Imagem de leitura — Marie Spartali Stillman

10 03 2011

Sonetos de amor, 1894

Marie Spartali Stillman (Inglaterra, 1844-1927)

Delaware Art Museum, EUA

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Marie Euphrosyne Spartali, mais tarde adotando o nome de casada, Stillman (1844 – 1927),  foi uma pintora inglesa que adotou o movimento Pré-Rafaelita.  Considerada talvez a mulher mais importante desse movimentos Marie Spartali teve uma produção prodigiosa, deixando mais de cem telas produzidas.  Dedicou-se a temas típicos do movimento Pré-Rafaelita como  cenas de Shakespeare, Petrarch, Dante and Boccaccio, além de paisagens do interior da Itália.





A Batalha de Confete de 1907 — fotos da Revista Kósmos

8 03 2011

Batalha de Confete, Avenida Beira-Mar, Rio de Janeiro, sem indicação de autor, Revista Kósmos, fevereiro de 1907. 

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Esta postagem é baseada nas fotografias de uma das Batalhas de Confete  ( a de 1907) – essa era uma das festividades do  Carnaval no Rio de Janeiro do início do século XX.    O costume de nomear alguns festejos de Momo como Batalha de Confete,  ou ainda de Batalha de Flores, deriva do carnaval francês da cidade de Nice (sul da França), onde, há mais de duzentos anos, se realiza a Batalha de Flores, hoje em dia no sábado que antecede a Terça-feira Gorda.  Lá, o costume de desfilarem carros alegóricos cobertos de flores no Carnaval resiste até hoje.  Duas dezenas de carros desfilam pela Promenade des Anglais cobertos por diferentes flores numa homenagem antecipada à chegada da primavera no hemisfério norte. 

Batalha de Confete, Avenida Beira-Mar, Rio de Janeiro, Baía de Guanabara, ao fundo o Morro da Urca e o Pão de Açúcar.  Foto sem indicação de autor, Revista Kósmos, fevereiro de 1907.

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No Rio de Janeiro as Batalhas de Confete mais documentadas foram em sua maioria organizadas no passeio da Avenida Beira-Mar, ao longo da Baía de Guanabara, nos primeiros anos do século passado.    Era um evento que proporcianava aos mais abastados a possibilidade de também participarem dos 3 dias de folia, demonstrando que,  desde então, o Carnaval era  universal e que o verdadeiro espírito carnavalesco contagiava a todos, cada qual brincando e interpretando a folia à sua maneira.   A Batalha de Confete, seguia de perto o ritual estabelecido na França:  carruagens,  e mais tarde carros motorizados,   desfilavam enfeitadas com flores e bonecos.  Era um evento totalmente familiar, sem as características licensiosas e mordazes de outras manifestações do Carnaval carioca.

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Carruagens enfileiradas, trançadas pelas centenas de serpentinas, desfilam na Batalha de Confete do Carnaval de 1907, na  Avenida Beira-Mar, Rio de Janeiro.  Foto sem indicação de autor, Revista Kósmos, fevereiro de 1907.

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Em fila, ao longo do bairro da Glória, tendo o Pão de Açúcar como pano de fundo, ainda sem bondinho, carruagens e carros particulares passeavam enfeitados, como se fossem pequenas prévias dos grandes carros alegóricos de carnavais futuros.   Nessas carruagens, as famílias – em geral fantasiadas – iam de um ponto ao outro da avenida, cumprimentando-se de uma maneira “carnavalesca”:  jogavam confete uns nos outros, flores em pequenos ramos ou até mesmo serpentinas.   

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Carruagens perfiladas na Batalha de Confete do Carnaval de 1907,  organizada pelo jornal Gazeta de Notícias, na  Avenida Beira-Mar, Rio de Janeiro.  Foto sem indicação de autor, Revista Kósmos, fevereiro de 1907.

