A lista dos dez melhores livros

24 07 2013

Arie Azene (Israel)Bistrô Café

Arie Azene (Israel, 1934)

Serigrafia, 55 x 90cm

Quem resiste às listas?  Eu não consigo.   No final do mês de janeiro de 2012, a publicação virtual Brain Pickings publicou a lista de livros favoritos de todos os tempos de acordo com 125 escritores que foram entrevistados.  Vale lembrar que esta é uma revista virtual, representativa das culturas anglo-americanas, consequentemente as preferências dos escritores são voltadas aqueles escritores que causam impacto nessas sociedades, que são lidos obrigatoriamente pelos alunos de escola, livros que marcam presença.  A lista se tivesse sido feita na França certamente teria uma relação diferente de livros e autores mais importantes, assim como a nossa lista, cá pelo Brasil,  provavelmente incluiria alguns desses escritores, é óbvio, mas muitos outros de autores brasileiros.

A definição de MELHORES também precisa  ser bem entendida.  Não estamos aqui, falando de livros de importância para o mundo da arte literária, em geral, mas daqueles livros que têm significação importante para o leitor.  Pode até não ser a obra prima de um específico escritor, mas estar listado justamente por ter embalado sonhos, falado à alma, tocado o coração daqueles que se deram ao trabalho de listar seus favoritos.

Não vou repetir a lista dos favoritos dos séculos XIX e do século XX.  Se você está interessado, clique no link acima e veja a lista. Foram considerados  romances, coleções de contos, peças de teatro e poemas. Vou fazer observações sobre duas outras listas, publicadas no mesmo artigo de Maria Popova:

TOP TEN AUTHORS BY NUMBER OF BOOKS SELECTED —

[Os dez autores melhor colocados pelo número de livros selecionados]

  1. William Shakespeare — 11
  2. William Faulkner — 6
  3. Henry James — 6
  4. Jane Austen — 5
  5. Charles Dickens — 5
  6. Fyodor Dostoevsky — 5
  7. Ernest Hemingway — 5
  8. Franz Kafka — 5
  9. (tie) James Joyce, Thomas Mann, Vladimir Nabokov, Mark Twain, Virginia Woolf — 4
TOP TEN AUTHORS BY POINTS EARNED

[Os dez autores melhor colocados pelo número de pontos ganhos]

  1. Leo Tolstoy — 327
  2. William Shakespeare — 293
  3. James Joyce — 194
  4. Vladimir Nabokov — 190
  5. Fyodor Dostoevsky — 177
  6. William Faulkner — 173
  7. Charles Dickens — 168
  8. Anton Chekhov — 165
  9. Gustave Flaubert — 163
  10. Jane Austen — 161

Notem que há duas mulheres listadas com obras mencionadas, mas só Jane Austen, que tem 5 livros mencionados entre os 10 melhores, aparece na lista de pontos e  acaba em 10º lugar.   James Joyce que teve 4 obras  mencionadas, aparece em 3º lugar por pontos.  Pelo visto não vale a pena escrever muitos excelentes livros.  Pode-se escrever poucos, talvez nem tão apreciados por todos e ainda assim ter uma boa posição entre os 10 +.  Henry James, dessas listas, um dos meu favoritos, foi mencionado por 6 de suas obras.  Seis!  e não aparece na listagem de pontos.  Nem Kafka, lembrado por 5 publicações.  Oh, pobre William Shakespeare, com 11 trabalhos mencionados, ficou em 2º lugar pelo número de pontos coletados, perdendo para Tolstoy.  É por isso que essas listas estão sempre sendo feitas e estarão sempre atraindo a atenção de quem gosta de ler e de defender seus autores preferidos.  Elas são completamente subjetivas; elas refletem não só as preferências pessoais como o momento de cada um dos entrevistados.

Se você fizer uma lista dos livros que mais tiveram significado para você quando adolescente e depois outra lista para cada cinco anos após a adolescência, tenho certeza de alguns autores ou livros permanecerão presentes, mas outros estarão sendo adicionados desbancando ícones do passado. Essa é uma das belezas da leitura:  ela pode preencher ou refletir as nossas necessidades emocionais e mudar a medida que mudamos interiormente.





Boicote político no Salon du Livre: um ato de auto-destruição

6 04 2013

Emile Verhaeren écrivant

Escritor Emile Verhaeren, 1915

Theo van Rysselberghe (Bélgica, 1862-1926)

Óleo sobre tela,  46 x 55 cm

Christie’s  Auction House

Ontem estava passando os olhos no jornal Le Monde e encontrei a notícia,[Des écrivains roumains boycottent le Salon Du Livre] já antiga, do dia 22 de março, onde o repórter Mirel Bran narrava  que os escritores romenos boicotaram o Salão de Livro em Paris: a Romênia era convidada de honra.  Terminei a leitura incrédula.  Como?  O que esses escritores imaginam ter feito?  Estão contra a administração do Salão do Livro? Foram mal tratados pelos franceses? Foram ignorados? Não. Nada disso.  Então, o que justifica essa atitude?  Eles protestam.  Não contra os franceses.  Tampouco contra o Salão do Livro. Protestam contra o governo deles.  Queriam denunciar a política do país.

Mas que diabos de leitura eles fizeram que imagina que seus atos teriam um impacto significativo? Esse foi um ato de auto-destruição.  Nada mais.  Quem imaginou e levou avante esta demonstração de resistência ao governo de seu país não entendeu a razão ou a importância da imensa oportunidade que esses escritores tiveram nas mãos, de projetar a sua literatura para o mundo.  Usaram sim o espelho retrovisor, olharam para trás.  Pensaram pequeno demais, portadores de antolhos culturais.

Porque vamos e venhamos: quem conhece a literatura romena?  Outros romenos.  Talvez uns poucos especialistas.  E agora, certamente menos pessoas irão conhecer.  Porque ninguém vai aprender romeno de uma hora para outra, por simpatia.  Esses escritores escolheram não promulgar suas idéias para uma Europa literata, leitora, ávida por novas experiências, por novos autores. Eles fecharam o teatro, cancelaram o espetáculo, depois de venderem  todos os lugares.  Escolheram encolher-se ao tamanho da Romênia. Definitivamente um ato de auto-destruição.  Porque a política local não irá mudar por esse motivo.  Quem imagina isso ainda não viveu tempo suficiente para ser um escritor, para dissertar sobre a condição humana. E perderam a grande oportunidade de terem suas vozes ouvidas por gente que poderia escutá-las com consideração e respeito.

Igualo esse ato ao das grandes ondas de protesto que temos no Brasil na época das eleições quando uns e outros imaginam que ao votar nulo ou em branco calarão ou modificarão a maneira com que a política é tratada no país.  Isso não vai acontecer. Isso é de uma inocência política que chega a doer.  Isso é abster-se na hora em que a sua opinião conta.  É um erro de interpretação do contexto de suas ações. É outro ato de auto-destruição.  Triste constatar que muitos não enxergam a irrelevância dessa postura.  São truques teatrais, mais pantomimas do que uma grande ópera. É engodo, bazófia. Charlatanaria política.  Uma ilusão à qual cabeças pensantes não podem se render.





Novos rumos na ficção científica?

30 03 2013

books logo rodney mathews

Ilustração de Rodney Mathews.

Um artigo interessante no Irish Times sobre a literatura de ficção científica, The new future od sci-fi,  atraiu a minha atenção nessa semana que passou.  Há muito que se fala da dificuldade de classificação das obras de ficção científica.  A fantasia e a ficção científica parecem se misturar em muitos momentos. Mas não importa, algumas obras acabam saindo da prateleira estritamente reservada às literaturas de gênero e entram para a categoria de clássicos da literatura mundial.  Desde de o século XIX que não faltam exemplos desse tipo de ficção considerada hoje parte integral, e essencial de uma boa educação.  Lá estão enfileirados nessas prateleiras  livros que estabeleceram o ramo da ficção científica  Frankenstein de Mary Shelley (1818), ao longo das obras do popularíssimo Júlio Verne, considerado o autor mais traduzido no mundo ( 148 línguas) com títulos como Viagem ao Centro da Terra (1864) Vinte Mil Léguas Submarinas (1870),  A Volta ao Mundo em Oitenta Dias (1873). No reino da fantasia, há também exemplos brilhantes do passado: As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift (1726) parecem ter aberto essa porta para o mundo moderno, ainda que a tradição do gênero venha desde a antiguidade. A criação literária classificada como fantasia parece ser mais inclusiva do que a ficção científica, e conta com contribuição no século XIX, de George MacDonald com Phantastes (1858) e de diversos outros que ocasionalmente embarcaram nessa nave, como William Morris The Well at the World’s End (1892), The Wood Beyond the World (1892) livros que foram de grande influência para autores como C. S. Lewis e J.R.R. Tolkien.

Mas aonde cai realmente a linha divisória que separa a ficção científica do resto da literatura?   E será essa uma questão importante?  Aparentemente escritores contemporâneos resolveram a questão simplesmente escrevendo.  E no processo não deram atenção a quaisquer limitações,  combinando a bel prazer características de ambos os gêneros para preencher suas necessidades narrativas.  O resultado é uma nova geração de escritores de ficção científica que não se enquadra perfeitamente aos moldes anteriormente determinados. Esses autores, ainda que não estejam ligados a qualquer movimento ou causa, parecem ter encontrado um meio de renovar um gênero considerado estagnado há algum tempo.  Se você está curioso faça uso da lista de autores selecionados por Gareth L Powell  para mostrar essa nova geração que é feita de escritores de diversas nacionalidades.  E  boa leitura!

Escritores:  Adam Christopher  autor de Empire State e Seven Wonders, Aliette de Bodard com a trilogia Obsidian and Blood;  Lauren Beukes autora de In Moxyland Zoo City;  Chuck Wendig com seu Black Birds ;  Lavie TidharLou Morgan,Emma Newman, com o título Between Two Thorns; Kim Lakin-Smith com o livro Cyber Circus e Tim Maughan.





Conselhos a um escritor de ficção, várias opiniões — II

25 05 2010

 

Professor Pardal lê ficção científica, ilustração Walt Disney.

