liderança, uma obra marcante no desenvolvimento da cultura ocidental tem outro nome.  Meditações de Marco Aurélio, agora são conhecidas em português como O Guia do Imperador, tradução direta do inglês The Emperor’s Handbook.  Mas, espera aí, do inglês? Importante notar que a tradução publicada — nas livrarias no momento —  foi feita do inglês e não do latim.  O latim é uma  língua muito mais próxima à nossa (outro mistério que mostra a nossa pobreza intelectual).  Então temos uma tradução de uma tradução.  Por si só isso  já representa um desvio do original de uma obra considerada excepcional.  Ela constitui a expressão máxima do estoicismo, doutrina grega, trazida para os países do império romano (onde devo lembrar se encontram as raízes culturais brasileiras) pelos historiadores romanos.  Dentre os pensadores estóicos além de Marco Aurélio temos Sêneca, Cleanto, “o estóico”.

Essa diferença de tratamento em verbetes tais como esse limita o horizonte do estudante brasileiro;  a compreensão do cidadão curioso sobre história; dá um tiro no pé na cultura nacional.  Se alguém quisesse, por exemplo, checar a razão do personagem Hannibal Lecter do filme O Silêncio dos Inocentes citar Marco Aurélio,  encontraria a resposta?  Esse desleixo com a informação que chega ao grande público é a expressão clara do preconceito social reinante na nossa terra, retrato da crença de que o “brasileiro que se interessa por isso lê em outra língua”.  Por que?  Por que ser obrigado a ler em outra língua?  É a antiga separação de classes entre os letrados e o iletrados, entre os doutores e o público, os estudantes, os não-iniciados; que educação é coisa para a elite. É essa atitude que mantém até hoje milhões de brasileiros na docilidade da ignorância.  É o retrato preciso da vergonha nacional.





Curiosidade: a língua romana

6 09 2013

Cesar-sa_mortA morte de César, 1804-1805

Vincenzo Camuccini (Itália, 1771-1844)

óleo sobre tela

A Língua Romana foi uma das duas principais línguas coloquiais do império romano.  A outra foi  o grego. A língua romana foi usada principalmente nas províncias ocidentais do império (Itália, Espanha, Gália, Grã-Bretanha, África do Norte, Sardenha, Córsega), mas também em partes do norte da península dos Bálcãs  [Dacia, Moesia, Illyria, norte da Macedônia. A população do Império Romano  no século I-II da nossa era foi estimada em 50 milhões de pessoas  ou 1/6 do total mundial da época.  Calcula-se que o império chinês também  tivesse cerca de 50 milhões de habitantes, nos primeiros dois séculos da Era Comum . Supõe-se que dois terços dos cidadãos romanos usassem a língua romana como língua nativa ou que a usassem como língua secundária em seus assuntos públicos.





Moedas do Império Romano, aos milhares, encontradas na França

8 11 2011

Moedas de 1700 anos atrás, encontradas num milharal

A administração de assuntos culturais da França divulgou uma foto de três ânforas antigas contendo milhares de moedas de bronze, de mais de 1700 anos de idade.  A descoberta de milhares de moedas romanas no campo de L’Isle-Jourdain, perto de Toulouse, no sudoeste da França foi considerada por arqueólogos “ um achado importante, na medida em que não é frequente falar de objetos do tipo desse período“, disse Michel Vaginay ,o responsável regional por descobertas arqueológicas.

Essas moedas, desenterradas e guardadas no final da semana, foram forjadas entre os anos 290 e 310 D.C em Londres, Lyon (atual França), Cartago (atual Tunísia) ou Trier (atual Alemanha). Seriam então da à época em que a França e todos esses outros lugares faziam parte do Império Romano.  Foram encontrada em duas ânforas de 80cm de altura e um outro jarro de aproximadamente a metade desse tamanho.   

Ânforas repletas de moedas do século III d.C.

Os tesouros foram descobertos por dois amantes de arqueologia que já haviam descoberto outras peças romanas nesse mesmo local.  “Nós sabíamos que havia mais por aqui e então, no meio de uma caminhada nos deparamos com essas peças na superfície mesmo do solo”, disse um deles.  Primeiro achamos mais ou menos 250 peças arqueológicas num campo por aqui que havia acabado de ser arado.  Isso nos fez pensar que poderíamos encontrar algo mais por aqui”.  Os dois juraram permanecer no anonimato.

Quando descobriram o tesouro, os dois contataram as autoridades responsáveis que verificaram o achado.  Mas o dono da propriedade pediu que escavações só fossem feitas depois dessa colheita do milho.  A maior preocupação, no entanto, foi manter segredo.  Com a demora das escavações, nenhuma palavra sobre o achado deveria chegar aos jornais para que ladrões e outros caçadores de tesouros não tivessem a idéia de virem ao sítio arqueológico roubar e destruir o que havia sido encontrado.  

