Uma pequena homenagem ao nosso baixo-clero!

27 04 2009

senado-no-imperioO edifício do Senado Brasileiro, ná época do Segundo Império.

 

 

 

 

Inspirada no picadeiro em que se transformou o debate sobre o desmando no uso da coisa pública no Brasil, ou em outras palavras, no uso sem cabimento do dinheiro público dos nossos legisladores, voando pelo mundo às nossas custas,  voltei-me para um texto delicioso de Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882), escrito em 1855, sobre a política no império.  Quem ainda não conhece este romancista brasileiro, ou que só o conhece pelas obras românticas que leu na escola como A moreninha, O moço louro, As mulheres de mantilha, e outros tantos títulos; precisa se dar o presente de consultar seus outros escritos.  Joaquim Manuel de Macedo foi um grande escritor, crítico voraz dos hábitos e costumes brasileiros, muito sarcástico mas também muito bem humorado nas suas críticas.  Foi também um poeta, um teatrólogo, um memorialista e um biógrafo.  Acredito que ainda não tenhamos lhe dado o lugar que merece na história do pensamento brasileiro. 

 

A passagem que se segue é de seu romance A carteira de meu tio, onde ele descreve o político brasileiro da época.  O que parece inacreditável: passados 150 anos e com pouquíssimos ajustes suas descrições vestem como uma luva o que presenciamos no Congresso em Brasília.  Então, vamos lá:

 

 

 

…………………………………………………

 

 

Ora pois, consideremos ao acaso um de tantos: seja aquele figurão que ali vai repotreado em um magnífico e soberbo carro.

 

Era há poucos anos um miserável diabo, que vivia de suas agências, e mais não disse; não  tinha onde cair morto, e portanto ninguém fazia caso dele: mas não há nada como ter juízo!… O maganão atirou-se ao comércio, e foi de um salto ao apogeu da fortuna; eis o caso: primeiro abriu uma casa de secos, e quebrou; meteu-se logo nos molhados, e quebrou outra vez – excelente princípio!  O quebrado ficou inteiro, e os credores com alguns pedaços de menos; depois, dinheiro a juros, três ou quatro por cento ao mês para servir aos amigos; um pouco mais aos indiferentes; duas dúzias de alicantinas  por ano, e o suor alheio nos cofres do espertalhão: uma terça deixada em testamento por um estranho, e arrancada aos malvados parentes do morto; aqui há anos atrás o comércio de carne humana, que era um negócio muito lícito, negócio molhado e seco ao mesmo tempo, porque se arranjava por mar e por terra, terra marique: vai senão quando, no fim de dez ou doze anos, o pobretão aparece milionário.

 

Mudam-se as cenas; dantes ninguém tirava o chapéu ao indigno tratante, olhavam-no todos com desprezo, era um bicho que causava tédio, além de mau, era pobre; mas, ó milagrosa regeneração!  ó infalível poder do ouro! o antigo malandrim já é um homem de gravata lavada! banhou-se no Jordão da riqueza, e ficou limpo e puro de todas as passadas culpas!…

 

E por onde chegou ele ao cume das prosperidades? – pelos desvios: se tivesse vindo pela estrada real, estava na esteira velha.

 

É verdade que o tal bargante, para se enriquecer, fez a desgraça de muita gente:  mas que tem isso?…  não goza ele agora muito sossegadamente a sua imensa riqueza?…

 

Quebrou fraudulentamente, pregou calotes, ofendeu as leis de Deus, e zombou das leis dos homens; ora viva!  Coisas do tempo da nossa avó-torta; águas passadas não movem moinho; dize-me o que tens, que eu te direi o que vales: bravo o nosso figurão!…

 

Todos o festejam, diplomatas conselheiros, senadores, deputados, ministros, enfim, a fidalguia toda da terra!

 

Dizem que é sedutor e libidinoso; histórias da carochinha! Todas as portas se abrem para ele, todas as famílias o recebem em seu seio!

 

Se dá um baile, não há fidalgo que deixe de ir dançar na casa do ex-velhaco; se é solteiro, ainda que seja feio, velho, e tenha fama de mau e de bruto, as mães metem-lhe as filhas pelos olhos adentro.

 

Quando aparece no teatro, os grandes figurões quase que quebram o espinhaço, fazendo-lhes cortesias.