AL Kennedy

 

Alison Louise Kennedy , nasceu em 1965 em Dundee na Escócia.  Comediante e escritora de ficção, contos e também não-ficção.  Combina realismo e fantasia.  É colunista para diversos jornais na Grã-Bretanha e na Comunidade Européia. 

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1 – Tenha humildade.  Escritores mais velhos, com maior experiência, mais convincentes podem dar todo tipo de conselho.  Considere bem o que dizem.  Mas, não lhes dê automaticamente controle sobre o ser cérebro,  — eles podem estar amargos, cansados, podem ser manipuladores ou não gostar de você.

2 — Tenha mais humildade.  Lembre-se que você não conhece os limites da sua habilidade.  Com sucesso ou não, se você sempre tentar ultrapassar os seus próprios limites, você se enriquecerá – e talvez até agradar a  algumas pessoas.

3 – Defenda os outros.  Você pode, é claro, roubar histórias e detalhes da sua família e de seus amigos, preencher as fichas de pesquisa depois de uma noite de amor etc.  Talvez seja melhor celebrar aqueles a quem você ama – e também o próprio amor – escrevendo de tal maneira que todo mundo possa manter sua privacidade e dignidades intactas.

4 – Defenda o seu trabalho.  Organizações, instituições e indivíduos frequentemente acham que conhecem mais sobre o seu trabalho – principalmente se eles estão lhe pagando.   Quando você achar – realmente – que as decisões deles irão causar danos ao seu trabalho – despeça-se, vá embora.  Corra.  O dinheiro não vale isso tudo.

5 – Defenda-se.  Descubra o que o faz feliz, motivado e criativo.

6 – Escreva.  Não há autopunição, estado alterado da mente, suéteres negras ou atitude pública anti-social que irá ajudar a você ser um escritor.  Escritores escrevem.  Faça-o.

7 – Leia.  Tanto quanto puder.  Tão profundamente, tão abrangente, tão famintamente e irritantemente quanto você puder.  E as coisas boas se farão lembrar, de modo que você não precisará tomar notas.

8 – Seja destemido.  É impossível, mas deixe que os pequenos medos lhe direcionem quando r for re-escrever, passar a limpo e deixe de lado os grandes medos – até que eles se comportem – aí então use-os, talvez até escreva sobre eles.  Medo demais e tudo o que você consegue é silêncio.

9 – Lembre-se de que você adora escrever.  Não valeria a pena se você não gostasse disso.  Se a paixão diminuir, faça o que for necessário para tê-la de volta.

10 – Lembre-se de que a escrita não te ama.  Ela não tem sentimentos.  Não obstante ela pode se comportar de maneira bastante generosa.  Fale bem da escrita, encoraje outros,  passe-a adiante.

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Hilary Mantel

 

Hilary Mary Mantel CBE nasceu em Derbyshire, 1952.  Ela é uma escritora e crítica literária britânica. O seu trabalho versa desde a memória pessoal à ficção histórica, tendo várias obras finalistas em prêmios literários. Em 2009 foi premiada com o Prêmio Man Booker pela sua novela Wolf Hall.

1 – Você está pensando nisso seriamente?  Então ache um contador.

2 – Leia Becoming a Writer de Dorothea Brande.  Aí faça o que ela diz, inclusive as tarefas que você acha impossíveis.   Você provavelmente vai detestar o conselho de escrever assim que acordar, mas conseguirá fazê-lo, talvez até seja a melhor coisa que você venha a fazer para você mesmo.   Esse livro é sobre tornar-se um escritor de dentro para fora.  Muitos dos manuais com conselhos sobre o assunto derivam deste.  Você realmente não precisará de nenhum outro deles, mas se você quiser aumentar a sua auto-confiança, manuais de auto –ajuda raramente fazem mal.  Você pode começar um livro inteiro com um pequeno exercício de escrever. 

3 – Escreva um livro que você gostaria de ler.  Se você não o fosse ler, por que alguma outra pessoa iria fazer isso?  Não escreva para uma audiência ou um mercado determinado.  É possível que eles já não existam mais quando você acabar o livro.

4 – Se você tem uma boa história,  não assuma que precise ter uma narrativa em forma de prosa.  Talvez funcione melhor como uma peça de teatro, de cinema ou um poema.  Seja flexível.

5 – Lembre-se de que qualquer coisa que venha a aparecer antes do “Capítulo Um” pode ser pulado.  Não coloque nesse local sua chave do mistério.

6 – O primeiro parágrafo pode frequentemente ser um tiro no escuro.  Você está dançando a haka [NT: uma dança Maori] ou simplesmente mexendo com os pés?

7 —  Concentre a sua energia narrativa no momento da mudança.  Isso é muito importante principalmente para a ficção histórica.  Quando o seu personagem está num lugar novo, ou quando as coisas mudam à sua volta, é aí que você deve se afastar e preencher os detalhes de seu mundo.  As pessoas não observam os seu ambiente ou sua rotina diária a toda hora, então quando o escritor os descreve pode parecer como se ele estivesse dando instrução ao leitor.

8 – Descrições precisam funcionar para o lugar.  Não podem ser simplesmente ornamentais.  Em geral elas funcionam melhor se tiverem um elemento humano; é melhor quando são feitas com uma visão subjetiva ao invés de uma visão pelos olhos de Deus.  Se as descrições mostram a visão do personagem que está observando, ela se transforma em uma parte a definição do personagem, outra na ação do personagem.  

9 – Se você tiver um bloqueio, saia da sua mesa de trabalho.  Vá dar um passeio a pé, tome um banho,  vá dormir,  faça uma torta, desenhe, ouça música, medite, se exercite;  o que quer que seja que você venha a fazer, não fique sentado por ali, olhando para o problema.  Mas, não dê telefonemas, não vá a uma festa; se você for, as palavras de outras pessoas entrarão no texto no lugar das suas palavras perdidas.   Abra um espaço para elas.  Seja paciente.

10 – Esteja pronto para qualquer coisa.  Cada história tem requerimentos próprios e talvez haja razões para quebrar estas ou quaisquer outras regras.  Exceto regra número um:  você não pode se dar de corpo e alma à literatura se você está pensando no seu imposto de renda. 

Chico Bento escreve à noite, ilustração Maurício de Sousa.

Michael Moorcock

 

Michael Moorcock,  nascido em Londres em 1939, é um escritor britânico de ficção científica e fantasia e também autor de diversos romances literários.

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1 – Minha primeira regra me foi dada por TH White, autor de The Sword in the Stone e outras fantasias do Rei Artur: Leia.  Leia tudo o que cair nas suas mãos.   Sempre aconselho a quem quer escrever em fantasia ou ficção científica ou romance que pare de ler tudo nesses gêneros e comece a ler todo o resto de Bunyan a Byatt.

2 – Escolha um autor a quem você admire ( no meu caso foi Conrad) e copie suas tramas e personagens para fazer sua própria história, da mesma maneira que as pessoas aprendem a desenhar e pintar copiando os velhos mestres da pintura.

3 – Apresente seus principais personagens e temas no primeiro terço do romance.

4 – Se você está escrevendo em um gênero que é desenvolvido pela trama, não deixe de apresentar todos os temas e elementos da trama no primeiro terço do livro: a introdução.

5 — Desenvolva seus temas e personagens no segundo terço: o desenvolvimento.

6 – Ache a resolução dos seus temas, mistérios e tudo o mais no último terço: a solução.

7 – Para um bom melodrama estude o famoso Lester Dent master plot formula que você encontra na internet.  Foi escrito para mostrar como você escreve um conto para publicações populares mas que pode ser adaptado com sucesso para qualquer história de qualquer tamanho ou gênero.

8 – Se possível ponha alguma ação enquanto seus personagens estão fazendo uma exposição ou filosofando.  Isso ajuda a manter a tensão dramática.

9 – Manter atração:  faça seus personagens serem perseguidos ( por uma obsessão ou por um vilão) e eles mesmos perseguindo (uma idéia, um objeto, um pessoa ou um mistério).

10 – ignore todas as regras e crie suas próprias regras, para que se adquem ao que você tem a dizer.

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 Michael Morpurgo

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Michael Andrew Bridge Morpurgo, OBE FKC AKC , nasceu em 1943 na Inglaterra.  Ele é um romancista, poeta, dramaturgo, libretista ( autor de librettos de ópera e outros musicais), e mais conhecido ainda por seus livros infanto-juvenis. 

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1 – Meu pré-requisito é manter meu poço de idéias cheio.  Isso quer dizer viver uma vida cheia, com bastante variedade e ter minhas antenas ligadas o tempo todo.

2 – Ted Hughes me deu este conselho e funciona as mil maravilhas:  anote momentos, impressões passageiras, diálogos ouvidos, sua própria tristeza, encantamento e alegrias.

3 — Para mim a idéia de uma história é a confluência de eventos reais, talvez históricos ou da minha própria memória para criar um fusão excitante.

4  — O que conta é o periodo de gestação.

5 —  Com o esqueleto da história completo começo a falar sobre ele, principalmente para Clare, minha esposa, fazendo o teste com ela.

6 – Quando chega a hora de eu me senta e encarar a página em branco eu pronto para a partida.  Eu conto a história como se eu a tivesse contando para o meu melhor amigo, ou para um de meus netos.

7 – Com um capítulo escrito no primeiro rascunho/esboço  – escrevo com letra bem miúda para que eu não tenha que mudar de página  e ter que olhar para uma próxima página em branco – Clare digita no computador, imprime, às vezes adicionando seus comentários.

8 – Quando estou muito envolvido com uma história – vivendo-a à medida que escrevo – sinceramente não sei o que irá acontecer. Eu tento não direcioná-la, não ter o papel de Deus.

9 – Quando o livro está acabado, no seu primeiro rascunho, eu o leio em voz alta para mim mesmo.  Como ele soa aos meus ouvidos é tremendamente importante.

10 – Com a edição, não importa quão delicada – e eu tenho tido muita sorte aqui – não reajo muito bem no início, mas aí eu me acalmo e mando a bola para frente, e um ano mais tarde tenho o livro em minhas mãos.  

