As voltas que a vida dá

9 11 2012

Publicado no jornal O GLOBO, 9 de novembro de 2012.

Por que o ensino de história é tão  enjoado para a maioria das crianças e dos adolescentes?  Foi para mim.  Minhas melhores matérias no Colégio Pedro II foram línguas, biologia, química e física.  Cheguei a pensar em fazer medicina.  Mas alguma coisa, inconsciente ainda, me levou a abandonar essa ideia, cursar um ano de vestibular para aprender latim e entrar para a faculdade de letras.

Só mais tarde, quando descobri a história da arte e saí do Brasil para me formar exclusivamente em história da arte, vim a gostar de história. Hoje leio livros de história, secos e documentados, com páginas e páginas de notas de rodapé com um prazer indescritível, como se fossem romances, ainda que meu treino como historiadora da arte, como é feito fora do Brasil, não tenha sido em História, mas sim em Arte.

Gostei muito dos gregos e romanos quando tinha uns doze ou treze anos.  Até então grande parte do meu conhecimento de história tinha suas raízes em Monteiro Lobato, do volume História do Mundo para Crianças, que fazia parte da coleção de Monteiro Lobato, que meus pais haviam nos dado, a mim e a meus irmãos. Mas depois dessas duas fases a história me perdeu.  Naquela época punha-se muito esforço em datas e muito pouco em documentação.   Fiquei impressionada, quando já quase entrando para a faculdade, fui apresentada ao texto completo da Carta de Caminha.  Por que não a conhecera antes?

Só muitos anos depois, descobri que documentos primários como a Carta de Caminha seriam uma das minhas grandes paixões. E assim quase perdi a oportunidade de me dedicar ao conhecimento do passado que se tornou parte das minhas profissões e que me deu tanto prazer.  Quantos mais historiadores perdemos no caminho por não sabermos como atrair a atenção de nossos alunos?

Espero que hoje com as possibilidades multimídia isso tenha se resolvido para melhor.  Sim, tenho esperanças, porque o aluno que não é atraído por um texto pode ser por um filme, ou uma música ou uma pintura.  Espero, porque acredito na antiga profecia de Edmund Burke, filósofo e político irlandês:  “Quem não conhece a sua história tem por destino repeti-la“.  Tenho esperanças de que este augúrio não nos aflija!





O papagaio real, conto tradicional do Brasil, coletado por Luiz da Cãmara Cascudo

28 08 2012

Jovem reclinada com papagaio

Valentine Cameron Prinsep (Inglaterra,  1838-1904)

óleo sobre tela

O papagaio real

Duas moças moravam juntas e eram irmãs, uma muito boa e a outra maldizente e preguiçosa. Cada uma tinha seu quarto. A mais velha começou a notar um barulho de asa e depois fala de homem no quarto da irmã. Ficou desconfiada e foi olhar pelo buraco da fechadura.  Viu uma bacia cheia d’água no meio do quarto.  Quando deu meia-noite chegou na janela um papagaio enorme, muito bonito e voou para dentro, metendo-se na bacia, sacudindo-se todo, espalhando água para todos os lados. Cada gota d’água virava ouro e o papagaioo, quando saiu do banho, foi um príncipe mais formoso do mundo. Sentou-se ao lado da irmã e pegaram a conversar como noivos. A irmã ficou roxa de inveja. No outro dia, de tarde, encheu o peitoril da janela de cacos de vidro, assim como a bacia. Nas horas da noite o papagaio chegou e batendo no peitoril cortou-se todo. Voou para a bacia e cortou-se ainda mais. Arrastando-se, o papagaio não virou príncipe, mas chegou até a janela e disse para a moça que estava assombrada com o que acontecera:

— Ai ingrata! Dobraste-me os encantos! Se me quiseres ver só no reino de Acelóis

E, batendo asas, desapareceu. A moça quase se acaba de chorar e de se lastimar. Brigou muito com a irmã e deixou a casa, procurando o noivo pelo mundo. Ia andando, empregando-se como criada nas casas só para perguntar onde ficava o reino de Acelóis. Ninguém sabia ensinar e a moça ia ficando desanimada.

Uma noite, depois de muito viajar, já cansada, ficou com medo dos animais ferozes e subiu em uma árvore, escondendo-se bem nas folhas. Estava amoquecada quando diversos bichos esquisitos chegaram para baixo do pé de pau e pegaram a conversar.

— De onde chegou você?

— Do reino da Lua!

— E você?

— O reino do Sol!

— E você?

— Do reino dos Ventos!

A moça prestou atenção. No primeiro cantar dos galos sumiram-se todos, e ela desceu e continuou a marcha. Andou, andou, até que chegou noutra mata e, para não ser devorada, trepou numa árvore. Lá em cima, quando a noite ficou bem fechada, chegaram umas vozes no pé do pau.

— De onde veio?

— Do reino da Estrela!

— De onde veio?

— Do reino de Acelóis!

— Que novidades me traz?

— O príncipe está doente e ninguém sabe como tratar dele…

A moça botou reparo e na madrugada seguiu no mesmo rumo pois as vozes já tratavam do reino de Acelóis. Andou, andou, andou. Finalmente, quando anoiteceu, estava dentro de uma floresta. Subiu em um pau e ficou quieta, lá em cima. Mais tarde as vozes começaram na falaria:

— De onde vem você?

— Do reino de Acelóis!

— Como vai o príncipe?

— Vai mal, coitado, não tem remédio!

— Ora não tem! Tem! O remédio é ele beber três gotas de sangue do dedo mindinho de uma moça donzela que queria morrer por ele!