 

Antigamente era um farroupilha, um trapaceiro desprezível; agora é o amigo de cama e mesa do senhor marquês; é o compadre da senhora viscondessa, é o fidus Achates do senhor conselheiro; é o querido, o nhonhô, o não-me-deixes das moças.  O diabo do dinheiro faz até de um mono um cupidinho, e transforma uma azêmola em um rouxinol

 

Dizem que é estúpido: elegem-no deputado, ou votam nele para senador.  E fica sábio!…

 

Tem fama de gatuno: nomeiam-no tesoureiro.  E fica honrado!

 

Acusam-no de todos os sete pecados mortais, e ainda dos quatro que bradam ao céu: fazem-no juiz ou mordomo das dez irmandades!  E fica santo!…

 

Passa enfim a vida regalada, embora alguns nas costas lhe  mordam; tem tudo quanto deseja e aspira: festas, favores e honras, ainda que pela boca-pequena o abocanhem; e para dizer tudo, fica sendo um senhor da terra, como muitos outros senhores da terra.

 

Viva, pois, o dinheiro, que tudo o mais é história!

 

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Em:  A carteira de meu tio, Joaquim Manuel de Macedo, Porto Alegre, LP&M:2001, 50-52.

 

 

 

Joaquim Manuel de Macedo (Itaboraí, 24 de junho de 1820 — Rio de Janeiro, 11 de abril de 1882) foi um médico e escritor brasileiro: romancista, poeta, cronista literário e dramaturgo.

 

Em 1844, Joaquim Manuel de Macedo, formou-se em Medicina no Rio de Janeiro, e no mesmo ano estreou na literatura com a publicação daquele que viria a ser seu romance mais conhecido, “A Moreninha“, que lhe deu fama e fortuna imediatas.

 

Além de médico, Macedo foi jornalista, professor de Geografia e História do Brasil no Colégio Pedro II, e sócio fundador, secretário e orador do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, desde 1845. Em 1849, fundou, juntamente com Gonçalves Dias e Araújo Porto-Alegre, a revista Guanabara, que publicou grande parte do seu poema-romance A nebulosa — considerado por críticos como um dos melhores do Romantismo. Foi membro do Conselho Diretor da Instrução Pública da Corte (1866).

 

Abandonou a medicina e criou uma forte ligação com Dom Pedro II e com a Família Imperial Brasileira, chegando a ser preceptor e professor dos filhos da Princesa Isabel.

 

Macedo também atuou decisivamente na política, tendo militado no Partido Liberal, servindo-o com lealdade e firmeza de princípios, como o provam seus discursos parlamentares, conforme relatos da época. Durante a sua militância política foi deputado provincial (1850, 1853, 1854-59) e deputado geral (1864-1868 e 1873-1881). Nos últimos anos de vida padeceu de problemas mentais, morrendo pouco antes de completar 62 anos.

 

 

Obras:

 

Romances

 

A Moreninha (1844)

O moço loiro (1845)

Os dois amores (1848)

Rosa (1849)

Vicentina (1853)

O forasteiro (1855)

Os romances da semana (1861)

Rio do Quarto (1869)

A luneta mágica (1869)

As Vítimas-algozes (1869)

As mulheres de mantilha (1870-1871).

 

Sátiras políticas

A carteira do meu tio (1855)

Memórias do sobrinho do meu tio (1867-1868)

 

Dramas

 

O cego (1845)

Cobé (1849)

Lusbela (1863)

 

Comédias

 

O fantasma branco (1856)

O primo da Califórnia (1858)

Luxo e vaidade (1860)

A torre em concurso (1863)

Cincinato quebra-louças (1873)

 

Poesia

 

A nebulosa (1857)

 

 

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Joaquim Manuel de Macedo é o patrono da cadeira número 20 da Academia Brasileira de Letras (ABL).





Boas Maneiras VII

27 04 2009

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O espirro chega sem aviso.

Usar o lenço…  é preciso.





Decoração de azulejos era língua escrita

26 04 2009

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A decoração, os símbolos encontrados em azulejos, louças e demais objetos do povo  que habitava o vale do Indo, no Paquistão, há mais de quatro mil anos são “palavras” de uma língua que até agora era desconhecida, sugere um estudo realizado por cientistas da Universidade de Washington e publicado na revista Science.

 

A equipe de matemáticos e engenheiros informáticos e arqueólogos indianos e norte-americanos liderada por Rajesh Rao,  afirma que o misterioso código só poderá ser decifrado se for encontrado um elemento -chave “equivalente à famosa Pedra de Roseta que (por ter o mesmo texto escrito em grego e egípcio demótico) permitiu a compreensão dos hieróglifos egípcios“.

