Descoberta especial: um super-predador em solo brasileiro

14 05 2010

Foto: Ulbra

A Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) apresentou na segunda-feira próxima passada, um fóssil quase completo de um superpredador, o tecodonte Prestosuchus chiniquensis , no município de Dona Francisca, no Rio Grande do Sul. Segundo a universidade, o animal viveu no período Triássico (há aproximadamente 238 milhões de anos) e é um ancestral dos dinossauros.   O fóssil foi achado há cerca de 30 dias após chuvas que expuseram parte do material.  Segundo universidade, os tecodontes eram um grupo de répteis ancestral aos dinossauros e também às aves.

O animal, segundo os pesquisadores, deveria ter aproximadamente 7 m de comprimento e pesar cerca de 900 kg. “Este é o maior esqueleto e em melhor estado de conservação já encontrado. (…) Esse achado tem enorme importância, com repercussão internacional, porque o conjunto completo pode nos dar informações amplas sobre este animal. Há diversos achados espalhados que se julga serem partes de prestosuchus. Agora, com todos os ossos, podemos certificar que realmente são desse tecodonte“, disse o paleontólogo Sérgio Cabreira.

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De fato a descoberta desse fóssil quase completo atraiu a atenção internacional.   Segundo o paleontólogo Sérgio Cabreira, responsável pelo achado, a imprensa internacional não está acostumada com trabalhos na América do Sul. Países como Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra, defendem a sua própria cultura científica. “Aí, nesse conjunto, nós, brasileiros aqui do Sul, descobrimos algo completo com estruturas que não haviam sido encontradas antes. Isso mexe com o contexto“, afirma. De acordo em ele, o Brasil está em ascensão no cenário internacional e já é visto com respeito. “Não precisamos mais de suporte externo, temos estrutura.”

O pesquisador ressalta também que essa região do município de Dona Francisca é um dos sítios de fósseis mais importantes do mundo. “A área explorada ainda é pequena. Quando o processo de pesquisa for formatado realmente, nós vamos encontrar dezenas de fósseis“.

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A descoberta reflete um trabalho de seis anos de projeto, conta Sérgio Cabreira. “Temos feito vários achados de material na área. Há três anos, encontramos neste mesmo local, duas vértebras muito grandes desse Arcossauro. Nessa oportunidade, eu já tinha uma ideia do belo material que estava para encontrar. A erosão expôs uma margem do material e o limpamos. Entendemos que se travava de algo importante“, afirmou.    Ele também  acredita que esse animal tenha sido soterrado por  uma enchente poucos dias após a sua morte. “Encontramos um fóssil com crânio, coluna cervical, cauda, em excelente estado de preservação. O fóssil fala por ele mesmo.” Depois da divulgação das imagens, paleontólogos de diversas regiões visitaram o local.   O Prestosuchus chiniquensis representa o grupo dos primeiros arcossauros que atingiram um grande tamanho. “Não conseguiremos entender esse frisson da imprensa internacional se não olharmos para o cenário científico“, explicou referindo-se a todas as implicações históricas, científicas e sociais do trabalho.

Existem leis que regem o patrimônio científico brasileiro. A divulgação das descobertas é essencial para criar uma guarda em torno desse patrimônio, segundo o paleontólogo. “Devemos expor esse material para disseminar a conquista de todos os brasileiros. Além disso, o fato permite com que a sociedade e os políticos tomem providências para o aproveitamento e cercamento de áreas.”

O fóssil do tecodonte Prestosuchus chiniquensis continuará sendo estudado em território nacional. Ele agora entra em um circuito de tratamento, com clima e acondicionamento adequados. Réplicas serão feitas antes que os cientistas possam manusear os fósseis encontrados.  Geralmente essas cópias é que são apreciadas em museus, enquanto a original é utilizada em pesquisas.

Fonte:  Portal Terra





Afinal, as penas pré-históricas não ajudavam a voar!!!

14 05 2010
Fóssil de Confuciusornis, pássaro pré-histórico de 120 milhões de anos. Divulgação/Science

Descobertas recentes em fósseis que mostram sinais de penas em alguns dos primeiros animais voadores, como o Archaeopteryx, causaram sensação no mundo arqueológico. Agora, surge a informação de que essas penas podem ter sido frágeis demais para uso em voo, sendo úteis apenas para planar.