Quando amanheceu o dia, a moça tocou-se na estrada. Ia o sol se sumindo quando ela avistou o reinado de Acelóis. Entrou no reinado e pediu agasalho numa casa. Na hora da ceia perguntou o que havia e disseram que o assunto da terra era a doença do príncipe. A moça, no outro dia, mudou os trajes, foi ao palácio e pediu para falar com o rei.

— Rei Senhor! Atrevo-me a dizer que ponho o príncipe bonzinho se Rei Senhor me der, de tinta e papel, a metade do reinado e de tudo quanto lhe pertencer.

O rei deu, de tinta e papel, a metade de tudo que possuía. A moça foi para o quarto, meiou um copo d’água, furou o dedo mindinho, botou três gotas de sangue dentro, misturou e mandou ele beber. Assim que o príncipe engoliu, foi abrindo os olhos, levantando-se da cama e abraçando a moça, numa alegria por demais.

O rei ficou muito satisfeito e quando o príncipe disse que aquela era a sua verdadeira noiva desde o tempo em que ele estava encantado em um papagaio real, o rei não quis dar consentimento porque a moça não era princesa. A moça então falou:

— Rei Senhor! Tenho por tinta e papel a metade de tudo quanto é do rei senhor neste reinado. O príncipe é do rei senhor e eu tenho por minha a metade dele. Se rei senhor não quiser que eu case com ele inteiro, levarei para casa uma banda.

Ao ouvir falar em cortar o príncipe pelo meio, como a um porco, o rei chegou-se às boas e deu o consentimento. Foram três dias de festas e danças e até eu me meti no meio, trazendo uma latinha de doce, mas na ladeira do Encontrão, dei uma queda e ela, páfo! —no chão!…

Em: Contos Tradicionais do Brasil (folclore) de Luís da Câmara Cascudo, Rio de Janeiro, Ediouro:1967





Descoberta cerâmica chinesa datando de 20.000 anos

29 06 2012

Fragmento de cerâmica encontrado na caverna Xianrendong em Jiangxi, sul da China.

Fragmentos de cerâmica foram encontrados em uma caverna no sul China.  E foi confirmado terem 20.000 anos de idade, tornando-os,  como um todo, a mais antiga cerâmica conhecida no mundo, dizem arqueólogos.

Essas descobertas juntam-se aos esforços recentes em que foram datadas pilhas de cerâmicas no leste da Ásia, mostrando idades superiores a 15.000 anos.  Essa descoberta refuta  as teorias convencionais de que a invenção da cerâmica se correlaciona ao período de cerca de 10.000 anos atrás, quando os seres humanos deixaram  a caça para se tornarem agricultores.

Outro fragmento de cerâmica encontrado em Jiangxi, sul da China.

A pesquisa, feita por uma equipe de cientistas chineses e americanos,  também mostra que o surgimento da cerâmica  é mais antigo do que o que se acreditava, demonstrando sua existência entre os homens  já na última idade do gelo.

As descobertas parecem apontar para uma nova direção na investigação das sociedades humanas mais antigas.  Ainda se precisa ter uma compreensão da mudança do desenvolvimento humano passando dos hábitos de caça e pesca para o uso da agricultura.  É uma mudança  sócio-econômica  que aconteceu entre 25.000 a 19.000 anos atrás levando ao aparecimento de sociedades sedentárias agrícolas.

Fragmento de cerâmica encontrado em Jiangxi, sul da China.

Wu Xiaohong, professor de arqueologia e museologia na Universidade de Pequim, enquanto explicava os esforços de datação por radiocarbono,  salientou a importância desse achado, lembrando que até agora só se pensava que a cerâmica fora inventada após a transição para a agricultura.  A partir dessa descoberta  e com a certeza de que a datação está correta e fartamente corroborada, chega-se a um  momento de rever os conceitos do desenvolvimento humano até agora preconizados.

FONTE: The Guardian





Casamentos na pintura: homenagem a Sto Antônio, o santo casamenteiro

13 06 2012

Casamento, 1968

Marysia Portinari (Brasil, 1937)

óleo sobre madeira, 50 x 40 cm

Relativamente falando há poucos casamentos registrados na pintura.  Minha coleção de imagens de telas de casamentos, contém um pouco mais do que 400 telas.  Não  que eu conheça tudo que foi pintado no assunto.  Não sou nenhuma especialista em iconografia do casamento.  Mas a história da arte não entrou na minha vida ontem.  Já vi muita coisa.

O casamento, 1997

Bo Bartlett (EUA, 1955)

óleo sobre tela, 210 x 275 cm

E-

Há alguns casamentos específicos como aqueles que uniam famílias nobres, reis, telas comissionadas a  artistas para captar o momento solene da união de famílias cuja aliança se fazia necessária para manutenção de fronteiras, além de outros interesses econômicos.

O casamento de Alfonso XIII e Victoria Eugênia, na Igreja de São Jerônimo, em Madri, 1906

Juan Comba y Garcia (Espanha, 1852-1924)

óleo sobre tela

Sala Afonso XII, Palácio Real, Madri

Curiosamente, talvez o mais famoso casamento na pintura, A boda dos Arnolfini, 1434 de Jan Van Eyck, [ilustrado abaixo] não retrata um casamento como a tradição do título sugere.  Trata-se de fato do retrato do rico comerciante Giovanni do Nicolao Arnolfini e sua esposa, em casa, na cidade de Bruges, hoje na Bélgica.  [E antes de passar para o próximo casamento, deixe-me clarificar, que não, a Sra. Arnolfini não está grávida.  A exuberante e luxuosa roupa da época é típicamente longa e ela simplesmente segura a saia rodada para poder se movimentar. Vale notar também que a região era conhecida por seus tecidos luxuosos e que a abundância textil no retrato só enriquece a posição social do casal].