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Mercador oferece manuscrito para Margarida,  ilustração Walt Disney.

Andrew Motion

 

Sir Andrew Motion, FRSL, nasceu em 1952 na Inglaterra: poeta, romancista e biógrafo.  Foi   Poet Laureate  na Grã- Bretanha de 1999 a 2009.

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1 – Decida quando no dia ou na noite é a melhor hora para você escrever e organize a sua vida de acordo com essa decisão.

2 – Pense com os seus sentidos além do seu cérebro.

3 – Honre o milagroso no comum.

4 —  Tranque personagens/ elementos diferentes numa sala e diga a eles para se comunicarem.

5 – Lembre-se de que não há essa coisa que se chama de nonsense.

6 – Lembre-se da expressão de Oscar Wilde “ só o que é  medíocre se desenvolve – e faça disso seu desafio.

7 – Dê um tempo ao seu trabalho antes de decidir se vale ele vale a pena ou não.

8 – Pense grande, mas atento aos detalhes.

9 – Escreva para o amanhã, não para o dia de hoje.

10 – Trabalhe muito.

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Joyce Carol Oates

 

Joyce Carol Oates, também conhecida como “JCO”, nascida em 1938, é uma escritora americana, autora de romances de importância da atualidade americana.  Detentora dos prêmios norte-americanos National Book Award e o The Pen/Malamud Award for Excelllence in Short Fiction.

1 – Não tente antecipar o seu “leitor ideal” – talvez haja um, mas ele ou ela estão lendo um outro autor.

2 – Não tente antecipar o seu “leitor ideal” – exceto por você mesmo, talvez, em algum ponto do futuro.

3 – Seja seu próprio critico/editor.  Leia com simpatia, mas sem piedade.

 4 – A não ser que você esteja escrevendo uma coisa muito avant-guarde – rosnados, resmungos, tudo obscuro – lembre-se da possibilidade de usar parágrafos.

5 —  A não ser que você esteja escrevendo alguma coisa muito pós-moderno – muito auto consciente, auto-reflexivo, e “provocador” – lembre-se  de usar palavras comuns, familiares a todos, ao invés das “grandes” palavras, polissilábicas.

6 – Lembre-se de Oscar Wilde:  “ um pouco de sinceridade é uma coisa perigosa, e muita sinceridade   é completamente fatal”.

7 – Mantenha um coração leve e esperançoso.  Mas, — espere pelo pior.

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Pato Donald, o jornalista de A PATADA, anota suas observações,  Ilustração Walt Disney.

Annie Proulx

Edna Annie Proulx, nascida em Connecticut nos EUA, em 1935 é uma escritora e jornalista norte-americana, de origem franco-canadense.  

1 – Proceda com vagar e cuidadosamente.

2 — Para ter certeza de que você trabalha devagar, escreva à mão.

3 – Escreva devagar e à mão só os assuntos que são do seu interesse.

4 – Desenvolva a arte de escrever através de anos de leitura variada.

5 – Re-escreva e faça a edição até que você consiga a melhor frase, sentença, parágrafo, página, história, capítulo.

Philip Pullman

Philip Pullman nascido nma Inglaterra em 1946 é um escritor de renome internacional, conhecido primeiramente pela trilogia Fronteiras do Universo (A Bússola de Ouro, A Faca Sutil e A Luneta Âmbar). A série já ganhou vários prêmios de literatura no mundo.

A minha regra é não dizer nada sobre coisas como essa, que me tentam a deixar o meu trabalho de lado.

Ian Rankin

 Ian Rankin nasceu em 1960 em Fife na Escócia.  Psudônimo:  Jack Harvey.  Romancista e escritor de mistérios, autor da série do Inspetor Rebus.  Escreve também crítica literária.

 1 – Leia muito.

2 – Escreva muito.

3 – Aprenda a se auto-criticar.

4 – Aprenda a que críticas aceitar.

5 – Tenha persistência.

6 —  tenha uma história que valha a pena contar.

7 – Não desista.

8 – Conheça o mercado.

9 – Tenha sorte.

10 – Mantenha-se sortudo.

 

Amadeu escrevendo seu romance é interrompido por Pateta, ilustração Walt Disney.

Will Self

William Woodard “Will” Self nascido em 1961 é um romancista ingles, critico literário,  e colunista para jornais.  Conhecido principalmente por seus romances e contos  fantásticos e satíricos.

1 – Não olhe para trás até que você tenha escrito o primeiro rascunho, total.  Comece cada dia com a última sentença que escrevei no dia anterior.  Isso previne que você tenha sentimentos críticos e também faz com que você tenha um número substantivo de páginas para trabalhar quando o verdadeiro trabalho começa que é….

2 – Editar.

3 –  Sempre leve consigo um caderno de notas.  E isso quer dizer sempre.  A memória retém informação só por três minutos; a não ser que esteja gravada no papel, você poderá perder uma idéia para sempre. 

4 –  Pare de ler ficção – é mesmo tudo mentira, não lhe dirá nada que você não saiba (assumindo é claro que você já tenha lido muito de ficção no passado;  se você não leu, você não tem nada que estar pensando em se tornar um romancista).

5 – Conhece aquela sensação de doentia de se sentir inadequado, de se export demais que se tem ao ler a nossa prosa?  Relaxe sabendo que essa sensação jamais o deixará, independente do seu grau de sucesso e de aprovação publica.  É uma sensação intrínseca do negócio de escrever e deve ser apreciada.

6 –  Viva a vida e escreva sobre a vida.  O processo de fazer um livro é infinito, mas há mais do que o suficiente de livros sobre livros.

7 – Do mesmo modo, lembre-se de quanto tempo as pessoas passam vendo tv.  Se você está escrevendo um romance situado no mundo contemporâneo, há de haver longas passagens em que nada acontece exceto ver televisão:  “Mais tarde, George assistiu ao Grand Designs enquanto petiscava HobNobs.  Mas tarde ainda ele viu o canal de vendas por algum tempo…”

8 – A vida do escritor é essencialmente uma vida de prisão solitária – se você naão gosta disso  não precisa se candidatar.

9 – Ah, e não esqueça de uma surra vez por outra admnistrada pelos sádicos guardas  da imaginação. 

10 —  Considere-se como uma pequena empresa.  Deixe de lado exercícios de grupo (longos passeios a pé).  Faça uma festa de Natal todos os anos em que você fica num canto do seu escritório,  gritando em voz alta para si mesmo enquanto bebe um garrafa de vinho branco.  Depois, masturbe-se embaixo da mesa de trabalho.  No dia seguinte você se terá uma profunda e coerente sensação de embaraço.

Helen Simpson

 

Helen Simpson é uma escritora inglesa nascida em Bristol em 1959.  Trabalho na revista Vogue por cinco anos antes de se lançar como escritora de romances e contos. 

O que tenho de mais próximo de regras é uma notinha colada na parede na frente da minha escrivaninha que diz: “Faire et se taire” ( Flaubert), que eu traduziria para” Cale-se e faça”.

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Zadie Smith

 

Zadie Smith , nascida em 1975 em  Londres. É uma escritora inglesa.  Tem três romances publicados e inúmeros contos, pelos quais já foi considerada uma das mais importantes escritoras inglesas da atualidade.

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1 – Em criança, leia muitos livros.  Faça mais isso do que qualquer outra coisa.

2 —  Como adulto, tente ler seus próprios livros como se fosse uma pessoa estranha, ou melhor ainda, como um inimigo os leria. 

3 – Não faça um romance da sua vocação.  Ou você sabe escrever boas frases, ou não sabe.  Não há “estilo de vida de escritor”.  O mais importante é o que você deixa na página.

4 – Evite os seus pontos fracos.  Mas faça-o sem dizer para  si mesmo que o que você não sabe fazer não vale a pena ser feito.  Não mascare a sua insegurança com desdém.

5  — Dê um bom tempo entre escrever o texto e editá-lo.

6 – Evite, grupos, grupinhos, gangues.  A presença de um grupo não fará o seu texto melhor do que é.

7 – Trabalhe num computador que esteja sem conexão de internet.

8 – Proteja a hora e o espaço em que você escreve.  Mantenha todo mundo longe, até mesmo as pessoas mais importantes para você.

9 – Não confunda homenagens com realizações.

10 – Diga a verdade através de qualquer ângulo que lhe apareça, mas diga-a.  Resigne-se à tristeza de uma  vida inteira em que não se está nunca satisfeito.

Ilustração, Luluzinha escreve cartas, 1987.

Colm Tóibín

 

Colm Tóibín, é um escritor irlandês, nascido em 1955 que trabalha como romancista,  jornalista e crítico literário.

1 – Acabe tudo o que começar.

2 – Siga em frente.

3 – Fique com seu pajama mental o dia inteiro.

4 – Pare de se sentir um pobre coitado.

5  — Nem álcool, nem sexo, nem drogas enquanto escreve.

6 —  Trabalhe de manhã, faça uma pequena pausa para o almoço, trabalhe à tarde e aí veja as notícias das 18:00 horas e depois volte a trabalhar até a hora de dormir.  Antes de dormir, ouça Schubert, algumas canções.

7 – Se você tiver que ler, para se alegrar, leia biografias de escritores que ficaram loucos.

8 – Aos sábados, você pode ver um filme antigo de Bergman, de preferência Persona ou Sonata de outono

9 – Nenhuma viagem a Londres.

10 – Nenhuma viagem a qualquer outro lugar.–

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Rose Tremain

 

Rose Tremain é uma escritora inglesa, nascida em Londres em 1943;  conhecida por seus romances, contos e sua dramaturgia. Vive em Norfolk, Londres, no Reino Unido.

1 – Esqueça a máxima antiga “escreva sobre o que conhece”.  Ao invés, procure pelo desconhecido e ainda pelo conhecimento da experiência que vai aumentar o seu entendimento do mundo e do que você escreve.

2 – Não obstante, lembre-se de que é na particularidade da sua própria vida que se encontra a semente que irá alimentar o seu trabalho imaginativo.  De modo que não jogue tudo na sua autobiografia.  (Ainda mais que já há bastante autobiografias de escritores).