 

 

 

 

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Os códigos misteriosos foram encontrados em pequenas placas de pedra, amuletos e placas de cerâmica e, até hoje, muitos especialistas afirmavam que elas eram simples pictogramas religiosos ou políticos.

 

A equipe realizou um estudo estatístico que comparou a seqüência de símbolos – conhecidos como “Escrita do Indo” – com diversas manifestações lingüísticas, desde o Inglês moderno até o antigo sânscrito e também com sistemas não lingüísticos.

 

 

 

 

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Neste ponto, podemos dizer que a Escrita do Indo parece ter concomitâncias estatísticas com as línguas naturais“, disse Rajesh Rao, cientista da Universidade de Washington e líder da equipe que realizou a pesquisa.

 

A Escrita do Indo é conhecida há quase 130 anos, “mas apesar de mais de 100 tentativas ainda não foi decifrada; no entanto, se entende que codifica uma linguagem“, afirmou Rao.

 

O povo do Indo foi contemporâneo das civilizações egípcia e mesopotâmica e habitou o vale do rio Indo – que ficava onde hoje é o leste do Paquistão e noroeste da Índia – em uma época entre o ano 2600 e 1900 a.C..

 

 

 

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Agora, Rao tem esperança de chegar ainda mais longe no estudo das escrituras para decifrar o seu código. “No momento queremos analisar a estrutura e sintaxe da escritura para deduzir suas regras gramaticais“, disse ele.

 

O cientista espera que este tipo de informação contribua para decifrar a linguagem no futuro, se aparecer um equivalente da Pedra de Roseta.

 

 

 

 

Fonte: Portal Terra

 





Estampa da Primeira Missa, poema de Murilo Araújo

26 04 2009

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Primeira Missa no Brasil, 1861

Victor Meirelles (Brasil 1832- 1903)

Óleo sobre tela, 268 x 358 cm

Museu Nacional de Belas Artes

Rio de Janeiro

 

 

 

Estampa da Primeira Missa

 

Murilo Araújo

 

 

Na terra amanhecida,

entre as ondas a rir jubilosas de luz

e as árvores em flor, se ergue a árvore da Vida –

a Cruz.

 

 

Entre os tupis a marujada ajoelha.

 

 

Uma legião de beija-flores passarinha.

 

 

 

Então “no ilhéu chamado a Coroa Vermelha”

Frei Henrique de Coimbra se aparelha

e em paramentos de ouro beija o altar…

 

 

A alma argentina de uma campainha

se une aos gorjeios da manhã solar.

 

 

Junto aos altos pendões do palmar nunca visto

treme um pendão mais alto, o estandarte de Cristo.

 

 

Longe um som de clarim morre em glória no ar.

 

 

As resinas do mato, onde em onde,

erguem incenso

turibulando pelos troncos bons.

 

 

 

Frei Henrique celebra e é Deus quem lhe responde

na voz do oceano, seu harmônio imenso,

rolando ao longe um turbilhão de sons.

 

 

As campânulas trêmulas nos galhos

tlintam  à brisa

sua matina aos pingos dos orvalhos;

e a várzea que se irisa

oferenda ao Senhor

nas passifloras roxas os martírios

e na água em sono as ânforas dos lírios…

Há um repousório em cada moita em flor.

 

 

São candelabros de ouro os ipês flamejantes!

E ascenderam ao sol corolas delirantes

como se fossem círios

em louvor.

 

 

Quando a hóstia se eleva angelical

sobe com ela o sol no firmamento.

 

 

As borboletas – que deslumbramento! –

com os tucanos e arás de tom violento

pintam no azul policromias vitral…

 

 

Canta a araponga na floresta longa

como um sino a tanger, dominical.

 

 

As naus florem de branco o deserto marinho.

Lembram virgens trazendo, em túnicas de linho,

na alva das velas uma cruz cristã;

e a patena dos sol as consagrou com o vinho

aéreo da manhã.

 

 

Oh hora ingênua da Fé!  Oh primeiro evangelho!

Pero Vaz escreveu que “um índio já bem velho

apontou para a cruz…”  Oh gesto anunciador!

 

 

Cabral e os que domaram os sete mares

Unem as mãos tremendo de fervor.

 

 

E na luz recém-vinda

em bênçãos tutelares,

a terra em flor se alegra em jubileus…

“a terra graciosa” e tão nova e tão linda! –

a terra desde então desposada de Deus.

