Mulheres da história: Matilda de Canossa (1046-1115)

30 11 2013

Matilda_of_TuscanyMatilda da Toscana

Michelangelo Buonarroti  acreditava ser descendente da heroína medieval Condessa de Canossa.  Essa era uma tradição oral da família do escultor renascentista que nunca conseguiu ser provada.  Não importa.  Não faz diferença quando julgamos o valor do legado deixado pelo artista.  Mas foi importante para ele e para sua família acreditar que seriam descendentes dessa mulher, uma das poucas que se distinguiram na Idade Média e passar para a história com nome, sobrenome e até retratos.  No século XI, época em que viveu, a distinção de identidade individualizada era rara até mesmo para rainhas.  Mulheres nessa época se autoapagavam, submetendo qualquer ato de individualismo ao anonimato social, trabalhando na maior parte das vezes como eminências pardas na política local.

Mas Matilda de Canossa  foi diferente.  Conhecida também como Matilda da Toscana por causa das terras que herdou aos 8 anos de idade.  Filha de Bonifácio III, duque de Toscana, assassinado em 1052, que até então havia sido o mais poderoso príncipe de sua época, natural da Lombardia e  Conde de Brescia, Canossa, Ferrara, Florença, Luca, Mântua, Modena, Pisa, Pistóia, Parma, Reggio, e Verona a partir de 1007 e nomeado Marquês da Toscana  de 1027 até sua morte.  Seu poder se enraizava principalmente na província região de Emília, nordeste da Itália de hoje.  A mãe de Matilda de Canossa foi Beatrix de Lorraine, filha de Frederico II Duque da Alta Lorraine.  O castelo residência da família era o Castelo de Canossa, uma verdadeira fortificação, não só pela construção mas sobretudo por sua localização, no topo de um penhasco.

Hugo-v-cluny_heinrich-iv_mathilde-v-tuszien_cod-vat-lat-4922_1115adHenrique IV pede a Matilde e a Hugo de Cluny intercessão junto do Papa.

Matilda é lembrada até hoje por sua coragem e firmeza no poder.  Também é considerada por sua habilidade de estrategista militar que colocou à disposição dos Papa Gregório VII. Uma rara habilidade administrativa  ajudou-a  a manter-se  no poder até a morte aos 69 anos.  Seu maior inimigo foi o rei germânico Henrique IV e a luta entre eles é o tema principal da peça de Luigi Pirandello chamada Henrique IV.  Matilda de Canossa também foi a personagem principal do livro The Book of Love de Katheleen McGowan publicado nos Estados Unidos em 2009.

Matilda de Canossa foi uma das três mulheres enterradas na Basílica de São Pedro no Vaticano, onde há uma bela escultura de Bernini representando a heroína medieval.





O livro das horas de Nélida Piñon

17 01 2013

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Iluminura da Cidade das Mulheres, de Catarina de Pisano, século XV

Mestre da Cidade das Mulheres (Ativo em Paris entre 1400-1415)

Pintura sobre pergaminho, 12 x 18 cm

Biblioteca Nacional da França, Paris

Tradicionalmente o Livro de Horas era um pequeno livro, manuscrito, contendo salmos e orações, para a pessoa comum usar como guia dos rituais religiosos. Foram populares na Idade Média, a maioria aparecendo entre os séculos XIV e XVI.  Tinham, por vezes,  divisões das horas canônicas,  para que seus portadores mantivessem as orações necessárias na hora certa. Podiam conter também os meses ou as estações do ano com lembranças das festividades do ano cristão. O Livro de Horas  era composto de pequenos textos pois era  um guia para  reflexão,  para a meditação religiosa.  Era carregado facilmente em bolsas ou bolsos;  poderia ou não ser ilustrado com pinturas à mão, chamadas iluminuras, mais ou menos ricas dependendo da fortuna de seus portadores.  Porque eram  objetos próprios, especificamente feitos para um só dono, diferenciavam-se, cada qual  adaptado  ao gosto de quem o encomendara.