Levadas para Toulouse para classificação e estudos de laboratório, essas moedas devem ser examinadas por um período de aproximadamente três a quatro meses.  Depois disso devem poder ser vistas pela população de L’Isle-Jourdain.  Pelo menos é o que promete o prefeito da cidade.  “Esperamos poder expor algumas dessas peças por um longo período.  Mas no momento, o que sabemos ao certo é que os habitantes do cidade poderão ver este achado dentro de poucos meses”.

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Fontes:  Terra, La Depeche





Banhos Romanos descobertos em Israel datam do século II

10 02 2011
  Banhos romanos em Jerusalem.

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No final de 2010  uma descoberta importante tanto para os estudos judaicos quanto para os estudos da Roma antiga, quase passa desapercebido por mim.  E me apresso em postar a notícia:   arqueólogos israelenses escavando na velha Jerusalém para deixar espaço para a construção de um moderno Mikbe (banho ritual judaico), descobriram uma casa de banhos romana construída há mais de  1.800 anos e que foi  provavelmente utilizada por soldados da Décima Legião, a mesma legião  que conquistou  Jerusalém no século II a.C.

Centenas de telhas de barro foram encontradas no chão da piscina, indicando que esta  era uma estrutura coberta.  As telhas, tijolos e azulejos da casa de banho tinham impressos o símbolo da Décima Legião Fretensis  ” XFR-LEG “, o que revela serem da cidade  Colonia Aelia Capitolina,  mais conhecida como Aelia Capitolina —  cidade construída pelo Imperador Adriano, sobre as ruínas de Jerusalém, entre  131-135 dC, como resultado da conquista sobre a  revolta judia de Bar Kokhbano que fracassou culminando na destruição do Segundo Templo em 70 dC.

A marca dos soldados da Décima Legião, na forma das impressões estampadas sobre as telhas e tijolos de barro nesse  local, demonstra que eles foram os construtores dessa  estrutura“, disse Ofer Sion, diretor da excavação.  “Durante a escavação encontramos várias banheiras dentro de uma piscina, com um encanamento lateral para encher com água, no fundo da piscina há um chão de mosaico branco e azulejos que também apresentam símbolos impressos da Décima Legião romana“.    Um destacamento da Décima Legião era responsável por guardar a cidade romana dos judeus que haviam sido proibidos de morar lá.   Esses legionários asseguravam que a Aelia Capitolina não tivesse nenhum judeu residente. 

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Localização no mapa da  velha Jerusalem.
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A descoberta  é muito importante, ressalta no comunicado o professor Yuval Baruch, da AAI, porque “ainda não se tinha encontrado no bairro judaico (da Cidade Antiga) nada que pertencesse à legião romana, o que tinha levado à conclusão que a cidade fundada na época romana após a destruição de Jerusalém, era pequena e com uma área limitada“.   Essas  ruínas indicam que a cidade romana “era consideravelmente maior do que se tinha imaginado previamente“.    Sabe-se que o plano urbano da cidade era  típico romano, com uma avenida central [ Cardo maximus] e outras  grandes avenidas transversais.

As ruínas dos antigos banhos romanos serão integradas à nova construção do  Mikbe, banho ritual judaico,  que será construído no bairro judeu.  

Fontes:  Terra, IMEMCApostolic News.





A moda:o papel em nossas vidas, na Fashion Week do Rio de Janeiro

13 01 2011

Sally Rosembaum, (EUA, contemporânea), Kathleen minha melhor amiga, óleo.

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Há momentos em que tudo o que fazemos parece convergir numa determinada direção, como se certos assuntos ou ações fossem inevitáveis.  Costumo respeitar essas coincidências e ver o que elas podem me oferecer.   Domingo, na semana em que a Fashion Week começa no Rio de Janeiro, me encontrei lendo com bastante gosto o artigo de  Ulinka Rublack, Renaissance Fashion: The Birth of Power Dressing [Moda na Renascença: o nascimento do vestir para o poder] que foi publicado na revista History Today, de dezembro.

Mathäus Schwarcz com Jakob Fugger, nos escritórios bancários de Fugger, 1517.

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Ulinka Rublack – que é professora na Universidade de Cambridge,  na Inglaterra, de História Européia Moderna — procura apontar para o momento em que a moda passou a ser um item de importância pessoal, que nos distingue e que reforça o status social de cada um.  No processo, ela  nos lembra de uma ou outra figura interessante dos séculos XV e XVI, como Matthäus Schwarz (Augsburgo,1497 – c. 1574).  Esse senhor, cidadão alemão, que trabalhou como contador na famosa firma de Jakob Fugger – [ lembram-se dele?  O primeiro homem a investir no Brasil, em 1503, mandando seu agente Fernão de Noronha para cá? ] —  passou para a história, não por ser um contador extraordinário, mas por ser um apreciador das artes e acima de tudo um dândi.