 

Robert L. Nudds e Gareth J. Dyke dizem na edição desta semana da revista Science que a haste central das penas do Archaeopteryx e do Confuciusornis  eram muito mais delgadas que as hastes das penas dos pássaros atuais.  O Archaeopteryx viveu 145 milhões de anos atrás e o Confuciusornis veio depois, há 120 milhões danos.

 

Infelizmente, os cientistas não podem dizer, pelos fósseis, se as hastes eram ocas, como nos pássaros modernos, ou sólidas. Se ocas, as hastes delgadas teriam se dobrado como um canudinho de refrigerante se os animais tentassem bater as asas com força, disse Nudds, da Universidade de Manchester e do University College Dublin.   “Se fossem sólidas, as penas teriam se quebrado“, acrescentou.  “Não se pode excluir totalmente que houvesse algum tipo de geração de impulso nesses pássaros fósseis, mas o vigoroso bater de asas dos pássaros modernos sé extremamente improvável“, concluem os pesquisadores.

 

Nudds disse que a pouca capacidade de voo sugere que os pássaros primitivos viviam em árvores e saltavam para planar até uma outra árvore. Se pousassem no solo, poderiam escalar e ganhar altura antes de saltar novamente.  “Se Archaeopteryx e Confuciusornis eram planadores arbóreos, como meus dados sugerem, então isso também sugere que o voo das aves começou nas árvores e não no chão“, disse ele.

Fonte: Estadão online





Imagem de leitura — Jean-Baptiste Debret

13 05 2010

Sábio trabalhando no seu gabinete no Rio de Janeiro,  1827 

Jean-Baptiste Debret (França 1768-1848)

aquarela

Fundação Raimundo de Castro Maia, Rio de Janeiro

Jean-Baptiste Debret (Paris 1768 — Paris 1848) foi um pintor e desenhista francês. Integrou a Missão Artística Francesa (1816), que fundou, no Rio de Janeiro, uma academia de Artes e Ofícios, mais tarde Academia Imperial de Belas Artes, onde lecionou pintura.   De volta à França (1831) publicou Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil (1834-1839), documentando aspectos da natureza, do homem e da sociedade brasileira no início do século XIX.





A mãe, poesia para crianças de Luísa Ducla Soares

5 05 2010

 

Mãe e filho, s/d

Arsen Kurbanov  (Makhachkala, Daghestan, Rússia, 1969)

óleo sobre tela

50cm x 42 cm

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A Mãe

                                                                             Luísa Ducla Soares

A mãe 

é uma árvore 

e eu uma flor. 

A mãe 

tem olhos altos como estrelas. 

Os seus cabelos brilham 

como o sol. 

A mãe 

faz coisas mágicas: 

transforma farinha e ovos 

em bolos, 

linhas em camisolas, 

trabalho em dinheiro. 

A mãe 

tem mais força que o vento: 

carrega sacos e sacos 

do supermercado 

e ainda me carrega a mim. 

A mãe 

quando canta 

tem um pássaro na garganta. 

A mãe 

conhece o bem e o mal. 

Diz que é bem partir pinhões 

e partir copos é mal. 

Eu acho tudo igual. 

A mãe 

sabe para onde vão 

todos os autocarros, 

descobre as histórias que contam 

as letras dos livros. 

A mãe 

tem na barriga um ninho. 

É lá que guarda 

o meu irmãozinho. 

A mãe 

podia ser só minha. 

Mas tenho de a emprestar 

a tanta gente… 

A mãe 

à noite descasca batatas. 

Eu desenho caras nelas 

e a cara mais linda 

é da minha mãe.

Em: Poemas da Mentira e da Verdade, Lisboa, Livros Horizonte, 1983; 2005

 

 

Luísa Ducla Soares (Lisboa, 1939) escritora, tradutora, consultora literária e jornalista.  Mais recentemente sua produção  é dedicada ao público infanto-juvenil.  Formada em Filologia Germânica.

