Feito no Império, o Theatro Lyrico tinha a graça e a beleza adequada à função. Acústica perfeita, harmonia perfeita. Nos intervalos das aulas eu ia explorar todos os seus recantos e o conheci do avesso, quando não tinha ninguém, e isso era fantástico. Sabia como entrar no palco diretamente dos camarotes. Conhecia todos os seus intricados caminhos. Era um labirinto de madeira, uma jóia. As cadeiras da platéia, estilo império, traziam a numeração em metal encravada numa placa de madrepérola e eram de jacarandá e palhinha. Confortáveis e sóbrias, a princípio eram cadeiras cativas. Gostava de ir ao palco depois de terminado o espetáculo. Fiz isso muitas vezes quando os Cossacos do Don se apresentaram e porque eles tinham o magnetismo selvagem da alma russa, atraíam as mulheres que iam assediá-los – eu, entre elas, com uma diferença de idade que transformava qualquer aproximação em amizade carinhosa. Conversava com eles por mímica e lhes pedia que me ensinassem passos da dança. Levava-lhes minhas aquarelas nas quais eles apareciam fazendo malabarismos, passos de danças guerreiras, acrobacias que ficavam muito aquém das que faziam no palco. Eram, belos, leves, ligeiros, imponderáveis. Eu havia lido Os cossacos de Tolstói e eles eram o que Tolstói havia descrito: tinham a sensualidade à flor da pele – sofrimento e prazer viviam neles ancestralmente juntos, confundindo amor e ódio, êxtase e agonia. Pedi a alguém que lhes perguntasse – Como dançavam tão bem? — Eles responderam: — Dançamos com “raiva”. Era uma raiva diferente, uma explosão de virilidade, garra, grito tribal, paroxismo do sexo. Havia a “dança dos punhais”, em que ao som da música em coro iam lançando com a boca, uma a um, enormes punhais ou adagas que se fixavam no chão, em círculo, numa precisão assustadora.
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Cossacos do Don
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O entusiasmo das moças que freqüentavam as vesperais despertou uma reação histérica nas autoridades e, de repente, foi proibida a presença de mulheres no palco. Ignorei essa ordem, talvez por me considerar de certa forma, “dona da casa”. Continuei lá, no meio deles, interessados a me ensinar a letra dos “Barqueiros do Volga”, canção admirável.
“Ei uh… niem…
Ei uh…niem…
E…ste…raaazik
Eestedara…”
De repente vi, à minha frente, o professor Guanabarino e sua noiva, d. Lalita. O mestre estava irado. Passou-me um pito e exigiu que eu saísse de lá. Fiquei indignada, revoltada, envergonhada, mas tive de obedecer. Os russos, surpresos e constrangidos, gritaram para mim: Dasvidania!, que quer dizer Adeus.
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Arturo Toscanini
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Seria admirável se alguém escrevesse a história do Theatro Lyrico, nomeando os grandes artistas que por lá passaram. Companhias líricas, cantoras famosas, tenores, baixos, barítonos, pianistas, violinistas, grandes orquestras… Toscanini virou maestro nesse teatro, quando os fados o obrigaram a substituir o maestro que adoeceu no dia da estréia de um espetáculo de gala. Eleonora Duse, Sara Bernhardt, e sua célebre frase aos estudantes que a vaiaram: “ Vous m’avez jugé avant de m’avoir connue.” [Vocês me julgaram antes de me conhecerem] E o teatro veio abaixo com os aplausos dos que a vaiaram. Mas, aos poucos, as grandes temporadas foram se deslocando para o Teatro Municipal. O Lyrico, abandonado, passou a ser o lugar preferido para a exibição de diversos tipos de circos e imensas estruturas para trapezistas eram armadas sobre a platéia… A desmoralização terminou com a demolição da “jóia de madeira” e o terreno vazio, sem o menor vestígio de gloriosas noites que se prolongavam até altas madrugadas, virou local de estacionamento de veículos. Que país admirável! O teatro estava “atravancando” um espaço incomensurável!
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Eleonora Duse
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O interior do Theatro Lyrico, Rio de Janeiro.
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Em: A família de guizos: história e memórias, de Ivna Thaumaturgo, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira: 1997; p.73-75.
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A companhia de canto e dança Cossacos do Don, ainda se apresenta hoje em dia nos maiores palcos do mundo. Coloco aqui abaixo um vídeo de Cossacos do Don que achei no YouTube.
Keisai Eisen – ( Edo [Tokyo]1790-1848) Nascido na família Ikeda, filho de um calígrafo e poeta, que aparentemente aprendeu com seu pai a maneira de usar o pincel. Já bem jovem foi instruído seu pai demonstrou grande confiança num futuro brilhante para o filho colocando-o para estudar o estilo Kano com o pintor Hakkerisai. Logo depois da morte de seu pai, Eisen procurou um padrinho no pintor Kikugawa Eizan, que era exemplar na pintura das belezas bijin, e com quem Eisen treinou nno estilo ukiyo-e. Em 1820, já se manifesta com estilo próprio. Com Kunisada e Kuiyoshi, Eisen é considerado um dos maiores artistas do estilo ukiyo-e do período “decadente”.
Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Maria da Silva Brito, São Paulo, Saraiva:1968, pp 8-9
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Carlos Chiacchio ( Januária, MG, 4 de julho de 1884 – Salvador, BA, 1947) jornalista, orador, poeta, cronista, crítico literário, membro do IGH-BA, Academia de Letras da Bahia. Nasceu na antiga cidade de Januária, situada entre a Serra da Tapiraçaba e o Rio São Francisco, em Minas Gerais. Filho de Jacome Chiacchio e de D. Patrícia de M. Chiacchio. Estudou como interno no colégio Spencer em Salvador, quando mostrou ter vocação literária. Em Salvador, cidade onde mais tarde também se formou em medicina, fez parte da Nova Cruzada, associação cultural fundada em 1901 e extinta em 1916. Foi proprietário de farmácia, funcionário da Estrada de Ferro, e médico de bordo. Por fim, fixou-se mesmo em Salvador, onde ficou até o fim de sua vida. Foi o chefe e animador do grupo modernista na Bahia, em 1928, em torno da revista Arco & Flecha (1928-1929). Foi um dos mais típicos e valorosos intelectuais de província, e muito trabalhou para a difusão da cultura na Bahia, algumas vezes até sacrificando seus interesses pessoais. Sua produção extensa, dela salientando-se, contudo, um livro de poemas Infância e Biocrítica.