Verão, poesia infantil de Zilda Maria Vasconcellos

1 02 2010
Ilustração de Meredith Johnson

Verão

                              Zilda Maria Vasconcellos

 

Bem na pontinha dos pés,

sobre a erva do caminho,

com os sapatos na mão,

fui caminhando sozinho.

Belo dia de verão!

Tudo parado, quietinho…

perfumes para todo lado,

e um gostoso calorzinho.

O sol bateu em meu rosto

e a leve aragem do vento.

Fui caminhando com gosto

num passo lento, bem lento.

Demorei a encontrar

as minhas vespas amigas,

as cigarras a cantar,

as diligentes formigas.

Então, no grande silêncio,

uma formiga ouvi:

Precisamos trabalhar,

O outono está quase aí.

Já vão-se abrir as escolas,

Irás estudar também.

Adeus,  meu bom amiguinho,

até o verão que vem!

Em: O mundo da criança, vol. 1: poemas e rimas,  Rio de Janeiro, Editora Delta: 1971





Quadrinha sobre o trabalho

25 01 2010

trabalhar vc está louco

Ilustração, Walt Disney.

Se tens à frente uma estrada,

não passes por um atalho,

que a vida só é gozada

à custa de muito trabalho.

(Luiz Evandro Innocêncio)





Recordações do Theatro Lyrico, no Rio de Janeiro, texto de Ivna Thaumaturgo

19 01 2010

 Antigo Theatro Lyrico no Rio de Janeiro.

Feito no Império, o Theatro Lyrico tinha a graça e a beleza adequada à função.  Acústica perfeita, harmonia perfeita.  Nos intervalos das aulas eu ia explorar todos os seus recantos e o conheci do avesso, quando não tinha ninguém, e isso era fantástico.  Sabia como entrar no palco diretamente dos camarotes.  Conhecia todos os seus intricados caminhos.  Era um labirinto de madeira, uma jóia.  As cadeiras da platéia, estilo império, traziam a numeração em metal encravada numa placa de madrepérola e eram de jacarandá e palhinha.  Confortáveis e sóbrias, a princípio eram cadeiras cativas.  Gostava de ir ao palco depois de terminado o espetáculo.  Fiz isso muitas vezes quando os Cossacos do Don se apresentaram e porque eles tinham o magnetismo selvagem da alma russa, atraíam as mulheres que iam assediá-los – eu, entre elas, com uma diferença de idade que transformava qualquer aproximação em amizade carinhosa.  Conversava com eles por mímica e lhes pedia que me ensinassem passos da dança.  Levava-lhes minhas aquarelas nas quais eles apareciam fazendo malabarismos, passos de danças guerreiras, acrobacias que ficavam muito aquém das que faziam no palco.  Eram,  belos, leves, ligeiros, imponderáveis.  Eu havia lido Os cossacos de Tolstói  e eles eram o que Tolstói havia descrito: tinham a sensualidade à flor da pele – sofrimento e prazer viviam neles ancestralmente juntos, confundindo amor e ódio, êxtase e agonia.  Pedi a alguém que lhes perguntasse –  Como dançavam tão bem?  — Eles responderam:  — Dançamos com “raiva”.  Era uma raiva diferente, uma explosão de virilidade, garra, grito tribal, paroxismo do sexo.  Havia a “dança dos punhais”, em que ao som da música em coro iam lançando com a boca, uma a um, enormes punhais ou adagas que se fixavam no chão, em círculo, numa precisão assustadora. 

Cossacos do Don

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O entusiasmo das moças que freqüentavam as vesperais despertou uma reação histérica nas autoridades e, de repente, foi proibida a presença de mulheres no palco.  Ignorei essa ordem, talvez por me considerar de certa forma, “dona da casa”.  Continuei lá,  no meio deles, interessados a me ensinar a letra dos “Barqueiros do Volga”, canção admirável. 

“Ei uh… niem…

Ei uh…niem…

E…ste…raaazik

Eestedara…”

De repente vi, à minha frente, o professor Guanabarino e sua noiva, d. Lalita.  O mestre estava irado.  Passou-me um pito e exigiu que eu saísse de lá.  Fiquei indignada, revoltada, envergonhada, mas tive de obedecer.  Os russos, surpresos e constrangidos,  gritaram para mim:  Dasvidania!, que quer dizer Adeus.

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Arturo Toscanini

Seria admirável se alguém escrevesse a história do Theatro Lyrico, nomeando os grandes artistas que por lá passaram.  Companhias líricas, cantoras famosas, tenores, baixos, barítonos, pianistas, violinistas, grandes orquestras…  Toscanini virou maestro nesse teatro, quando os fados o obrigaram a substituir o maestro que adoeceu no dia da estréia de um espetáculo de gala.  Eleonora Duse, Sara Bernhardt, e sua célebre frase aos estudantes que a vaiaram: “ Vous m’avez jugé avant de m’avoir connue.”  [Vocês me julgaram antes de me conhecerem]  E o teatro veio abaixo com os aplausos dos que a vaiaram.  Mas, aos poucos, as grandes temporadas foram se deslocando para o Teatro Municipal.  O Lyrico, abandonado, passou a ser o lugar preferido para a exibição de diversos tipos de circos e imensas estruturas para trapezistas eram armadas sobre a platéia…  A desmoralização terminou com a demolição da “jóia de madeira” e o terreno vazio, sem o menor vestígio de gloriosas noites que se prolongavam até altas madrugadas, virou local de estacionamento de veículos.  Que país admirável!  O teatro estava “atravancando” um espaço incomensurável!