Obras:

Contrato (Poesia), 1970

A História da Papoila, prosa (Infanto-juvenil), 1972 ; 1977

Maria Papoila, prosa (Infanto-juvenil), 1973 ; 1977

O Dr. Lauro e o Dinossauro, prosa (Infanto-juvenil), 1973 ; 1988

Urso e a Formiga, prosa (Infanto-juvenil), 1973 ; 2002

O Soldado João, prosa (Infanto-juvenil), 1973 ; 2002

O Ratinho Marinheiro (Poesia para a infância), 1973 ; 2001

O Gato e o Rato, prosa (Infanto-juvenil), 1973 ; 1977

Oito Histórias Infantis, prosa (Infanto-juvenil), 1975

O Meio Galo e Outras Histórias, prosa (Infanto-juvenil), 1976 ; 2001

AEIOU, História das Cinco Vogais, (prosa) (Infanto-juvenil), 1980 ; 1999

O Rapaz Magro, a Rapariga Gorda, prosa (Infanto-juvenil), 1980 ; 1984

Histórias de Bichos, prosa (Infanto-juvenil), 1981

O Menino e a Nuvem, prosa (Infanto-juvenil), 1981

Três Histórias do Futuro, prosa (Infanto-juvenil), 1982

O Dragão, prosa (Infanto-juvenil), 1982 ; 2002

O Rapaz do Nariz Comprido, prosa (Infanto-juvenil), 1982 ; 1984

O Sultão Solimão e o Criado Maldonado (Poesia para a infância), 1982

Poemas da Mentira… e da Verdade (Poesia para a infância), 1983 ; 1999

O Homem das Barbas, prosa (Infanto-juvenil), 1984

O Senhor Forte, prosa (Infanto-juvenil), 1984

A Princesa da Chuva, prosa (Infanto-juvenil), 1984

O Homem alto, a Mulher baixinha, prosa (Infanto-juvenil), 1984

De Que São Feitos os Sonhos: A Antologia Diferente, prosa (Infanto-juvenil), 1985 ; 1994

O Senhor Pouca Sorte, prosa (Infanto-juvenil), 1985

A Menina Boa, prosa (Infanto-juvenil), 1985

A Menina Branca, o Rapaz Preto, prosa (Infanto-juvenil), 1985

6 Histórias de Encantar, prosa (Infanto-juvenil), 1985 ; 2003

A Vassoura Mágica, prosa (Infanto-juvenil), 1986 ; 2001

O Fantasma, prosa (Infanto-juvenil), 1987

A Menina Verde, prosa (Infanto-juvenil), 1987

Versos de Animais (Antologia de Literatura Tradicional), 1988

Destrava Línguas (Antologia de Literatura Tradicional), 1988 ; 1997

Crime no Expresso do Tempo, prosa (Infanto-juvenil), 1988 ; 1999

Lenga-Lengas (Antologia de Literatura Tradicional), 1988 ; 1997

O Disco Voador, prosa (Infanto-juvenil), 1989 ; 1990

Adivinha, Adivinha: 150 adivinhas populares (Antologia de Literatura Tradicional), 1991 ; 2001

É Preciso Crescer, ( infanto- juvenil (1992

A Nau Catrineta, prosa (Infanto-juvenil), 1992

À Roda dos Livros: Literatura Infantil e Juvenil (Divulgação), 1993

Diário de Sofia & Cia aos Quinze Anos(Infanto-juvenil), 1994 ; 2001

Os Ovos Misteriosos, prosa (Infanto-juvenil), 1994 ; 2002

O Rapaz e o Robô, prosa (Infanto-juvenil), 1995 ; 2002

S. O. S.: Animais em Perigo!…, prosa (Infanto-juvenil), 1996

O Casamento da Gata, poesia (Infanto-juvenil), 1997 ; 2001

Vamos descobrir as bibliotecas (Divulgação), 1998

Vou Ali e Já Volto, prosa (Infanto-juvenil), 1999

Arca de Noé, poesia (Infanto-juvenil), 1999

A Gata Tareca e Outros Poemas Levados da Breca (Poesia para a infância), 1999 ; 2000