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Retrato de Mathäus Schwarcz, 1526

Hans Maler ( Alemanha, 1480-1529)

óleo sobre tela, 41 x 33 cm

Museu do Louvre, Paris

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Observando o retrato de Matthäus, mesmo de bandolim na mão, não temos idéia do tamanho de sua vaidade.  Mas o que ele fez de extraordinário, e pelo qual estamos gratos, hoje, cinco séculos mais tarde, foi contratar um artista em 1526 para fazer um livro com todas as roupas que possuía.  Uma espécie de catálogo de suas indumentárias através da vida, que mais tarde ele compilou no que é chamado Klaidungsbüchlein [ O Livro de Roupas].    Foram ao todo 135 aquarelas mostrando suas roupas.  A maioria dessas ilustrações foram feitas por Narziss Renner ( Alemanha 1502-1536) e detalhadamente descritas por Matthäus, de próprio punho.

O livro de roupas de Matthäus Schwarcz.

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Mas Matthäus não ficou só por aí: encomendou duas imagens de si mesmo nu, quando estava no auge de sua boa forma física, dando-se ao trabalho de anotar com precisão a medida de sua cinturinha de vespa.  Ele se preocupava em não ganhar peso que, na sua opinião, era uma indicação de velhice.   Em 1992, o historiador Philippe Braunstein editou a publicação  na França, da autobiografia de Matthäus em um volume, que me parece estar esgotado, mas cuja capa reproduz uma dessas imagens de Matthäus Scwarcz: Un banquier mis à nu : Autobiographie de Matthäus Schwarz, bourgeois d’Ausbourg, Gallimard Jeunesse. [Um banqueiro nu: autobiografia de MatthäusSchwarcz, um burgês de Augsburgo].

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Há detalhes interessantíssimos nas aquarelas e nas descrições: numa das páginas vemos Matthäus com meias vermelhas, acompanhado de um menino, aprendiz de bobo da corte, com um macacão amarelo, com listras pretas.  E  aprendemos também, um pouquinho  sobre nós mesmos, sobre a nossa cultura brasileira: Ulinka Rublack menciona no seu artigo, quando Matthäus saía para cortejar uma donzela levava consigo uma bolsa no formato do coração e da cor verde da esperança.  Portanto a expressão em português usada aqui no Brasil e em Portugal “verde é a cor da esperança” já era usada na Europa no século XVI.

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O livro de roupas de Matthäus Schwarcz.

E foi nesse momento que percebi que os ventos estavam me levando na direção dessa postagem, porque uns dias antes, eu havia relido algumas passagens do livro Magdalena and  Balthazar: an intimate portrait of  life in the 16th century Europe revealed in the Letters of a Nuremberg husband and wife [ Madalena e Baltazar: um retrato íntimo da vida na Europa do século XVI revelado nas cartas de um casal de Nuremberg]; editado e ilustrado por Steven Ozment, Nova York, Simon & Schuster: 1986.  Quem me conhece não deve se surpreender porque sabe que um dos meus passatempos favoritos é a leitura de diários e cartas de pessoas mais ou menos desconhecidas na história.  Não necessariamente as cartas dos reis, mas aqueles diários e cartas de pessoas comuns.

O livro das Boas Maneiras, 1410, De Jacques Legrand, dado a Jean du Berry em 1410, Paris, Bibliothèque nationale, fr. 1023

Passagens das cartas de Madalena para Baltazar vieram à mente.  Numa carta, Madalena escreve para Baltasar que era um comerciante com negócios na Itália e que se encontrava por lá.  Ela mostra os desejos de seu filho: “Você tem que mandar fazer uma bolsa de seda para o Pequeno Baltasar”. Mais tarde:  “O Pequeno Baltasar lhe cumprimenta  e pede a você que lhe traga um par de meias vermelhas e uma bolsa”.  Ainda mais adiante, vemos que o Pequeno Baltasar precisa se sentir à altura de seus colegas ou amigos, porque sua mãe escreve:  “Ele quer  dois pares de meias, um dos quais um precisa ser igual às meias usadas pelos alunos em Altdorf” [ o editor anota que isso queria dizer, meias da cor da pele ou da cor do açafrão].  Como podemos ver pela iluminura do Livro de Boas Maneiras de Jacques Legrand, datado de 1410,  as meias de seda coloridas eram lugar comum na Europa do século XV e XVI.

Retrato de Federico da Montefeltro,  1472

Piero della Francesca ( Toscana, 1416 — 1492)

Óleo sobre madeira, 47 x 33 cm

Galeria Uffizi, Florença

Assim como meias coloridas, chapéus específicos eram objetos de desejo.  O Pequeno Baltasar pede que seu pai lhe traga,  para  a passagem do Ano Novo de 1592, um chapéu.  O pedido demonstra como era importante para ele o uso específico de um determinado modelo de chapéu:  “Querido Pai:  eu imploro que me mande um chapéu coroa italiano para usar na passagem do Ano Novo, prometo que serei bonzinho o tempo todo e que rezarei pelo senhor”.  Não sei como eram os tais chapéus coroa.  Procurei bastante, tanto na internet quanto nas minhas referências em casa, e não encontrei nada específico.  Mas acredito que possa ter sido algo semelhante ao que oDuque de Urbino, Federico da Montefeltro, usava quando retratado por Piero della Francesca em 1472.