A boda dos Arnolfini, 1434

Jan Van Eyck (Bélgica, 1345-1441)

óleo sobre madeira [carvalho], 82 x 60 cm

National Gallery, Londres

Enquanto o mundo dos banqueiros, de outros comerciantes bem sucedidos no século XVII na Holanda quase não é representado em casamentos, é desse período A noiva judia de Rembrandt.

A noiva judia, 1665-1669

Rembrandt van Rijn (Holanda, 1606-1669)

óleo sobre tela, 121 x 166 cm

Museu Rijks, Amsterdam

O casamento mais representado, acredito eu, nas artes antes do aparecimento da classe mercantilista na Europa do Norte, nos séculos XV e XVI, talvez seja sem dúvida As Bodas de Canaã.  Uma das representações mais antigas, na pintura, desse milagre é a de Giotto, reproduzida abaixo.

As bodas de Canaã, 1304-1306

Giotto di Bondone ( c. 1267 – 1337)

afresco

Capela Arena, Pádua

Depois de As Bodas de Canaã, talvez a mais popular representação de casamentos seja O casamento da Virgem.  Sua mais famosa representação — a de Rafael di Sanzio, na Pinacoteca de Brera em Milão — foi certamente inspirada pela tela, menos fluida, menos sofisticada, talvez, do mesmo tema de Pietro Perugino que reproduzo abaixo, pintada aproximadamente um anos antes da de Rafael de Sanzio, O casamento da Virgem 1504, óleo sobre madeira, 170 x 118cm, Pinacoteca de Brera, Milão.

O casamento da Virgem, 1503

Pietro Perugino (Umbria, Itáia, 1448-1523)

óleo sobre madeira, 234 x 185cm

Museu de Belas Artes de Caen, França.

[Click aqui para ver a versão de Rafael]

O Casamento da Virgem, tema representado muitas vezes no século XVI, certamente serviu de base para a representação do casamento de Maria de Médici com Henrique IV.

Casamento por procuração de Maria de Médici com Henrique IV, representado por Ferdinando I, Grão-duque da Toscana, 1600

Jacopo di Chimenti da Empoli (Florença, 1551-1640)

óleo sobre tela, 242 x 242cm

Galeria dos Uffizi, Florença

[há outras versões desse quadro]

É só mesmo depois da revolução industrial, em pleno século XIX, quando a classe mercantil se estabelece mais solidamente nas sociedades européias e industriais, que temos um muito maior número de casamentos em telas.  Mas o interessante é que não são retratos das famílias mais abastadas que vemos na pintura, ao contrário, são os casamentos anônimos.  É o ato do casamento que se eterniza.

Até que a morte separe, 1878

Edmund Blair Leighton (Inglaterra, 1853-1922)

Óleo sobre tela,

Coleção da Revista Forbes

E as preocupações de época começam a aparecer, assim como na literatura do final do século XIX vemos em autores como Victor Hugo e Charles Dickens o retrato das diversas classes sociais, dos costumes da cidade em contraste com os costumes do campo, o tema também é abordado na pintura de gênero.

Um casamento no campo, 1904-1905

Henri Rousseau, Le Douanier

Óleo sobre tela, 163 x 114 cm

Museu  de l’Orangerie, Paris.

O cortejo nupcial, 1878

Theodore Robinson (EUA, 1852 – 1896)

Óleo sobre tela, 57 x 67cm

Terra Foundation for American Art, Daniel J. Terra Collection

É essa vertente, a vertente que mostra o casamento no campo, no interior, na cidadezinha pequena que eventualmente se torna popular no Brasil, sobretudo por causa das festas juninas.  Há aqui no nosso imaginário uma justaposição do casamento de interior ( que pode acontecer a qualquer momento) e do casamento junino.  O exemplo na abertura desse texto, com a tela de Marysia Portinari pode ser  colocado em qualquer data, mas  outras representações do casamento na pintura brasileira invariavelmente associam a representação às festas juninas. Um exemplo abaixo:

Casamento na roça, s/d

Cândido Portinari (Brasil, 1903-1962)

óleo sobre tela, 98 x 79 cm

Os noivos, s/d

Fé Córdula [Francisco de Assis Córdula] (Brasil, 1933)

óleo sobre tela, 30 x 40 cm

Mas a representação das bodas nupciais no século dezenove não se limita às diferenças entre o campo e a cidade, também muito bem representado na literatura, por exemplo por Eça de Queirós.  Os pintores parecem sensíveis também aos sentimentos das noivas que no até as primeiras décadas do século XX  muitas vezes não se casavam com quem queriam mas com quem era conveniente.  Tal é o caso em:

Um casamento desigual, 1862

Vasiliy Pukirev (Rússia, 1832–1890)

Óleo sobre tela

Galeria Tretya kov, Moscou

Além desses temas há também a curiosidade pelo pitoresco, pelo outro, pela diferença, pela maneira como os outros se comportam, que permeou tanto da cultura européia do século XIX.  Esse interesse pelo OUTRO levou a temas pertinentes à representação de cenas do Oriente Médio, do Extremo Oriente, entre outros. É assim que temos representações de casamentos árabes, turcos, judeus, russos, aqueles em que a vestimenta, os hábitos, as cerimônias não se assemelhassem às conhecidas festas da Europa Ocidental.