Apesar de o costume das Batalhas de Confete já existir antes de 1907, data das fotografias aqui  mostradas, foi a inauguração da Avenida Beira-Mar, se unindo, próximo ao Passeio Público com a Avenida Central [ hoje avenida Rio Branco] , em 1906, que deu maior ímpeto ao evento. 

Duas observações de interesse: 

1 —  Hoje, a Batalha das Flores em Nice, na França, sofre uma influência ao inverso.  A música tocada na sua abertura é em geral brasileira, assim como muitas das belas mulheres desfilando dentro dos carros alegóricos e floridos são brasileiras.

2 — A  tradição dos carnavais de Nova Orleans, nos EUA, também evolve das Batalhas de Flores francesas.  Na cidade americana, até hoje, carros alegóricos passam por entre a multidão na rua e ao invés de flores, são distruibdos,  jogados aos traseuntes,  pequenos colares de contas coloridas.





O coração, poesia infantil de Walter Nieble de Freitas

2 03 2011

Crianças e coração, s/d

Romero Britto ( Brasil, 1963)

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O coração

                             Walter Nieble de Freitas

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Trago no peito uma joia

Pequenina, delicada,

Tão pequenina que lembra

Esta mãozinha fechada.

Nela se aninha a bondade,

O carinho, a gratidão;

O seu nome tem poesia,

Pois se chama coração.

Não pensem que ele foi feito

Com gemas de alto valor:

É um presente de Deus

Esta obra prima de amor!

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Numa cadência de marcha,

Bate sempre sem parar,

Como se fosse um pandeiro

Que não para de vibrar.

Mas se eu faço travessuras,

Meu coração contrafeito,

Muda o compasso e transforma

Em batucada o meu peito!

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Em: Barquinhos de Papel: poesias infantis,  de Walter Nieble de Freitas, São Paulo, Editora Difusora Cultural: 1961

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Walter Nieble de Freitas ( Itapetininga, SP)  Poeta e educador, foi diretor do Grupo Escolar da cidade de São Paulo.

Obras:

Barquinhos de papel, poesia, 1963

Mil quadrinhas escolares, poesia, 1966

Desfile de modas na Bicholândia, 1988

Simplicidade, poesia, s/d

Chico Vagabundo e outras histórias, 1990





Limerique infantil de Tatiana Belinky — “minhocas”

23 02 2011
Zá Carioca empresário de minhocas, Ilustração Walt Disney.

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Ao ver uma velha coroca

fritando um filé de minhoca

o Zé Minhocão

falou pro irmão:

“Não achas melhor ir pra toca?”

Tatiana Belinky

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Em:  Poesia fora da estante, Vera Aguiar ( coord.), Simone Assumpção e Sissa Jacoby, Porto Alegre, Projeto: 2007

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Tatiana Belinky nasceu em São Petersburgo na Rússia em 1919.  Imigrou com a família para o Brasil, onde se instalaram em São Paulo.  Tatiana tinha 10 anos e idade.  Escritora, poeta, roteirista de tv, tradutora.   É hoje uma das mias importantes escritoras infanto-juvenis no país com mais de 120 obras publicadas.  Depois do curso secundário, estudou Filosofia na Faculdade São Bento, mas abandonou o curso em 1940 quando se casou com o médico Júlio de Gouveia.  Junto com o marido, criou muitas várias adaptações de histórias infantis para teatro.  Juntos  montaram peças para os teatros da Prefeitura de São Paulo e de lá pularam para encenações de peças no início da televisão no Brasil.  Trabalhou também como roteirista de programas para a televisão btrasileira desde 1952, na  extinta TV Tupi.  Desde 1985 escreve para jovens leitores.