3 —  Nunca se satisfaça com o primeiro rascunho, na verdade não se satisfaça nunca com o seu texto, até que você esteja convencido de que está tão bom quanto o poder finito que você tem de  deixá-lo melhor. 

4 – Ouça a crítica e as preferências dos seus confiáveis  “primeiros leitores”.

5 – Quando uma ideia lhe vier à mente, passe algum tempo com ela, em silencio.  Lembre-se da idéia de Keats da capacidade negativa e do conselho de Kipling  de “ vagar, esperar e obedecer”.  Junto com a pesquisa de dados permita-se sonhar a sua idéia fazendo-a real.

6 – No planejamento de um livro, não planeje o fim.  Ele precisa se desenvolver por tudo o que veio antes.

7 – Respeite a maneira como os personagens podem mudar depois que você estivar com umas 50 páginas escritas.   Reveja o seu plano original nessa hora e veja se alguma coisa não precisa ser alterada para que  essas mudanças se desenvolvam.

8 – Se você está escrevendo ficção histórica,  não tenha personagens conhecidos, reais, como seus protagonistas.  Isso só irá trazer dificuldades biográficas aos lietores e mandá-los de volta aos livros de história.  Se você precisa escrever sobre gente real,  então faça alguma coisa pós-moderna e criativa com eles.

9 – Aprenda com o cinema.  Seja econômico nas suas descrições.  Separe os detalhes significativos dos que não tem vida própria.  Escreva um dialogo que as pessoas falariam. 

10 – Nunca comece um livro quando você quer começá-lo, mas espere um pouco mais de tempo. 

Margarida prepara a máquina de escrever, ilustração Walt Disney.

Sarah Waters

 

Sarah Waters  nasceu em Pembrokeshire, País de Gales, em 1966.  Ela é uma escritora britânica, conhecida principalmente por seus romances históricos baseados na época da rainha Vitória.  Mora em Londres.  

1 – Leia como um louco.  Mas tente fazê-lo de maneira analítica – o que pode ser muito difícil porque quanto melhor e fascinante um romance é, menos você reconhecerá suas ferramentas.  Mas vale a pena tentar descobri-los porque podem vir a ser de uso para o seu próprio trabalho.  Também acho assistir a filmes muito instrutivo.  Quase todos os filmes de sucesso de bilheteria de Hollywood são longos e pesados.  Tente visualizar como os filmes seriam bem melhores se fossem submetidos s cortes radicais.  Este é um bom exercício na arte de contar histórias.  O que me leva a ….

2 – Corte como um louco.  Quanto menos, melhor.  Frequentemente leio manuscritos – inclusive os meus – que quando chego ao capítulo dois, penso:  “Era aqui que este romance deveria ter começado”.  Uma quantidade enorme sobre o personagem e seu passado podem ser transmitidos através de pequenos detalhes.    A ligação emocional que você tem com uma cena ou um capítulo perde a cor a medida que você entra em outras histórias.  Seja bastante frio a respeito.  Na verdade…

3 – Trate a escrita como um negócio.    Tenha disciplina.  Muitos escritores  chegam a ficar obsessivos- compulsivos a este respeito.  Graham Greene ficou famoso por escrever 500 palavras por dia.  Jean Plaidy conseguia 5.000  antes do almoço, e depois passava a tarde respondendo às cartas de seus fãs.   Meu mínimo é 1.000 palavras por dia – o que às vezes é fácil de atingir, e às vezes, francamente, é difícil, but eu me forço a ficar na minha escrivaninha até chegar lá, porque eu sei que fazendo isso estou empurrando milimetricamente o livro à frente.   Aquelas 1.000 palavras podem vir a ser lixo – e o são muitas vezes.  Mas  então, é sempre mais fácil, mais tarde, voltar ao lixo e transformá-lo em algo melhor.

4 – Escrever ficção não é auto-espressão ou terapia.  Romances são feitos para leitores, e escrevê-los significa uma construção de efeitos feita com altruísmo, paciência e arte.  Imagino os meus romances como aqueles brinquedos num parque de diversões:  minha tarefa é amarrar o leitor naquele carrinho, no início do primeiro capítulo, então dirigir e deslizá-lo através das cenas e surpresas, num passeio cuidadosamente planejado, e num ritmo afiado.

5 – Respeite os seus personagens, mesmo os de menos importância.   Na arte, assim como na vida, cada qual é o herói de sua própria história; é importante pensar sobre as histórias de seus personagens menos importantes, mesmo que eles não cruzem muito com seu protagonista.    Mas por isso mesmo…

6 – Não encha de personagens demais sua narrativa.  Personagens devem ser individualizados, mas ficcionais – como figuras num quadro.  Pense em no quadro Jerônimo Bosch A coroação de espinhos, em que um Jesus paciente e sofredor está cercado de quatro homens ameaçadores.   Cada um desses personagens é único, e ,no entanto, cada qual representa um tipo; e coletivamente eles formam uma narrativa que é ainda de maior impacto por estarem tão juntas e construídas tão economicamente.  Num tema semelhante….

7 – Não escreva demais.  Evite frases redundantes, adjetivo que distraiam, e advérbios desnecessários.  Iniciantes, principalmente, parecem acreditar que escrever ficção requer uma prosa rebuscada, completamente diferente de qualquer tipo de linguagem que uma pessoa possa encontrar no dia a dia.  Isto é um conceito errôneo sobre efeitos produzidos pela ficção, e podem desaparecer se observarmos a regra número um.   Ler alguns textos de Colm Tóibín ou Cormac McCarthy, por exemplo, é descobrir como um vocabulário deliberadamente restrito pode produzir um impacto emocional surpreendente.

8 – Ritmo é crucial.  Boa prosa não é suficiente.  Estudantes são capazes de criar uma única página de prosa muito bem trabalhada;  o que eles às vezes deixam a desejar é na habilidade de levar o leitor na jornada, com todas as mudanças de terreno, velocidade e atmosfera que aparecem em uma longa viagem.   De novo, acho que a ajuda pode vir do cinema.   A maioria dos romances tem uma maneira de se mover mais perto, de se estender,  de ir para trás, ir à  frente, de maneira bastante cinematográfica.  

9 – Não entre em pânico.  No meio do caminho de um romance, eu já sofri momentos de grande ansiedade, quando contemplava  a tela à minha frente e via além, numa sucessão, as críticas negativas,  o embaraço dos amigos, a carreira dando para trás,  o dinheiro diminuindo, a casa hipotecada, o divórcio…  Trabalhar obstinadamente através de crises como estas, no entanto, sempre me levou ao final.  Deixar a sua mesa de trabalho por um tempo pode ajudar. Conversar sobre o problema pode me lembrar de onde eu queria chegar antes de parar.   Dar uma longa volta a pé quase sempre me ajuda a pensar sobre o meu manuscrito de uma maneira diferente.  E se tudo isso não der certo, há sempre a oração.  São Francisco de Sales, o patrono dos escritores, tem me ajudado nos momentos de crise.  Se você quiser algo ainda mais geral, pode pedir a Calíope, a musa da poesia épica. 

10 – O talento vence sempre.  Se você é um grande escritor, nenhuma dessas regras serão necessárias.  Se James Baldwin tivesse achado que era necessário abreviar o ritmo um pouco, talvez ele não tivesse chegado a intensidade lírica de Giovanni’s Room.  Sem a prosa “trabalhada”  não teríamos tido a exuberância lingüística de Dickens ou de Angela Carter.  Se todo mundo fosse econômico com seus personagens, não haveria Wolf Hall…  Mas, para nós, os outros, as regras são necessárias.  E, especialmente, só entendendo porque elas existem e como elas funcionam você pode experimentar e quem sabe quebrá-las.

Jeanette Winterson

 

Jeanette Winterson, nasceu em Manchester, na Inglaterra em 1959.   Escritora de romances, contos, colunista para diversos jornais britânicos e dramaturga.

1 – Trabalhe diariamente.  A disciplina permite a liberdade criativa.   Nenhuma disciplina é igual à liberdade.

2 – Nunca pare quando você tem um bloqueio.  Talvez você não resolva o problema, mas  puxe-o de lado e escreva alguma outra coisa.  Não pare de vez.

3 – Ame o que você faz.

4 – Seja honesto com você mesmo.  Se você não for tão bom, aceite esse fato.  Se o trabalho que você está fazendo não é tão bom, aceite esse fato.

5 –  Não insista num trabalho pobre.  Se já era ruim quando foi para a gaveta, continuará a ser ruim quando sair dela.

6 – Não preste atenção a quem você não respeita.

7 – Não preste atenção a ninguém que tenha uma agenda de gênero.  Muitos homens ainda acham que mulheres não tem uma imaginação fogosa.

8 – Seja ambicioso pelo trabalho e não pela recompensa.

9 – Confie na sua criatividade. 

10 – Aprecie o seu trabalho.





Conselhos a um escritor de ficção, várias opiniões — I

22 05 2010

 

Ilustração, Snoopy escreve seu romance, Charles M. Schulz.

No ano passado, foi lançado nos Estados Unidos um livro que se tornou líder de vendas:  10 rules of good writing [10 regras da boa escrita].  Recentemente , o autor deste sucesso  Elmore Leonard, foi lembrado pelo jornal The Guardian da Inglaterra, que repetiu um sumário dessas regras e pediu também a outros autores que listassem suas recomendações para a boa escrita.

Traduzo livremente o artigo.

Elmore Leonard

 

10 regras para se escrever bem:

1 –  Não comece o texto com o tempo.  Se for para criar uma atmosfera, e não uma reação do personagem ao tempo, você não deve se prolongar.  O leitor tenderá a ir em frente procurando por gente.  Há exceções.   Se você for Barry Lopez, que tem mais maneiras de descrever gelo e neve do que um esquimó, como no seu livro Artic Dreams [Sonhos do Ártico], você poderá fazer qualquer descrição de tempo que queira.  