ABC, poesia (Infanto-juvenil), 1999 ; 2001

25 (Poesia para a infância), 1999

Seis Contos de Eça de Queirós (Contos), 2000 ; 2002

Com Eça de Queirós nos Olivais no ano 2000 (Divulgação), 2000

Com Eça de Queirós à roda do Chiado (Divulgação), 2000

Mãe, Querida Mãe! Como é a Tua?, prosa (Infanto-juvenil), 2000 ; 2003

Lisboa de José Rodrigues Miguéis (Divulgação), 2001

Roteiro de José Rodrigues Miguéis: do Castelo ao Camões (Divulgação), 2001

A flauta, prosa (Infanto-juvenil), 2001

Uns óculos para a Rita, prosa (Infanto-juvenil), 2001

Todos no Sofá, poesia (Infanto-juvenil), 2001

1, 2, 3, poesia (Infanto-juvenil), 2001 ; 2003

Alhos e Bugalhos (Divulgação), 2001

Meu bichinho, meu amor, prosa (Infanto-juvenil), 2002

Cores, prosa (Infanto-juvenil), 2002

Gente Gira, prosa (Infanto-juvenil), 2002

Tudo ao Contrário!, prosa (Infanto-juvenil), 2002

Viagens de Gulliver, adaptação livre (Teatro para a infância), 2002

O Rapaz que vivia na Televisão, prosa (Infanto-juvenil), 2002

Contrários, poesia (Infanto-juvenil), 2003

Quem está aí?, prosa (Infanto-juvenil), 2003

A Cavalo no Tempo, poesia (Infanto-juvenil), 2003

Pai, Querido Pai! Como é o Teu?, prosa (Infanto-juvenil), 2003

A Carochinha e o João Ratão, poesia (Infanto-juvenil), 2003

Se os Bichos se vestissem como Gente, prosa (Infanto-juvenil), 2004

A festa de anos, prosa (Infanto-juvenil), 2004

Contos para rir, prosa (Infanto-juvenil), 2004

Abecedário maluco, poesia (Infanto-juvenil), 2004

Histórias de dedos, prosa (Infanto-juvenil), 2005

A Cidade dos Cães e outras histórias, prosa ( Infanto- juvenil ), 2005

Há sempre uma estrela no Natal, contos ( Infanto-juvenil ) Civilização,2006

Doutor Lauro e o dinossauro, prosa (Infanto-Juvenil), 2.ª ed, Livros Horizonte, 2007

Mais lengalengas (recolhas ),Livros Horizonte,2007

Desejos de Natal (Infanto-juvenil ), Civilização,2007

A fada palavrinha e o gigante das bibliotecas





A grande contribuição da internet …

5 05 2010

Pateta lendo, ilustração Walt Disney.

No sábado passado, dia 1º de maio, o jornal O Globo publicou no caderno Prosa e Verso  um pequeno artigo de Guilherme Freitas, intitulado O livro muda para continuar sendo o mesmo, em que o autor apresenta para o público o novo lançamento da Editora Record, Não contem com o fim dos livros, do jornalista francês Jean Philippe.  Este é um livro que reúne diálogos entre o escritor italiano Umberto Eco e o escritor francês Jean-Claude Carrière.    Entre outros assuntos mencionados no livro, Guilherme Freitas ressalta a posição de Jean-Claude Carrière quando este comenta sobre a memória coletiva:

Fascinado pelos critérios subjetivos que regem a transmissão dos saberes ao longo da História,  Carrière diz que o acesso maciço a informações possibilitado pela internet muda nossa relação com o conhecimento.

— O que vemos agora é uma nova forma de erudição.  Não se trata mais apenas de uma questão de saber, mas de ser capaz de discernir aquilo que devemos reter nessa grande massa de informação na qual vivemos.  Isso desperta inúmeras questões.  Cada indivíduo constrói seus próprios filtros?  Ou existem fatores sociais e coletivos que influem nisso?  É um tema fascinante.

Esse é um assunto que me é particularmente caro, principalmente depois que voltei a estabelecer residência no Brasil.  Peço permissão para passar um pouquinho da  minha história pessoal.

 Tio Patinhas foi à biblioteca, ilustração Walt Disney.