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Algumas de suas obras infanto-juvenis ( não inclui peças de teatro, e dezenas e dezenas de traduções e adaptações de outros autores):

O caso dos ovos, 1985

O sapateiro remendão, 1987

Que horta, 1987

A alegre vovó Guida que é um bocado distraída, 1988

Cinco trovinhas para duas mãozinhas, 1988

A história da ursa-parda, 1988

Represália de Bicho, 1988

Histórias de Fantasma, 1989

Olhos de ver, 1989

Transplante de menina, 1989

Acontece cada uma…, 1990

Bidínsula e outros retalhos, 1990

As coisas boas do ano, 1990

Di-versos russos, 1990

Quatro amigos, 1990

Di-versos hebraicos, 1990

Saladinha de queixas, 1991

Tatu na casca, 1991

Assim, sim!, 1992

Bumburlei, 1992

Micha, 1992

Quem tem casa, casa?, 1992

Ratinho manhoso, 1992

Rimadinho, 1992

A ratinha presunçosa, 1993

Di-versos alemães, 1993

Grande cão curso, 1993

O caso do vaso, 1994

Bom remédio, 1995

O caçador valente, 1995

Beijo não!, 1997

Cachtanga artista por acaso, 1998

Diversidade, 1999

Que tal?, 1999

Coral dos bichos,  2000

Chorar é preciso?, 2001

Contanabos, o senhor das montanhas, 2001

Curto-circuito, 2001

O gato professor, 2001

Mandaliques (com endereço e tudo), 2001

O livro dos disparates, 2001

As três respostas, 2001

O samurai e a cerejeira, 2001

O simplório e o malandro, 2001

Ogro, 2001

Sou do contra: limeriques,  2001

Vrishadarbha e a Pomba, 2001

Acontecências, 2002

A aposta, 2002

Criança feliz: contos e cantos, 2o03

O que eu quero, 2003

Trazido pela rede, 2003

Um caldeirão de poemas, 2003

Mentiras… e mentiras, 2003

Aparências enganam, 2004

Cantiga do Tiribiri-biribim, 2004

O livro das tatianices, 2004

Vovô Majai  e as lebres, 2004

 Abc e numerais pra brincar é bom demais, 2005

 17 È Tov !, 2005

Kanniferstan, 2006

Limeriques para pinturas, 2006

A torre do Reno, 2006

Desatreliques, 2006

Limeriques da Coroa Implicante, 2006

Limeriques dos Tremeliques, 2006

Monstros e medos, 2006

Sete vezes sim!, 2006

Hoje é dia de festa!, 2006

As moedas estrelas, 2006

Um zoológico de papel, 2007

Bicholiques, 2007

O cão fantasma, 2007

Salada de limeriques, 2007

Limeriques da cocanha, 2007

Limeriques das causas e efeitos, 2007

O nariz, 2008

A charada do gorducho, 2009





Pato Donald, fonte de inspiração em Hollywood, na Ciência e no Japão

16 02 2011
Tio Patinhas considera uma história para roteiro de filme, ilustração Walt Disney.

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Muita gente que conheço se surpreende com a coleção de quadrinhos que tenho.  A maioria foi comprada depois de adulta.  A surpresa também acontece quando as pessoas percebem que tenho muitas vezes a pachorra de tirar fotos de alguns quadrinhos para postagem neste blog.  Este é um dos meus instrumentos de comunicação visual.  Muitos quadrinhos conseguem, numa só cena, contar uma idéia ou uma historieta inteira, principalmente quando estamos familiarizados com seus personagens. 

Lá em casa histórias em quadrinhos nunca foram proibidas.  Aliás, nenhum tipo de leitura foi proibido.  Meu gosto pelos quadrinhos vem desde pequenina, sempre os li e minha mãe também.  Ela era uma ávida leitora de gibis.  Papai, que era mais chegado aos textos científicos por sua própria profissão, também se deliciava com as invenções do Professor Pardal, chegando a conversar conosco sobre as possibilidades dessa ou daquela invenção estar no caminho certo de uma nova descoberta.  Todos nós na família éramos adeptos do  Pato Donald, que foi sempre um preferido; mais até do que o Mickey.  Mas sabíamos de cor e salteado todos os nomes dos personagens das revistinhas – inclusive os nomes dos personagens coadjuvantes e um dos passatempos favoritos de quando éramos crianças, nas longas viagens de carro, consistia em  nomearmos os diversos personagens de Patópolis, dos mais óbvios aos mais insignificantes. 