2 – Nenhum extra: prólogo, introdução, prefácio.  Evite os prólogos: eles podem ser cansativos, especialmente se for um prólogo após uma introdução que vem depois de um prefácio.  Mas estes, em geral, só são encontrados em trabalhos de não-ficção.  O prólogo num romance é a história anterior e você pode inseri-la quando quiser.  Há um prólogo no livro de John Steinbeck Sweet Thursday, mas tudo bem, porque o personagem do livro justifica o que as minhas regras expõem.   Ele diz: “Gosto de muito diálogo num livro e não gosto de ter alguém me contando sobre a aparência do cara que está falando.  Eu quero imaginar a cara dele a partir da maneira como ele fala.”

3 – …disse.  [é o bastante!].  Use sempre o verbo “disse” para indicar o diálogo.  A sentença do diálogo pertence ao personagem; o verbo é uma interferência do escritor.  Mas “disse” é muito menos manipulador do que “murmurou”, “mentiu”, “aconselhou”, “suspirou”.  Lembro-me de uma vez em que Mary McCarthy acabou um diálogo com “ela asseverou” e tive que parar de ler para ir ao dicionário. 

4 –  Fora com os advérbios.   Nunca use um advérbio para modificar o verbo “disse”… ele sobriamente advertiu.  Para usar o advérbio dessa maneira ( ou em quase todas as maneiras) é um pecado mortal.  O escritor  se expõe ao usar uma palavra que distrai a atenção e que pode interromper o ritmo da troca de idéias.  Tenho um personagem em um de meus livros que explica como ela escrevia romances históricos; “cheios de estupros e advérbios”.

5 –  Pouquíssimos pontos de exclamação! Mantenha o número dos pontos de exclamação sob controle.   Só é permitido usar dois ou três por cada 100.000 palavras de prosa.  Se você tem  a habilidade de exclamações como a do escritor Tom Wolfe, você pode colocar muito mais.

6 – Corte os: de repente ou equivalentes de “tudo foi para as cucuias”.  Nunca use as expressões “De repente” ou “ e tudo foi para o brejo”.   Essa regra não precisa de explicações.  Já notei que escritores que usam “de repente” raramente têm controle sobre os pontos de exclamação.

7 – Evite dialetos regionais.  Use raramente dialetos regionais.  Quando você começar a escrever palavras foneticamente em um diálogo e encher as páginas com apóstrofes, você não vai conseguir parar.  Preste atenção, por exemplo, na maneira como Annie Proulx captura o sabor das vozes de Wyoming no seu livro de contos Close Range.

8 – Não detalhe os personagens. Evite as  descrições detalhadas dos personagens, Steinbeck notou isso.  No livro de Ernest Hemingway Hills Like White Elephants, como era a aparência da americana com ele?  “ Ela tinha tirado o chapéu e o pousara sobre a mesa. “   Este é o único traço de uma descrição física na história.

9 – Não perca tempo com paisagens.  Não descreva coisas e paisagens com  muitos detalhes, a não ser que você seja uma Maragaret Atwood e consiga pintar cenas com linguagem.  Você não deve interromper uma cena de ação, o movimento da história, não deve pará-la.

10 – Não escreva o que você não leria.  Tente deixar de lado as partes que os leitores pularão.  Pense no que você pula quando lê um romance: longos parágrafos de prosa que você vê que têm palavras demais no seu conteúdo. 

A regra mais importante, que contém todas as outras 10:  se soa como prosa, re-escreva.

Mas quem é Elmore Leonard para dar conselhos?

Ele é um escritor que começou sua carreira escrevendo faroeste.  Depois voltou sua atenção para a ficção detetivesca: crime e mistério.   Ele é um escritor dos mais prolíficos.   Já escreveu mais de 30 romances, a maioria deles grandes sucessos de vendas.  É um escritor que é levado a sério  pelo mundo literário.  Elmore Leonard nasceu em Nova Orleans, Louisiana (EUA), em 1925.  Muitos de seus romances foram adaptados para o cinema.  Também é roteirista e redator de publicidade. Tornou-se conhecido a partir dos anos 80, quando chamou a atenção da crítica e do público. Sua obra recebeu diversas premiações, entre elas o Grand Master Award da associação Mystery Writers, concedido apenas aos autores cujo conjunto de suas publicações deu contribuição significativa para o desenvolvimento do gênero. Ele tem seis livros publicados pela Rocco, entre eles Ponche de rum, que inspirou ao cineasta Quentin Tarantino o filme Jackie Brown. Os outros são: Maximum Bob, Pronto, Cárcere privado, Irresistível paixão e Cuba Libre.

Pascoal, sobrinho do Professor Pardal, escrevendo uma carta, ilustração Walt Disney. 

Diana Athill

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Nascida em 1917, Diana foi funcionária da BBC na Segunda Guerra. Em sua longa carreira de editora trabalhou com autores do calibre de Elias Canetti, Philip Roth e John Updike, ajudando André Deutsch a consolidar a empresa que levava seu nome, uma das mais prestigiosas casas editoriais de seu país.

1 – Leia em voz alta para você mesmo.  Esta é a única maneira de saber se o ritmo das frases está certo.

2 – Corte ( talvez isso devesse ser CORTE):  só as palavras essenciais contam.

3 –  Você não precisa acabar com as suas frases favoritas, mas aquelas que lhe são muito caras, aquelas das quais você está orgulhoso, volte a lê-las.  Invariavelmente seu texto ficará melhor sem elas.

Margaret Atwood

 

Margaret Atwood é canadense.  Publicou seu primeiro livro aos 22 anos. Hoje, sua extensa e diversificada bibliografia conta com mais de 30 títulos, entre romances, coletâneas de contos, poesias, livros infantis e textos não-ficcionais. Sua vasta experiência inclui também roteiros para rádio e televisão. Traduzida para dezenas de idiomas, sua obra já lhe rendeu prêmios como o Booker Prize, recebido no ano 2000 pelo romance O assassino cego. A autora ostenta títulos honorários de mais de dez universidades e já teve um livro adaptado para o cinema.

1 – Para escrever num avião leve um lápis.  Canetas vasam.  Mas se o lápis quebra, você não pode apontá-lo, porque não pode levar o apontador dentro do avião.  Então, leve dois lápis.

2 – Se ambos os lápis quebrarem, você poderá afiar  a ponta, numa emergência,  com uma lixa de unhas.

3 – Leve algum material em que escrever.  Papel seria bom.  Numa emergência pedaços de madeira ou seu próprio braço servem.

4 – Se você usa um computador, sempre proteja o seu novo texto com um pen drive.

5 – Faça exercícios para as costas.  Dores tiram a atenção.

6 – Mantenha a atenção do leitor.  (Isso fluirá melhor se você conseguir manter a sua própria atenção).  Mas você não conhece o leitor, então é como caçar com uma única bala no escuro.  O que fascina A certamente aborrecerá B.

7 – Provavelmente você precisará de um bom dicionário, de uma gramática elementar e de uma boa dose de realidade.  Isso quer dizer:  nada é de graça.  Escrever é trabalho duro.  Também é uma aposta.  Você não tem plano de aposentadoria.  Outras pessoas podem lhe ajudar um pouco, mas – basicamente você estará sozinho, por si só.  Ninguém o está forçando a fazer isso:  é sua escolha, não reclame.

8 – Você jamais poderá ler seu próprio livro com a ingênua antecipação com que lê a primeira página de um novo livro, porque você o escreveu.  Você conhece os bastidores; viu como os coelhos foram escondidos dentro do chapéu.   Então, peça a um ou dois amigos para lerem o texto antes que você o envie para uma editora.  Esse amigo não deve ser alguém com quem você mantém um relacionamento amoroso, a não ser que vocês queiram se separar.  

9 – Não se sente no meio da floresta.  Se você se perder no enredo ou se tiver um bloqueio, volte nos seus passos at onde você se perdeu.  Aí, pegue a  outra estrada.  E/ou mude de personagem.  Mude o tempo verbal.  Mude a primeira página.

10 – Uma oração pode funcionar.  Ou ler uma outra coisa.  Ou visualizar ininterruptamente o Santo Graal que é o final, a versão publicada e esplendorosa do seu livro.

Ilustração Pato Donald escritor,  Walt Disney.

Roddy Doyle

 

Roddy Doyle nasceu em Dublin, Irlanda, em 1958. Escreveu diversos romances, muitos  adaptados para o cinema. Também foi ganhador do Man-Booker Prize, em 1993. O autor também escreve roteiros e scripts para o cinema. Mora em Dublin.

1 – Não coloque a foto de seu escritor favorito na sua mesa de trabalho, principalmente se ele for um daqueles famosos que se suicidou.

2 – Seja generoso consigo mesmo.  Preencha páginas o mais rápido possível; espaço duplo, ou escreva pulando uma linha.  Veja cada nova página como um pequeno triunfo.

3 – Até que você chegue à página 50.  Aí acalme-se, e comece a se preocupar com a qualidade.  Sinta a ansiedade, ela faz parte do trabalho.

4 – Dê um nome ao seu livro o mais rápido possível.  Tome posse dele, visualize-o.  Dickens sabia que Bleak House se chamaria assim antes de começar a escrevê-lo.  O resto deve ter sido mais fácil. 

5 – Restrinja suas visitas a uns poucos portais na internet, por dia.  Não procure por livros na rede, a não ser que seja para pesquisa.

6 – Mantenha próximo um dicionário, mas guarde-o no junto coma as ferramentas do jardim ou atrás da geladeira, em algum lugar que você precise fazer um esforço para consultá-lo.  Provavelmente as palavras que lhe vêem à cabeça serão adequadas, como “cavalo”, “correr”, “disse”.

7 – Vez por outra seja seduzido.  Lave o chão da cozinha, pendure as roupas lavadas.  É pesquisa.

8 – Mude de idéia.  Boas idéias em geral são assassinadas por melhores idéias.  Eu estva escrevendo um romance sobre um grupo chamado  The Partitions.  Aí decidi chamá-los The Commitments. [NT: Ele se refere ao seu grande sucesso nas telas do cinema, ao filme que, no Brasil, levou o título Loucos pela Fama.]

9 –  Não procure pelo livro que você ainda não escreveu na Amazon.com.

10 – Gaste alguns minutos por dia trabalhando no blog do seu livro, mas depois volte ao trabalho.

