Julien Jacques LeClerc (França, 1885-1972)
ilustração para La Vie Parisiènne, década de 1920
Julien Jacques LeClerc (França, 1885-1972)
ilustração para La Vie Parisiènne, década de 1920
Ilustração para a fábula de La Fontaine, de Calvet-Rogniat.
Afonso Louzada
Depois de acumular barras e barras de ouro,
a formiga, afinal, sentiu o último alento,
pesarosa, talvez, como bom avarento,
de não poder levar consigo o seu tesouro.
–“A minha vida foi um trabalho incessante!
Trabalhei! Trabalhei sem parar um instante!”
Naquele mesmo dia, estranha coincidência,
exausta de cantar, a boêmia da cigarra
o derradeiro adeus deu, cheia de eloquência,
à vida que levara, ao léu, sempre na farra.
— “Cantei! Cantei, alheia ao mais, despreocupada,
que a vida é só amor; o resto não é nada!”
E, juntas, para o céu elas foram subindo.
A cigarra cantava, estuante de alegria:
— “Mas que dia! E que sol! Como tudo está lindo!”
— “O meu ouro ficou…” a formiga gemia.
Foi recebê-las Deus: — “Responde-me cigarra;
o que fizeste lá? O que fizeste, narra.”
— “Cantei. Sempre cantei, em meio à humana dor,
a alegria da vida, a alegria do amor”.
— “E tu?” — “Eu trabalhei. E tudo lá ficou…”
Depois de ouvi-las, Deus bondoso lhes falou:
–“O trabalho merece e a glória do Paraíso.
Mas tu, (disse esboçando esplêndido sorriso,
sob a fascinação do canto da cigarra)
se levaste, afinal, uma vida bizarra
alegraste, porém os corações aflitos
que sangravam de dor, dos humanos precitos”.
… E à flor dos lábios tendo seu melhor sorriso,
abriu para a cigarra as portas do Paraíso.
Em: Noturnos, Afonso Louzada, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional: 1947, pp, 11-12.
Noite no campo, ilustração de Sylvie Daigneault.
Orvalha, e da flor molhada
brota uma lágrima, e corre.
— Silêncio!, que a madrugada
pranteia a noite que morre…
(Elton Carvalho)
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Ilustração inspirada no trabalho de Marcus Gheeraerts, o velho (Bélgica, c. 1520- c. 1590)–
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Monteiro Lobato
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Simão, o macaco, e Bichano, o gato, moram juntos na mesma casa. E pintam o sete. Um furta coisas, remexe gavetas, esconde tesourinhas, atormenta o papagaio; outra arranha os tapetes, esfiapa as almofadas e bebe o leite das crianças.
Mas, apesar de amigos e sócios, o macaco sabe agir com tal maromba que é quem sai ganhando sempre.
Foi assim no caso das castanhas.
A cozinheira pusera a assar nas brasas umas castanhas e fora à horta colher temperos. Vendo a cozinha vazia, os dois malandros se aproximaram. Disse o macaco:
— Amigo Bichano, você que tem uma pata jeitosa, tire as castanhas do fogo.
O gato não se fez insistir e com muita arte começou a tirar as castanhas.
— Pronto, uma…
— Agora aquela lá… Isso. Agora aquela gorducha… Isso. E mais a da esquerda, que estalou…
O gato as tirava, mas quem as comia, gulosamente, piscando o olho, era o macaco…
De repente, eis que surge a cozinheira, furiosa, de vara na mão.
— Espere aí, diabada!…
Os dois gatunos sumiram-se aos pinotes.
— Boa peça, hem? — disse o macaco lá longe.
O gato suspirou:
— Para você, que comeu as castanhas. Para mim foi péssima, pois arrisquei o pelo e fiquei em jejum, sem saber que gosto tem uma castanha assada…
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Em: Fábulas, Monteiro Lobato, São Paulo, Ed. Brasiliense:1966, 20ª edição, pp 97-98.
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José Bento Monteiro Lobato, (Taubaté, SP, 1882 – 1948). Escritor, contista; dedicou-se à literatura infantil. Foi um dos fundadores da Companhia Editora Nacional. Chamava-se José Renato Monteiro Lobato e alterou o nome posteriormente para José Bento.