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Pateta lê os quadrinhos do jornal, ilustração Walt Disney.

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Ontem, para minha surpresa, meu marido me mandou um link para um artigo na revista CRACKED: 5 amazing things invented by Donald Duck, seriously, [5 coisas surpreendentes inventadas pelo Pato Donald, verdade.].  Neste longo ensaio sobre os quadrinhos do Pato Donald como fonte de inspiração, D. McCallum mostra, passo a passo,  como dois filmes de sucesso, vindos de Hollywood, têm semelhanças descabidas nas sequências de texto com histórias famosas dos personagens de Patópolis.

Entre os roteiros baseados nas histórias dos quadrinhos do Pato Donald estão:

1)      A origem, [Inception](2010), de Christopher Nolan,  cujos sonhos de personagens em comum, de roubo de pensamentos, de purgatório psicológico e de fuga do inconsciente transcorrem na mesma sequencia em que aparecem nas história  Tio Patinhas e o sonho de uma vidaUncle Scrooge and the Dream of a Life-time, publicada em 2002, 8 anos antes do filme.   

2)      Indiana Jones e os caçadores da Arca Perdida, ( Raiders of the Lost Arc] (1981) de Steven Spielberg, baseado na história de George Lucas.  Não, não, não, não não!  Aparentemente Lucas e Spielberg se inspiraram separadamente em duas histórias do Tio Patinhas.  Steven Spielberg admitiu que duas idéias:  a pedra que o ídolo deslanchou e o raio que corre atrás de Indiana Jones, foram inspirados na história – Sete Cidades de CibolaThe Seven Cities of Cibola, publicada em 1954.  Já Lucas se inspirou na história de 1959, The Prize of Pizarro, O Prêmio de Pizarro, com o corredor de flechas e os nativos hostis em perseguição a Indiana Jones.  Ambos Spielberg e Lucas admitem terem se inspirado no Tio Patinhas por serem grandes fãs de suas histórias.

O robô traz a solução de um problema para o Professor Ludovico, ilustração Walt Disney.

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Na ciência aplicada, as histórias do Pato Donaldo também foram fonte de inspiração.  O dinamarquês Karl Kroyer, em 1964 seguiu a idéia da história The Sunken Yacht, os seja, O Iate submerso, escrita por Carl Barkes e publicada em 1949, quinze anos antes.   Inspirado, achou a solução para trazer à tona um navio que havia afundado na costa do Kuait.  Kroyer conseguiu suspender o navio cargueiro em questão enchendo-o com 27 milhões de bolas flutuantes injetadas através de um tubo.   Quando quis patentear sua idéia, teve problemas.  Sua solução foi aceita na Alemanha e na Grã-Bretanha.  Mas quando quis patenteá-la na Holanda, não aceitaram o caso, pois a idéia havia sido publicada anteriormente, na revista do Pato Donald.  Na história O Iate Submerso, os sobrinhos do Pato Donald, trazem das profundezas do mar, um navio do Tio Patinhas que havia afundado.  Procurando por uma solução bem baratinha, — e não poderia ser diferente — o método que usaram foi simples: encheram-no de bolas de pingue-pongue.   Visitem o site da Cracked, para observarem tanto os desenhos de Kroyer como a história do Donald, e terão a certeza de que o governo holandês estava correto.