Nos primeiros meses que tive contato com uma universidade americana, uma das coisas que mais me surpreendeu, muito antes da internet existir, foi a facilidade de acesso à informação que cada aluno tinha em solo americano.  Não só alunos, mas todos.  Tanto as universidades particulares (conheci de perto a Universidade Johns Hopkins) quanto as do governo (estudei na Universidade de Maryland, governo estadual), — e mais tarde pude verificar o mesmo em outras universidades que entraram para o meu dia a dia, tais como Universidade Duke (privada), North Carolina State University e University of North Carolina at Chapel  Hill (as duas do governo estadual) tinham excelentes bibliotecas abertas ao público em geral,  quer universitários ou não.  Qualquer pessoa podia consultar seus acervos.  Era só uma questão de estar interessado o suficiente para fazê-lo.   Essa democratização do conhecimento na época estava bastante distante da realidade brasileira, assim como ainda está.  Mas foi um aspecto importantíssimo para que eu viesse a entender a sociedade americana de uma maneira diferente do mero visitante, diferente da pessoa que vai fazer um pequeno curso de especialização.  Porque só esse convívio diário com “os templos do saber”  em cidades e estados diferentes conseguem dar a idéia de quão abrangente o acesso ao conhecimento pode ser. 

Parece então muito natural que o maior ímpeto para a democratização do conhecimento, para a democratização de textos, do saber – digamos assim – tenha vindo através de ferramentas eletrônicas – internet, Google, livros digitais e muito mais – criadas por indivíduos estabelecidos  nos Estado Unidos, americanos ou não.

Numa das primeiras visitas minhas ao Brasil depois de estar estudando nos EUA,  marquei um encontro com antigos professores e colegas de turma das duas faculdades que cursei —  uma no Rio de Janeiro e outra em Niterói.  Fiquei  desapontada, na época, com o preconceito que demonstraram ao me dizerem que o ensino nos EUA não poderia se comparar ao europeu.  Na época não quis rebater.  Achei que talvez se tratasse de um pouco de ciúmes, de um pouco de desconhecimento.  Mas, confesso, não voltei a procurá-los.  Hoje, entendo melhor, porque vejo claramente que ainda temos muitas raízes no preconceito que estipula que “conhecimento é para uns poucos iluminados”.  Este preconceito fertilizado e cuidado é perpetuado por uma sociedade que se divide em classes sociais rígidas e em que uma delas se encontra os “intelectuais”—estes que por suas próprias cornetas alardeiam a importância de seus conhecimentos, de suas habilidades de discernimento.  

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Ilustração francesa, autor desconhecido.

A memória cultural, a memória coletiva de um povo, só pode identificá-lo, quando o acesso ao conhecimento vai além da propriedade de uns poucos para ser generalizado.  Alguns dirão que o processo democrático não deveria influenciar o que “realmente vale a pena reter” porque as massas não saberão entender o que lhes será de maior valia.  Mas nunca foi assim.  Como  Carrière mesmo reflete no diálogo acima, a retenção do saber sempre passou por critérios completamente subjetivos.  Se olharmos a história da transmissão de pensamentos e idéias, das barreiras impostas por traduções ou falta delas do grego ou do árabe sabemos que mais frequentemente do que gostamos de imaginar, o conhecimento de alguma nova equação, de algum conhecimento científico, dependeu lá atrás, há muitos e muitos séculos, da habilidade de algum monge de traduzir um texto do grego, do orgulho de algum rei ou califa de construir uma biblioteca repleta de preciosos manuscritos de outros povos, por vezes povos conquistados, para abrilhantar o seu reino ou o seu ego.  E muito do que foi passado de geração em geração, principalmente nas culturas orais – como é o caso da nossa —  dependeu, mais do que se admite da memória singular de uma avó, de uma tia, de um antepassado que cantava o seu conhecimento.

Graças à internet e à democratização de tudo que se conhece e do que se pensa ou pensou, não viveremos mais sob a ditadura do conceito de que o acesso a qualquer informação é só para os iniciados.  Graças à internet e ao fácil acesso a informação conseguiremos mudar a cara do Brasil, saber quem realmente somos e decidir sobre aquilo que devemos reter nessa grande massa de informação na qual vivemos.