Um casamento judeu no Marrocos, 1841

Eugênio Delacroix(França, 1798-1863)

óleo sobre tela, 105 × 140 cm

Museu do Louvre, Paris

O casamento judeu, 1903

Josef Israels (Holanda, 1824-1911)

óleo sobre tela, 137 x 148cm

Museu Rijks, Amsterdam

E ainda mais uma tendência no século XIX, pertinente também à literatura —  podemos citar Alexandre Herculano, Sir Walter Scott, Charles Reade, Mark Twain entre outros  — é a volta ao passado, à época medieval, aos costumes da renascentistas.  Temas tais como os casamentos na Idade Média, na Renascença, tornaram-se  mais frequentes, dentro desse nicho.

Depois da cerimônia,1882

Adrien Moreau (França, 1843-1906)

óleo sobre tela,  61 x 81cm

Christie’s Leilão de 2007, Nova York

O chamado da guerra, 1888

Edmund Blair Leighton (Inglaterra, 1853-1922)

óleo sobre tela, 91 x 61 cm

Coleção Particular

No século XX, entre muitos outros, Mark Chagall, dedicou-se a muitas representações de casamentos, muitos deles com noivos flutuando no céu.

O casamento, 1910

Marc Chagall (Rússia/França, 1887-1985)

óleo sobre tela

E as representações de Chagall  podem ter influenciado Cícero Dias, como vemos na tela abaixo.

Recife lírica, década de 1930

Cícero Dias ( Brasil, 1907-2003)

óleo sobre tela, 140 x 260 cm

Coleção Sylvia Dias, Paris

O século XX tem um outro comportamento na representação de casamentos.  Levarei esse tema adiante amanhã e ainda talvez nos dias que se seguem. A observação por tema da história cultural e da história da arte pode trazer esclarecimentos importantes para o entendimento dos valores de época.  Até a próxima!





A flor e a nuvem, fábula de Pierre Lachambaudie

11 06 2012

Flor seca, ilustração de Justin Francavilla.

A flor e a chuva

Lachambaudie

Reina o estio. No vale

Languida flor emurchece,

E chama, p’ra socorrê-la,

Uma nuvem, que aparece.

Tu que do Aquilão[*] nas asas

Vais pelo espaço a correr,

Vê que de calor me abraso,

Vem, não me deixes morrer.

Com essas águas que levas,

A minha dor refrigera.

— “Tenho missão mais sagrada,

Agora não posso — espera“.

Disse e foi-se!.. De abrasada

Cai e espira a flor tão bela:

Volta a nuvem e despeja

Quanta água tinha sobre ela.

Era tarde!

[*] Aquilão é o vento do norte.

Em: O Espelho, revista semanal de literatura, modas, indústria e artes, Rio de Janeiro, 1859.

NOTAS:

1 – Não sei de quem é o texto em português.  A publicação de 1859, não traz autoria.

2 – Lachambaudie (1807-1872) foi um escritor, poeta, cancioneiro francês.   Trabalhou como contador a maior parte de sua vida.  Foi um escritor de fábulas, na tradição de seu conterrâneo La Fontaine, em verso. Dentre outras publicações de poesia, distingui-se sobretudo seu livro, Fábulas de Pierre Lachambeaudie, de 1844.

Frequentemente quando posto uma fábula sem a famosa “moral” no final, alguém inevitavelmente me pergunta pela moral.  Não é um obrigatoriedade de todas as fábulas apresentarem uma moral, pré-estabelecida pelo autor.  Muitas vezes, talvez até mais do que se imagina, a moral é para ser entendida pelo leitor.  Aqui nesse caso, cabe o dito popular:

Não deixe para amanhã o que pode fazer hoje.





Os três companheiros, conto folclórico brasileiro

8 06 2012

Três homens num bote, ilustração Paul Rainer.

Os três companheiros

Conto folclórico, texto de Luís da Câmara Cascudo

Um bombeiro, um soldador  e um ladrão eram muito amigos e resolveram viajar por esse mundo para melhorar a vida. Tinham eles um cavalo encantado que respondia todas as perguntas. Chegaram a um reinado onde toda gente estava triste porque a princesa fora furtada por uma serpente que morava no fundo do mar.  Os três companheiros acharam que podiam fazer essa façanha e consultaram o cavalo.  Este mandou o soldador fazer um bote de folhas de Flandres. Meteram-se nele e fizeram-se de vela.

Depois de muito navegar deram num ponto que era o palácio da serpente. Quem ia descer? O bombeiro não quis nem o soldador. O ladrão agarrou-se na corda que os outros seguravam e lá se foi para baixo. Pisando chão, viu um palácio enorme guardado por uma serpente que estava de boca aberta. O ladrão subiu depressa, morrendo de medo. Voltaram para casa e foram perguntar ao cavalo o que era possível fazer. O cavalo ensinou que a serpente dormia de boca aberta e quando estava acordada ficava com a boca fechada. Debaixo da cauda tinha a chave do palácio. Quem tirasse a chave, abrisse a porta, encontrava logo a princesa.  Os três amigos tomaram o bote de folha de Flandres e lá se foram para o mar.

Chegando no ponto os dois não queriam descer. O ladrão desceu e, como estava habituado, furtou a chave tão de mansinho que a serpente não acordou. Abriu a porta, entrou, foi ao salão, encontrou a princesa, disse que vinha buscá-la e saíram os dois até a corda. Agarraram-se e os dois puxaram para cima. Largaram vela e o bote navegou para terra.

Quando estavam no meio dos mares a serpente apareceu em cima d’água, que vinha feroz. Que se faz? Era a morte certa. – Deixa vir, disse o bombeiro. Quando a serpente chegou mais para perto, o bombeiro tirou uma bomba e jogou em cima da serpente. A bomba estourou e a serpente virou bagaço. Na luta, o bote fura-se e a água estava entrando de mais a mais, ameaçando ir tudo para o fundo do mar.