 

 

Em: Poemas Completos de Murillo Araújo, com introdução de Adonias Filho, Rio de Janeiro, Irmãos Pongetti: 1960, 3 volumes.

 

 

 

Murilo Araújo – ou Murillo Araújo — (MG 1894 – RJ 1980) jornalista, formado em direito.  Poeta, escritor, teatrólogo, ensaísta.

 

 

 

Obras:

 

Poesia:

 

Carrilhões (1917) 

A galera (escrito em 1915, mas publicado anos depois)

Árias de muito longe (1921)

A cidade de ouro (1927)

A iluminação da vida (1927)

A estrela azul (1940)

As sete cores do céu (1941)

A escadaria acesa (1941)

O palhacinho quebrado (1952)

A luz perdida (1952)

O candelabro eterno (1955)

 

 

Prosa:

 

A arte do poeta (1944)

Ontem, ao luar (1951) — uma biografia de Catulo da Paixão Cearense

Aconteceu em nossa terra (pequenos casos de grandes homens)

Quadrantes do Modernismo Brasileiro (1958)

 

———

Victor Meirelles; ou Victor Meireles; ou Vitor Meirelles, ou ainda Vitor Meireles

 

Victor Meirelles de Lima (Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis SC 1832 – Rio de Janeiro RJ 1903). Pintor, desenhista, professor. Inicia seus estudos artísticos por volta de 1838, com o engenheiro argentino Marciano Moreno. No ano de 1847, muda-se para o Rio de Janeiro e se matricula na Academia Imperial de Belas Artes –  onde, em 1849, inicia o curso de pintura histórica. Em 1852 ganha o prêmio de viagem ao exterior e no ano seguinte segue para a Itália.  Em Roma freqüenta, em 1854, as aulas de Tommaso Minardi (1787 – 1871) e, posteriormente de Nicola Consoni (1814 – 1884), com quem realiza uma série de estudos com modelo vivo. Com a prorrogação da pensão que lhe fora concedida continua sua formação estudando em Paris onde, em 1857, matricula-se na École Superiéure des Beaux-Arts [Escola Superior de Belas Artes], freqüentando as aulas de Leon Cogniet (1794-1880) e, em seguida, recebendo orientações de seu discípulo Andrea Gastaldi (1810-1889). Durante o período em que permanece no exterior corresponde-se com Porto Alegre (1806 – 1879). Retorna ao Brasil em 1861 e, um ano depois, é nomeado professor de pintura histórica da Aiba. Entre os anos de 1869 e 1872 executa duas grandes telas, Passagem do Humaitá e Batalha de Riachuelo. Em 1879 participa da Exposição Geral de Belas Artes, expondo a Batalha dos Guararapes ao lado da Batalha do Avaí de Pedro Américo (1843 – 1905). A apresentação das duas obras gera grande polêmica e um intenso debate no meio artístico. A partir de 1886 passa a se dedicar à execução de panoramas. Entre eles destacam-se: o Panorama Circular da Cidade do Rio de Janeiro, feito na Bélgica, juntamente com Henri Langerock (1830 – 1915) e Entrada da Esquadra Legal no Porto do Rio de Janeiro em 1894, produzida nesse mesmo ano.





26 de abril de 1500, Domingo de Páscoa: a posse da terra

26 04 2009

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Primeira Missa no Brasil, 1948

Cândido Portinari (Brasil 1903- 1962)

Têmpera sobre tela, 266 x 598 cm

Coleção Particular

 

 

 

A importância primeira missa rezada em solo brasileiro é às vezes esquecida.  Talvez seja até mais importante do que a descoberta das terras brasileiras, porque a primeira missa tem o valor simbólico da tomada de posse.

 

Se não, vejamos:  de 22 a 26 de abril de 1500 os portugueses foram e voltaram de barquinhos para as caravelas e vice-versa, inúmeras vezes.  Ensaiaram uma comunicação gestual com os habitantes locais e uma troca de adornos.  Estabeleceram um mínimo de confiança entre estranhos.  Convencidos de que mal nenhum lhes chegaria por parte deste grupo de habitantes locais, os portugueses finalmente desembarcam, com sua religião, sua cultura.  Até então, a moradia, o lugar de estar, ainda estava limitado à área enclausurada das caravelas.  Como sabemos era Semana Santa.  E naquele tempo respeitada com muito mais restrições do que hoje.  Quando finalmente, chega o Domingo de Páscoa, já liberados dos limites instituídos pela crença, voltam-se os portugueses para a terra firme.  Trazem do mar, das caravelas, o mundo dos rituais religiosos, dos hábitos de vestir, comer, dormir europeus e os estabelecem em meio à floresta tropical, nas areias da costa brasileira.  É o ato maior de tomada posse da terra brasileira. E gestualmente comunicam aos índios que os circundam que de agora em diante “dividiremos o terreno”.