A descrição acima não se aplica ao livro de Nélida Piñon a não ser na forma e no espírito:  ponderações oportunas, ritmadas.  Meditações variadas.  Seu livro tampouco se mostra afiliado aos poemas de amor divino enunciados no volume poético de Rainer Maria Rilke, titulado Livro das Horas, publicado em 1905.   O que todos têm em comum é o convite à reflexão, a voz introspectiva, o tom meditativo.  Este é um livro pessoal, íntimo, mesmo que essa intimidade seja filtrada e dosada.  Dona de uma das mais fortes vozes narrativas da literatura brasileira, Nélida Piñon pode ser considerada acima de tudo a escritora da palavra certa, mestra  do uso do “mot juste”.

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Engana-se quem imagina perceber nessas reflexões sobre o cotidiano, sobre viagens e leituras,  memórias reveladoras dos pensamentos mais íntimos, das alegrias e tristezas de sua autora.  Muito pelo contrário, vislumbramos sim, uma pessoa carinhosa para com seu cachorrinho de estimação, Gravetinho; uma pessoa  cuja mente associa no perscrutar diário, segmentos de leituras do passado temperadas ao gosto da gastronomia galega.  Mas são passos cuidadosos de revelação, passos que avançam o conhecimento que temos da escritora, mas que simultaneamente nos aguçam a curiosidade sobre suas opiniões, sobre suas ‘verdadeiras’ opiniões.  A aparente facilidade com que Nélida Piñon pode deslizar da leitura da manchete de jornal a considerações  sobre o teatro clássico grego; quando consegue se imaginar dialogando com a boneca Emília do Sítio do Picapau Amarelo,  passear pelo velho centro do Rio de Janeiro e acabar com os olhos pousados nas águas da lagoa Rodrigo de Freitas, só demonstra sua extraordinária habilidade de cinzelar o texto, de abreviar as pausas e mostrar só, unicamente aquilo que se permite revelar.  Mas os véus encobrindo a pessoa continuam a ser tão eficazes quanto a roupa de Salomé antes do espetáculo diante de São João Batista. O que descobrimos  não é a autora, mas sua persona.

Memórias, todos sabemos, são tão grande ficção quanto um bom romance detetivesco.  Lembramo-nos do mundo como o desejaríamos que tivesse sido, às vezes para justificar certas ações, outras para nos apresentarmos pelo melhor ângulo. Recontamos só aquilo a que nos permitimos.  O mesmo se dá nessa publicação, nesse livro de reflexões.   O presente que Nélida Piñon nos entrega, no entanto, nessa coletânea encantadora  de meditações enfileiradas como contas de um rosário, é a habilidade de imaginarmo-nos em sua companhia, em  conversa sem hora para terminar; saltando de um canto ao outro do mundo; peregrinando pela Ibéria com a escritora a nos servir de guia.  O tom é íntimo.  Suave.  Meia-voz.  E com ela escorregamos de um assunto ao outro, às vezes surpresos pelo convívio que revela ter com amigos, por um leve misticismo quase gitano, talvez herdado dos ancestrais espanhóis e alimentado nas raízes brasileiras. O que descobrimos é uma mulher com um interior rico, lúdico e letrado. Só. Imensamente só.

Nélida Piñon, close

Nélida Piñon

A leitura de Livro das Horas é um presente. Deixou-me com curiosidade ainda maior pela autora, que já participava do meu panteão de sacerdotes da nossa literatura.  Percorri a rede à cata de entrevistas, queria ouvir sua voz para finalmente casá-la com os textos que perscrutava. É impossível ler-se essa publicação de uma ou duas sentadas.  Ela exige reflexão e os cinco ou seis parágrafos de cada etapa são suficientes para levar-nos, cheios de ponderações, ao dia seguinte, à noite seguinte.  Sherazade, é quem me vem à memória.  Tal é o encantamento do texto que me fez alongar a leitura por quase um mês, tomando-a a conta gotas, prolongando sua vida ao meu lado, como fez  o rei Sheriar.  Foi um prazer!