Foi Carl Barkes (EUA, 1901-2000), que escrevia as histórias do Pato Donald, quem antecipou a descoberta de uma nova molécula nos quadrinhos de  1944.  A história se chamava The Mad CientistO cientista maluco, e girava em volta de um trabalho de ciências que Luizinho, Huguinho e Zezinho faziam para a escola.  Tentando ajudar, Donald, acaba levando uma pancada na cabeça e descobrindo um explosivo chamado “Duckmite”, [“Patomite”].  Nesta história, em uma espécie de transe, Donald descreve uma molécula CH2, aparentemente 20 anos antes dela mesma ser descoberta ou melhor encontrada, pelo mundo científico. 

Tio Patinhas e Pato Donald, ganham uma carona graças à revista que deram de presente ao carroceiro em um lugar longínquo, ilustração Walt Disney.

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Talvez a maior influência que Carl Barkes e principalmente seus personagens possam ter tido através das histórias do Tio Patinhas e consequentemente, Pato Donald e seus familiares, tenha sido sobre o cartunista, desenhista e ilustrador Ozamu Tesuka (Japão 1928-1989), um magaká, ou melhor, um desenhista de mangás, conhecido também como  O Pai dos Mangás [apesar de não ter sido o criador dos mangás, ele leva esse cognome por ter popularizado o gênero], O Padrinho dos Anime,  e O Criador do Astro Boy, entre outros personagens de mangás.   Ozamu Tesuka é o primeiro reconhecer sua dívida com Carl Barkes, na criação dos mangás, a qual se dedicou logo após o término da Segunda Guerra Mundial.  Todos os anos até sua morte mandava um cartão de Boas Festas a Carl Barkes com agradecimentos sobre sua influência no seu trabalho.

Esse artigo de D. McCallum, vale a pena ler, inteiramente.  O que temos aqui é apenas um sumário de seu trabalho e mesmo que você possa não entender inglês vá até o site do artigo para ver as ilustrações de todos os pontos aqui mencionados.    O autor promete que há mais fatos de interesse sobre o Pato Donald, no livro editado pela Cracked chamado: You Might Be a Zombie and Other Bad News: Shocking but Utterly True Facts, Plume: 2010.  

Com essa nota de humor, deixo aqui um pequeno vídeo de Astro Boy, com vozes lusitanas.  Divirtam-se.

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VÍDEO DO ASTRO BOY:

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Imagem de leitura — Federico Faruffini

8 02 2011

A leitora

Federico Faruffini (Itália, 1833 – 1869)

óleo sobre tela

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Federico Faruffini nasceu em Sesto San Giovanni, 1833 e antes de se dedicar à artes plásticas, estudou direito.  Formou-se pela Escola de Pintura de Pavia. Dedicou-se à pintura histórica,  a de gênero e ao tratamento ilustrativo de cenas retratadas pela literatura.  Suicidou-se 1869 em Perugia.





Imagem de leitura — Léon Augustin L’hermitte

3 02 2011

A lição de leitura, 1912

Léon-Augustin L’Hermitte ( França, 1844 -1925)

óleo sobre tela

Coleção Particular

Léon Augustin L’hermitte, nasceu em Mont-Saint-Père em 1844.  Foi pintor e gravador.  Estudou com Horace Lecoq de Boisbaudran.   Ganhou reconhecimento depois de expor no Salão de Paris de 1864, sempre com suas telas realistas, dedicadas à vida rural,  repletas de detalhes do dia a dia da vida dos camponeses.  Seu grande trunfo foi o uso inovador do óleo pastel em suas pinturas.  Entre as distintas honrarias que recebeu durante sua vida está a Legião de Honra, 1884 e o Grande Prêmio na Exposição Universal de Paris de 1889.  Ele morreu em 1925 em Paris





Não faça pouco de uma paixão! Lembre-se de Vladimir Nabokov.

3 02 2011
Ilustração, Hervé.