Cantiga de ninar, poema de Décio Valente

3 05 2010

Ilustração de um quadro de Donald Zolan.

Cantiga de ninar

Décio Valente

Cai a chuva no telhado,

chuva boa, criadeira;

cai e corre, corre e pinga,

pinga e bate a noite inteira.

Bate, bate, pingo-d’água,

vai batendo pelo chão,

tique, taque, tique, taque,

como faz o coração.

Bate, chuva, de mansinho,

nos caixilhos da janela;

vai ninando esta criança,

pedacinho meu e dela…

Bate, chuva, vai batendo,

bate, bate, sem parar;

quero ouvir, a noite toda,

o teu canto de ninar.

Em: Cantigas simples, Décio Valente, São Paulo: 1971.

 

Décio Valente, nasceu em Capivari, SP.

Obras:

Anedotas e contos humorísticos, 1955

Cenas humorísticas, 1955

Cantigas simples, 1963

Seleta filosófica, 1964

Pensamentos e reflexões, 1966

Vida e obra de Euclides da Cunha, 1966

Coisas que acontecem…, 1969

Do medíocre ao ridículo, s/d

Ramalhete de trovas, 1977

O plágio, 1986





Mariette em êxtase, de Ron Hansen

2 05 2010

 

 

Santa Teresa em êxtase, 1645-1652       [DETALHE]

Gian Lorenzo Bernini ( Itália, 1598-1680)

Escultura em mármore

Capela Cornaro, Igreja de Santa Maria della Vittoria, Roma.

Não sei exatamente porque escolhi recentemente a leitura  de Mariette em êxtase, [Editora Objetiva: 1996] romance do escritor americano Ron Hansen, um livro que já fazia moradia na minha estante há alguns anos.  Não sei tampouco como esse livro  “apareceu aqui em casa” tendo um perfil tão diferente do que costumo comprar.  Mas estou grata às circunstâncias que me levaram a ele, pois essa foi uma leitura cativante, rica e inesperadamente marcante.

A história se passa no início do século XX, no convento das  freiras Irmãs da Crucificação, no interior do estado de Nova York.  Mariette, uma bela jovem de dezessete anos, filha de um médico local, decide entrar para esse convento, o mesmo escolhido anos antes por sua irmã mais velha, também chamada para a vida monástica.  Mariette é uma jovem devota, extremamente espiritual, dada a sonhos e transes, que se realiza na vida doméstica e regrada das religiosas.  Com essa abertura, seria difícil imaginar que o cotidiano de um convento, com rotinas de orações, horas para meditação, jantares em silêncio seria evocado de tal maneira que ler o texto até o final poderia tornar-se uma obsessão tão aguda quanto se essa história fosse um conto de espionagem.

E é.  Foi assim que me senti.  Acho que esta é de fato uma história de quase espionagem, uma história de mistério.  Não da espionagem como a entendemos entre nações rivais, companhias multinacionais roubando novas idéias umas das outras.  Nem mesmo uma história de mistério com algum crime por resolver.  Mas há  semelhanças com a espionagem porque depois de seis meses de vida conventual Mariette recebe sinais de que suas preces e sua devoção são respondidas.  Sua fé talvez esteja sendo agraciada por poderes espirituais desconhecidos por meros mortais.   Agraciada por quem?  Como ela conseguiu esse canal de comunicação com o mundo espiritual?  Porque não qualquer outra freira do convento?  Fervorosa nas suas orações, zelosa ao manter suas penitências, obstinadamente dedicada à sua crença, Mariette é arrebatada por eventos fora de seu controle:  estigmas que aparecem em suas mãos, sangue que jorra de feridas no seu corpo.   Esse é o mistério que a abraça, que a faz diferente das outras irmãs. 

 

A natureza da diferença de Mariette em  relação às suas companheiras é o fator de divisão nessa pequena comunidade.  Devemos acreditar ou não nos sinais de fé da Mariette?  São verdadeiros ou forjados?   Logo, logo o convento se divide.  O mistério invocado pelos estigmas é onipresente,  devastador.  Nesse aspecto, o romance chegou a me lembrar do filme O anjo exterminador de Luís Buñuel (1962).  Não que haja perigo de morte para os habitantes do convento, mas a presença do mistério, do indescritível poder de uma força diferente, exterior, alienígena leva a revelações íntimas sobre as próprias freiras.  As conseqüências são as dúvidas sobre o próprio mistério, são a inveja, são as inseguranças de cada membro afloradas.  Tudo isso me lembrou forçosamente da parede invisível que condena os convidados de um jantar a uma clausura indefinível do filme mexicano.