 

Para nosso prazer, coloco aqui a descrição da Primeira Missa, de acordo com Pero Vaz de Caminha.  

 

………………..

 

À tarde saiu o Capitão-mor em seu batel com todos nós outros capitães das naus em seus batéis a folgar pela baía, perto da praia. Mas ninguém saiu em terra, por o Capitão o não querer, apesar de ninguém estar nela. Apenas saiu — ele com todos nós — em um ilhéu grande que está na baía, o qual, aquando baixamar, fica mui vazio. Com tudo está de todas as partes cercado de água, de sorte que ninguém lá pode ir, a não ser de barco ou a nado. Ali folgou ele, e todos nós, bem uma hora e meia. E pescaram lá, andando alguns marinheiros com um chinchorro; e mataram peixe miúdo, não muito. E depois volvemo-nos às naus, já bem noite.

 

Ao domingo de Pascoela pela manhã, determinou o Capitão ir ouvir missa e sermão naquele ilhéu. E mandou a todos os capitães que se arranjassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou armar um pavilhão naquele ilhéu, e dentro levantar um altar mui bem arranjado. E ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual disse o padre frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes que todos assistiram, a qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção.

 

Ali estava com o Capitão a bandeira de Cristo, com que saíra de Belém, a qual esteve sempre bem alta, da parte do Evangelho.

 

Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação, da história evangélica; e no fim tratou da nossa vida, e do achamento desta terra, referindo-se à Cruz, sob cuja obediência viemos, que veio muito a propósito, e fez muita devoção.

 

Enquanto assistimos à missa e ao sermão, estaria na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos, como a de ontem, com seus arcos e setas, e andava folgando. E olhando-nos, sentaram. E depois de acabada a missa, quando nós sentados atendíamos a pregação, levantaram-se muitos deles e tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e dançar um pedaço. E alguns deles se metiam em almadias — duas ou três que lá tinham — as quais não são feitas como as que eu vi; apenas são três traves, atadas juntas. E ali se metiam quatro ou cinco, ou esses que queriam, não se afastando quase nada da terra, só até onde podiam tomar pé.

 

Acabada a pregação encaminhou-se o Capitão, com todos nós, para os batéis, com nossa bandeira alta. Embarcamos e fomos indo todos em direção à terra para passarmos ao longo por onde eles estavam, indo na dianteira, por ordem do Capitão, Bartolomeu Dias em seu esquife, com um pau de uma almadia que lhes o mar levara, para o entregar a eles. E nós todos trás dele, a distância de um tiro de pedra.

 

Como viram o esquife de Bartolomeu Dias, chegaram-se logo todos à água, metendo-se nela até onde mais podiam. Acenaram-lhes que pousassem os arcos e muitos deles os iam logo pôr em terra; e outros não os punham.

 

Andava lá um que falava muito aos outros, que se afastassem. Mas não já que a mim me parecesse que lhe tinham respeito ou medo. Este que os assim andava afastando trazia seu arco e setas. Estava tinto de tintura vermelha pelos peitos e costas e pelos quadris, coxas e pernas até baixo, mas os vazios com a barriga e estômago eram de sua própria cor. E a tintura era tão vermelha que a água lha não comia nem desfazia. Antes, quando saía da água, era mais vermelho. Saiu um homem do esquife de Bartolomeu Dias e andava no meio deles, sem implicarem nada com ele, e muito menos ainda pensavam em fazer-lhe mal. Apenas lhe davam cabaças d’água; e acenavam aos do esquife que saíssem em terra. Com isto se volveu Bartolomeu Dias ao Capitão. E viemo-nos às naus, a comer, tangendo trombetas e gaitas, sem os mais constranger. E eles tornaram-se a sentar na praia, e assim por então ficaram.

 

……………….. 

 

Carta de Pero Vaz de Caminha a El-rei D. Manoel I, 1500.





Quadrinha infantil de Moyses Augusto Torres

24 04 2009

noite

 

 

 

 

O luar de  minha terra

é de prata e diamante…

Quer no vale, prado ou serra,

parece ser mais brilhante.