Obras:
A Barca de Gleyre, 1944
A Caçada da Onça, 1924
A ceia dos acusados, 1936
A Chave do Tamanho, 1942
A Correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto, 1955
A Epopéia Americana, 1940
A Menina do Narizinho Arrebitado, 1924
Alice no País do Espelho, 1933
América, 1932
Aritmética da Emília, 1935
As caçadas de Pedrinho, 1933
Aventuras de Hans Staden, 1927
Caçada da Onça, 1925
Cidades Mortas, 1919
Contos Leves, 1935
Contos Pesados, 1940
Conversa entre Amigos, 1986
D. Quixote das crianças, 1936
Emília no País da Gramática, 1934
Escândalo do Petróleo, 1936
Fábulas, 1922
Fábulas de Narizinho, 1923
Ferro, 1931
Filosofia da vida, 1937
Formação da mentalidade, 1940
Geografia de Dona Benta, 1935
História da civilização, 1946
História da filosofia, 1935
História da literatura mundial, 1941
História das Invenções, 1935
História do Mundo para crianças, 1933
Histórias de Tia Nastácia, 1937
How Henry Ford is Regarded in Brazil, 1926
Idéias de Jeca Tatu, 1919
Jeca-Tatuzinho, 1925
Lucia, ou a Menina de Narizinho Arrebitado, 1921
Memórias de Emília, 1936
Mister Slang e o Brasil, 1927
Mundo da Lua, 1923
Na Antevéspera, 1933
Narizinho Arrebitado, 1923
Negrinha, 1920
Novas Reinações de Narizinho, 1933
O Choque das Raças ou O Presidente Negro, 1926
O Garimpeiro do Rio das Garças, 1930
O livro da jangal, 1941
O Macaco que Se Fez Homem, 1923
O Marquês de Rabicó, 1922
O Minotauro, 1939
O pequeno César, 1935
O Picapau Amarelo, 1939
O pó de pirlimpimpim, 1931
O Poço do Visconde, 1937
O presidente negro, 1926
O Saci, 1918
Onda Verde, 1923
Os Doze Trabalhos de Hércules, 1944
Os grandes pensadores, 1939
Os Negros, 1924
Prefácios e Entrevistas, 1946
Problema Vital, 1918
Reforma da Natureza, 1941
Reinações de Narizinho, 1931
Serões de Dona Benta, 1937
Urupês, 1918
Viagem ao Céu, 1932
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Esta fábula de Monteiro Lobato é uma das centenas de variações feitas através dos séculos da fábulas de Esopo, escritor grego, que viveu no século VI AC. Suas fábulas foram reunidas e atribuídas a ele, por Demétrius em 325 AC. Desde então tornaram-se clássicos da cultura ocidental e muitos escritores como Monteiro Lobato, re-escreveram e ficaram famosos por recriarem estas histórias, o que mostra a universalidade dos textos, das emoções descritas e da moral neles exemplificada. Entre os mais famosos escritores que recriaram as Fábulas de Esopo estão Fedro e La Fontaine.
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Consertando a cerca, Ilustração de J. H. Wingfield (Inglaterra, 1910-2002).–
Uma nova pesquisa sobre livros infantis ilustrados, feita nos Estados Unidos, constatou que os estereótipos de gênero, como as mães dando carinho e os pais sendo responsáveis pelo sustento da família, continuam teimosamente persistentes até os dias de hoje.
Os livros continuam retratando o que hoje pode ser considerada uma ficção dando preferência a uma realidade incompatível com o presente, no dia a dia da criança. Os livros infantis nos EUA estão com ilustrações anacrônicas, com papéis sexuais das histórias ilustradas estagnados a décadas atrás.
A pesquisa se baseou em uma amostra aleatória de 300 livros infantis “fáceis” de mais de 1.400 listados no catálogo de livros infantis, usado para ajudar bibliotecas escolares e comunitárias na escolha de livros de qualidade. Os livros foram então divididos de acordo com a data de publicação, começando com um grupo de 50, publicados entre 1900 e 1959. Grupos adicionais de 50 foram escolhidos a partir de cada uma das últimas quatro décadas do século XX. Os últimos 50 foram escolhidos dentre os livros publicados no ano de 2000.