A dama e o unicórnio de Tracy Chevalier, uma leitura leve

15 10 2012

Tapeçaria da Série A Dama e o Unicórnio, c. 1470-1475

Museu de Arte Medieval, França

Tracy Chevalier me encantou há alguns anos com sua Moça com Brinco de Pérola, que li muito antes do filme ter chegado aos cinemas.  Mais tarde li o romance  Viva Chama, que apesar de interessante já não me pareceu tão evocativo de uma era.   Por isso mesmo deixei passar um bom tempo para ler A dama e o unicórnio.  Raramente a boa experiência de leitura de um autor se duplica na leitura seguinte se ainda estou sob o feitiço do primeiro encontro.  E temi que este livro sobre as famosas tapeçarias francesas da proto-renascença  pudesse me trazer descontentamento.   Posso garantir no entanto que este é um livro charmoso, agradável e um testemunho da grande criatividade da autora que se revela muito hábil ao imaginar as situações que poderiam ter levado à produção das tapeçarias assim como as vidas dos artesãos que as teceram.

O encanto do livro Moça com brinco de pérola não se repetiu.  Mas também não saí ao final dessa leitura desapontada: esta é uma narrativa leve, sensual, que tem o mérito de respeitar aquilo que se sabe hoje sobre as tapeçarias em questão. E ainda, este é um romance que traz aos olhos do século XXI, aos não historiadores, a quem não precisa refletir sobre as condições de vida e de trabalho no século XV, uma perspectiva de como seria a vida de então, com suas restrições, suas liberdades, as regras das guildas artesanais, o papel do monastério de freiras na vida de uma mulher.  Porque sua pesquisa foi bem feita, Tracy Chavalier instrui ao mesmo tempo que assume o papel de uma Sherazade.

Se por um lado a trama é tênue e previsível, por outro ela se salva pela acuidade na representação do trabalho artesão e de fatos históricos.  Isso  releva quaisquer faltas no comportamento quase licencioso retratado em alguns personagens femininos, comportamento  inexato pelo que se sabe serem as normas vigentes na época.  Não obstante,  A dama e o unicórnio oferece um entretenimento leve e informativo.





Imagem de leitura — Iluminura do Evangelho Lorsch

25 03 2012

Iluminura, Evangelho Lorsch, ( 780-820)

Período de Carlos Magno

Pintura em pergaminho

Biblioteca do Vaticano

O Codex Aureus de Lorsch ou O Evangelho de Lorsch (Biblioteca Apostolica Vaticana, Pal. lat. 50, and Alba Iulia, Biblioteca Documenta Batthyaneum, s.n.) é um manuscrito com  iluminuras, com o evangelho, escrito entre 778 e 820, o que o coloca aproximadamente no peródo do reinado de Carlos Magno, Imperador dos francos, unificador do território francês.  Foi provavelmente escrito na abadia de Lorsch na atual Alemanha, pela qual foi nomeado, aparecendo no ano de 830 na listagem de manuscritos dessa abadia, que nos séculos X e XI — ou seja dos anos 900 a 1100 — foi considerada uma das melhores bibliotecas do mundo.  Em meados do século XVI, próximo a 1550,  esse manuscrito foi levado para Heidelberg, para a então nova Biblioteca Palatina.  Foi roubado de lá durante a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648).  Para ser vendido, o manuscrito foi dividido em 2  partes e suas capas removidas.  A primeira metade foi para a Biblioteca Migazzi e mais tarde vendida para o Bispo Ignac Batthany.  Hoje essa parte se encontra em Alba lulia na Rumênia e pertence à Biblioteca Batthyaneum.  A outra metade está na Biblioteca do Vaticano e a capa da frente, ricamente ornada em relevos de marfim se encontra nos Museus do Vaticano.

NOTA:  A águia acima da cabeça do evangelista revela que se trata de São João Evangelista, retratado aqui.  Os quatro evangelistas que compõem o Novo Testamento são: São João Evangelista, também representado por uma águia; São Lucas também representado por um touro (pode ser ou não alado, dependendo da época em que foi representado); São Mateus também representado por um anjo e São Marcos também representado por um leão (pode ou não ser alado, dependendo da época em que foi representado).





Ildefonso Falcones encanta com A Catedral do Mar

3 01 2010

 Vitral da nave central, da igreja Santa Maria del Mar, em Barcelona.