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O hábito não faz um monge, assim como um diploma em direito não faz um advogado ou um diploma em história faz um historiador.  Recentemente, uma leitora respondeu a uma de minhas postagens, criticando-a porque o livro em consideração, apesar de ser de história do Brasil, não havia sido escrito por um historiador formado.  Isso é o que eu chamo de burocracia da mente.  Não publiquei o comentário porque era uma crítica desleal a um autor de grande responsabilidade.  Além do mais, não acredito na premissa de que um diploma seja necessário para que um produto de pesquisa seja de qualidade.   Hoje, então, dando uma vista d’olhos na rede, tive a minha teoria comprovada e ainda por cima uma bela história de interesse para contar.

Em 25 de janeiro deste ano, o jornal americano The New York Times, publicou um artigo assinado por Carl Zimmer, titulado Nonfiction: Nabokov Theory on Butterfly Evolution Is Vindicated , onde aprendemos que o famoso escritor americano de origem russa, Vladimir Nabokov, além de excelente escritor, autor do romance Lolita, entre muitos outros títulos, era um grande estudioso amador dos lepidópteros.  E que suas teorias, a respeito da migração de borboletas da Ásia para as Américas, através de milhões de anos em pequenos vôos, acabam de ser verificadas corretas, como foi demonstrado na semana passada por cientistas dedicados aos estudos de DNA, que publicaram suas conclusões na revista científica The Proceedings of the Royal Society of London.

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Há mais nessa notícia do que o fato de Nabokov saber do que falava quando se referia a borboletas.  Há mais nela do que aprender que sua paixão por borboletas teve as sementes fertilizadas pelo amor de seus pais a esses insetos e que Nabokov era um colecionador sério desses insetos, participando de expedições para a captura de variados espécimes de borboletas.  Ficamos sabendo também que Nabokov provavelmente teria se transformado num cientista, dedicado aos lepidópteros, se a Revolução Russa de 1912, não tivesse motivado a família Nabokov a emigrar.  Durante a estadia na Europa, ainda muito antes de sua ida para os Estado Unidos, Vladimir Nabokov continuou os estudos (autodidatas) das borboletas, visitando as mais diversas coleções e tomando notas detalhadas sobre o que via.    Essa paixão viva é demonstrada, ainda em 1928, quando dedica o dinheiro ganho pela publicação do romance Rei, Valete, Dama, ao financiamento de uma excursão aos Pireneus, em que ele e sua esposa, Vera, conseguiram capturar mais de 100 espécimes.

Nos Estados Unidos, Vladimir Nabokov foi o curador de lepidópteros no Museu de Zoologia Comparada da Universidade de Harvard – o que demonstra que mesmo para instituições com o prestígio da Universidade de Harvard, competência e não diplomas é o que importa.  [ Há uns três dias atrás falei das vantagens do pragmatismo americano, esse episódio demonstra em parte o de que eu falava.]

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Ilustração: Borbolera 21, de Rana Sadat Aghili.

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A descoberta de que a teoria de Nabokov estava certa é sensacional.  E nos lembra de alguns pontos importantes sobre as coisas a que nos dedicamos.

—  uma mente criativa consegue imaginar soluções para problemas.  Uma mente criativa pensa fora dos padrões estabelecidos, “fora da caixa”.  Nabokov com conhecimento e dedicação conseguiu superar a falta de dados precisos – que não existiam na época – para chegar a conclusões corretas sobre a evolução das borboletas nas Américas!

—  se alguém, você ou seu filho, ou alguma outra pessoa no círculo de influência ama um assunto, ou uma atividade incentive-o.  Dê corda.  É essa paixão que lhe dará asas nos momentos difíceis e que lhe dará raízes para crescer.

Refletindo sobre o artigo das borboletas de Nabokov eu me lembrei de um programa SEM CENSURA, com Lwdwig Waldez, em que ele dizia, muito corretamente “seu filho detesta história e adora matemática.”   Você colocaria o seu filho com aulas particulares em que matéria?  História?  Não!   Não!   Deve colocá-lo para ter aulas em matemática e assim ele se transformará no melhor que existe naquele campo.