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Fazendo a cama, ilustração de J. H. Wingfield (Inglaterra, 1910-2002)–
Os pesquisadores procuraram por atitudes específicas dos pais representados, observando o comportamento de pais e mães nas ilustrações. Dividiram em comportamentos de afeto ou conforto à criança; comportamentos de prestação de cuidados (como preparar refeições ou limpar a criança); comportamentos disciplinares (como repreensão), companheirismo (como brincar com a criança ou dar um passeio), e o trabalho fora de casa.
Ninguém se surpreendeu de ter encontrado uma grande quantidade de estereótipos de gênero. Mas ao contrário das expectativas, esta tendência não diminuiu significativamente com o passar do tempo. Pais em geral sendo retratados trabalhando fora e as mães sendo as principais cuidadoras das crianças. Os pesquisadores relatam esses estereótipos têm suavizado ao longo das décadas, mas apenas ligeiramente e de forma esporádica. Houve um pico de de ilustrações de comportamentos mais modernos, em 1970, mas desde então tudo permaneceu no mesmo patamar até o ano 2000.
“Os pais, em livros publicados em 2000, se mostraram, nas ilustrações como capazes de maior prestação de cuidados e carinho do que em períodos anteriores, e as mães foram representadas em maior número trabalhando fora de casa”, sugeriram os pesquisadores. “Mas falta significância nos resultados estatísticos para que isso seja considerado uma tendência. O exemplo de 1970 mostra que pode haver picos de mudanças e depois as coisas darem para trás. Há evidentemente uma teimosia cultural que não deixa o retrato da vida no presente. Há uma idealização de papéis? .
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FONTE: PS MAGAZINE
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Meninas lendo livro
Jenny Nyström ( Suécia, 1854-1946)
[cartão de Natal]
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Jenny Nyström nasceu em Kalmar, na Suécia em 1854. Pintora e ilustradora de livros, fez fama com seus inúmeros cartões de Natal e ilutrações para revistas. Em 1865 começou a estudar pintura na Göteborgs Escola de Arte e em 1873 foi aceita na Real Academia de Arte da Suécia, em Estocolmo onde estudou por oito anos. Conseguiu uma bolsa e foi para Paris, onde permaneceu de 1882-1886 estudando. Foi em Paris que descobriu o mercado dos cartões postais que estavam muito populares. Começou a produzí-los e assim entrou também para a ilustração de livros. Casou-se aos 33 anos. Faleceu em Estocolmo, em 1946, depois de uma carreira de sucesso.
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Mulher lendo
Xavier Gosé (Espanha, 1876-1915)
Guache sobre papel
=
Xavier Gosé i Rovira nasceu em Alcalá de Henares, na Catalunha em 1876. Depois da morte do pai, quando ele tinha quatro anos, foi para Barcelona com a família de sua mãe. Estudou de arte com José Luís Pellicer. Terminado o aprendizado, trabalhou com ilustração para as maiores revistas da época, de 1895 a 1898. Expõe na Catalunha, inclusive no conhecido Quatre Gats. Em 1900 mudou-se para Paris onde passou a contribuir primeiro com caricaturas para revistas de humor e depois para todo tipo de publicação. Tornou-se um ilustrador requisitado por todo o mercado. Com a aproximação da Primeira Guerra Mundial retornou à Catalunha. Mas, morreu logo a seguir, em Lleida, em 1915, de tuberculose.
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Menino lendo na cama
Anni Matsick ( EUA, contemporânea)
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Sam Levenson
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Jaguatirica na árvore, Capa da Revista Caça e Pesca de abril de 1943, ilustração de Rafael Falco.Quando hoje fazemos uma pesquisa sobre qualquer assunto, a primeira ideia que nos chega é consultar a internet. Lá, deve haver alguém que se preocupou com o assunto que nos aflige. Nem sempre é o caso. Principalmente quando tratamos das artes visuais no Brasil. Há pouca informação. Não é de todo culpa daqueles que usam a internet, nem é por falta de interesse. É que temos que nos reeducar. Aprender a dividir conhecimentos, algo raro num país em que por tantos séculos o saber, o conhecimento eram a maneira de se manter classes sociais distintas. Somar forças ainda é a melhor maneira de se combater um mal. Ainda bem que a internet chegou, democratizando a cultura. Sem ela, a postagem de hoje não existiria não fossem os esforços de muitos e principalmente de duas pessoas: 1) do artista plástico, arquiteto, mestre em arqueologia pelo MAE/USP, Paulo Araújo de Almeida. Dele são todas as fotos das capas das revistas Caça e Pesca. 2) ao médico e cirurgião Benedito Martins de Lacerda, descendente de Rafael Falco, cujas pesquisas sobre a família e o paradeiro das obras de Falco contribuíram para essa postagem e ainda irão aumentar o nosso conhecimento sobre esse pintor brasileiro no futuro. Dele são alguns dados pessoais sobre a famíia do pintor. A minha pesquisa se resumiu até hoje a uma ida à Biblioteca Nacional onde minhas esperanças de maior informação não foram de todo vãs, mas ficaram aquém do esperado. De qualquer maneira, segue aqui o que já se conseguiu a respeito. Aqueles que estão pegando esse bonde andando, sugiro que leiam as postagens sobre o pintor Rafael Falco nesse blog.