Que se faz? Morte certa! Deixe comigo – disse o soldador. Tirou seus ferros e soldou todos os buracos e o bote navegou a salvamento até a praia.

Chegaram no reinado recebidos com muitas festas pelo rei e pelo povo. O rei deu muito dinheiro aos três mas o ladrão, o bombeiro e o soldador queriam casar com a princesa.

— Se não fosse eu a princesa estava com a serpente! Dizia o ladrão.

— Se não fosse eu a serpente devorava todos, dizia o bombeiro.

— Se não fosse eu iam todos para o fundo do mar! Disse o soldador.

Discute, discute, briga e briga, finalmente a princesa escolheu o ladrão, que era seu salvador e este pagou muito dinheiro aos dois companheiros. O ladrão casou e mudou de vida e todos viveram satisfeitos.

Em: Contos Tradicionais do Brasil (folclore) de Luís da Câmara Cascudo, Rio de Janeiro, Ediouro:1967





Um tesouro de joias encontrado em Tel Megiddo, Israel

23 05 2012

Joia encontrada em Tel Megiddo, Israel, em um jarro de cerâmica, enterrado há 3.000 anos.

Arqueólogos da Universidade de Tel Aviv apresentaram ao público, no início dessa semana, um tesouro encontrado em um jarro envolto em tecidos e escondido em uma casa no norte de Israel  há mais de 3.000 anos atrás.  O jarro, escavado de uma casa em Tel Megiddo, no Vale de Jezreel no norte de Israel, é um lugar incomum para encontrar joias, de acordo com os arqueólogos da Universidade de Tel Aviv. Entre as peças está um belo par de brincos decorados com cabras selvagens.

Primeiro foi encontrado o jarro de cerâmica, em 2010.  Datando de aproximadamente  1100 a.C.  O jarro havia provavelmente pertencido a uma mulher cananéia, que talvez morasse na casa. Canaã era uma região histórica formada pelo que hoje é  Israel, Palestina, Líbano e partes da Síria e da Jordânia. Tel Megiddo era uma importante cidade-estado nesta região até o século X a.C.

Vasilha de cerâmica em que as joias estavam escondidas, século X a.C. Foto cortesia Megiddo Archological Team.

Segundo o Prof. Israel Finkelstein, do Departamento de arqueologia e culturas do oriente médio da Universidade de Tel Aviv, o jarro foi encontrado em 2010, mas permaneceu por limpar, enquanto aguardavam uma análise molecular do seu conteúdo. Quando  a equipe foi finalmente capaz de lavar a sujeira, encontrou peças de jóias, incluindo um anel, brincos e pérolas, escondidas no bojo do vaso.

Os pesquisadores acreditam que a coleção, que foi descoberta nas ruínas de uma casa particular na zona norte de Megiddo, pertence a um período de tempo chamado “Idade do Ferro  I,” e que pelo menos algumas das peças podem ter sua origem no Egito. Alguns dos materiais e desenhos apresentados nas joias, incluindo contas feitas de cornalina, pedra semi preciosa, são consistentes com desenhos egípcios da mesma época.

Tel Megiddo, Foto: Rafael Ben-Ari.

Quando os pesquisadores removeram o jarro de cerâmica a partir do local da escavação, eles não tinham ideia de que havia alguma coisa dentro. As joias foram bem preservadas e haviam sido envoltas em tecidos, mas as circunstâncias que as rodeiam são bastante misteriosas.  É quase certo de que o jarro não fosse o lugar de guardar as joias normalmente. “É claro que as pessoas tentaram esconder a coleção, e por algum motivo eles não foram capazes de voltar para buscá-lo.” — concluiu  o Prof Ussishkin que notando que os proprietários poderiam ter morrido ou sido obrigados a fugir.  Ele acredita que esta tenha sido uma coleção de joias de uma mulher de Canaã, que morava nessa casa.

Contas de ouro e cornelia encontradas junto às joias. Foto cortesia Megiddo Archological Team.

A variedade das joias também é fora do comum. Embora a coleção inclua um número brincos comuns, em forma de lua crescente, de origem de Canaã, os arqueólogos encontraram também  conjunto de itens de ouro e um número de contas feitas de cornalina, pedras semi preciosas cujo uso era frequente na fabricação de joias egípcias naquela época. Isso aponta para uma forte conexão egípcia, seja em influência ou origem. Essa conexão não seria surpreendente, segundo o professor Cline, que afirmou que as interações entre o Egito e Tel Megiddo são bem conhecidas durante a Idade do Bronze e a Idade do Ferro.

Quatro pares de brincos de ouro em forma de crescente.

O item mais notável, de acordo com os pesquisadores, é um brinco de ouro com padrão de peças moldadas na forma de cabras selvagens. “Para itens exclusivos, como esse, trabalhamos para encontrar paralelos para ajudar a colocar os itens em suas corretas configurações culturais e cronológica, mas, neste caso, ainda não encontramos nada“, dizem os pesquisadores.

Anel com um desenho gravado de peixe. Foto cortesia Megiddo Archological Team

Este achado adiciona outro aspecto fascinante a este sítio arqueológico: Tel Megiddo era uma  importante cidade-estado de Canaã,  até o início do século X a.C.  e um centro muito importante do Reino do Norte de Israel nos séculos IX e VIII a.C.  Esse é um sítio arqueológico com multicamadas, de vários períodos de tempo claramente diferenciados, e neste período, existem de 10 a 11 estratos bem datados através da análise de radiocarbono. “Essa sequência de datas de radiocarbono não existe em nenhum outro lugar na região“, diz o professor Finkelstein.

Outro ângulo do espetacular brinco de cabras encontrado no vasilhame.

