“Cada época possui suas enfermidades fundamentais. Desse modo, temos uma época bacterológica, que chegou ao seu fim com a descoberta dos antibióticos. Apesar do medo imenso que temos hoje de uma pandemia gripal, não vivemos numa época viral. Graças à técnica imunológica, já deixamos para trás essa época. Visto a partir da perspectiva patológica, o começo do século XXI não é definido como bacteriológico nem viral, mas neuronal. Doenças neuronais como a depressão, transtorno de déficit de atenção com síndrome de hiperatividade (TDAH), transtorno de personalidade limítrofe (TPL) ou a síndrome de burnout (SB) determinam a paisagem patológica do começo do século XXI. Não são infecções, mas enfartos, provocados não pela negatividade de algo imunologicamente diverso, mas pelo excesso de positividade. Assim, eles escapam a qualquer técnica imunológica, que tem a função de afastar a negatividade daquilo que é estranho.”
Parágrafo introdutório.
Sociedade do cansaço, Byung-Chul Han, tradução Enio Paulo Giachini, Petrópolis, Vozes: 2024.
“Olhe para o Brasil em termos de religião. O que é o Brasil? Aqui, como dizia Guimarães Rosa, quanto mais religião, melhor; você tem um amigo judeu, você pede para o rabino dele lhe abençoar, você tem um amigo do candomblé, você pede para a mãe de santo dele dar uma bênção, ao amigo muçulmano, você pede uma intervenção do xeique, padre, pastor, o que vier está valendo. Essa é bem a mentalidade brasileira religiosa. Antropólogos dizem que isso é possivelmente herdado dos índios brasileiros, que continuavam a praticar as suas crenças, mas, quando o padre vinha, aprendiam o pai-nosso, e quando o padre ia embora, retornavam às suas crenças. Então a gente ficou meio vadio com religião. Você assimila a religião que melhor pegar naquele momento. É claro que, quando se introduz a cunha do mercado, como a gente vive hoje, tudo vira produto.”
Em: Diálogos sobre a natureza humana: Perfectibilidade e Imperfectibilidade, Luiz Felipe Pondé, Versos Editora: 2023
Ilustração de como eram as casas na Grécia Antiga.
“Na Grécia Antiga, você não era dono da sua casa, o dono era a linhagem, os mortos enterrados nela.
…
Você não podia vender a sua propriedade, porque na propriedade estavam enterrados os ancestrais, então você estava ali por enquanto, vivo, mas também ia morrer e ser enterrado ali, portanto o filho tinha que cuidar do pai e, em vista disso, ele não podia, por exemplo, decidir vender a casa. A noção de propriedade era vinculada a uma crença religiosa.“
Em: Diálogos sobre a natureza humana: Perfectibilidade e Imperfectibilidade, Luiz Felipe Pondé, nVersos Editora: 2023
Nunca nos detemos no momento presente. Antecipamos o futuro que nos tarda, como para lhe apressar o curso; ou evocamos o passado que nos foge, como para o deter: tão imprudentes, que andamos errando nos tempos que não são nossos, e não pensamos no único que nos pertence; e tão vãos, que pensamos naqueles que não são nada, e deixamos escapar sem reflexão o único que subsiste. É que o presente, em geral, fere-nos. Escondemo-lo à nossa vista porque nos aflige; e se nos é agradável, lamentamos vê-lo fugir. Tentamos segurá-lo pelo futuro, e pensamos em dispor as coisas que não estão na nossa mão, para um tempo a que não temos garantia alguma de chegar. Examine cada um os seus pensamentos, e há-de encontrá-los todos ocupados no passado ou no futuro. Quase não pensamos no presente; e, se pensamos, é apenas para à luz dele dispormos o futuro. Nunca o presente é o nosso fim: o passado e o presente são meios, o fim é o futuro. Assim, nunca vivemos, mas esperamos viver; e, preparando-nos sempre para ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos.
“A vida é demasiado curta para nos permitir interessar-nos por todas as coisas, mas é bom que nos interessemos por tantas quantas forem necessárias para preencher os nossos dias.”
Os pergaminhos estão tão queimados que é impossível abri-los sem despedaçá-los.
Textos em papiro da biblioteca da família de Júlio Cesar, completamente queimados como este da fotografia acima podem agora começar a ter seu conteúdo revelado graças ao trabalho de três estudantes trabalhando com inteligência artificial. Os papiros de aproximadamente 2000 mil anos se encontram ilegíveis desde a erupção do Vesúvio no ano 79 DC que os atingiu na cidade de Herculano. Esta é uma verdadeira descoberta, um incontestável passo no estudo da história antiga e da cultura ocidental.