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Rafael Falco nasceu em Oran, na Argélia em 1885 [Dicinário de Pintores Brasileiros, Walmir Ayala, 2 volumes, Rio de Janeiro, Spala: 1986]. Filho de Gaspar Falco e de Antonia Falco Jaén, ela de família originária de Alicante na Espanha, [informações da família de Rafael Falco]. A família diz que o pai de Rafael foi um soldado Zuavo, do exército francês. Os zuavos eram soldados da infantaria da Argélia, a serviço do exército francês, desde 1830. Tinham um uniforme diferenciado e eram todos nascidos na Argélia. Eram comandados por um militar francês, mas eram argelinos – que na época era território francês. Como Oran também era uma cidade com grande população de espanhóis – até hoje a influência espanhola pode ser sentida na cidade em sua Plaza de Toros, entre outras construções típicas da região – é possível que tanto o pai como a mãe de Rafael Falco fossem realmente naturais da Argélia, trazendo a cidadania francesa por terem nascido em território de domínio francês. [No entanto, veja ao final do parágrafo a informação que sua neta conseguiu na documentação de imigração.] Se o casal sempre residiu em Oran, ou não, ainda está para ser documentado. O casal teve seis filhos entre eles Rafael. A família emigrou para o Brasil a tempo de Rafael Falco passar a infância em Taubaté, onde fez seus primeiros estudos. Sua neta Isabelle, que generosamente dividiu conosco algumas informações, pesquisou e encontrou documentação em São Paulo sobre a data de chegada da família no Brasil: 1890. Nesses documentos a família consta como de origem espanhola. Por esses documentos sabemos que Rafael Gaspar Falco tinha cinco anos quando chegou ao Brasil.
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“Transferindo residência mais tarde para São Carlos (SP) passou a lecionar na Escola Normal dessa cidade. Sua tela, ‘Tiradentes ante o carrasco’, exposta no XVI Salão Paulista de Belas Artes, recebeu o Prêmio Prefeitura de São Paulo, e depois de passar alguns anos no Palácio Tiradentes, foi transferida para o Palácio do Planalto, em Brasília, tendo sido aproveitada para ilustrar as notas novas de cinco mil cruzeiros, emitidas pelo Tesouro Nacional.” [Dicinário de Pintores Brasileiros, Walmir Ayala, 2 volumes, Rio de Janeiro, Spala: 1986]. A família de Rafael Falco menciona que foi um familiar, Emmanuel, sobrinho de Rafael Falco, quem serviu de modelo para Tiradentes nessa obra.
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Walmir Ayala em seu Dicinário de Pintores Brasileiros lista as principais coletivas do pintor:
1939 – Salão Paulista de Belas Artes, medalha de bronze, São Paulo (SP)
1940 – Salão Palista de Belas Artes, pequena medalha de prata, São Paulo (SP)
1951 – Salão Paulista de Belas Artes, Prêmio Prefeitura de São Paulo (SP)
1960 – Salão Paulista de Belas Artes, Prêmio Assembléia Legislativa, São Paulo (SP)
1961 – Salão Paulista de Belas Artes, medalha de prata, São Paulo (SP)
1965 – Salão Paulista de Belas Artes, Prêmio Prefeitura de São Paulo (SP)
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Já Theodoro Braga, no livro de referências bibliográficas, Artistas Pintores no Brasil, São Paulo, Ed. São Paulo, 1942. lista as seguintes fontes bibliográfcas para Rafael Falco. Isso quer dizer, para quem não está acostumado com esses termos, ele lista os seguintes artigos que se referem à obra de Rafael Falco.