A camada em que a joia foi encontrada já foi datada do século XI a.C., logo após o fim do domínio egípcio no século XII a.C. Ou a joia foi deixada para trás na retirada egípcia ou as pessoas que possuíam as joias foram influenciadas pela cultura egípcia. Os pesquisadores esperam que a análise dos tecidos em que as joias foram embrulhadas e das joias propriamente ditas, possam dizer-lhes mais sobre as origens da coleção. Se o ouro é puro em vez de uma mistura de ouro e prata, por exemplo, será mais provável que essas joias tenham vindo do Egito, uma região que era pobre em recursos de prata, mas rico em ouro.

FONTE: SCIENCE DAILY





Novas descobertas em Israel confirmam o templo e o palácio do Rei Davi?

15 05 2012

Iluminura, letra D, com Rei Davi.  Época Medieval, sem indicação mais precisa.

Arqueólogos israelenses encontraram várias peças de culto religioso em um sítio arqueológico perto da cidade de Beit Shemesh, a 35 Km de Jerusalém.  Essas peças poderão ser a evidência de um culto em Judá na época do Rei David, e trazem com elas implicações sobre o Templo de Salomão, permitindo interpretar a descrição que a Bíblia faz dos reinados de Davi e Salomão.

Durante recentes escavações arqueológicas em Khirbet Qeiyafa, uma cidade fortificada de Judá, adjacente ao vale de Elá, o Professor Yosef Garfinkel, da Universidade Hebraica de Jerusalem e seus colegas descobriram rico material arqueológico: conjuntos de pedra, cerâmica e ferramentas de metal, e arte, além de objetos de culto.  Incluidas também estão três grandes salas que serviam de santuários, que em sua arquitetura parecem corresponder à descrição bíblica de um local para cerimônias da época do rei Davi.  Entre esses objetos está a descoberta, pelo professor Garfinkel e por Saar Ganor, da Direção Israelense de Antiguidades, de caixas de pedra bem talhadas, de 20 a 35 centímetros de altura, usadas para conservar objetos sagrados.

O desenho meticuloso corresponde a descrições do palácio e do templo de Salomão, feitas na Bíblia“, diz Garfinkel, que está há cinco anos escavando em Khirbet Qeiyafa, também conhecida como Fortaleza Elá.   Este é o local de uma antiga cidade, as ruínas da fortaleza foram descobertas em 2007, perto da cidade de Beit Shemesh, a 20 quilômetros de Jerusalém . A fortaleza de Elá, tem coisa de  2,3 hectares  rodeados por um muro de pedra e fica numa posição  estratégica entre as cidades filisteias e Jerusalém, ou seja, na antiguidade era um local  importante no Reino de Judá, ao longo da estrada principal de Filístia.

Vista aérea do sítio arqueológico da cidade de Khirbet Qeiyafa,  com sua muralha.

Esses modelos — as miniaturas — de 3.000 anos de antigos santuários estavam entre os artefatos encontrados que parecem  dar um novo suporte para a veracidade histórica da Bíblia.  Não são mais do que caixas com uma espécie de pórtico e têm a aparência descrita no primeiro livro de Reis, para a arquitetura do Templo.  Elas foram achadas em casas particulares da cidade e mantêm as mesmas proporções  das casas de Jerusalem em que a altura é exatamente o dobro da largura.  Essa proporção remete às cidades bíblicas e possivelmente a Shearaim e a Jerusalém  da época de Davi e Salomão.  Para os arqueólogos esse seria o teste de conexão entre a capital e o que se acredita que foi a cidade bíblica de Saaraim, no local há 3.000 anos e habitada por israelitas nos tempos de Davi e Salomão, mencionada nos livros de 1 Samuel e 1 Crônicas.

Localizada no vale de Elá, Khirbet Qeiyafa era uma cidade de fronteira do Reino de Judá, frente à frente com a cidade filistéia de Gath. A cidade, que foi datada por 10 medições radiométricas (14C) feitas pela Universidade de Oxford em caroços de azeitona queimados, existiu por um curto período de tempo entre ca. 1020-980 a.C, antes de ser violentamente destruída.  Seu desenho urbano, assinala Garfinkel, não corresponde ao de nenhuma cidade cananeia ou filisteia, tampouco de cidades no reino de Israel. Mas se trata de um “planejamento típico” das cidades da Judeia. “É o exemplo mais recente que temos de uma cidade desse reino, e nos indica que este tipo de planejamento (urbano) já estava em uso nos tempos do rei Davi“.

A tradição bíblica apresenta o povo de Israel como tendo um culto religioso diferente de todos os outros no antigo Oriente Médio por ser monoteísta e sem ícones por causa da proibição da representação de figuras humanas ou de animais. No entanto, não está claro quando essas práticas foram formuladas, se de fato durante o tempo da monarquia (do século X ao século VI a.C.), ou só mais tarde, nas épocas persa ou helenista.  A ausência de imagens de seres humanos ou animais nos três santuários fornece evidências de que os habitantes do lugar praticavam um culto diferente dos cananeus ou dos filisteus, observando a proibição de imagens esculpidas.

Professor Garfinkel mostrando uma das miniaturas.(Crédito: Universidade Hebraica de Jerusalém).

Os achados em Khirbet Qeiyafa indicam também que um estilo arquitetônico elaborado havia se desenvolvido, bastante cedo, tal qual no tempo do rei David.  Essa construção evidenciada pelas miniaturas é típica de construções reais, indicando que a formação do Estado com o estabelecimento de uma elite social e regras de urbanismo na região existiam desde os dias dos primeiros reis de Israel.  Estas descobertas reforçam a historicidade da tradição bíblica e a descrição arquitetônica encontrada na Bíblia do Palácio e do Templo de Salomão.