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Eleonora Duse

 

O interior do Theatro Lyrico, Rio de Janeiro.

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Em:  A família de guizos: história e memórias, de Ivna Thaumaturgo, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira: 1997; p.73-75.

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A companhia de canto e dança Cossacos do Don, ainda se apresenta hoje em dia nos maiores palcos do mundo.  Coloco aqui abaixo um vídeo de Cossacos do Don que achei no YouTube. 

 







Imagem de leitura — Keisai Eisen

11 01 2010

Senhora oriental lendo à luz do luar

Keisai Eisen (Japão, 1790-1848)

xilogravura policromada

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 Keisai Eisen – ( Edo [Tokyo]1790-1848)  Nascido na família Ikeda, filho de um calígrafo e poeta, que aparentemente aprendeu com seu pai a maneira de usar o pincel.  Já bem jovem foi instruído seu pai demonstrou grande confiança num futuro brilhante para o filho colocando-o para estudar o estilo Kano com o pintor Hakkerisai.   Logo depois da morte de seu pai, Eisen procurou um padrinho no pintor Kikugawa Eizan, que era exemplar na pintura das belezas bijin, e com quem Eisen treinou nno estilo ukiyo-e.    Em 1820, já se manifesta com estilo próprio.   Com Kunisada e Kuiyoshi, Eisen é considerado um dos maiores artistas do estilo ukiyo-e  do período “decadente”.





Quadrinha sobre a aranha e sua teia

10 01 2010

aranha

A teia se expande e estica

porque a aranha o fio tece.

O milagre não se explica

e simplesmente acontece.

(José Augusto Fernandes)





Quadrinha da mucama

7 01 2010

 madonnadeleite, canoto ( Brasil 1985),ost, 80x100Madona do leite

Canato ( SP, Brasil, 1985)

Óleo sobre tela,  80 x 100 cm

www.canato.com.br

A cantiga da mucama,

que embalava o sinhozinho,

tinha mimo de quem ama,

de quem sofre tinha espinho.

 

(Margarida Ottoni)





Quadrinha para a infância: o sentido da vida

5 01 2010

menino com passarinhos

Não creio ser necessário

explicar meu ideal…

—  Por que é que canta o canário?

—  Por que é que voa o pardal?

( Moysés Augusto Torres)





Quadrinha sobre a medida do amor!

4 01 2010

peso

Ilustração, Maurício de Sousa.

Por que será que, na vida,

por que será, meu senhor,

não foi criada a medida

capaz de medir o amor?

(Luiz Evandro Innocêncio)





A volta do mercado, poema de Carlos Chiacchio

3 01 2010

mercado flutuante2

A volta do mercado

                                  Carlos Chiacchio

Desce a canoa de fio

Pela corrente do rio.

Vem arisca, vem frecheira,

Carregada até a beira.

Fruta, ou peixe, da vazante

Ouve-se o búzio distante.

E o povo corre ao mercado.

Na praia, o remo cravado,

Começa a voz das barganhas.

E, logo, em pilha as piranhas.

Vivos, saltando, ao punhados,

Curimatans e dourados.

Matrinchans, madins, a rodo.

Pocomons, frescos, do lodo.

Numa algazarra de festa

Joga-se n’água o que resta.

Volta a canoa de fio

Contra a corrente do rio.

Volta leve, vai suave,

Peneirando como uma ave.

É uma diaba a canoa…

Pulando de popa a proa.

Em: Poesia Brasileira para a Infância,  Cassiano Nunes e Maria da Silva Brito,  São Paulo, Saraiva:1968, pp 8-9

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 Carlos Chiacchio

Carlos Chiacchio ( Januária, MG, 4 de julho de 1884 – Salvador, BA, 1947)  jornalista, orador, poeta, cronista, crítico literário, membro do IGH-BA, Academia de Letras da Bahia. Nasceu na antiga cidade de Januária, situada entre a Serra da Tapiraçaba e o Rio São Francisco, em Minas Gerais. Filho de Jacome Chiacchio e de D. Patrícia de M. Chiacchio. Estudou como interno  no colégio Spencer em Salvador, quando mostrou ter vocação literária.  Em Salvador, cidade onde mais tarde também se formou em medicina, fez parte da Nova Cruzada, associação cultural fundada em 1901 e extinta em 1916. Foi proprietário de farmácia, funcionário da Estrada de Ferro, e médico de bordo. Por fim, fixou-se mesmo em Salvador, onde ficou até o fim de sua vida. Foi o chefe e animador do grupo modernista na Bahia, em 1928, em torno da revista Arco & Flecha (1928-1929). Foi um dos mais típicos e valorosos intelectuais de província, e muito trabalhou para a difusão da cultura na Bahia, algumas vezes até sacrificando seus interesses pessoais. Sua produção extensa, dela salientando-se, contudo, um livro de poemas Infância e Biocrítica.

 

Obras: 

A Dor, 1910  

A Margem de uma polêmica, 1914  

Biocrítica, 1941  

Canto de marcha, 1942  

Cronologia de Rui, 1949  

Euclides da Cunha, 1940  

Infância, poesia, 1938  

Modernistas e Ultramodernistas, 1951  

Os grifos, 1923  

Paginário de Roberto Correia, 1945  

Presciliano Silva, 1927  

Primavera, 1910, 1941

 





Quadrinha filosófica

3 01 2010

choro 6

Ilustração, Maurício de Sousa.

Cada um tem sua sorte

pelo destino traçado,

mas não há ninguém tão forte

que nunca tenha chorado.

(Rômulo Cavalcante Mota)