Inicio de ano prolongado…  Estou aproveitando o tempo para limpar o escritório e colocar coisas em ordem.  Assim, antes de descartar algumas resenhas que foram feitas para outros fins, que não o blog, venho aqui postá-las para não perder de todo o controle do que li, e das minhas reações a certas leituras.

Uma visita à idade média em Barcelona

A tradução recente do espanhol para o português de A Catedral do Mar de Ildefonso Falcones, um advogado catalão que escreve seu primeiro romance, foi muito bem recebida aqui no Rio de Janeiro, e foi o livro escolhido pelo meu grupo de leitura para discussão em novembro.

A história se passa no século XIV, na Catalunha, e tem como tema central a construção de uma catedral gótica, à qual seu título se refere.  Também demonstra a importância desta construção – que existe até hoje – para a cidade de Barcelona e como a sociedade, dos nobres aos servos, foi afetada pela construção desta igreja. 

Neste meio tempo, temos o que eu diria ser uma das melhores séries de aulas sobre a vida na idade média.  A vida de Arnau Estanyol segura o texto de maneira surpreendente, do início ao fim do livro.  Nascido servo, nosso herói acaba barão.  Desta maneira, conseguimos entender não só as obrigações diárias de um servo na época, como aquelas esperadas dos homens livres, dos comerciantes e dos que emprestavam dinheiro a juros.  Vemos o início da Inquisição, a vida na Jederia ( o bairro judeu), as preocupações e obrigações diárias dos religiosos.  A medida que Arnau passa de uma aventura à outra, e aos poucos galga posições sociais, numa escalada sem igual, o leitor fica familiarizado com a vida dos homens livres, e como uma cidade mercantil funcionava.  E a quê vinham os nobres?   Preconceitos e valores morais são demonstrados e explorados com mestria.  O resultado é entendermos como pensavam os protagonistas de cada nível social.

 

 

E apesar dessa informação toda, a história é muito interessante, rápida, uma aventura quase, numa linguagem de fácil absorção.  A “aula de história” passa desapercebida, infiltrada como está em prosa de excelente qualidade.  Pouquíssimas são as passagens mais longas, ou diálogos que trazem mais informação do que adiantamento da trama.  Este romance é prazeroso de ler, apesar da grande informação histórica que se propõe a passar.    Por causa disso mesmo, este livro teve grande sucesso de venda na Espanha, e foi responsável pela inclusão n da catedral do título e de outros locais mencionados ao longo do romance, nos roteiros turísticos de Barcelona e da Catalunha.

A grande surpresa, para mim, veio na descoberta de quão diferente Barcelona era das outras cidades da época, que também viviam da exploração mercantil do porto.  Tinha uma população de homens livres muito maior do que essas outras cidades européias, até mesmo Veneza.  Surpresa também é o conhecimento extenso e profundo de Ildefonso Falcones, assim como sua capacidade de manter a nossa atenção através das quase 600 páginas desse livro.

Ildefonso Falcones

 

 

Espero com bastante antecipação o próximo livro do autor.  E sei que milhões de outros leitores estarão também alimentando expectativas para o seu próximo livro.  Recomendadíssimo.  Excelente romance histórico.

24/11/2007

Este texto já foi publicado em inglês no Living in the postcard, e na Amazon.





Pernambuco, Mato Grosso, Espanha: um giro pela Idade Média

25 05 2009

fOTO Silnei Laise, Flicker

Artesanato pernambucano, foto: Silnei Laise, Flickr.

 

Em 1986 passei férias em Pernambuco.  Queria mostrar a meu marido, estrangeiro, o Brasil.  Ele já conhecia bem — das viagens anuais que fazíamos ao Rio de Janeiro para visitar a minha família —  alguma coisa do estado do Rio de Janeiro e de São Paulo.  Era hora de apresentá-lo a outras variações da cultura brasileira, com a qual ele havia caído de amores.  Nesta peregrinação acabamos numa quarta-feira, na Feira de Caruaru.  Não sou uma pessoa dada a saudosismos, e quando digo que a feira hoje está diferente do que era então, e já na época muita gente me dizia que “já não era lá essas coisas”, é simplesmente uma afirmação como testemunha.   Mas para nós, naquele ano, a Feira de Caruaru foi uma experiência sem igual.  Como qualquer turista e quase todos os brasileiros radicados fora do Brasil, enchi minhas malas com saudades:  uma banda de pífaros, um jogo de xadrez, um presépio, um grupo de retirantes, e  peças solteiras de cerâmica colorida artesanal.  Para acompanhá-las compramos também dezenas de livretos de cordel — cuja história expliquei cuidadosamente para meu marido — e muitas, muitas mesmo, xilogravuras de J Borges, João Marcelo, Otávio e outros.  