O Antigo Testamento relata em detalhe os reinados de Davi e Salomão, durante o século X a.C., mas até hoje há pouca evidência desse período.  Não existem provas que sejam aceitáveis por todos os estudiosos, que confirmem sua existência. Em Jerusalém há abundância de vestígios do período do Segundo Templo (século VI a.C.), mas as referências ao primeiro Templo ainda são objeto de debate acadêmico e político.

Uma das mais recentes evidências da época é a muralha de 70 metros, com uma torre alta para vigia que foi desenterrada perto das muralhas da antiga cidade de Jerusalém, há dois anos.  Ela foi identificada como um possível trabalho do rei Salomão. E. estruturas fortificadas do mesmo tamanho foram encontrados em Khirbet Qeiyafa, cuja construção data entre os séculos X e XI a.C.

Miniatura do templo em terracora. (Crédito: Universidade Hebraica de Jerusalém).

Entre as descobertas de agora estão peças de cerâmica, ferramentas feitas de pedra e metal, obras de arte, e três salas que serviriam de santuários. “Os itens encontrados”, diz Garfinkel, “revelam que as pessoas que viviam ali eram monoteístas e não tinham um ícone. Ou seja, não adoravam imagens de escultura de seres humanos ou animais. Os israelitas da Bíblia eram assim, muito diferentes dos povos vizinhosAo longo dos anos, milhares de ossos de animais foram encontrados, incluindo ovelhas, cabras e gado, mas nunca de porcos. Agora descobrimos três salas de culto, com vários apetrechos, mas nenhuma imagem humana ou animal foi encontrada”, disse Garfinkel.

Os três santuários são parte de uma  complexa construção maior. Nesse aspecto, os habitantes desse local eram diferentes dos cananeus ou filisteus, que praticavam sua religião em templos, edifícios separados, dedicados apenas a rituais. A tradição bíblica descreve este fenômeno no tempo do rei Davi: “Ele trouxe a arca de Deus de uma casa particular em Kyriat Yearim e colocá-a em Jerusalém, em uma casa particular” (2 Samuel 6).  Os objetos cerimoniais incluem cinco pedras de pé (Massebot), dois altares de basalto, dois vasos de cerâmica, e  dois santuários portáteis.

Os santuários em miniatura, dois santuários portáteis (ou “modelos Santuário”) que foram encontrados são de diferentes materiais: um feito de cerâmica (cerca de 20 cm de altura) e outro de pedra (35 cm de altura). São caixas na forma de templos, e podem ser fechadas por portas.

O santuário de argila é decorado com uma fachada elaborada, incluindo dois leões, dois pilares de guarda, uma porta principal, vigas no telhado, tecido dobrado e três pássaros que estão no telhado. Dois destes elementos são descritos no Templo de Salomão: os dois pilares (Yachin e Boaz) e têxteis (Parochet).

Miniatura do templo em pedra. (Crédito: Universidade Hebraica de Jerusalém).

O santuário de pedra é feito de calcário fino e pintado de vermelho. Sua fachada é decorada por dois elementos. O primeiro são sete grupos de vigas no telhado, três pranchas em cada um. Este elemento arquitetônico, o “triglyph”, é conhecido em templos clássicos gregos, como o Parthenon, em Atenas. Sua presença em Khirbet Qeiyafa seria o mais antigo exemplo conhecido dessa escultura em pedra, certamente um marco na arquitetura mundial.

O segundo elemento decorativo é a porta encastrada. Este tipo de portas ou janelas é conhecido na arquitetura de templos, palácios e túmulos reais no antigo Oriente Médio. Este era um símbolo típico da divindade e da realeza da época.

O modelo de pedra nos ajuda a entender termos técnicos obscuros na descrição do palácio de Salomão, conforme descrito em Reis I- 7, 1-6. O texto usa a expressão “Slaot”, termo que foi erroneamente entendido como pilar e agora pode ser entendido como triglifo. O texto também usa o termo “Sequfim”, que foi geralmente entendido como nove janelas do palácio, e pode agora ser entendido como “porta tripla de entrada rebaixada.”

Triglifos parecidos com esses e portas embutidas podem ser encontradas na descrição do templo de Salomão (1 Reis 6, versículos 5, 31-33, e na descrição de um templo pelo profeta Ezequiel (41:6). Estes textos bíblicos estão repletos de termos técnicosobscuros que perderam seu significado original ao longo dos milênios. Agora, com a ajuda do modelo de pedra descoberto em Khirbet Qeiyafa, o texto bíblico pode ser esclarecido. Pela primeira vez na história, temos objetos reais do tempo de David, que podem estar relacionados com monumentos descritos na Bíblia.

A questão permanece: estas duas caixas, particularmente, a caixa de pedra, poderia ser um protótipo do Templo Solomonico que não tenha sido construído naquele tempo?  Só porque estes “santuários Qeiyafa” datam do período davídico, não significa que eles são a prova do monoteísmo israelita. A Bíblia menciona vários lugares de cultos e este em Qeiyafa parece estar na mesma categoria. Sem dúvida, mais esclarecimentos virão sobre o assunto nos próximos dias.

Hershel Shanks, editor da revista Biblical Archaeology Review, disse que as descobertas são “extremamente interessantes” e que nem 20% do local foi escavado ainda, então o mais é provável que possa haver alguma surpresa pela frente”.

FONTES: Ritmeyer, Terra, Tradução e adaptação minhas.