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Retrato de jovem, c. 1515

Piero degli Ingannati (Veneza, ativo 1529-1548)

Retrato de Paola Priuli Querini, 1527/28

Palma Vecchio ( Itália, 1480-1528)

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Meias vermelhas, cor de açafrão, casaco de damasco branco, negro, amarelo todos esses detalhes refletiam sim o início de uma grande preocupação com a moda que não estava  limitada ao comportamento janota de Matthäus, da casa Fugger.  Assim como hoje, — e nós aqui  na semana Fashion Week do Rio de Janeiro, ouvimos muito isso  – entre as facetas da moda mais interessantes para o publico em geral, estão as cores da estação.  O mesmo acontecia na época de Mathäus Schwarcz; todos queriam saber da cor da moda.    Ulinka Rublack lembra que amarelo se tornou a cor da moda no início do século XVI, sendo adotada primeiramente pelas pessoas mais abastadas. Por volta de 1520 já quase toda a população de Basel, na Suiça, cidade usada como exemplo, tem itens de vestuário dessa cor.

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Fernando I, de Habsburgo, s/d

Hans Bocksberger, o Velho (Áustria 1510 -1561]

óleo sobre tela, 206 x 109 cm

Museu de  História [Kunsthistorisches Museum], Galeria de Arte

Viena, Áustria

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Assim como hoje, a moda na virada do século XVI também era usada para impressionar.  Acompanhando as peripécias de Matthäus Schwarcz vemos que ele emagreceu alguns quilinhos para estar em forma quando soube que teria a oportunidade de conhecer o Arquiduque Fernando I de Habsburgo, Santo Imperador Romano [1503-1560].  Além disso, ele usou de perspicácia e de psicologia (se bem que essa disciplina não existisse na época) e deixou crescer uma barba, barbeando-se à semelhança do Imperador.  Hoje diríamos que Matthäus usava da técnica de espelhar o imperador, técnica que arrogantemente imaginamos  ser uma “novidade” do mundo da linguagem corporal.  Matthäus conseguiu seu objetivo: o arquiduque gostou e confiou nele.

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Retrato de um homem [ Supeita-se que seja Jan Jacobsz Snoeck],  circa 1530

Jan Gossart, conhecido como Mabuse, (Países Baixos, c. 1478–1532)

National Gallery of Art, Washington DC

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Fez tão boa impressão que o Imperador lhe deu um título, em 1541.  Para comemorar este novo patamar social, teve o seu retrato pintado com um casaco forrado com pele de marta, semelhante ao casaco na pintura de Mabuse, acima.  Este detalhe, a pele de marta, era estritamente reservado às elites: principalmente uma pele como a dele inteiriça, que sabemos medir 60cm e ser toda castanha, por igual, sem manchas.  Como Ulinka Rublack lembra, uma pessoa de menos posses teria um casaco forrado de peles diversas, pequenas, retalhos emendados de diferentes procedências, tamanhos e cores.

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THOMAS_COUTURE_-_Los_Romanos_de_la_Decadencia_(Museo_de_Orsay,_1847._Óleo_sobre_lienzo,_472_x_772_cm)Os Romanos durante a decadência, 1847

Thomas Couture (1815-1879)

Óleo sobre tela,  4,72m x 7,72 m

Paris, Museu d’Orsay

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Na minha época de estudante do Colégio Pedro II a Idade Média era tratada como um grande bloco de séculos sobre os quais se sabia muito pouco.  Estudávamos os feudos como entidades quase estacionárias, cruéis e desumanas.  Essa percepção não era só nossa, brasileira.  Em inglês, por muito tempo, a expressão Dark Ages [Eras Sombrias] era usada para explicar os séculos compreendidos pela queda do Império Romano [476 aD] até a Renascença [1492].  Mais ou menos 1.000 anos.  E a Renascença, esta sim, aparecia milagrosamente, como uma fênix, seus contemporâneos verdadeiros heróis que sozinhos recompunham o universo, ressuscitavam valores e conhecimentos do nada ou do quase nada.

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A universidade medieval.  Desconheço a origem dessa iluminura.

