Os três talismãs, texto de Teodoro de Morais

4 11 2013

pai e filhosIlustração sem autoria, do livro “At Work and Play”, Merton-McCall Readers: 1937.

Os três talismãs

Teodoro de Moraes

“– Que é preciso para aprender? perguntou um filho ao pai.

– Para aprender, para saber e para vencer, respondeu o pai, é preciso buscar os três talismãs: a alavanca, a chave e o facho.

– E onde encontrá-los? interroga o filho.

– Dentro de ti mesmo, explica o pai. Os três talismãs estão em teu poder e serás poderoso, se quiseres fazer uso deles.

– Não compreendo, diz o filho, cada vez mais intrigado. Que alavanca é essa?

– A tua vontade. É preciso querer, é preciso remover obstáculos para aprender.

– E a chave?

– O teu trabalho. É preciso esforço para dar volta à chave e abrir o palácio do saber.

– E o facho?

– A tua atenção. É preciso luz, muita luz, para iluminar o palácio. Só assim poderás ver com clareza e descobrir a verdade, que vence a ignorância.”

 

[Exemplo de conversação no texto]

Em: Flor do Lácio,[antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário)p. 158.

Theodoro Jeronymo Rodrigues de Moraes (Brasil, 1877-1956)Professor paulista. Formado pela Escola Normal Secundária de São Paulo, em 1906.

Obras:

A leitura analítica, 1909

Como ensinar leitura e linguagem nos diversos anos do curso preliminar, 1911

 Meu livro: primeiras leituras de acordo com o método analítico, 1909

 Meu livro: segundas leituras de acordo com o método analítico, 1910

Cartilha do operário: para o ensino da leitura…, 1918 e 1924

 Sei ler: leituras intermediárias, 1928

 Sei ler: primeiro livro, 1928

Sei ler: segundo livro , 1930





Na boca do povo: escolha de provérbio popular

28 10 2013

barco, Franklyn M. BranleyIlustração, Frank M. Branley.

“Levanta tua vela dez centímetros e ganharás um metro de vento!”





Música e sucesso de mãos dadas

19 10 2013

Cláudio Dantas ( Brasil, contemporâneo) Sonata em sol, 2010, ost, 70 x 100Sonata em sol, 2010

Cláudio Dantas (Brasil, 1959)

óleo sobre tela, 70 x 100 cm

No fim de semana passado  li o artigo Is music the key to success? de Joanne Lipman no The New York Times, onde a autora relata um fato curioso: muitas das pessoas de sucesso nos EUA tiveram anos e anos de dedicação à música.  E mesmo que não tenham levado adiante a profissão de músico — os exemplos são muitos: Condolezza Rice, Allan Greenspan, Bruce Kovner entre outros – essas pessoas se  referem à educação musical como importante em suas vidas profissionais.

Levando em consideração as  diferentes interpretações de  sucesso, gostaria de me adicionar à lista das pessoas que sentem que a educação musical foi importante no desenvolvimento profissional. Tenho consciência, já há muito tempo, que por menores que sejam as minhas conquistas pessoais, todas foram, até certo ponto, conseqüência de dois treinos que recebi muito cedo: o estudo de uma língua estrangeira, no meu caso o francês, que comecei a estudar aos 9-10 anos; e os anos de aprendizado do piano, começados mais ou menos aos 11 anos, o que já era considerado ‘tarde’ quisesse eu ter me dedicado a uma carreira musical como pianista.

O primeiro ensinamento que esses  cursos  extra-curriculares me deram foi: disciplina, disciplina, disciplina.  Segundo: repetir, repetir, repetir até fazer certo.  Depois, “errar é aprender”. E voltar a fazer a mesma coisa, inúmeras vezes, e uma vez mais ainda quando a língua ou os dedos já estão cansados, quando a exaustão parece querer nos dominar,  até  fazer certo.  Isso foi válido para o francês e certamente para o piano.