 

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A literatura de cordel conquistou instantaneamente meu cara-metade.  Professor de literatura, ele simplesmente adorou a história toda, dos versos ao dependurar dos livretos nas cordas para secar.  Mas de toda a sua experiência em Caruaru e em Recife, foi sua maneira de sentir o local, o inusitado dos coloridos e dos feirantes, o que mais me surpreendeu, quando o ouvi recontar várias vezes suas aventuras pernambucanas a amigos e colegas de trabalho.  Ele dizia assim: Passei estas férias em Pernambuco. Com esta viagem, hoje posso imaginar como eram as feiras medievais.   Como eram coloridas!  Lá em Caruaru tem de tudo: artistas, livretos, venda de pimentas, de ervas, de produtos de couro, remédios contra veneno de cobra e ungüentos diversos para curar qualquer coisa.  Há saltimbancos, pedintes, equilibristas, contadores de histórias que passam o chapéu.  Cantores de improviso [repentistas] e música por todo lado.  Há muitas representações religiosas e referências constantes ao diabo, ao céu, ao inferno, até ao purgatório!  Enfim, é um mundo quase Felliniano [referência a Federico Fellini o cineasta].  Um mundo de sonhos.”

 

Nunca mais precisei explicar para ele certos hábitos brasileiros, certos problemas: coronéis, capangas, homens de confiança, milícias, posse de terra, analfabetismo, caixeiros viajantes, tropeiros, corrida de jegues e por aí afora.  A imagem da época medieval era ressuscitada e tudo entrava nos eixos.  Para ele foi uma maneira de entender o Brasil, pelo menos enquanto morávamos fora.

 

Adrien Taunay, Vista de Guimarães, 1827, aquarela negra, 33 x 29cm Academia de Ciencias de S Peterburgo, Russia

Vista de Guimarães, 1827

Adrien Taunay

Aquarela monocromática, grisaille.

33 x 29 cm

Academia de Ciências de São Petersburgo

Rússia

 

Lembrei-me deste assunto hoje, porque li à tarde o relato de Hercules Florence, desenhista da expedição chefiada pelo Barão de Langsdorff , sobre a viagem que fez do rio Tietê ao rio Amazonas em 1827.   Trechos de seu texto, com tradução do Visconde de Taunay, foram publicados em As Selvas e o Pantanal: Goiás e Mato Grosso, organizado  por Diaulas Riedel, São Paulo, Cultrix: 1959, na série: Histórias e paisagens do Brasil.  Uma passagem específica me fez parar a leitura e pensar.  Ela relata a visita que a expedição fez a um engenho de açúcar na região da chapada de Guimarães, na, então, província de Mato Grosso.  Quedaram-se no engenho de Domingos José de Azevedo.

 

“Viúvo, tem filhos e filhas, mas com nenhum deles mora.  Vive só com seus escravo em número de trinta, empregados na cultura da cana.  

 

Durante a ceia tornou-se mais comunicativo; contou-nos as canseiras que tivera para fundar o sítio e ganhar algum dinheiro; queixou-se do filho e explicou o modo por que governava sua casa.

 

Depois da comida fomos assistir à ladainha que se reza no alpendre ou sala de entrada, onde para isso se reúnem todos os escravos.  A primeira oração é cantada e começa com estas palavras: Triste coisa é nascer.  Julgo que essa maneira singular de louvar a Deus é composição de nosso anfitrião.  

 

Acabada a reza, mandou por camas sob esse alpendre e deu-nos boas-noites.

 

No dia seguinte disse-nos ao almoço que costumava contar os grãos de café para não ser roubado pelos escravos.