 

 

(Moyses Augusto Torres)





Imagem de leitura: Joan Llimona i Bruguera

24 04 2009

joan-llimona-i-brugera-espanha-1860-1926-el-terraz-ost-1893

O terraço, 1893

Joan Llimona i Bruguera,

(Espanha, 1860-1926)

Óleo sobre tela

 

 

 

 

 

 

 

 

Joan Llimona i  Bruguera, (Espanha, 1860-1926) Nasceu em Barcelona numa família de artistas.  Seu irmão Josep foi um famoso escultor modernista.  Abandonou os estudos formais para arquitetura e engenharia e acompanhou seu irmão que havia ganhado uma bolsa de estudos para trabalhar em Roma.    Desde 1882 participa de algumas exposições coletivas em Barcelona.   Profundamente influenciado por seu catolicismo militante pintou numerosas obras de conteúdo religioso – “Cristo Vence” é seu trabalho mais famoso.   A partir de 1905 sua pintura é nfluenciada pela escola simbolista, mas sempre com raízes religiosas.  Moreu em 1926 em Barcelona.

 

 

 

 





Rio São Francisco perdeu volume d’água

24 04 2009

seca

 

 

 

 

 

Uma pesquisa feita por cientistas norte-americanos aponta que o fluxo de água na bacia do rio São Francisco, que nasce em Minas Gerais e deságua no nordeste do Brasil, caiu 35% no último meio século.

 

O estudo, que será publicado no próximo dia 15 de maio no Journal of Climate, da Sociedade Meteorológica Americana, foi feito por pesquisadores do National Center for Atmospheric Research (NCAR), que fica no Estado americano do Colorado.   Eles analisaram dados coletados entre os anos de 1948 e 2004 nos 925 maiores rios do planeta, e concluíram que vários rios de algumas das regiões mais populosas estão perdendo água.     De acordo com os pesquisadores, a bacia do São Francisco foi a que apresentou o maior declínio no fluxo de águas entre os principais rios que correm em território brasileiro durante o período pesquisado.

 

Neste mesmo período, o fluxo de águas na bacia do Amazonas caiu 3,1%, enquanto as bacias de outros rios brasileiros apresentaram uma elevação na vazão.   O fluxo de águas no rio Paraná (que termina na Argentina), por exemplo, apresentou um aumento de 60% no período pesquisado, enquanto a bacia do Tocantins registrou um acréscimo de 1,2% em sua vazão.   Segundo o cientista Aiguo Dai, o líder da pesquisa, esta variação está relacionada principalmente a mudanças na quantidade de chuvas nas regiões das bacias.

 

Estas alterações nos níveis de precipitações, de acordo com o pesquisador, estariam relacionadas, principalmente, ao fenômeno meteorológico El Niño, que consiste em um aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico e que afeta o clima da região e do planeta.Dai afirma que, entre 1948 e 2004, a região da bacia do rio São Francisco apresentou uma leve queda nos níveis de precipitações e um grande aumento de temperatura.

 

Estes dois fatores contribuíram para o grande declínio do escoamento do rio. Segundo ele, o aumento das temperaturas eleva a evaporação, e assim, reduz o fluxo de água do rio.   Eu avalio que algumas destas mudanças na temperatura e nas precipitações estão relacionadas às mudanças nas atividades do El Niño, mas não todas elas“, afirma o cientista.

 

De um modo geral, o estudo aponta que alguns dos rios mais importantes do planeta e que abastecem áreas populosas estão perdendo água.    Um terço dos 925 rios pesquisados apresentaram mudanças significativas nos fluxos de água no período, sendo que aqueles que perderam vazão ultrapassam os que ganharam em uma proporção de 2,5 para 1.   

 

Entre os rios que apresentaram declínios na vazão estão alguns que servem a grandes populações, como o Amarelo, na China, o Niger, na África, e o Colorado, nos Estados Unidos. Em contraste, os pesquisadores constataram um aumento considerável na vazão de rios em áreas pouco habitadas no Oceano Ártico.

Entre os que permaneceram estáveis ou que registraram um pequeno aumento no fluxo de água estão o Yang Tsé, na China e Bhrahmaputra, na Índia.  Segundo os pesquisadores, muitos fatores podem afetar a vazão desses rios, incluindo barragens e o desvio de água para a irrigação.   Mas, de acordo com os dados da pesquisa, em muitos casos, a redução no fluxo de água pode estar relacionada às mudanças climáticas globais, que alteram os padrões de chuvas e os níveis de evaporação.