Ingres Speltri - Violinos - Óleo sobre madeira - 50 x 70 cm - 2008Violinos, 1998

Ingres Speltri (Brasil, 1940)

óleo sobre madeira, 50 x 70 cm

O francês se tornou a minha segunda língua e só não se impôs mais fortemente, porque fui fazer todo o meu treino profissional como historiadora da arte nos Estados Unidos.   Mas o piano foi mais do que um hobby, muito mais do que uma complementação na educação, ele foi meu amigo do peito na adolescência, lugar onde derramei as lágrimas de frustração e de alegria como jovem rebelde. Ambos os treinos vieram a ser essenciais na minha vida adulta.  Fui fazer a faculdade de letras em francês que abandonei para seguir história da arte, onde eventualmente acabei envolvida com diversos períodos da arte belga, cultura parcialmente francófona.

O piano permaneceu como uma enorme ferramenta para a introspecção.  Diferente dos que se dedicaram por um pouco mais de dez anos de aprendizado, nunca cheguei a ser uma grande intérprete.  De todos os compositores para tocar prefiro Bach. De longe.  Porque faz sentido. É lógico.  Ele acerta os meus ponteiros internos.

Mas – e agora é que vem o ponto estranho do meu relacionamento com o piano – sempre me dediquei mais aos exercícios de escalas do que a qualquer outro tema. Poderia e posso passar umas quatro horas ao piano aumentando as dificuldades a cada volta, sem me aborrecer [certamente devo frustrar os que por acaso me ouvem]. Não sou uma pessoa dedicada à música como performer;  sou uma pessoa dedicada ao encantamento  provocado pela repetição de uma escala, com variações cada vez mais difíceis, quando meus dedos mecanicamente repetem os movimentos ao correr do teclado,  repetidamente, incessantemente.  Há cinco anos pratico ioga e a meditação.  O resultado é semelhante. Não é igual.  Acredito que o efeito dessa disciplina, da repetição do som e do exercício das mãos, seja como rezar o terço, o rosário, em voz alta, nas igrejas.  Há aquela magia do som repetido infinitamente,  a muitas vozes, um coro ritmado e mecânico, que eleva a alma, e a leva à outra realidade, que não é desse mundo, que não é de outro mundo, é entre – mundos.  Preciso desse lugar para equilibrar o meu interior, minhas emoções, diariamente.





O elefantinho, poesia infantil de Vinícius de Moraes

14 10 2013

elefante na janelaDesconheço a autoria dessa ilustração.  Se você conhece o autor, me diga. Obrigada.

O elefantinho

Vinicius de Moraes

Onde vais, elefantinho

Correndo pelo caminho

Assim tão desconsolado?

Andas perdido, bichinho

Espetaste o pé no espinho

Que sentes, pobre coitado?

– Estou com um medo danado

Encontrei um passarinho!

Em: A arca de Noé:poemas infantis, Vinícius de Moraes, Companhia das Letrinhas, São Paulo:1991





Um galgo, poema de José Paulo Moreira da Fonseca

23 09 2013

Mulher com cachorro galgo, ilustração da década de 1920, sem autoria.

Um galgo

José Paulo Moreira da Fonseca

Mesmo quando imóvel, vemo-lo correr

Como se aquelas formas sonhassem

Com uma inaccessível distância.

Em: Antologia Poética, José Paulo M. F., Rio de Janeiro, Leitura: 1968





Minutos de sabedoria — Érico Veríssimo

17 09 2013

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAtraída pela luz, 2007

Alfredo Rodríguez (México, 1954)

óleo, 36 x 28 cm

www.alfredoartist.com

“A gente foge da solidão quando tem medo dos próprios pensamentos.”

everissimo

 

 

 

 

Érico Veríssimo





Fábula: O macaco e o gato, texto de Monteiro Lobato

24 08 2013

monkey-and-catIlustração inspirada no trabalho de Marcus Gheeraerts, o velho (Bélgica, c. 1520- c. 1590)

O macaco e o gato

Monteiro Lobato

Simão, o macaco, e Bichano, o gato, moram juntos na mesma casa. E pintam o sete. Um furta coisas, remexe gavetas, esconde tesourinhas, atormenta o papagaio; outra arranha os tapetes, esfiapa as almofadas e bebe o leite das crianças.

Mas, apesar de amigos e sócios, o macaco sabe agir com tal maromba que é quem sai ganhando sempre.

Foi assim no caso das castanhas.

A cozinheira pusera a assar nas brasas umas castanhas e fora à horta colher temperos.  Vendo a cozinha vazia, os dois malandros se aproximaram. Disse o macaco:

— Amigo Bichano, você que tem uma pata jeitosa, tire as castanhas do fogo.

