Renê Nascimento (Brasil, contemporâneo)
acrílica sobre tela, 80 x 100 cm
Renê Nascimento (Brasil, contemporâneo)
acrílica sobre tela, 80 x 100 cm
Quer na alegria ou na dor,
entre sorrisos e ais,
para mim não existe cor:
brancos… pretos… são iguais.
(Alice de Oliveira)
A carta, s/d.
Rachel Deacon (Inglaterra, contemporânea)
óleo sobre tela 76 x 61 cm
Marco Polo às portas da Cidade de Ormuz [há dúvidas sobre essa identificação].Livres des Merveilles, Snark, Bibliothèque Nationale, Paris
Há dois anos leio de vez em quando uma passagem do livro Marco Polo: de Veneza a Xanadu, Laurence Bergreen. Isso depois de já ter lido o livro inteiro. Na primeira leitura fui marcando as cidades pelas quais passava Marco Polo. [Quem lá na companhia americana 3M inventou as Post-it notes ™, na minha opinião tem entrada garantida no céu… Que delícia poder marcar um livro todo sem desfigurá-lo!] Bem, fui marcando cada passo da viagem de Marco Polo, para procurar na internet o que se sabe desses locais e se existem construções da época [século XIII]. Sei que isso pode parecer coisa de quem não tem o que fazer, e provavelmente é. Mas para quem gosta de história isso é uma fonte incrível de entretenimento, muito mais atraente do que grande parte dos programas de televisão, do que muito romance na lista dos mais vendidos. Com um pouquinho de informação, com o Google Maps, e fotos, com acesso a bibliotecas inteiras na rede, a imaginação se solta e com tempo e tenacidade preencho muitos dos espaços que desapareceram apagados pelas pegadas de invasões, guerras, pestes, e todo tipo de calamidade que já nos atingiu e continuará atingindo. Há muito pouca informação segura ainda sobre esses locais, principalmente em regiões como a Pérsia (maior parte do Irã hoje) que se encontra em grande turbulência faz muito tempo. Sítios arqueológicos nem sempre permaneceram abertos através dos diversos confrontos bélicos e corremos o risco de perder muito do que ainda poderia ser resgatado. Mesmo assim essa viagem eletrônica pelo mundo de Marco Polo tem sido fascinante.
“Ormus” (Braun e Hogenberg. “Civitates Orbis Terrarum“, 1572)
Ormuz é um dos locais — visitado por Marco Polo no início de sua viagem — que encontra numerosas referências na rede. Tem mais: muitas dessas referências são em português. Isso porque os portugueses estiveram por lá em 1507, dominaram a cidade, e tentaram construir o Forte de Nossa Senhora da Vitória, mas foram surpreendidos pela deserção de três capitães. Os portugueses tentavam colocar o cabresto no comércio internacional que obrigatoriamente passava por essa ilha na entrada do Golfo Pérsico. Mas inicialmente não foram bem sucedidos. Só em 1515, Afonso de Albuquerque, já governador da Índia, estabeleceu a suserania de Ormuz submetida ao governo da Índia. A Ormuz que atraía os portugueses não era mais aquela visitada por Marco Polo, pois os portugueses estiveram por lá trezentos anos depois da viagem do mercador italiano, mas desde o período medieval que o local era de grande importância para o comércio de produtos exóticos vindos do Oriente.
[À parte: toda vez que leio sobre as explorações portuguesas na Era dos Descobrimentos sinto profunda admiração pelos homens que se atreveram a explorar o desconhecido. Na Era dos Descobrimentos, a população de toda a Europa é estimada em 60 milhões e a população total de Portugal entre 1400 e 1500 é estimada em um milhão de pessoas. Um país tão pequenino, com uma população ínfima [1/60 de toda a Europa] que se jogava em frágeis embarcações, sair pelo mundo, conquistando, brigando, construindo, lutando, guerreando, tendo o atrevimento de desbancar governos locais, já estabelecidos, tem algo de mágico, do mitológico, do conhecido enredo do arquétipo do “pequeno contra o gigante”, que me comove. Os obstáculos eram enormes, as dificuldades aterrorizantes, as doenças intermitentes, o desconhecido era abismal e assim mesmo, espada em punho, foram aos muitos cantos do mundo. É muito impressionante.] Para ter uma ideia dos perigos enfrentados em Ormuz, pelo viajante no século XIII, fica aqui abaixo uma citação do livro de Laurence Bergreen, com citações diretas da descrição original de Marco Polo.