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Mas assim como houve grande avanço nas ciências, na segunda metade do século XX, houve também um avanço enorme no conhecimento sobre esse período obscuro da civilização ocidental, graças às pesquisas e descobertas de estudiosos que garimparam um número enorme de manuscritos; e arqueólogos que não se deixaram levar pela percepção de que não havia nada a ser descoberto.  E aos poucos muito foi trazido à tona. Hoje vislumbramos um período de dez séculos, que não era de todo estagnado, mas um conjunto de sociedades bastante complexas, e muito menos rígidas do que se imaginava quando falávamos dos feudos no período que antecede à Renascença.

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Vendedores de tecidos, em O livro das Boas Maneiras, 1410, de Jacques Legrand, dado a Jean du Berry em 1410, Paris, Bibliothèque nationale, fr. 1023

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O que aconteceu com Matthäus Schwarcz, sua ascensão social,  não foi um resultado exclusivo do investimento que fez em roupas, ou em moda.  Este tipo de marketing pessoal ajudou.  Mas ele provou ter sido um competente contador, pois trabalhava para um dos maiores banqueiros da Europa, Jakob Fugger.  Era também um conhecedor da alma humana, como já vimos, e das artes.  Contrário ao que se acreditava no passado, a mudança de status social era possível no mundo medieval e talvez nem tão rara, principalmente na Idade Média tardia, a partir do século XIV.  O exemplo mais conhecido e documentado de ascensão social é o de Gregório Dati (1362- ?), um homem comum, comerciante de seda, linho, fazendas em geral e pérolas, em Florença.  A leitura de seu diário ajuda a compreensão da ascensão social e econômica  no período da Proto-Renascença, principalmente em se tratando de um homem  sem quaisquer laços com a nobreza ou com as famílias de importância de Florença.  Seu diário, por menor que seja, é repleto de informações curiosas a respeito dos negócios da época e da maneira como ele foi, ao longo da vida, saindo do obscurantismo até obter uma posição social de respeito.  Quantos outros não terão tido semelhante sorte em outras localidades, sem terem deixado lastro?

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Barraca de peixes em feira medieval no Concelho de Constance, na Alemanha, por Ulrich von Richenthal, [1350-60? – 1467], pintada na década de 1460.

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O que notamos da efervescência social no final da Idade Média, digamos de 1350 em diante, são as pequenas amostras de individualidade que pululam aqui  e acolá.  Há um maior número de pessoas que sabe ler e escrever e o comércio, este grande fomentador das mudanças sociais, se intensifica entre pequenos aglomerados, povoados, aldeias e cidades–estado,  incluindo maior contato de todos com produtos diversos e até estrangeiros.  Os não-nobres, os homens comuns, passam a medir a possibilidade de serem apreciados pelas suas próprias características, ao invés de estarem sujeitos exclusivamente aos mandantes da igreja ou do rei.  A ilustração acima, por exemplo, de Ulrich von Richenthal  ( c. 1360- 1467) é um exemplo:  contrário aos costumes da época, Richenthal produziu por conta própria, sem nenhum patrocínio, uma série de desenhos mostrando a vida diária em Constance, como explica Albrecht Classen, no livro Urban Space in the Middle Ages and the Early Modern Age [O espaço urbano na Idade Média e no início da Era Moderna]. E seu orgulho em fazer isso está evidenciado nas linhas de apresentação: “como cidadão e residente de Constance, eu, Ulrich Richenthal, coletei tudo isso.  Eu ou testemunhei tudo isso em pessoa ou ouvi as descrições de religiosos ou pessoas comuns. [a tradução livre, é minha].

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Auto-retrato, 1493

Albrecht Dürer ( Nuremberg 1471 — 1528)

óleo sobre tela, 57 x 45 cm

Museu do Louvre, Paris

Uma outra pista para o aparecimento do “indivíduo” separado da classe social a que pertence é a popularidade do retrato,  da vontade de se ser retratado, para o presente e para a posteridade.  O retrato, como gênero de pintura, havia sido corriqueiro na Roma antiga, seu uso desaparecendo durante a Idade Média.  Mas volta com bastante força, justamente nessa época em que o “indíviduo” começa a se salientar na sociedade que habita, nessa hora em que se começa a dar espaço para exploração dos próprios dotes, das habilidades únicas de cada um.  Albrecht Dürer, o maior pintor da Renascença alemã, é um dos primeiros da classe artesã (essa era a classe dos pintores) a se retratar, uma ato circunscrito aos nobres e abastados.  E se dá a esse luxo diversas vezes na vida, fato até então anômalo no período medieval.

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Retrato de homem, 1500

Ambrogio di Pedris ( Itália, 1455-1508)

óleo sobre madeira, 60x 45 cm

Galleria degli Uffizi, Florença

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Foi justamente nesse período de final do século XV e início do século XVI,  que pessoas comuns, que haviam adquirido mais educação, mais recursos financeiros, que podiam deixar algo para gerações seguintes, com mais tempo de lazer começaram a se preocupar com a noção de posteridade: deixar algo pessoal para seus herdeiros, para as futuras gerações.  Este conceito de posteridade, de perpetuação de uma linha familiar de quem não era nobre  entrou sutilmente, aos pouquinhos, comendo pelas beiradas, no conceito de individualização do período.  E com isso voltamos a Matthäus Schwarcz.  Nos anos de sua adolescência ele foi perguntando aos mais velhos o que vestiam quando eram jovens.  Foi também nesse período que  iniciou um caderno com seus próprios sketches, registrando  suas indumentárias, como um documento para o futuro, para sua própria lembrança.