 

Falou-nos na mulher, e ao nos levantarmos da mesa, levou-nos aos seus aposentos, que eram dois quartinhos.  No fundo suspendeu do soalho um alçapão e mostrou-nos uma salinha colocada no primeiro pavimento, escura, úmida e  com uma única janela de grades que dava para o engenho de cana.  “ Aqui em baixo, disse-nos ele, é que eu guardava a mulher, quando tinha que sair de casa.  Ela descia por uma escadinha que eu recolhia, e recebia alimentos pela janela do engenho.

 

Antes de me lembrar de Caruaru, lembrei-me de  A Catedral do Mar, um livro que li há uns dois anos, do escritor espanhol Ildefonso Falcones, lançado no Brasil pela Editora Rocco.  Este é um livro sensacional (depois colocarei aqui algumas notas que fiz sobre sua leitura, em 2007).  Neste livro  seguimos a vida de Arnau Estanyol um homem que nasceu servo e acabou barão na Barcelona do século XIV.  Simultaneamente  acompanhamos a construção da catedral Santa Maria del Mar, na mesma cidade.   Isso mesmo, na idade média.  Nesta narrativa há uma mulher que é presa na propriedade do senhor feudal, e passa a vida num cubículo semelhante ao descrito por Hercules Florence no engenho mato-grossence.  Uma das cenas mais pungentes, que muito me marcou, foi ler como seu filho precisava ficar do lado de fora da casa em que sua mãe se encontrava presa,  chegar próximo à janela com grades,  para  que ela — que mal conseguia alcançá-lo – lhe fizesse um carinho no topo da cabeça, mexendo no seu cabelo de menino.  Em suma, um cafuné era o maior contato a que esta mãe e seu filho tinham o direito.

 

Esta cena voltou vívida à minha memória.  Mas, pensei, isso era na idade média!  E o que Hercules Florence relatou o que viu no Brasil de 150 anos atrás!  E assim, voltei a me lembrar da sensação de ter conhecido a idade média, em pessoa, de conhecê-la por dentro, intimamente, por razões semelhantes as que meu marido sentira  a respeito de sua visita a  Caruaru em 1986.

 

Trajes paulista 1825, aquarela e nanquim, 22 x 18 cm, acad ciencias são petersburgo, russia

Trajes Paulistas, 1825

Adrien Taunay

Aquarela e nanquim

22 x 18 cm

Academia de Ciências de São Petersburgo

Rússia

 

Ao que eu saiba, não temos, ainda, aqui no Brasil, uma visão detalhada e específica do tratamento absurdo que mulheres receberam de seus maridos nos quatro séculos que história que precedem a nossa era.  Mas sabemos que passaram enclausuradas, muitas vezes cobertas da cabeça aos pés, não raro com véus à maneira muçulmana, quase sempre limitadas pelo analfabetismo.  Na nossa literatura contemporânea há alguns autores que parecem ter o cuidado de relatar esta condição:  Ana Miranda e Luiz Antonio de Assis Brasil vêm à mente no momento, mas há outros.  No entanto, é importante que nos lembremos, homens e mulheres, do que já aconteceu, das injustiças cometidas contra mulheres.  Precisamos acabar com qualquer vestígio desses hábitos deploráveis,  para chegarmos com boa consciência ao estado desenvolvido a que aspiramos.  Ainda há muito que fazer para deixarmos de lado de uma vez por todas resquícios da percepção da mulher como propriedade.  

 

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NOTA sobre Domingos José de Azevedo:

A casa do engenho de Domingos José de Azevedo, que parecia tão modesta com apenas 2 quartinhos, era só lá  “no mato”.   Este senhor de engenho mantinha, como a maioria deles, uma outra casa, na capital da província, esta sim, mostrando para o mundo todos os seus bens, todo o seu valor!  Langsdorff em seu próprio relato comenta sobre a visita, descrita acima por Hercules Florence, em que foi recebido pelo senhor de engenho Domingos José de Azevedo, um dos homens mais ricos da região.  [Poder e cotidiano na capitania de Mato Grosso: uma visita aos senhores de engenho no lugar de Guimarães 1751-1818, Maria Amélia Assis Alves Crivelente, Revista demográfica Histórica XXI, II, 2003, segunda época, PP. 129-152].