O descobrimento do Brasil pelos portugueses a 22 de abril de 1500

21 04 2012

Pedro Álvares Cabral

Às vezes tenho a impressão de que há um sentimento de “traição”, de “me ensinaram errado” quando falamos sobre o descobrimento do Brasil pela coroa portuguesa, como se tivéssemos sido logrados, enganados por séculos e séculos, sobre a nossa história.  Esquecemos que os próprios portugueses não sabiam detalhes dessa grande aventura marítima que foi a viagem de Cabral e que na época poderia muito bem não interessar ao governo luso a divulgação de todo o conhecimento que tinha sobre mares e terras estrangeiras.  Conheço alguns que por causa disso não querem celebrar o 22 de abril.  Não me associo aos que assim pensam.  Se fomos descobertos por acaso ou se a visita de Cabral foi intencional a data continua a mesma; se a costa brasileira foi visitada por outros navegantes, que não deixaram muitas pegadas, a importância da data continua  a mesma.  Para todos os efeitos foi só a partir de 22 de abril de 1500 que essas terras foram incorporadas ao império lusitano, foram exploradas regularmente e aos poucos a cultura portuguesa por aqui se estabeleceu dominante, mesmo sob constantes ameaças francesas, espanholas e holandesas.   O descobrimento do Brasil é uma data importante para nós e para os portugueses.

Ressalto abaixo dois parágrafos do excelente historiador Eduardo Bueno que clarifica e simplifica essa questão.

Por outro lado, o certo é que a expedição de Cabral foi, de fato, precedida pela de dois navegadores espanhóis. Embora nos anos 50 essa discussão tenha se revestido de um rancoroso “nacionalismo retroativo” – contrapondo historiadores lusos e espanhóis –, o fato é que tanto Vicente Yañez Pinzón quanto Diego de Lepe navegaram por costas brasileiras entre janeiro e março de 1500.  Pinzón, capitão da Niña e companheiro de Colombo na descoberta da América em 1492, chegou à Ponta de Mucuripe (no Ceará) em fevereiro de 1500 e costeou o litoral até a foz do Amazonas (do qual foi o descobridor).  Lá, encontrou-se com a expedição de Diego de Lepe, que avançaria até o Oiapoque, onde chegou em março.

Ainda assim, apesar de o tema ser ainda hoje tão polêmico, o próprio Capistrano de Abreu (que admitia a precedência de Pinzón e Lepe sobre Cabral) sepultou a questão já em 1900 ao afirmar-se que as consequências práticas dessas viagens espanholas foram irrelevantes e que o “descobrimento sociológico” do Brasil evidentemente coube aos portugueses. A tese de Capistrano também pode ser usada para encerrar a discussão sobre os supostos precursores lusos de Cabral: se alguma expedição portuguesa de fato chegou ao Brasil antes da de Cabral, seu significado histórico foi praticamente nulo.  O país só seria integrado ao império ultramarino lusitano após o desembarque de Cabral – e, ainda assim, muito lentamente, como se sabe.  De todo modo, o descobrimento do Brasil continua sendo um capítulo aberto na história da expansão ultramarina portuguesa – e isso só aumenta o seu fascínio.

Em: A viagem do descobrimento — a verdadeira história da expedição de Cabral, Eduardo Bueno, Rio de Janeiro, Objetiva: 1998.





O descobrimento do Brasil, 22 de abril de 1500

20 04 2012

Faiança comemorativa dos 400 anos do descobrimento do Brasil, fábrica de Alcântara, Portugal.

[http://memoriadosdescobrimentosnaceramica.blogspot.com.br]

“Em junho de 1499, logo que Vasco da Gama chegou a Lisboa com a notícia longamente aguardada de que a Índia podia ser alcançada por mar, o rei de Portugal, D. Manoel, tratou de organizar o envio de uma nova expedição para o fabuloso reino das especiarias.  Em sua jornada de ida, essa expedição poderia explorar também a margem ocidental do Atlântico, cuja posse Portugal assegurara desde o Tratado de Tordesilhas, firmado em 1494.

Assim, em 9 de março de 1500, oito meses depois do retorno de Gama a Portugal – e enquanto Vicente Pinzón e Diego de Lepe já navegavam pelos limites setentrionais da América do Sul –, uma frota imponente, formada por dez naus e três caravelas, zarpou de Lisboa, com 1500 homens a bordo.  Sob o comando de Pedro Álvares Cabral, essa armada fora incumbida da missão de instalar uma missão em Calicute, na costa ocidental da Índia.  Lá deveria obter – pela diplomacia ou pelas armas – o monopólio do comércio de pimenta e canela, que, até então,  se mantinha nas mãos de mercadores árabes.  Esse era o objetivo primordial da missão comandada por Cabral.

Mas, antes de partir, Cabral manteve vários encontros com Vasco da Gama. O descobridor da Índia redigiu instruções náuticas detalhadas para o futuro descobridor do Brasil. Esse documento – que Cabral levou consigo a bordo – sobreviveu aos séculos e está preservado na Torre do Tombo, em Lisboa. Seguindo tais indicações a frota de Cabral zarpou de Lisboa em direção à Índia.

Depois de 44 dias de viagem, no entardecer de 22 de abril de 1500 – quando a frota, por motivo nunca compreendido plenamente, se encontrava muito mais a oeste do que o necessário para contornar o Cabo da Boa Esperança (a última ponta da África) –, Cabral e seus homens vislumbraram um morro alto e redondo, que batizaram de Monte Pascoal. Esse morro ficava no sul da Bahia. Foi a descoberta oficial do Brasil pelos portugueses.”

Em: Náufragos, Traficantes e Degredados: as primeiras expedições ao Brasil, 1500- 1531,  de Eduardo Bueno, Rio de Janeiro, Objetiva: 1998.