 

A redução na vazão aumenta a pressão sobre as reservas de água doce em grande parte do mundo, especialmente em um momento em que a demanda por água aumenta por causa do crescimento da população. A água doce é um recurso vital, e a tendência de queda é motivo de preocupação“, diz Aiguo Dai.

 

Pesquisas anteriores feitas em grandes rios, no entanto, apontavam que a vazão global dos cursos de água estaria aumentando.

 

 

BBC Brasil/ Estadão





Brasil que lê: fotografia tirada em lugar público

23 04 2009

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A importante contribuição da Biblioteca Nacional para o projeto: biblioteca mundial

23 04 2009

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Biblioteca Nacional, av. Rio Branco, Rio de Janeiro.

 

 

 

A Biblioteca Nacional do Brasil, tem um patrimônio superior a 9 milhões de publicações, e foi considerada pela UNESCO como a 8ª maior biblioteca do mundo. A BN também é a maior biblioteca da América Latina.

A Fundação Biblioteca Nacional (BN) é uma das mais antigas instituições públicas brasileiras. Foi instalada oficialmente no Rio de Janeiro em 1810.  O núcleo original de seu poderoso acervo é a antiga livraria de D. José organizada sob a inspiração de Diogo Barbosa Machado, Abade de Santo Adrião de Sever, para substituir a Livraria Real, cuja origem remontava às coleções de livros de D. João I e de seu filho D. Duarte, e que foi consumida pelo incêndio que se seguiu ao terremoto de Lisboa de 1º de novembro de 1755.  A BN é hoje a maior fonte de pesquisa em livros, jornais e periódicos do país e tem a função de ser a depositária da memória bibliográfica e documental do Brasil.

 

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Instalada em um imponente prédio estilo eclético (onde se misturam elementos neoclássicos), na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, abriga verdadeiras raridades da literatura. Obras impressas nos primórdios da invenção da imprensa, como a Bíblia Mongúncia (Bíblia Latina), publicada por Gutenberg e seus sócios, em 1462, é considerada pela chefe da Divisão de Obras Raras (Diora), a bibliotecária Ana Virginia Pinheiro, como uma das peças mais raras da divisão. Existem apenas outros 60 exemplares conhecidos desta bíblia em todo o mundo.

Há na Biblioteca Nacional obras ainda mais antigas, escritas a mão sobre pergaminho, como O Livro dos Evangelhos, do século XI, escrito em grego e considerado o livro mais antigo na América Latina. O conjunto de obras impressas mais antigas datam do século XV, são os ‘incunábulos’, livros publicados nos primeiros 50 anos da invenção da tipografia por Gutenberg, e publicados até o ano de 1500.

  

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A maior parte deles está depositada na Divisão de Obras Raras – Diora –, onde podem ser consultados por pesquisadores especializados. A Diora guarda livros publicados entre os séculos XV e XVII e tem a missão de salvaguardar o acervo precioso da Biblioteca Nacional. Calcula-se que existam hoje mais de 70 mil obras na seção, em dois quilômetros de prateleiras. Na apreciação do acervo realizada em 1946, foram identificados 18 mil volumes na Diora. Os livros, alguns em pergaminho, são escritos em grego, latim, árabe, hebraico e línguas arcaicas ou mortas.   

A Biblioteca não estimula visitas às coleções especiais (Obras Raras, Manuscritos, Cartografia, Iconografia e Música). Recebe o pesquisador que tem interesses de pesquisa bem definidos e que traga carta de apresentação assinada pela instituição onde desenvolve a pesquisa ou de próprio punho, a título de declaração de idoneidade para consulta a acervo tão precioso”, informou Ana Virgínia.  O acesso restrito ao acervo da Diora se explica pela necessidade de proteger e preservar documentos únicos, datados, alguns deles, antes mesmo do descobrimento do Brasil. Os estudos são feitos através de microfilmes e material digitalizado, na falta destes, a consulta é direto no original.

 

 

 

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O Depósito Legal é a principal fonte de captação de obras para a BN, mas as peças mais antigas e de grande valor histórico foram obtidas por meio de doações. A maior delas foi a coleção Dona Tereza Cristina Maria doada pelo imperador Dom Pedro II, quando estava no exílio em Portugal, em 1891. São mais de 48 mil peças, entre livros, manuscritos, partituras, gravuras, desenhos, fotografias e mapas. As coleções doadas à BN são privilegiados instrumentos de pesquisa sobre a história do Brasil.