O gato não se fez insistir e com muita arte começou a tirar as castanhas.

— Pronto, uma…

— Agora aquela lá… Isso. Agora aquela gorducha… Isso. E mais a da esquerda, que estalou…

O gato as tirava, mas quem as comia, gulosamente, piscando o olho, era o macaco…

De repente, eis que surge a cozinheira, furiosa, de vara na mão.

— Espere aí, diabada!…

Os dois gatunos sumiram-se aos pinotes.

— Boa peça, hem? — disse o macaco lá longe.

O gato suspirou:

— Para você, que comeu as castanhas. Para mim foi péssima, pois arrisquei o pelo e fiquei em jejum, sem saber que gosto tem uma castanha assada…

O bom-bocado não é para quem o faz, é para quem o come.

Em: Fábulas, Monteiro Lobato, São Paulo, Ed. Brasiliense:1966, 20ª edição, pp 97-98.

José Bento Monteiro Lobato, (Taubaté, SP, 1882 – 1948).  Escritor, contista; dedicou-se à literatura infantil. Foi um dos fundadores da Companhia Editora Nacional. Chamava-se José Renato Monteiro Lobato e alterou o nome posteriormente para José Bento.

Obras:

A Barca de Gleyre, 1944

A Caçada da Onça, 1924

A ceia dos acusados, 1936

A Chave do Tamanho, 1942

A Correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto, 1955

A Epopéia Americana, 1940

A Menina do Narizinho Arrebitado, 1924

Alice no País do Espelho, 1933

América, 1932

Aritmética da Emília, 1935

As caçadas de Pedrinho, 1933

Aventuras de Hans Staden, 1927

Caçada da Onça, 1925

Cidades Mortas, 1919

Contos Leves, 1935

Contos Pesados, 1940

Conversa entre Amigos, 1986

D. Quixote das crianças, 1936

Emília no País da Gramática, 1934

Escândalo do Petróleo, 1936

Fábulas, 1922

Fábulas de Narizinho, 1923

Ferro, 1931

Filosofia da vida, 1937

Formação da mentalidade, 1940

Geografia de Dona Benta, 1935

História da civilização, 1946

História da filosofia, 1935

História da literatura mundial, 1941

História das Invenções, 1935

História do Mundo para crianças, 1933

Histórias de Tia Nastácia, 1937

How Henry Ford is Regarded in Brazil, 1926

Idéias de Jeca Tatu, 1919

Jeca-Tatuzinho, 1925

Lucia, ou a Menina de Narizinho Arrebitado, 1921

Memórias de Emília, 1936

Mister Slang e o Brasil, 1927

Mundo da Lua, 1923

Na Antevéspera, 1933

Narizinho Arrebitado, 1923

Negrinha, 1920

Novas Reinações de Narizinho, 1933

O Choque das Raças ou O Presidente Negro, 1926

O Garimpeiro do Rio das Garças, 1930

O livro da jangal, 1941

O Macaco que Se Fez Homem, 1923

O Marquês de Rabicó, 1922

O Minotauro, 1939

O pequeno César, 1935

O Picapau Amarelo, 1939

O pó de pirlimpimpim, 1931

O Poço do Visconde, 1937

O presidente negro, 1926

O Saci, 1918

Onda Verde, 1923

Os Doze Trabalhos de Hércules,  1944

Os grandes pensadores, 1939

Os Negros, 1924

Prefácios e Entrevistas, 1946

Problema Vital, 1918

Reforma da Natureza, 1941

Reinações de Narizinho, 1931

Serões de Dona Benta,  1937

Urupês, 1918

Viagem ao Céu, 1932

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Esta fábula de Monteiro Lobato é uma das centenas de variações feitas através dos séculos da fábulas de Esopo, escritor grego, que viveu no século VI AC.  Suas fábulas foram reunidas e atribuídas a ele, por Demétrius em 325 AC.  Desde então tornaram-se clássicos da cultura ocidental e muitos escritores como Monteiro Lobato, re-escreveram e ficaram famosos por recriarem estas histórias, o que mostra a universalidade dos textos, das emoções descritas e da moral neles exemplificada.  Entre os mais famosos escritores que recriaram as Fábulas de Esopo estão Fedro e La Fontaine.