Helen Dunmore

 

Helen Dunmore é uma poetisa inglesa, romancista e escritora de livros infanto-juvenis.  Ganhou já diversos prêmios de ficção entre eles o Orange Prize.  Alguns de seus livros infanto-juvenis são hoje em dia adotados nas escolas britânicas.  Ela mora em Bristol.

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1 – Acabe cada dia de escrita enquanto você ainda quer continuar a escrever.

2 – Ouça o que você escreveu.  Um erro no ritmo de um diálogo pode mostrar que você ainda não entende seus personagens tão bem quanto o necessário para transcrever suas vozes.

3 – Leia as cartas de Keats.

4 – Releia, re-escreva, releia, re-escreva.  Se o texto ainda não estiver certo jogue-o fora.  Vai se sentir bem, e você não quer ficar cheio de poemas mortos e histórias que tem tudo neles menos a vida de que precisam.

5 – Memorize seus poemas.

6 – Torne-se membro das organizações profissionais que contribuem para os direitos dos autores.

7 —  Um problema de texto com freqüência é resolvido se você sai para uma longa caminhada.

8 —  Se você acha que tomar conta das crianças e da casa vão estragar a sua escrita lembre-se do escritor J.G. Ballard.

9 – Não se preocupe com a posteridade. Como Larkin observou “ o que sobreviverá de nós é o amor”.

Ilustração Walt Disney, Nestor e Peninha conversam sobre um livro.

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Geoff Dyer

 

Geoff Dyer nasceu em Cheltenham, Inglaterra, em 1958, e estudou em Oxford. É autor de três romances, de diversos livros de não-ficção, e escreve artigos para publicações como The Guardian, The Independent, New Statesman e Esquire.

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1 – Nunca se preocupe com as possibilidades comerciais do seu projeto.  Isso é ou não preocupação  para os agentes e editores.   Conversa com meu agente americano.  Eu: “ Estou escrevendo um livro tão chato, com possibilidades comerciais tão pequenas, que se você publicá-lo provavelmente vai perder o seu emprego.”  Agente:  “É exatamente isso que me faz querer manter o meu emprego.”

2 – Não escreva em lugares públicos.  No início dos anos 90 fui morar em Paris.  Pelas razões conhecidas pelos escritores:  naquela época se você fosse apanhado escrevendo num bar na Inglaterra, você poderia ter apanhado, enquanto em Paris, nos cafés…  desde então tenho aversão a escrever em público.  Hoje acredito que deva ser feito só em casa, como qualquer outra atividade de limpeza.

3 – Não se torne um daqueles escritoires que se limitam a passer a vida inteira bajulando Nabokov.

4 – Se você usa um computador, faça melhorias, estabeleça novos parâmetros nas correções automáticas.  A única razão de permanecer file ao meu pobre computador é que eu já investi tanta imaginação nele, construindo uma das melhores pastas de auto-correção da história literária.   Palavras perfeitamente soletradas aparecem com apenas algumas poucas teclas:  “Niet” se transforma em “Nietzsche”, “phoy” se torna “photography”  e assim por diante.  Genial!

5  — Mantenha um diário.  Um dos meus maiores arrependimentos é de nunca ter mantido um diário.

6 – Tenha alguns arrependimentos.  Eles são energia.  Na página eles se transformam em desejos.

7 – Trabalhe mais de uma idéia ao mesmo tempo.  Se tiver que fazer uma escolha entre escrever um livro e não fazer nada eu sempre escolherei a última opção.  Só se eu tenho uma idéia para dois livros é que eu escolho trabalhar num ao invés do outro.  Tenho sempre que me sentir como escapando de algum projeto.

8 – Tome cuidado com os clichês.  Não só os clichês com que Martin Amis está sempre brigando.  Há respostas que são clichés, assim como expressões.  Há clichês de observação e de pensamento – até mesmo de conceito.   Muitos romances, até mesmo alguns razoavelmente bem escritos, têm clichês no formato assim como clichês nas expectativas.

9 – Escreva todos os dias.  Crie o hábito de colocar suas observações em palavras e gradualmente isso se tornará instintivo.  Essa é a regras mais importante de todas e eu, naturalmente, não a sigo.

10 – Nunca ande numa bicicleta sem freios.  Se alguma coisa se mostra muito difícil, desista e faça alguma outra coisa.  Tente viver sem ter que se submeter à perseverança.  Mas para escrever tudo é perseverança.  Você tem que insistir.  Quando eu estava com uns 30 anos eu ia malhar, apesar de detestar fazer isso.  A intenção era pospor o dia em que eu iria parar de ir.  É isso o que escrever é para mim:  uma maneira de pospor o dia em que eu não o farei mais, o dia em eu entrarei numa depressão tão profunda que será indistinguível da felicidade total.

Anne Enright

 

Anne Enright (1962, Dublin, Irlanda) arrematou o Man Booker Prize de 2007 com o romance O Encontro, um mergulho no passado de uma família disfuncional. Atualmente é crítica de Literatura do Guardian.  Teve seus textos publicados nas revistas New Yorker, Granta e London Review of Books. Os recônditos da vida familiar, tema central de suas obras, são explorados em linguagem inventiva.

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1 – Os primeiros 12 anos são os piores.

2 – A maneira de escrever um livro é na verdade escrever um livro.  Uma caneta é útil, bater à máquina também.   Esteja sempre colocando palavras na página.

3 – Só os escritores ruins pensam que seu trabalho é realmente bom.

4 – Descrições são difíceis.  Lembre-se de que toda descrição é uma opinião sobre o mundo.  Acha o seu ponto de vista.

5 – Escreva o que quiser.  Ficção é feita de palavras numa página; realidade é feita de outra coisa.  Não importa o quão a sua história é “real”, ou quanto é “inventada”:  o que importa é a sua necessidade.

6 – Tente ser preciso sobre as coisas.

7 – Imagine-se morrendo.  Se você tivesse uma doença incurável você acabaria o seu livro?  Por que não?  O que aborrece nesta vida de 10 semanas de sobrevivência é o que está errado como seu livro.   Mude.  Pare de argumentar com você mesmo.   Mude. Vê?  É fácil.  E ninguém precisou  morrer.    

8 – Você também pode fazer tudo isso com uísque.

9 – Divirta-se.

10 – Lembre-se, se você se sentar  à sua mesa de trabalho por 15 ou 20 anos, todos os dias, sem contar os fins de semana, isso mudará algo em você.  Simplesmente acontece.  Pode mudar a sua disposição, mas consolida outra coisa.  Faz você ficar mais livre.

Ilustração: Margarida escreve em seu diário, Walt Disney.

Richard Ford

 

Richard Ford é um escritor americano, romancista e contista, vencedor do Pulitzer Prize.  Alguns de seus livros já foram passados para o cinema com grande sucesso.

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1 – Case-se com alguém que você ame e que ache que você ser escritor é uma idéia maravilhosa. 

2 – Não tenha filhos.

3 – Não leia críticas.

4 – Não escreva críticas ( seu julgamento é sempre preconceituoso).

5 – Não tenha discussões com sua mulher de manhã ou tarde da noite.

6 – Não beba e escreva ao mesmo tempo.

7 – Não escreva cartas para o editor ( ninguém está interessado).

8 – Não deseje mal aos seus colegas.

9 – Pense que a sorte dos outros é um bom encorajamento para você.

10 – Se possível, não deixe ninguém lhe encher o saco.

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Jonathan Franzen

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Nasceu em Western Springs, Illinois, em 1959.  Colabora com as revistas The New Yorker e Harper’s. Foi eleito pela revista literária Granta um dos vinte melhores jovens romancistas americanos. Polêmico, recusou-se a ir ao talk show de Oprah Winfrey, um dos programas de TV de maior audiência dos Estados Unidos, para divulgar o romance As correções.

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1 – O leitor é um amigo, não é um adversário, nem um espectador.

2 —  Ficção que não é a aventura pessoal de um autor num mundo desconhecido ou perigoso não vale a pena ser escrita, só vale a pena ser escrita por dinheiro.

3 – Nunca use a palavra “então” como conjunção – temos “e” para essa função.  Substituir “então” é uma maneira preguiçosa, para um autor sem ouvido, para o problema de “e” demais numa página.

4 – Escreva na Terceira pessoa a não ser que você tenha um primeira voz muito distinta e que se ofereça sedutoramente.

5 —  Quando uma informação se torna gratuita e accessível universalmente, a pesquisa volumosa para um romance se torna tão sem valor quanto a informação.

6 – A mais pura ficção autobiográfica requer pura invenção.  Ninguém escreveu uma história mais autobiográfica do que “ A Metamorfose”.

7 – Você vê mais se sentando imóvel do que indo atrás.

8 –  É duvidoso que qualquer pessoa com uma conexão à internet na sua área de trabalho esteja escrevendo boa ficção.

9 – Verbos interessantes raramente são muito interessantes.

10 – Você precisa amar antes de ser implacável.

Ilustração: Mickey tenta escrever, Walt Disney.

Esther Freud

 

Nasceu em Londres em 1963, filha do pintor Lucien Freud e bisneta de Sigmund Freud.  Foi atriz antes de se dedicar à literatura.

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1 – Corte as metáforas e símiles.  No meu primeiro livro prometi a mim mesma que não iria usar qualquer uma delas – mas eu me quebrei a promessa – durante um por de sol no capítulo 11.  Ainda enrubesço quando leio essa passagem.

2 – Uma história precisa de ritmo.  Leia em voz alta para você mesmo, se não parece mágico há algo que está faltando.

3 – Editar é tudo.  Corte até que você não possa cortar mais.  O que resta em geral ganha vida.

4 – Ache a melhor hora do dia para escrever e escreva.  Não deixe qualquer outra coisa interferir.  Depois não fará a menor diferença se a sua cozinha está bagunçada. 

5 – Não espere pela inspiração.  Disciplina é o segredo.

6 – Confie no seu leitor.  Não precisa explicar tudo.  Se você sabe alguma coisa e se colocou vida nisso, os leitores também saberão.

7 – Não se esqueça até mesmo suas regras foram feitas para serem quebradas.