O manuscrito decifrado, provavelmente, pertenceu à biblioteca do sogro de Júlio César. Trata-se de um texto sobre música, cuja maneira de escrita parece típica do filósofo Filodemo de Gádara (110 AC-35 AC) que seguiu os ensinamentos de Epicuro (341AC – 270 AC), ambos gregos. Filodemo pode ter sido o filósofo em residência em Herculano. Especialistas dizem que esta descoberta é uma pequena revolução no estudo da filosofia grega.
Os papiros foram descobertos por um fazendeiro em uma das casas de Herculano.
Dr. Brent Seales, da Universidade de Kentucky, nos EUA reconheceu o trabalho de um time de três estudantes de diferentes locais, todos na área de inteligência artificial e não, como se poderia supor, na área da filosofia, que desenvolveram a técnica de ler os papiros sem os abrir. Eles foram recipientes do prêmio de um milhão de dólares, que Dr. Seales havia conseguido levantar junto a investidores para descobrir o que estes documentos do passado guardavam. A este projeto foi dado o nome de Desafio do Vesúvio. Os estudantes foram: Youssef Nader, estudante de doutoramento em Berlim, Luke Farritor, estudante e estagiário na SpaceX e Julian Schillinger, estudante de robótica na Suíça. Juntos eles construíram um robô que é capaz de reconhecer letras através de matrizes.
Até o momento eles decifraram dois mil caracteres gregos escritos em um dos quatro documentos escaneados pelo time do Dr. Seales, o que é só 5% dos textos. O que foi traduzido refere-se a fontes de prazer na vida, tais como música e alimentos.
Em uma passagem Filodemo se pergunta se coisas em pequenas quantidades dão maior prazer. O time do Desafio do Vesúvio espera que a tecnologia desenvolvida por eles possa ler pelo menos 90% de todos os papiros escaneados neste ano e possivelmente todos os 800 rolos encontrados nas mesmas circunstâncias.
NB: este artigo é baseado em publicação da BBC News, de fevereiro de 2024: AI unlocks ancient text owned by Caesar’s family;
Um visitante inesperado, ilustração de Roy Keister.
“Encantei-me com o Universo e construí uma carreira como físico teórico, interessado por questões que, até recentemente, não eram consideradas científicas. Como o Universo surgiu? De onde veio a matéria que compõe as estrelas, os planetas e as pessoas? Como que átomos inanimados viraram criaturas vivas, algumas delas capazes de refletir sobre sua própria existência? E se a vida existe aqui, será que existe em outros lugares? Será que a imensidão cósmica esconde outras criaturas inteligentes?
Comecei a me interessar por essas questões quando era ainda um adolescente, seduzido pelo poder da mente e por sua capacidade de ponderar assuntos que, aparentemente, eram imponderáveis. Mesmo que, em muitos casos, as respostas a essas perguntas sejam incompletas, o que importa é participar do processo da descoberta, da busca pelo conhecimento. É nossa curiosidade que nos ergue acima da banalidade do igual, da rotina de todos os dias; é nossa curiosidade que nos define enquanto criaturas pensantes.”
Em: A simples beleza do inesperado: um filósofo natural em busca de trutas e do sentido da vida, Marcelo Gleiser, Rio de Janeiro, Record: 2017, p. 13.
Neste “Homo Deus”: uma breve história do amanhã, Yuval Noah Harari, autor do estrondoso best-seller Sapiens: uma breve história da humanidade, volta a combinar ciência, história e filosofia, desta vez para entender quem somos e descobrir para onde vamos. Sempre com um olhar no passado e nas nossas origens, Harari investiga o futuro da humanidade em busca de uma resposta tão difícil quanto essencial: depois de séculos de guerras, fome e pobreza, qual será nosso destino na Terra? A partir de uma visão absolutamente original de nossa história, ele combina pesquisas de ponta e os mais recentes avanços científicos à sua conhecida capacidade de observar o passado de uma maneira inteiramente nova. Assim, descobrir os próximos passos da evolução humana será também redescobrir quem fomos e quais caminhos tomamos para chegar até aqui.
“Quando não queremos ser charlatães, é preciso evitar subir nos palcos; pois, se subimos neles, nos vemos forçados a ser charlatães. De outro modo a plateia nos apedreja.”
“Os comerciantes são a veia porta do corpo da nação. Quando não ocorre florescimento comercial, embora o corpo tenha membros fortes, o sistema circulatório carecerá de sangue e o corpo como um todo apresentará pouca resistência: haverá subnutrição. Impor taxas e tributos sobre essa classe raramente produz proveitosos do ponto de vista da realeza porque aquilo que o rei pode ganhar sobre uma centena de indivíduos perde no país inteiro que empobrece, porque a massa dos impostos só é possível de crescer proporcionalmente à massa de fundos empregados no comércio.”
Em: Da soberania e Da arte de comandar, Francis Bacon, Ensaios, tradução Edson Bini, São Paulo, Edipro: 2015, 2ª edição, p.73