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Vestimentas na Idade Média.
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Matthäus Schwarcz, apesar do sucesso financeiro e social que obteve,  numa outra época não teria sido uma pessoa importante o suficiente para ter retratos a óleo feitos por artistas habilidosos.  Filho de um comerciante de vinhos, ele estava bem enraizado na classe mercantil.  O que o diferenciou, foi saber fazer um marketing pessoal, usando entre outros meios, o vestuário como ferramenta de ascensão social.   É importante notar que trajes, fora do necessário e funcional, eram dispendiosos.   Mas o vestuário era sempre, como o é hoje, um cartão de visitas.  Os nobres usavam roupas como símbolos de poder e status.  O povo comum se esforçava para “melhorar a aparência” a todo custo, isso não é novidade.   A maioria das pessoas tecia em casa e sabia usar tinturas naturais à base de plantas e minerais para conseguir tonalidades variadas.  Em alguns centros urbanos, as leis suntuárias, que proibiam o uso de excessivo luxo nas vestimentas do homem comum, proibiram  também o uso de certas cores, permitidas só aos nobres.  Na Inglaterra, por exemplo, o uso do tecido escarlate, era prerrogativa da nobreza.  Em toda a Europa, o linho e a lã eram tecidos comuns; algodão e seda eram caros, e mais raros, só aparecendo  com a descoberta de produtos estrangeiros, graças às Cruzadas.  Fazendas aveludadas também eram bastante usadas.  À medida que a classe média aparecia, — como Matthäus Schwarcz demonstra, entre outros — as linhas divisórias entre a nobreza e a classe mercantil se embaralharam, permitindo brechas nessas restrições.

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Matthäus Schwarcz, 1542

Christoph Amberger, (Nurembergue, c. 1500-1562)

óleo sobre tela, 74 x 60 cm

Thyssen-Bornemisza, Madri

Mas Matthäus Schwarcz eventualmente teve que se render aos costumes da época e à medida que envelheceu, fez como todas as pessoas de alguma idade o faziam, vestiu-se de preto e branco, pois não cabia bem a um senhor “brincar” com cores e modelos.  Ele engordou, como podemos ver no retrato de Christofer Amberger.  A Reforma na Alemanha também o afetou e a partir de 1550 o comércio entrou em crise, nos concelhos da Alemanha. Matthäus  Schwarcz, um grande exemplo de homem moderno, que confiou no marketing pessoal, sobreviveu a um derrame [AVC] mas, não temos notícias da data específica de seu falecimento.  Muito devemos a ele, que é lembrado hoje pela extravagância de um catálogo de roupas.  Mas ele também é exemplo da vitalidade econômica e social do início da Renascença, que levará à ascensão da classe média ao poder, logo na segunda metade do século XVI.





Um tesouro com 52.500 moedas romanas! Que descoberta!

30 07 2010

Um passatempo rendoso foi o que o caçador de tesouros inglês, Dave Crisp, descobriu quando encontrou, na Inglaterra, cerca de 52.500 moedas romanas, datando do século III: uma das maiores descobertas de todos os tempos na Grã-Bretanha.   O tesouro, encontrado em Abril e só agora trazido ao público, foi transferido para o Museu Britânico, em Londres, onde as moedas foram limpas e registradas, este trabalho foi feito em dois meses e representou cerca de 400 horas de trabalho para a equipe conservador.  No total seu valor deve chegar a £3.300.000 (R$ 9.075.000 ) e inclui centenas de moedas – a maioria de prata baixa ou bronze —  com a imagem de Marcus Aurelius Carausius,  imperador romano que invadiu e tomou possessão das terras na Grã-Bretanha e ao norte da França no terceiro século da nossa era.  Os arqueólogos que tiveram acesso ao achado acreditam que o tesouro, que lança luz sobre a crise econômica e coalizão do governo no século III e que ajudará a reescrever a história nos livros.

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Dave Crisp, um chefe de cozinha de um hospital local, e caçador de tesouros por passatempo,  usando um detector de metal localizou as moedas em abril, num campo próximo a Frome, Somerset,  na região sudoeste da Inglaterra.   As moedas haviam sido enterradas em uma grande jarra — um tipo de recipiente, normalmente usado para armazenar comida  — numa profundidade de aproximadamente 30 centímetros.  E o tesouro pesa cerca de 160 kg ao todo.  Crisp  disse que recebeu um sinal de estranho em seu detector de metais o que o levou a começar a cavar.