O sucesso dessa narrativa deve-se principalmente à magnífica prosa de Ron Hansen, — em grande parte deixada intacta pela excelente tradução de Marcos Santarrita —  que não usa uma palavra a mais do que o necessário; que mantém até o final o enigma dos mistérios testemunhados pelos personagens e pelo leitor.  O ritmo da narrativa é fundamental nesse romance.  Determinado a não se acomodar a soluções fáceis e a dar ao leitor a opção de solucionar o que se passa por si mesmo, Ron Hansen consegue produzir uma pequena obra prima que nos leva a considerar a natureza da fé e do milagroso.  Esse é um livro fascinante.  De leitura rápida e bem ritmada, sua história fica na nossa imaginação sendo revivida de diversas formas, sendo aludida com freqüência.  Uma ótima leitura.

Ron Hansen





Dinossauros mudavam de plumagem com frequência

29 04 2010

Ilustração

Uma pesquisa do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia de Pequim indica que a espécie de dinossauro Similicaudipteryx, que fazia parte do grupo de dinossauros “ladrões de ovos” conhecido como oviraptossauro, sofria grandes mudanças na plumagem ao crescer. As informações são da revista Nature.

Segundo o estudo, fósseis que mostram dois espécimes do Similicaudipteryx em estágios diferentes de crescimento indicam que o filhote tinha penas de voo muito diferentes das do fóssil adulto. A descoberta indica que, ao contrário das aves, que mudam as penas quando muito jovens, o dinossauro tinha um estágio “intermediário”, de troca de plumagem na juventude.

De acordo com a revista, ornitologistas e biólogos vêem com cautela a descoberta. O ornitologista Richard Prum, da Universidade de Yale, por exemplo, diz que quando os pássaros regeneram suas penas, as novas crescem enroladas em uma espécie de tubo. Segundo Prum, o fóssil pode ter preservado penas crescendo desta maneira, assim como as aves atuais.

Já o biologista Cheng-Ming Chuong, da Universidade do Sul da Califórnia, diz que “se dermos aos autores o benefício da dúvida (…) será a primeira demonstração de que estes dinossauros com penas podem sofrer alterações de plumagens na vida“.

Fonte: Terra





Filhotes fofos: ursinhos polar

28 04 2010

Foto: Agência Reuters

Filhotes de urso polar mamam no zoológico da cidade de St. Petersburg. Os filhotes, que têm seis meses de idade, foram autorizados a andar em uma jaula ao ar livre pela primeira vez desde o seu nascimento.





Pesquisar, poesia infantil de Berenice Gehlen Adams

24 04 2010
 

 

Ilustração de Jerry Gonzalez

Pesquisar   

                                                                                      Berenice Gehlen Adams

 

 

Pesquisar é entrar

Na vida dos livros,

Em vidas vividas

Por reis e rainhas,

Em vidas vividas

Por bichos e plantas…

Pesquisar é entrar

Na vida real,

Na vida vivida

Por todos nós.

E quanto mais pesquisamos,

Mais curiosos ficamos,

Porque a pesquisa

Nos encanta e nos fascina,

Porque é da vida real

Que se criam os sonhos…

Pesquisar é entrar

Na vida dos bichos,

Na vida das plantas,

Na vida de rios e mares,

Procurando em cada canto

Um pequeno encanto.

E quanto mais pesquisamos

Mais percebemos que a vida

É cheia de cantos

E encantos secretos.

Na verdade é pesquisando

Que aprendemos

O quão imenso é

o nosso universo.

Berenice Gehlen Adams

 

Berenice Gehlen Adams – (Novo Hamburgo, RS, 1961)  Professora , escritora, artista plástica, ilustradora, editora de revista,  educadora e ativista ambiental.