Neil Gaiman

 

Neil Gaiman é um autor inglês, de romances e quadrinhos que escolheu viver nos Estados Unidos, em Minneapolis.  É internacionalmente conhecido como roteirista por seu trabalho na série Sandman.  Gaiman não se fixou nos quadrinhos, também escreve roteiros para séries televisivas e atualmente vem se dedicando à carreira literária. 

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1 – Escreva.

2 –  Coloque uma palavra atrás da outra.  Ache a palavra certa, escreva-a.

3 —  Acabe o que você está escrevendo.  Não importa o que seja necessário, chegue ao fim.

4 – Ponha o que escreveu de lado.  Leia como se não tivesse nunca lido antes.  Mostre aos amigos cujas opiniões você respeita e que gostam do tipo de ficção que você escreve.

5 – Lembre-se:  quando alguém diz que há alguma coisa errada ou que não se entusiamaram, eles estão quase sempre certos.  Quando eles dizem a você exatamente o que está errado e mostram como consertar, eles estão quase sempre errados.

6 – Conserte o texto.  Lembre-se de que, mais cedo ou mais tarde, antes de chegar à perfeição, você terá que deixar o texto ir embora e continuar a sua vida, começar a escrever seu próximo texto.  Perfeição é como querer caçar o horizonte.   Vá em frente.

7 – Ria-se de suas próprias piadas.

8 – A principal regra da escrita é que se você faz isso com bastante segurança e confiança, você tem permissão de fazer o que quiser.  (Esta talvez seja uma regra para vida assim como para a escrita.  Mas é verdadeira para a escrita).  Então, escreva sua história como ela precisa ser escrita.  Escreva com honestidade e conte-a da melhor forma possível.  Não sei se há qualquer outra regra.  Nenhuma que seja importante.

Ilustração, Chico Bento estuda ao som de música, Maurício de Sousa.

David Hare

 

Dramaturgo e argumentista inglês, nascido em 1947, em St. Leonards, no Sussex.

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1 – Escreva só quando tiver alguma coisa para dizer.

2 – Nunca siga os conselhos de pessoas para quem o resultado não tem importância.

3 – Estilo é a arte de sair do caminho e não de se colocar nele.

4 – Se ninguém encenar a sua peça, encene você mesmo.  

5 – Piadas são como os pés e as mãos de um pintor.  Talvez não seja o que você pretenda fazer, mas você tem que saber fazê-las no caminho.

6 – O teatro pertence primeiramente ao jovem.

7 – Ninguém chega a consitencia sendo um dramaturgo.

8 —  Nunca vá a um festival de pessoas da TV com pretensões de festival literário.

9 – Nunca reclame de não ser compreendido.  Você escolhe se quer ser compreendido ou não.

10 – As duas palavras mais deprimentes na língua inglesa são: “ficção literária”.

PD James

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Phyllis Dorothy James, OBE, nasceu em Oxford, Inglaterra.  É a Baronesa James de Holland Park, membro da House of Lords (Câmara dos Lordes) e uma escritora britânica de ficção policial que usa o nome P. D. James ao assinar as suas obras.   É reconhecida como uma das escritoras que mais influenciaram o género literário do romance de mistério, sendo especialmente notável a forma como caracteriza as suas personagens e a sua habilidade em construir atmosferas cheias de detalhes.

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1 – Aumente o seu poder com as palavras.  Palavras  são a matéria prima da sua arte.  Quanto maior o seu vocabulário mais efetiva a sua escrita. 

2 – Leia amplamente e com discriminação.   Má escrita é contagiante.

3 – Não só planeje escrever – escreva!  É só escrevendo, e não sonhando a respeito, que você poderá desenvolver o seu próprio estilo.

4 – Escreva aquilo que você precisa escrever, e não o que está na moda no momento, ou  o que você acha que será vendável.

5 – Abra a sua mente para novas experiências, particularmente para o estudo das pessoas.  Nada que acontece com um escritor – feliz ou trágico – é desperdiçado.

FIM DA PRIMEIRA POSTAGEM — PRÓXIMA POSTAGEM CONTINUAÇÃO COM OUTROS AUTORES.





Bolinhas de gude, poema infantil de Maria Eugênia Celso

29 03 2010
 Ilustração Maurício de Sousa.

Bolinhas de gude

                                               Maria Eugênia Celso

Brancas, verdes, rajadinhas,

                               Amarelas,

                As bolinhas

                Vão rolando,

                Vão dançando

                Seja liso ou seja rude

                O chão onde vão rolando

                Lá vão elas, lá vão elas…

                               As bolinhas de gude.

Brincam os meninos com elas,

                               Estão jogando

                No jardim ou nas calçadas,

                As bolinhas vão correndo

                Azuis pardas, amarelas,

                               Rajadinhas,

E tão vivas, tão ligeira, tão alegres e estouvadas

                Que até fica parecendo

                               Que são elas

                                               As bolinhas

Que com eles estão brincando.

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1968.

Maria Eugênia Celso

Maria Eugênia Celso Carneiro de Mendonça (São João Del Rey, Minas Gerais, 1886 – 1963), usou também o pseudônimo Baby-flirt.  Jornalista, escritora, poeta, teatróloga e sufragista.  Funcionária de carreira do Ministério da Educação e Cultura.  Veio de Minas Gerais para Petrópolis, ainda criança,  onde cursou o Colégio Sion.  Em 1920 começou sua carreira jornalística no Jornal do Brasil.  Participou ativamente do “Movimento Feminista”, em favor da emancipação política e social da mulher, dedicou-se ao assistencialismo junto às “Damas da Cruz Verde”, aparecendo como uma das lideranças que criaram a maternidade “Pro-Matre” do Rio de Janeiro.  Batalhou pelo direito das mulheres ao voto. Faleceu em 1963.

Obra:

Em Pleno Sonho, poesia, 1920

Vicentinho, 1925

Fantasias e Matutadas, poesia, 1925

Desdobramento, poesia, 1926

Alma Vária, poesia

Jeunesse, poesia

O Solar Perdido, poesia, 1945

Poemas Completos, 1955

Diário de Ana Lúcia, prosa,

De Relance, crônicas

Ruflos de Asas, teatro

Síntese Biográfica da Princesa Isabel, biografia





A primeira lição, poesia infantil de Zalina Rolim

10 03 2010
Ilustração, Mark Arian

A PRIMEIRA LIÇÃO

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                                                                                Zalina Rolim

RAUL não sabe ler;

É um traquinas, que vive toda a hora

Pela campina em fora

A correr, a correr…

Desde pela manhã,

Salta do leito em fraldas de camisa,

E por tudo desliza

Numa alegria sã.

Nada de livros, não;

Para ele a campina, os passarinhos,

Os assaltos aos ninhos,

A pesca ao ribeirão

E as corridas em pós

Dos bezerros e cabras e novilhas,…

Rasgando ásperas trilhas,

Veloz, veloz, veloz!

Mas, um dia, ele viu

A irmãzita no livro debruçada,

E o som de uma risada

O ouvido lhe feriu.

Que teria, meu Deus!

Aquele grande livro tão pesado,

Ali dentro guardado,

Longe dos olhos seus?

E aproximou-se mais.

Ceci, toda entretida na leitura,

Mostrava, rindo, a alvura

Dos dentinhos iguais.

E o pequenito a olhar,

Mas debalde; no livro, aberto em frente,

Letras, letras, somente…

Raul pôs-se a chorar.

Pois não estava ali

Um livro injusto e mau, que até escondia

A causa da alegria

Da risonha Ceci?

Mas a irmã, tal e qual

Uma bondosa mãe ao filho amado,

Fê-lo assentar-se ao lado

E explicou-lhe o seu mal.

E com tanta razão

Que, abrindo atento o livro misterioso,

Raul pediu, ansioso,

A primeira lição.

Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo — nasceu em Botucatu (SP), em 20 de julho de 1869.

Professora alfabetizadora transferiu-se com a família para São Paulo em 1893.

Educadora, entre 1896 e 1897, exerceu o cargo de vice-inspetora, do Jardim da Infância anexo à Escola Normal Caetano de Campos, em São Paulo.

Escreveu para diversas revistas femininas e jornais como A Mensageira, O Itapetininga, Correio Paulistano e A Província de São Paulo.

Faleceu em São Paulo, em 24 de junho de 1961.

Obras:

1893 – O coração

1897 – Livro das Crianças

1903 – Livro da saudade (organizado nesta data para publicação póstuma)





O Super-Homem, poesia de Reynaldo Valinho Alvarez

8 01 2010

 

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O Super-homem

 

Reynaldo Valinho Alvarez

Abro a janela e solto-me no espaço.

A vida é um pátio aberto em plena escola,

para onde eu vou, com pasta e com sacola,

toda manhã, de sol ou de mormaço.

Queria ser igual ao Homem-Aço,

para voar mais alto do que a mola

que tenho no meu peito ou do que a bola

que impulsiono a correr e sem cansaço.

Na linha das montanhas, me liberto

e eis que percorro todo o espaço aberto,

como no pátio alegre do recreio.

Sou mais que o Super-Homem, pois não tenho

os limites quadrados do desenho,

para conter meu vôo e meu anseio.

Em:  Galope do Tempo, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro: 1997, p. 83.

 

Reynaldo Valinho Alvarez (RJ, RJ, 1931) Formado em Letras Clássicas, Direito, Economia e Administração.  Prêmios da Academia Brasileira de Letras, do Instituto Nacional do Livro, a Fundação Biblioteca Nacional, a Fundação Cultural do Distrito Federal, a União Brasileira de Escritores, a Câmara Brasileira do Livro, a Fundação Catarinense de Cultura, o Conselho Estadual de Cultura do Rio de Janeiro, entre outros.