– Catálogo do VII– 1940, Salão Paulista de Belas Artes
– Diário Popular, São Paulo, 20 de dezembro de 1939.
– Revista da Semana, Rio de Janeiro, 8 de abril de 1939.
– Belas Artes, Rio de Janeiro, abril de 1938, nº 35-3, página 3
– O Estado de São Paulo, São Paulo, 12 de fevereiro de 1941, página 8
– O Revelador, São Paulo, Janeiro de 1942, Ano IX, nº 1
– Diário Popular, São Paulo, dezembro de 1941
– Grupo Escolar em Taubaté, (São Paulo), 1904
– Escola Normal Secundária de São Carlos, SP, 1911
– Catálogo VIII — 1942, Salão Paulista de Belas Artes, página 39
– Catálogo do V e do VI, 1938-1939, Salão Paulista de Belas Artes
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A família de Rafael Falco encontrou uma foto do pintor ainda jovem, de 1904, do Clube Taubateense. Mas ainda não a recebi. A família também já entrou em contato com a escola em São Carlos, que confirmou possuir algumas obras de Rafael Falco, todas no momento em estado precário, necessitando restauro. Assim, aos poucos talvez possamos reconstituir parte da trajetória desse artista que como muitos outros, foi um competente pintor, que caiu no esquecimento por não estar entre os mais inovadores. No entanto, a nossa história cultural deve uma grande porção a esses artistas que estabeleceram para muitos, alguns princípios estéticos rudimentares. O caso de Rafael Falco é emblemático de muitos outros artistas que se dedicaram à ilustração para ajudar nas contas do fim do mês. Sua obra talvez tenha sido a única forma de arte que muitas pessoas, menos ligadas aos movimentos artísticos, tenham conhecido, entre elas caçadores e pescadores que viram, que entraram em contato, mês após mês, com as capas bem feitas, ilustrativas da época.
Já está mais do que estabelecido, fora do Brasil, que foram ilustradores — aqueles responsáveis pelas capas de revistas de grande circulação — que acabaram estabelecendo uma linguagem estética que aproximava a pessoa comum das obras de arte. Exemplos existem às centenas desses “educadores visuais”: Norman Rockwell, William Morris, Beatrix Potter, George Barbier, entre muitos e muitos outros. Alguns, como o pintor surrealista belga René Magritte, dedicaram-se não só às páginas de revistas, mas às capas de partituras musicais, folhinhas, rótulos de bebidas, cartazes e assim modificaram, ajustaram, formaram o gosto do público à sensibilidade estética da época.
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Falta no Brasil um levantamento dedicado a esses trabalhadores incansáveis. Falta reconhecimento de sua importância como linha de frente na batalha da educação estética.
Não dá para sabermos ainda as técnicas de trabalho de Rafael Falco. Muitos de sua geração usavam a aquarela sobre papel — que melhor se ajustava às necessidades de impressão a cores das capas de revistas. Grande parte dos ilustradores em outros países usam a aquarela. Mas recentemente tive acesso aos trabalhos do ilustrador Henry [Hy] Hintermeister, nascido na Suiça, que tendo emigrado para os Estados Unidos, fazia algumas cenas quase cômicas de suas ilustrações bastante divulgadas nos anos 1920 a 1950 — como capas de revistas — em óleo sobre canvas. Isso não é tão comum. Qualquer informação sobre a técnica de Rafael Falco será bem-vinda e eventualmente partilhada por aqui.
Agradeço mais uma vez a Paulo Araújo de Almeida, a Benedito Martins de Lacerda e a Isabelle Polz que generosamente dividiram suas informações para que essa postagem ficasse mais completa.
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Partida, Revista Caça e Pesca, janeiro de 1943, ilustração Rafael Falco.—–
NOTA: O nome do pintor pode aparecer como Rafael Falco, Raphael Falco ou Raphael Gaspar Falco. Para quem quiser aprofundar a pesquisa essas três variações precisam ser testadas. Como todos os documentos de época também eram na sua maioria escritos à mão há que decifrá-los. Também há possibilidade de erros na transcrição de um documento para outro pode gerar diferenças em como se escreve um nome ou sobrenome.