É disso, na verdade que precisamos.  Precisamos incentivar as paixões, como a de Nabokov por borboletas,  precisamos adubar os interesses daqueles que nos rodeiam.  Porque só com dedicação e amor, muito amor ao que se faz, pode-se deixar uma marca, uma marca indelével para a posteridade, pode-se contribuir para o mundo que nos rodeia.   Pensem nisso!

©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2011

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VEJA O VÍDEO DE LWDWIG WALDEZ,

e abaixo os links para as duas primeiras partes dessa entrevista.

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1 — http://www.youtube.com/watch?v=l8u27KE2gvs&feature=related

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2 — http://www.youtube.com/watch?v=M22hVEMQVLs&feature=related

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Imagem de leitura — Aldemir Martins

2 02 2011

 

POSTADO aldemir martins, menina_lendo, 1978, acril st, 90x116

Menina lendo, 1978

Aldemir Martins ( Brasil, 1922-2006)

acrílica sobre tela, 90 x 116 cm

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Aldemir Martins (Ingazeiras CE 1922 – São Paulo SP 2006). Pintor, gravador, desenhista, ilustrador. Em 1941, participa da criação do Centro Cultural de Belas Artes, em Fortaleza, com Antonio Bandeira, Raimundo Cela, Inimá de Paula e Mário Baratta, um espaço para exposições permanentes e cursos de arte. Três anos depois, a instituição passa a chamar-se Sociedade Cearense de Artes Plásticas – SCAP. Aldemir Martins produz desenhos, xilogravuras, aquarelas e pinturas. Atua também como ilustrador na imprensa cearense. Em 1945, viaja para o Rio de Janeiro, e, menos de um ano depois, muda-se para São Paulo, onde realiza sua primeira individual e retoma a carreira de ilustrador. Entre 1949 e 1951, freqüenta os cursos do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand – Masp e torna-se monitor da instituição. Estuda história da arte com Pietro Maria Bardi e gravura com Poty Lazzarotto. Em 1959, recebe o prêmio de viagem ao exterior do Salão Nacional de Arte Moderna e permanece por dois anos na Itália. Desde o início da carreira sua produção é figurativa, e o artista emprega um repertório formal constantemente retomado: aves, sobretudo os galos; cangaceiros, inspirados nas figuras de cerâmica popular; gatos, realizados com linhas sinuosas; e ainda flores e frutas. Nas pinturas emprega cores intensas e contrastantes.

Biografia: Escritório de Arte





Então, meninas onde estão suas contribuições para a Wikipedia?

2 02 2011

Nina na minha mesa, 2000

Andrew Paquette ( EUA, contemporâneo)

aquarela sobre papel,  25 x 35 cm

http://www.paqart.com/

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No dia 30 de janeiro o jornal The New York Times publicou um artigo Define gender gap?  Look up Wikipedia contibutors list, de Noam Cohen sobre a enorme diferença de gênero entre os contribuintes da Wikipedia.  Eu e muitos de meus amigos ficamos surpresos com essa diferença.  Só 13% dos contribuintes da enciclopédia virtual é composta de mulheres.  Esta notícia se torna ainda mais surpreendente quando consideramos que as mulheres em grande parte dos países ocidentais têm maior número de anos de educação formal.

Outra surpresa foi saber que a maioria dos contribuintes está no patamar de 25 anos de idade e por causa da menor participação feminina nessa enciclopédia coletiva, há assuntos de relevância para as mulheres com muito menos ênfase do que assuntos de típico interesse masculino.

Sou uma das mulheres que contribui, talvez não tão regularmente quanto poderia, para a Wikipedia.  Por que? 

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Notei, há algum tempo, que quando procurava uma informaçãozinha básica sobre um autor brasileiro ou sobre um assunto nosso, havia muito pouco na enciclopédia em português.   Há muita coisa sobre os esportes.  Mas pouco de cultura.  Há muito sobre filmes, pouco sobre autores do passado.  Há muito sobre televisão e seus artistas.  Há pouco sobre pequenos heróis da nossa história.  Quase nada sobre mulheres de influência nos séculos passados. 