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Algumas Obras:

Cidade em grito, 1973

Roteiro  solidão, 1979

Canto em si e outros cantos, poesia, 1979

As aventuras de Princês, o príncipe sem medo, infanto-juvenil, 1979, 1982

O Solitário gesto de viver, poesia, 1980, 2000

Solo e subsolo, poesia, 1981

O sol nas entranhas, poesia, 1982

Quem sabe o sim sabe o não, 1982

Monteiro Lobato: escritor e pedagogo, 1982

Calatrava, 1983

Gabrilofe, 1984

Pássaro sem asas, memória do abismo, romance, 1984

O grande guru, 1986

Ladrão que rouba ladrão, 1987, 2002

Um índio caiu do céu, infanto-juvenil, 1988

O dia em que os bichos votaram, 1989, 2004

A incrível peleja do pinto calçudo, 1990, 1996, 2000

O A-Bê-Cê da Nanica, 1994, 2003

O continente e a ilha, poesia, 1995

Chutando estrelas, 1995

Eu digo Rio e sorrio, 1997

Guerra dos humildes, 1997

Galope do tempo, poesia, 1997

A faca pelo fio, poesia, 1999

Das rias ao mar oceano, 2000

O tempo e a pedra, poesia, 2002

Lavradio, 2004

O vôo de Cauã, 2004

Corta a noite um gemido, poesia, 2007

Janeiros com rios, poesia, s/d





A volta do mercado, poema de Carlos Chiacchio

3 01 2010

mercado flutuante2

A volta do mercado

                                  Carlos Chiacchio

Desce a canoa de fio

Pela corrente do rio.

Vem arisca, vem frecheira,

Carregada até a beira.

Fruta, ou peixe, da vazante

Ouve-se o búzio distante.

E o povo corre ao mercado.

Na praia, o remo cravado,

Começa a voz das barganhas.

E, logo, em pilha as piranhas.

Vivos, saltando, ao punhados,

Curimatans e dourados.

Matrinchans, madins, a rodo.

Pocomons, frescos, do lodo.

Numa algazarra de festa

Joga-se n’água o que resta.

Volta a canoa de fio

Contra a corrente do rio.

Volta leve, vai suave,

Peneirando como uma ave.

É uma diaba a canoa…

Pulando de popa a proa.

Em: Poesia Brasileira para a Infância,  Cassiano Nunes e Maria da Silva Brito,  São Paulo, Saraiva:1968, pp 8-9

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 Carlos Chiacchio

Carlos Chiacchio ( Januária, MG, 4 de julho de 1884 – Salvador, BA, 1947)  jornalista, orador, poeta, cronista, crítico literário, membro do IGH-BA, Academia de Letras da Bahia. Nasceu na antiga cidade de Januária, situada entre a Serra da Tapiraçaba e o Rio São Francisco, em Minas Gerais. Filho de Jacome Chiacchio e de D. Patrícia de M. Chiacchio. Estudou como interno  no colégio Spencer em Salvador, quando mostrou ter vocação literária.  Em Salvador, cidade onde mais tarde também se formou em medicina, fez parte da Nova Cruzada, associação cultural fundada em 1901 e extinta em 1916. Foi proprietário de farmácia, funcionário da Estrada de Ferro, e médico de bordo. Por fim, fixou-se mesmo em Salvador, onde ficou até o fim de sua vida. Foi o chefe e animador do grupo modernista na Bahia, em 1928, em torno da revista Arco & Flecha (1928-1929). Foi um dos mais típicos e valorosos intelectuais de província, e muito trabalhou para a difusão da cultura na Bahia, algumas vezes até sacrificando seus interesses pessoais. Sua produção extensa, dela salientando-se, contudo, um livro de poemas Infância e Biocrítica.

 

Obras: 

A Dor, 1910  

A Margem de uma polêmica, 1914  

Biocrítica, 1941  

Canto de marcha, 1942  

Cronologia de Rui, 1949  

Euclides da Cunha, 1940  

Infância, poesia, 1938  

Modernistas e Ultramodernistas, 1951  

Os grifos, 1923  

Paginário de Roberto Correia, 1945  

Presciliano Silva, 1927  

Primavera, 1910, 1941

 





Subúrbio, texto de Lima Barreto do livro CLARA DOS ANJOS

29 12 2009

A lavadeira, 1920

Anita Malfatti ( Brasil 1889-1964)

óleo sobre tela, 37 x 50 cm

Coleção Particular

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Clara dos Anjos de Lima Barreto, escrito em 1922, no ano de morte do autor e só publicado postumamente em 1948, era uma leitura que me faltava.  Graças a amigos astutos, rápidos no empréstimo de obras sensacionais, passei, o período das festas, atracada com diversos livros que valeram a pena ler. Entre eles, esta primorosa obra de um pouco mais que cento e poucas páginas.  Há na narrativa muitas e muitas passagens que retratam bem o carioca e o Rio de Janeiro.  Lima Barreto é mordaz na avaliação do comportamento humano e incomparável nas descrições tanto de personalidades como da paisagem física e emocional da antiga capital do Brasil.  Há uma descrição, no capítulo VII , dos subúrbios cariocas que vale a leitura mesmo que fora do contexto da obra.  Hoje, 90 anos depois da publicação de Clara dos Anjos, os subúrbios cariocas já não lembram tanto a descrição que se segue.  Mas ainda encontramos esta mesma realidade mais adiante, nas comunidades carentes que seguem a beira da Via Dutra, ou até mesmo nos pontos mais altos dos morros cariocas.  O texto parcial se encontra abaixo.  As fotos que a acompanham foram retiradas do Flicker do contribuinte Antolog.

CAPÍTULO VII

 

O subúrbio propriamente dito é uma longa faixa de terra que se alonga, desde o Rocha ou São Francisco Xavier, até Sapopemba, tendo para eixo a linha férrea da Central. 

Para os lados, não se aprofunda muito, sobretudo quando encontra colinas e montanhas que tenham a sua expansão; mas, assim mesmo, o subúrbio continua invadindo, com as suas azinhagas e trilhos, charnecas e morrotes.  Passamos por um lugar que supomos deserto, e olhamos, por acaso, o fundo de uma grota, donde brotam ainda árvores de capoeira, lá damos com um casebre tosco, que, para ser alcançado, torna-se preciso descer uma ladeirota quase a prumo; andamos mais e levantamos o olhar para um canto do horizonte e lá vemos, em cima de uma elevação, um ou mais barracões, para os quais não topamos logo da primeira vista com a ladeira de acesso. 

Há casas, casinhas,  casebres, barracões, choças, por toda a parte onde se possa fincar quatro estacas de pau e uni-las por paredes duvidosas. Todo o material para estas construções serve: são latas de fósforos distendidas, telhas velhas, folhas de zinco, e, para as nervuras das paredes de taipa, o bambu, que não é barato.

 

Estação de Trem de Marechal Hermes, RJ.  Foto: Antolog/Flicker

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Há verdadeiros aldeamentos dessas barracas, nas coroas dos morros, que as árvores e os bambuais escondem aos olhos dos transeuntes.  Nelas, há sempre uma bica para todos os habitantes e nenhuma espécie de esgoto.  Toda essa população pobríssima, vive sob a ameaça constante da varíola e, quando ela dá para aquelas bandas, é um verdadeiro flagelo.

Afastando-nos do eixo da zona suburbana, logo o aspecto das ruas muda.  Não há mais gradis de ferros, nem casas com tendências aristocráticas: há o barracão, a choça e uma ou outra casa que tal.  Tudo isto muito espaçado e separado; entretanto, encontram-se por vezes, “correres” de pequenas casas, de duas janelas e porta ao centro, formando o que chamamos “avenida”.

As ruas distantes da linha da Central vivem cheias de tabuleiros de grama e de capim, que são aproveitados pelas famílias para coradouro.  De manhã até a noite, ficam povoadas de toda espécie de pequenos animais domésticos: galinhas, patos, marrecos, cabritos, carneiros e porcos, sem esquecer os cães, que, com todos aqueles, fraternizam.

Quando chega a tardinha, de cada portão se ouve o “toque de reunir”: “Mimoso”!  É um bode que a dona chama.  “Sereia”!  É uma leitoa que uma criança faz entrar em casa; e assim por diante.

Carneiros, cabritos, marrecos, galinhas, perus – tudo entra pela porta principal, atravessa a casa toda e vai se recolher ao quintalejo aos fundos.

Se acontece faltar um dos seus “bichos”, a dona da casa faz um barulho de todos os diabos, descompõe os filhos e filhas, atribui o furto à vizinha tal.  Esta vem a saber, e eis um bate-boca formado, que às vezes desanda em pugilato entre os maridos.

 

 Estação de Madureira, Rio de Janeiro.  Foto: Flicker/Antolog

A gente pobre é difícil de se suportar mutuamente; por qualquer ninharia, encontrando ponto de honra, brigando, especialmente as mulheres.

O estado de irritabilidade, provindo das constantes dificuldades por que passam, a incapacidade de encontrar fora de seu habitual campo de visão motivo para explicar o seu mal-estar, fazem-nas descarregar as suas queixas, em forma de desaforos velados, nas vizinhas com que antipatizam por lhes parecer mais felizes.  Todas elas se têm na mais alta conta, provindas da mais alta prosápia; mas são pobríssimas e necessitadas.  Uma diferença acidental de cor é causa para que possa se julgar superior à vizinha; o fato do marido desta ganhar mais do que o daquela é outro.  Um “belchior” de mesquinharias açula-lhes a vaidade e alimenta-lhes o despeito.

Em geral essas brigas duram pouco.  Lá vem uma moléstia num dos pequenos desta, e logo aquela a socorre com os seus vidros de homeopatia.

Por esse intrincado labirinto de ruas e bibocas é que vive uma grande parte da população da cidade, a cuja existência o governo fecha os olhos, embora lhes cobre atrozes impostos, empregados em obras inúteis e suntuárias noutros pontos do Rio de Janeiro.

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Afonso Henriques de Lima Barreto (Rio de Janeiro, 13 de maio de 1881 – Rio de Janeiro, 1 de Novembro de 1922), jornalista e escritor.

Obras:

1905 – O Subterrâneo do Morro do Castelo

1909 – Recordações do Escrivão Isaías Caminha

1911 – O Homem que Sabia Javanês e outros contos

1915 – Triste Fim de Policarpo Quaresma

1919 – Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá

1920 – Cemitério dos Vivos

1920 – Histórias e Sonhos

1923 – Os Bruzundangas

1948 – Clara dos Anjos (póstumo)

1952 – Outras Histórias e Contos Argelinos

1953 – Coisas do Reino de Jambom