 

Eu coloquei minha mão dentro, tirei um pouquinho de barro e com ele veio uma pequena moeda romana de bronze – muito, muito pequeno, do tamanho da minha unha“, disse Crisp. Ele retirou cerca de 20 moedas antes de descobrir que eles estavam em um pote e, então,  percebeu que precisava de ajuda arqueológica.  “Contatei o responsável local da Divisão de Achados Históricos.   Ao longo dos anos já tive muitos achados, mas este é o meu primeiro tesouro de moedas, e foi uma experiência fascinante participar nas escavações”.

Dave Crisp fez a coisa certa.  Não tentou escavar o tesouro sozinho.  “Resistindo à tentação de desenterrar as moedas o Sr. Crisp permitiu aos arqueólogos do Somerset County Council escavarem cuidadosamente a jarra e seu conteúdo, garantindo a preservação de provas importantes sobre as circunstâncias do seu enterro”, disse Anna Booth, Liaison de Achados do Conselho de Somerset.

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Por causa do peso das moedas e da fragilidade da panela em que foram enterradas, o pote deve ter sido enterrado no chão antes das moedas. E ela foram então colocadas dentro dele. Isso sugere que esse tesouro não foi enterrado porque seu dono estava preocupado com uma ameaça de invasão, e  queria encontrar um lugar seguro para guardar suas riquezas, com a intenção de recuperá-lo mais tarde, em  tempos mais pacíficos.  A única maneira que alguém poderia ter recuperado este tesouro seria quebrando o pote e escavando as moedas para fora dele.  Isso teria sido difícil.  Se essa tivesse sido a intenção, então eles teriam enterrado suas moedas em recipientes pequenos, que seriam mais fáceis de se recuperar.  Pensa-se, portanto, que é mais provável que a pessoa (ou pessoas) que enterrou o tesouro confiado não tinha a intenção de voltar e recuperá-lo mais tarde.  Talvez tenha sido uma oferta de alguma comunidade agrícola para uma boa colheita ou por um clima favorável.

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As moedas foram divididas em 67 grupos.  Cada um desses grupos foi lavado e classificado em separado e, como resultado, sabe-se, hoje, que a grande maioria (85 por cento) das moedas de Carausius, as últimas moedas no tesouro, estava em uma única camada.   Isso dá uma fascinante visão sobre como as moedas foram colocadas na jarra, como um conjunto de moedas de Carausius deve ter sido derrubado, panela abaixo e permanece separado  do resto das moedas.

O condado já iniciou um inquérito, quinta-feira, para determinar se o achado está sujeito à lei do Tesouro, um passo formal para a determinação de um preço a ser pago por qualquer instituição que deseje adquirir o tesouro.   O tesouro é um dos maiores já encontrados na Grã-Bretanha, e irá revelar mais sobre a história da nação no século III, disse Roger Bland, chefe de Antiguidades portáteis do Museu Britânico. A descoberta inclui 766 moedas com a imagem do general romano Marco Aurélio Carausius, que governou a Grã-Bretanha, em governo independente, de 286 aC a 293 dC .   Foi ele o imperador romano que governou o país até ser assassinado em 293. “O terceiro século dC, foi um momento em que a Grã-Bretanha sofreu invasões bárbaras, crises econômicas e guerras civis“, disse Bland.

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Roger Bland disse:  “Achamos que quem enterrou essa jarra não tinha a intenção de voltar a recuperá-la. Podemos apenas imaginar por que alguém enterraria o tesouro: poderia ser algumas economia, ou o temor de uma invasão, talvez fosse uma oferenda aos deuses.”   O domínio romano foi finalmente estabilizado quando o imperador Diocleciano formou uma coalizão com o imperador Maximiano, que durou 20 anos. Isso derrotou o regime separatista que tinha sido estabelecida na Grã-Bretanha por Carausius.

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Esta descoberta nos traz a oportunidade de colocar Carausius no mapa escolar das crianças. Todos no país estudam sobre a Bretanha Romana há décadas, mas nunca ensinamos nada sobre Carausius,  nosso imperador britânico, perdido.”   A descoberta de moedas romanas se seguiu a uma descoberta feita no ano passado, de um tesouro de moedas anglo-saxãs na região central da Inglaterra, que ficou conhecido como o tesouro de Staffordshire  e que teve mais de 1.500 objetos, a maioria feita de ouro. 

 

 

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Este artigo foi baseado em 3 diferentes publicações na internet:

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Associated PressCNN, History of the Ancient World.

 

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Se você entende inglês, veja o vídeo abaixo com fotos e uma entrevista com Dave Crisp numa das rádios inglesas.

 






O mosaico de Orfeu, réplica, vai a leilão dia 24 de junho.