Parte do problema é a nossa própria difusão da cultura.  Parte é que as pessoas de maior idade que possivelmente poderiam contribuir  mais, não são tão adeptas à internet.  São diferenças culturais e de gerações. 

Com a criação deste blog, descobri que eu poderia dar a minha pequena contribuição.  Não necessariamente porque eu saiba mais do que outras pessoas, mas porque, talvez, eu tenha tido mais acesso a informações.  E informação é tudo.  É a divulgação de informação que faz as pessoas pensarem em soluções  para problemas do dia dia de maneira criativa, “fora da caixa”.

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Café au lait, 2006

Pepper Peterson (EUA, contemporânea)

óleo sobre placa de madeira

www.pepperpeterson.com

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Tenho tentado contribuir com a Wikipedia, essa enciclopédia virtual coletiva, postando informações que eu mesma fui obrigada a pesquisar para poder dar informações mais sólidas sobre o que escrevo na Peregrina Cultural.  Mas confesso que tenho tido uma preguiça enorme de colocar lá na Wikipedia o que coloco no blog, repetir a informação.

Às vezes tomo coragem e por dois dias seguidos ponho alguns dados.  Mas não faço isso com regularidade suficiente para dominar os “padrões de estilo” do portal.  Resultado: para entrar, por exemplo, informações sobre os escritores: Wilson Woodrow Rodrigues e Sabino de Campos, coisa que fiz recentemente, acho que foi até na semana passada,  penei.  Editei os textos diversas vezes, muitas vezes mesmo, uma coisa que a Wikipedia prefere que não seja feita.  Assim mesmo, os verbetes, até hoje, ainda não estão de acordo com as regras da Wikipedia. 

Por que acho tão difícil?  Porque gasto muito tempo tentando achar respostas para dúvidas irritantes, procurando informações com as quais perco a paciência, detalhistas demais: como entrar título de obra?  O que deve levar letras maiúsculas?  O que deve ter um link para outra página?  E assim por diante.  Essa necessidade de se entrar tudo de acordo com o sistema deles, que é diferente de muitos, tem-me afastado do portal como contribuinte.   Seria fenomenal se eles tivessem alguém que pudesse fazer isso por mim.  Porque eu certamente poderia usar uma secretária! 

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Amadeu começa a escrever,  será?  Ilustração Walt Disney.

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Muitos não confiam num trabalho coletivo desse porte. Nem tudo que está lá é correto.  Mas o que é correto é tão maior, mas muito, muito maior do que o incorreto, que pode  ser considerado insignificante e em geral é consertado rapidamente.  E vejo que a divulgação de informação correta no portal da Wikipedia é uma das grandes contribuições que esta organização fez mundialmente; uma grande contribuição para nivelar acesso a informações e aumento do conhecimento geral no planeta.  É um documento do saber coletivo.  Lindo não é mesmo?   E gosto dela por isso.  Gosto de estar lá dando a minha contribuição de formiguinha. 

Se olharmos o número de verbetes em português em comparação com o número de verbetes em outras línguas, a gente sai perdendo.  Vamos nos lembrar que os verbetes em português, incluem: Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Guiné Bissau, Cabo Verde, Macau, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.  Países com população muito menor que essa toda  têm muito mais verbetes do que nós.  Depois reclamamos da falta de conhecimento “lá fora” sobre o que é nosso.  Mas o que estamos fazendo para divulgar esse conhecimento aqui e lá fora?

Lendo o artigo ontem sobre a falta de mulheres como contribuintes da Wikipedia, voltei a criar coragem e tentar diminuir essa diferença.  Quem sabe se você que está lendo esta postagem não se candidata?  Cada qual faz um pouquinho e brasileiros e o mundo terão mais acesso e mais conhecimento sobre as nossas coisas, a nossa cultura.  Anime-se!