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Palavras para lembrar — Thomas Carlyle

17 08 2013

Nello Iovene, (Itália, 1935) O estudante, 1970,50 x 60O estudante, 1970

Nello Iovene (Itália, 1935)

óleo sobre tela, 50 x 60 cm

“A melhor universidade é uma boa coleção de livros”.

Thomas Carlyle





Por que o brasileiro está longe dos livros?

10 08 2013

Cyril Edward Power, (1872-1951)Tube, 1934, linocut,“Tube” [metrô], 1934

Cyrill Edward Power (Inglaterra, 1871-1951)

gravura em linóleo

Então, do Pará ao Rio Grande do Sul, o brasileiro lê em média 6 minutos por dia. É uma constatação devastadora.  A pesquisa, feita pelo IBGE, como noticiou o jornal O Globo ontem, mostra que lemos 5 vezes menos por dia do que os americanos durante a semana e 6 vezes menos do que eles durante o fim de semana.  Essa leitura inclui qualquer leitura. Não estamos falando simplesmente de romances, de entretenimento.  Dedicamos muito pouco tempo à leitura de qualquer coisa: jornal, texto científico, romance, texto histórico, matemático, poesia, ciências naturais, físicas, qualquer coisa, provavelmente até livros de culinária.

Agora, como é que queremos ir para frente?  Progredir?  Tornar este país competitivo?

Vejo com frequência nas redes sociais um enorme ressentimento contra os nossos vizinhos do norte, os americanos porque “querem dominar o mundo” culturalmente.  Mas, eles pelo menos se dedicam a aprender, a ler, a explandir os conhecimentos.  Domínio cultural, através de filmes, de livros, de programas de televisão acontece mesmo.  É subproduto de um país que se dedicou a uma educação generalizada para toda a população, de uma cultura que se dedicou ao estudo e à leitura.  De um país que dá todo o apoio possível à criatividade quer ela seja científica ou não.  Somos levados no cabresto por eles, sim, culturalmente.  Mas para lutar contra esse domínio, não adianta sair às ruas, nem pedir dinheiro para o governo bancar projetos culturais.  Porque os brasileiros nem sequer sabem da importância desses projetos.  Não sabem porque não lêem.  E niguém nasceu sabendo. E a única maneira de se complementar o que se conhece, o que se sabe é lendo.

Não é culpa da internet.  Hoje para se usar a internet, para se construir uma base de conhecimento que possa levar ao manuseio da internet, da cultura virtual, não se pode ser unicamente um usuário, um visitante das páginas sociais e bater papo com os amigos.  É um erro pensar que visitar os amigos nas redes sociais é dominar a internet, que é progresso.  Para que possamos realmente fazer uma contribuição para o mundo virtual, é necessário saber como virar esse conhecimento técnico a nosso favor.  E no entanto, sem ler, não chegaremos lá.

Não lemos. Portanto não expandimos os nossos cérebros, não aumentamos o nosso conhecimento pragmático ou emocional.  Estamos nos tornando, em passos rápidos, uma cultura de zumbis, de não pensadores.  Em compensação gostamos de vegetar em frente da televisão. 85% do tempo livre dos brasileiros é gasto em frente da televisão. Deixamos assim que outros pensem por nós.

Há horas que dá muito desânimo.

Fonte: Brasileiro passa muito tempo longe dos livros, O GLOBO





Na ribeira deste rio, poema de Fernando Pessoa

9 08 2013

Archimedes Dutra,Pescador na beira do rio,1932,ost, 27 x 35 cmPescador na beira do rio, 1932

Archimedes Dutra (Brasil, 1908-1983)

óleo sobre madeira, 27 x 35 cm

Poema

Fernando Pessoa

Na ribeira deste rio

ou na ribeira daquele

passam meus dias a fio.

Nada me impede, me impele,

me dá calor ou dá frio.

Vou vendo o que o rio faz

quando o rio não faz nada.

Vejo os rastros que ele traz,

numa sequência arrastada,

do que ficou para trás.

Vou vendo e vou meditando,

nem bem no rio que passa

mas só no que estou pensando,

porque o bem dele é que faça

eu não ver que vai passando.

Vou na ribeira do rio

que está aqui ou ali,

e do seu curso me fio,

porque, se o vi ou não vi,

ele passa e eu confio.

Em: Antologia poética para a infância e a juventude, Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro: 1961, p. 150-151.