23 06 2010

Réplica do mosaico de Orfeu.  EFE

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Vai a leilão esta semana a réplica do grande mosaico de Orfeu, encontrado em Gloucestershire, no Reino Unido.   Dois irmãos, pesquisadores, levaram 10 anos e utilizaram mais de 1 milhão de peças de argila recortadas a mão para construir a peça, que será vendida.    A reconstrução – uma cópia detalhada —  do maior mosaico romano maior já encontrado na Grã-Bretanha foi feita utilizando 1.600.000 peças .  O mosaico de Orfeu, descoberto em Woodchester, Gloucestershire, irá à venda, dia 24 de junho.   O trabalho está atualmente em exibição no Prinknash Abbey, perto de Stroud, mas o contrato chegou ao fim e seu dono – que não quer ser identificado – decidiu vender.

O mosaico original, que data de 325 dC,  é remanescente da época em que o Império Romano esteve na Grã-Bretanha. Hoje, ainda podem ser vistas marcas da passagem dos romanos, como a vila de Woodchester, que inclui 60 habitações da época romana. Foi nessa vila que foi encontrado o mosaico que representa Orfeu, uma das mais conhecidas figuras da mitologia grega, domando bestas.   Este mosaico foi totalmente escavado em 1793 e só ocasionalmente exposto, desde então.  Para sua proteção arqueólogos voltam a cobri-lo com terra e só o trazem à luz do dia de tempos em tempos.  Durante a sua mais recente exposição mais de 150.000 visitantes foram vê-lo.   Foi nessa ocasião que os irmãos Bob e John Woodward, encantados com o chão de mosaico romano, decidiram fazer uma reconstrução completa.   A réplica que eles criaram é agora reconhecida como um dos projetos arqueológicos mais significativos dos últimos tempos.

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Bob Woodward com o mosaico.

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A vila romana de Woodchester, perto de Stroud, onde o mosaico foi originalmente usado deve ter pertencido a alguém de enorme riqueza e influência.  A construção tinha 60 quartos, 20 deles com pisos de mosaico, incluindo o grande salão onde se encontrava o chão de Orfeu,  circundado pelas figuras mais importantes da mitologia grega.   Considerado o pai da música e da poesia, Orfeu foi presenteado neste mosaico com a lira de seu pai, o deus Apolo. 

O mosaico retrata Orfeu com sua lira pousada sobre o joelho esquerdo.  Ao lado dele seu fiel cão de caça e um grande número de animais ao redor, incluindo um tigre, um leopardo, um leão, um elefante, um urso, um grifo, um veado, um cavalo, javalis e aves: faisões, pavões e pombas. Duas ninfas da água são representadas em cada tímpano.

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Detalhe do mosaico

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Um dos primeiros relatos sobre este mosaico é de 1693, quando o pesquisador celta Edward Llwyd  fez o registro de ter visto “os pássaros e os animais no chão”.   Para essa reconstrução foi necessário fazer  uma cuidadosa pesquisa sobre outros conhecidos mosaicos Orfeu para ajudar a substituir as seções em falta com a maior precisão possível.  De interesse especial foi o mosaico da Barton Farm, em Cirencester, que tinha vários animais semelhantes.  A grande diferença entre o original e a réplica está no material utilizado.  Uma réplica com o calcário original teria sido muito pesada e extremamente cara.  Os irmãos  Woodward então percorreram a Inglaterra para encontrar argilas, cujas cores naturais, fossem naturalmente adequadas ao trabalho.

O trabalho dos irmãos Woodward aparece atualmente no Guinness Book, o livro dos recordes, como o maior mosaico do mundo.

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FONTES:

  BBC — TERRA This is Gloucestershire





Descoberta a fonte de água para aqueduto romano

4 02 2010
Foto: AFP

 

Há muito tempo procurava-se a fonte de água limpa que abastecia a cidade de Roma na antiguidade.  Tudo indica que finalmente, uma equipe de arqueólogos localizou a fonte de um aqueduto romano construído pelo imperador Trajano há 1900 anos. As câmaras coletoras estavam sob uma igreja a noroeste de Roma.   A implantação de água corrente na época, água limpa, foi muito importante para a saúde e a higiene da população e preservação da população.

O aqueduto, Aqua Traiana, tinha origem no Lago Bracciano, a 40 km do centro de Roma.  O sistema de transporte desta água foi inaugurado no ano 109 e era um dos onze aquedutos que abasteciam Roma, a capital do império, uma cidade que crescia rapidamente e contava com aproximadamente um milhão de habitantes na época.   

Trajano

 

O imperador Trajano governou o império romano do ano  98 ao 117 da nossa era.   Este período é considerado um dos mais prósperos da antiga Roma, que sob seu governo, desfrutou de grande estabilidade e de paz.  Trajano foi também o primeiro imperador de origem fora de Roma, tendo nascido na Espanha, na época território do império romano.   Foi no governo de Trajano que a Dácia, atual Romênia, foi conquistada. 

Fonte: BBC, Terra, e outros