Desejando consolidar a inserção da Fundação Biblioteca Nacional na sociedade da informação, foi lançado o Portal Institucional (www.bn.br), permitindo o acesso aos Catálogos on line . Em 2006 foi criada a Biblioteca Nacional Digital concebida de forma ampla como um ambiente onde estão integradas todas as coleções digitalizadas colocando a Fundação Biblioteca Nacional na vanguarda das bibliotecas da América Latina e igualando-a às maiores bibliotecas do mundo no processo de digitalização de acervos e acesso às obras e aos serviços, via Internet.

 

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 Foto: Fátima Nascimento

 

 

O prédio atual da Fundação Biblioteca Nacional teve sua pedra fundamental lançada em 15 de agosto de 1905 e foi inaugurado cinco anos depois, em 29 de outubro de 1910. O prédio foi projetado pelo General Francisco Marcelino de Sousa Aguiar, e a construção foi dirigida pelos engenheiros Napoleão Muniz Freire e Alberto de Faria. Integrado à arquitetura da recém-aberta Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco, o prédio é de estilo eclético, em que se misturam elementos neoclássicos. As instalações do novo edifício correspondiam na época de sua inauguração a todas as exigências técnicas: pisos de vidro nos armazéns, armações e estantes de aço com capacidade para 400.000 volumes, amplos salões e tubos pneumáticos para transporte de livros dos armazéns para os salões de leitura.

Em meio à fachada principal, o edifício possui um pórtico com seis colunas coríntias, que sustentam o frontão ornamentado por um grupo em bronze, tendo ao centro a figura da República, ladeada por alegorias da Imprensa, Bibliografia, Paleografia, Cartografia, Iconografia e Numismática. O conjunto foi executado de acordo com maquete do artista nacional Modesto Brocos. Do lado direito da Portada, uma estátua de bronze, de Corrêa Lima, representa a Inteligência; uma outra, do lado esquerdo, da autoria de Rodolfo Bernardelli, representa o Estudo. Na parte superior da fachada, de cada lado do tímpano, vêem-se, em bronze, os anos da fundação da Biblioteca MDCCCX, e da inauguração do prédio, MCMX.

 

 

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No saguão há, à direita e à esquerda, dois painéis do pintor norte-americano George Bidddle e dois baixos-relevos em bronze de sua esposa, a escultora Helena Sardeau Biddle. Essas obras de arte constituem oferta do governo dos Estados Unidos da América ao Brasil e foram inauguradas no dia 8 de dezembro de 1942. As escadas internas são de mármore com gradil de proteção em bronze com tratamento de pátina preta e friso formando o corrimão em latão dourado polido. No patamar do lance de escada entre o segundo e o terceiro andar, localiza-se o busto em mármore de D. João VI, esculpido em Roma, em 1814, por Leão Biglioschi e que pertenceu à Real Biblioteca.

Sob a clarabóia em vitral colorido, do saguão, e como que a sustentando, vêem-se 12 cariátides em gesso.Todo o conjunto do edifício é encimado por quatro clarabóias com vitral colorido; uma no zimbório central sobre o saguão; uma sobre a ala lateral dos armazéns de livros (à esquerda); outra sobre a ala lateral dos armazéns de periódicos (à direita), a quarta localiza-se sobre o salão da Divisão de Obras Raras. São dignos de nota os painéis assinados por artistas de renome, que decoram o terceiro e o quarto pavimentos. No terceiro, na Divisão de Obras Raras, antigo salão geral de leitura, encontram-se painéis de Rodolfo Amoedo, A Memória e A Reflexão, e de Modesto Brocos, A Imaginação e A Observação. No quarto andar, onde se localiza o Gabinete da Presidência, encontram-se mais quatro painéis, dois de Henrique Bernardelli, O Domínio do Homem sobre as Forças da Natureza e A Luta pela Liberdade, e dois de Eliseu Visconti, O Progresso e A Solidariedade Humana. Em espaço do andar térreo (ou primeiro andar) com aceso pela Rua México foi inaugurado no ano de 2000 um moderno auditório que levou o nome de Machado de Assis e uma galeria para exposições com os requisitos ideais de luz e temperatura. Esse espaço foi inaugurado com a magnífica exposição “Brasil 500 anos na Biblioteca Nacional”.