Para o grupo de viajantes, a visão de tanta água após passarem meses no deserto os fez recordar Veneza e o Mar Adriático, porém, observando-a melhor, Ormuz não era exatamente a joia que tinham avistado de longe. Em primeiro lugar, “se um mercador aqui morre, o rei confisca todos os seus bens”. O clima também trazia riscos aos viajantes desprevenidos. O vento do deserto circundante podia ser “tão sufocantemente quente que seria mortal se, tão logo percebessem sua chegada, os homens não mergulhassem na água até o pescoço para escapar do calor”.
Enquanto estiveram em Ormuz, Marco ficou horrorizado ao saber que o vento mortal apanhara de surpresa pelo menos 6 mil soldados (5 mil a pé, o restante a cavalo) no deserto e sufocara “todos eles, de sorte que ninguém sobreviveu para levar a notícia ao senhor”. Com o tempo, os “homens de Ormuz”, souberam da morte em massa e decidiram enterrar os corpos para evitar infecções, mas “quando os suspenderam pelos braços para levá-los às covas, eles [os cadáveres] estavam tão ressecados pelo calor que os braços caíram do tronco, de forma que eles [os homens] tiveram que fazer as covas ao lado dos cadáveres e empurrá-los.”
Em: Marco Polo: de Veneza a Xanadu, Laurence Bergreen, tradução Cristina Cavalcanti, Rio de Janeiro, Objetiva: 2009, pp 68-69.
Ilustração de Ingela P. Arrhenius.
Maria Alberta Menéres
Porque é que me chamo coelho
E não me chamo melão?
Porque é que me chamo lagartixa
E não me chamo cão?
Porque é que me chamo uva
E não me chamo chuva?
Porque é que me chamo Maria do Céu
E não me chamo chapéu?
Porque é que me chamo pedra
E não me chamo perna?
Porque é que me chamo cebola
E não me chamo papoila?
Porque é que me chamo casa
E não me chamo asa?
Porque é que me chamo Sol
E não me chamo Lua?
Porque é que me chamo Lua
E não me chamo caracol?
Cada coisa tem o seu nome
Para assim ser conhecida.
Em: Conversas com versos, Maria Alberta Menéres, Lisboa, Edições Asa:2005
Retrato de Virgínia Shaw, 1930
Bernard Boutet de Monvel (França, 1881-1949)
óleo sobre tela, 71 x 64 cm
Em leilão na Christie’s, Nova York, Venda 9016
“Em 1901, o Mercure de France, que vinha mantendo seções sobre literaturas estrangeiras, iniciou a publicação da rubrica Lettres brésiliennes, a cargo de Figueiredo Pimentel. Teríamos agora, pelo menos, a ilusão de que os franceses tomariam conhecimento da nossa existência. Uma carta de Remy de Gourmont ao escritor brasileiro, datada de 19 de novembro de 1900, informa-nos das circunstâncias em que se inaugurou a referida colaboração. Figueiredo Pimentel já se correspondia de há muito tempo com Remy de Gourmont, um dos diretores do Mercure; era, pois, natural que viesse solicitar a este um lugar para as nossas letras na importante revista francesa. Gourmont escreve “Se o Sr. Carvalho foi dispensado pelo Mercure, é que desde que aceitou a redação de ‘Lettres brésiliennes‘ não deu ainda um artigo, e isso há quase um ano. Espero, ao contrário, que o senhor enviará logo a sua primeira crônica.”O Carvalho a que alude Gourmont não seria outro senão o escritor português Xavier de Carvalho, correspondente da Gazeta de Notícias e d’O País na França. Assim graças à intervenção do autor de Culture des Idées, a rubrica foi confiada a Figueiredo Pimentel. Gourmont faz, porém, uma curiosa advertência ao confrade brasileiro na mesma carta:
“Escrevendo para a França, o senhor escreve para um povo mais ou menos cético e que não costuma entusiasmar-se senão raramente. Deverá pois cuidar de ser moderado nos elogios, mesmo com relação aos melhores escritores brasileiros. Para um francês dizer de alguém: é um escritor de talento — já constitui um grande elogio. Há certamente nas mesmas palavras empregadas pelas duas línguas uma grande diferença de sentido; há sobretudo grande diferença de temperamento entre os dois povos. O senhor não conhece a neve e a geada, enquanto a nós o inverno nos esfria todos os anos. “
Parece que Remy de Gourmont já havia sido notificado da facilidade com que se distribuem elogios em nosso meio literário. Procurara assim acautelar o escritor brasileiro contra a impressão que poderiam causar na França as notícias de uma literatura em que os talentos e os gênios proliferassem com facilidade assombrosa.”
Em: A vida literária no Brasil 1900, Brito Broca, Rio de Janeiro, José Olympio:2005, 5ª edição, pp: 331-332
Cena no terraço, 1935
Ernst Ludwig Kirchner (Alemanha, 1880-1938)
óleo sobre tela, 136 x 178 cm
Museu de Davos